Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2016

Renzi jogou bem

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Renzi fez a jogada da sua vida.Aquela que o legitima. E sim, porque ele tinha falta de legitimidade ao nunca ter sido eleito primeiro-ministro de Itália.

Para se entender a necessidade da reforma, que versava vários aspectos, não apenas o prémio de maioria, é preciso olhar para os 60 governos italianos em 70 anos de república. 70 anos de fragmentação multipolar partidária em que a governabilidade foi sempre uma miragem.

Com o Euro, a Itália enfrenta o maior desafio económico-estatal da sua história recente. O país da inflação e desvalorização crónica deve viver em equilíbrio orçamental e reduzir a sua dívida com imprescindível saldo orçamental suficiente. Ora, o sistema partidário impede qualquer reforma num país que todas as semanas anuncia novas reformas.

Renzi é apoiado pela juventude liberal pragmática do centro. A juventude que leu "Il liberismo è di sinistra" e que acredita que a Itália precisa de se modernizar liberalizando uma sociedade desde sempre dominada pelos mais velhos, pela esquerda oriunda do velho comunismo italiano, e pela hierarquia católica mais retrógrada.

Fazer eleições agora é mais difícil do que não as fazer. O mais provável é que a nomenclatura do velho PD se organize em torno de uma figura consensual e protele ao máximo o voto. Entretanto, o PIB a crescer 1%, com estabilidade política, estagnação e crescimento zero a 15 anos, 8 bancos à beira da resolução, crise na segurança social e na organização do Estado tremendamente burocrático, irão deteriorando cada vez mais a situação até ao ponto insustentável.

Então, quando as inevitáveis eleições tornarem evidente que o futuro irá pertencer ao Movimentos 5 Estrelas e à Liga Norte (nem os qualifico) o PD entrará em agonia e, ou Renzi é escolhido, como reserva única do PD para reformar, ou Renzi funda novo partido e será mais um para o pântano.

De duas coisas podem ter a certeza: a Itália 'boa' está com Renzi e a Itália má está contra Renzi.

Pena que a lição de maturidade para Renzi tenha sido tão cara. Poderia ter lançado o referendo sem o tornar numa guerra de vai ou racha. Mas, sem quebrar, também não seriam possíveis as reformas.

Fez bem e rachou. Quanto à Itália? Está aí para se ir partindo segura e inexoravelmente. 

 

publicado por João Pereira da Silva às 17:38
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Bom dia, Marcelo

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A não ser que o António Costa consiga encontrar outra aberração da categoria do Sampaio da Nóvoa para concorrer às eleições presidenciais, o sentido de emergência decorrente da percepção do risco de regresso às loucuras do PREC pela mão dos loucos do PREC, que levou todos os que tinham algum sentido de normalidade a, mesmo com o seu exotismo, votar no Dr. Rebelo de Sousa, não se vai repetir.

Deus lhe dê discernimento suficiente para conseguir compensar com votos dos que o acham um burro, e ele tem feito por deleitar, os que já alienou dos eleitores que votaram nele e o elegeram naquela circunstância provavelmente única e irrepetível, mas já o deitam pelos olhos.

 

 

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 00:02
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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016

Os professores

Coisa surpreendente entre nós são aquelas pessoas que circulam no espaço público opinativo e que, não obstante a tenaz repetição da vacuidade das suas ideias, e a periódica revisão dos seus pontos de vista para os adequar aos ares do tempo, disfrutam de um geral apreço.

 

O exemplo por antonomásia desta variedade de notabilidades é Marcelo: não deixa obra jurídica que valha, nunca ninguém lhe ouviu uma opinião que não fosse uma banalidade, um dito que ficasse pela sua originalidade ou justeza, uma análise que o futuro tivesse revelado clarividente, uma escolha política que fosse além das jogadas florentinas em que toda a vida se desdobrou... nada. E tendo chegado pacificamente a presidente da República, e dando todos os dias o espectáculo torpe de lisonjear a costela portuguesa choramingona, pedinchona e sentimental, dá a sua caução a uma provável débâcle do país, que depois não saberá explicar - Marcelo do futuro não sabe nada, e do passado pouco mais.

 

É caso único, no sentido de sempre ter tido uma vasta corte que lhe bebeu as charlas hebdomadárias, e hoje se deslumbra com a sua hiperactividade. Mas com plateias mais restritas há outros inexplicáveis exemplos de carreiras de sucesso: Adriano Moreira é tido por especialista de direito internacional, analista da política planetária e depositário de um saber feito de cultura, estudo, reflexão e experiência de vida.

 

Sucede porém que - caso estranho - nem escrever sabe. E debalde se procurará no emaranhado dos seus textos algum fio condutor que nos conforte numa ideia clara sobre qual é exactamente o problema de que está a falar, e qual a solução que defende. A gente percebe que há ali um problema e que são necessárias reformas. Mas qual o problema e quais as reformas, isso, Adriano nunca se dá à vulgaridade de explicar claramente.

 

Exagero? Consideremos a frase inicial deste artigo: "O desaparecimento de Fidel Castro produziu os juízos sobre a intervenção na vida do seu país e sobre as consequências que respeitam às relações internacionais que são baseadas na inegável importância dos efeitos e marcas deixados na época em que assumiu o poder, e o exerceu longamente, em Cuba".

 

O que é que esta merda quer dizer, Nossa Senhora? Que Fidel morreu e que a sua vida teve importância, é isso? Ah bom, e daí? Daí, continua Adriano: "Quando era esperado que na chamada Pequena Cuba, a comunidade de cubanos que habitam, trabalham e encontraram futuro pessoal em Miami, se manifestassem, até com maior excitação do que mostraram quando abandonou o poder, o que os noticiários acentuaram é a moderação dos ajuntamentos de exilados, e dos seus descendentes já americanos, e que estes foram já conhecendo maiores liberdades de ir e voltar à ilha pátria".

 

Temos portanto que em Miami não se fez tanto barulho como se poderia esperar, e que os noticiários não assinalaram o barulho que não houve, além da novidade de os descendentes dos foragidos de Cuba serem americanos. Imagina-se que este facto extraordinário nos deva ser caro ao coração, visto que a mesma coisa sucedeu aos descendentes dos nossos compatriotas que para lá emigraram, e já agora a todos os outros descendentes de todos os outros emigrantes de todos os outros países.

 

E vão dois parágrafos sem dizer absolutamente nada, o que possivelmente aguçaria o apetite para os restantes.

 

Não saímos defraudados, porque na continuação temos direito ao prato de resistência. Reza assim: "A serenidade, com firmeza, é recomendável nas circunstâncias desafiantes de mudança, e a morte de Fidel é sem dúvida, do ponto de vista das emoções, mais desafiante, porque não é sobretudo o passado que se extingue, é o desafio de construir um futuro ocidental que será exigente, requerendo criatividade, ativa política de reconciliação entre as fações, um trabalho que vai exigir generosidade, aos que sentiram a recusa de cidadania e humanidade, e sobretudo aos que assumiram a necessidade de salvaguardar outros valores, que pareceu lembrada na histórica visita de João Paulo II, em que vimos, nos documentários, um Fidel Castro que parecia lembrado da circunstância galega de origem, e da reverência em relação ao pontífice".

 

A serenidade com firmeza é de facto recomendável para navegar, não nas "circunstâncias desafiantes da mudança" mas neste amontoado de lugares-comuns pedantes: O "desafio de construir um futuro ocidental"? Mas qual desafio qual quê? Ou Cuba se torna numa democracia ou não. Se sim, não será decerto por evolução do regime; se não, talvez possa imitar o capitalismo chinês ou vietnamita, numa versão adaptada. Ou poderá tentar ficar na mesma, até que alguma coisa suceda que faça cair o regime - as ditaduras não são eternas. Haverá decerto quem sobre isto tenha algumas ideias e as defenda com argumentos. Mas não haverá quem se lembre de ver na visita do Papa, e na reacção do velho farsante Fidel, outra coisa mais do que uma habilidade de um regime decrépito para concitar apoios. E a "circunstância galega" de Fidel é de rir: eu também tenho uma devoção especial pelo deus Larouco, decerto pelas minhas origens célticas.

 

Depois, vêm as citações de autores obscuros para fundamentar um bosquejo histórico onde os americanos são, como era de prever, os maus da fita. E, a fechar, numa arrojada invocação do abade Correia da Serra: "O próprio abade Correia da Serra, tão esperançoso da evolução futura do continente, teria dificuldade em enfrentar o processo em curso, e encaminhá-lo, como é exigido pela justiça e pela paz, para o regresso geral ao aceitamento dos princípios da ONU, em pousio, dos princípios da Declaração Universal de Deveres, nunca aprovada, e para a contenção do complexo militar-industrial, que angustiou o diálogo de Eisenhower com o presidente Juscelino, este que teria hoje outras patrióticas preocupações".

 

Quanto ao aceitamento dos princípios da ONU (não sabemos se por parte das autoridades americanas se das cubanas, Adriano deixa-nos nessa dúvida excruciante), esse organismo fatal pelo qual imagina passarem todas as soluções, estou em condições de sossegá-lo: agora que Guterres vai estar ao leme, aquelas nações que tripudiarem em cima dos princípios encontrarão adversário à altura; e quanto ao complexo militar-industrial também podemos ter alguma esperança - afinal o complexo em questão nunca colocou obstáculos a que ditaduras comunistas evoluíssem para outros regimes.

 

Desejo sinceramente que Adriano Moreira continue por muito tempo a brindar-nos com as suas análises. E tenho nisso um interesse egoísta porque, na ordem natural das coisas, é de prever que abandone o número dos vivos antes de mim. E tremo só de pensar no que dirão, ao longo de uma semana, os que lhe fingem entender os artigos e subscrever as ideias. Marcelo, ao menos, percebe-se o que diz, além de ter a enorme superioridade de para liquidar os seus inimigos, e promover a sua imagenzinha, não invocar a ONU.

publicado por José Meireles Graça às 01:47
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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2016

Em defesa da língua portuguesa, pela destruição das escutas do António Costa

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Eu, por acaso, concordo com a decisão do Supremo Tribunal de Justiça de ordenar a destruição imediata das escutas em que foi apanhado o primeiro-ministro António Costa. Por duas ordens de razões.

A primeira, e a mais importante de todas, é a defesa da língua portuguesa, que seria seriamente ameaçada se a programação da CMTV, o canal de televisão por cabo com maior audiência em Portugal e o que se entrega com mais determinação à divulgação de escândalos judiciais, começasse a emitir de cinco em cinco minutos a gravação das escutas do António Costa com o seu português macarrónico em que come quase metade das sílabas. Juntando à passagem repetitiva das gravações ao longo de vários dias o risco de fenómenos de mimetismo que ocorrem quando a juventude imita criminosos mediáticos, poderiamos acabar por ter toda uma geração a falar Português como o António Costa, causando danos irreversíveis, ou que consumiriam várias gerações a reverter, à língua pátria.

A segunda é ainda mais importante, e é a defesa do próprio regime democrático português. É que, a avaliar pelo exemplo que se conhece de participação passada do António Costa em escutas judiciais a organizar uma conspiração entre ele, que é actualmente primeiro-ministro, o actual presidente do parlamento, o então presidente da república e o então procurador-geral da república, para evitar que um processo envolvendo um amigo e camarada de partido chegasse a entrar no tribunal, é quase inimaginável que ele consiga ter conversas privadas que não sejam dedicadas a elaborar esquemas, negociatas e conspirações, tanto mais potenciadas quanto maior é o seu poder actual de primeiro-ministro comparativamente com o de mero dirigente de um partido da oposição nessa época. Pelo que a divulgação de qualquer escuta em que ele intervenha corre o risco de provocar no país reacções de repúdio pelos políticos eleitos e de predisposição para entregar o poder a populistas demagogos, como ele próprio é, aliás, que conduzam à extinção da democracia.

Comparativamente com estes riscos letais para a língua e para o regime democrático portugueses, o risco que se corre com a destruição das escutas que envolvam o António Costa, o de poder prejudicar a administração da justiça por destruir matéria probatória relativa a outros crimes que não os que estavam a ser investigados, porque se fosse relativa aos que estavam a ser investigados o andamento do processo seria outro que não a mera destruição das escutas, é de segunda ordem e a decisão de destruição imediata foi uma medida sensata.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 02:34
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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2016

Mas eu estou de pé, senhor coronel!

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Eu vou contar uma história.

Depois de ter feito a primeira classe na Escola Primária nº 18 na Rua das Janelas Verdes, acabei a instrução primária e fiz os dois primeiros anos do liceu no Externato Oliveira Martins na Amadora, colégio particular dirigido com mão militar pelo coronel José Lemos, militar reformado que organizava as actividades do colégio como se se tratasse de um quartel, onde o respeito pelos professores e pelos funcionários era cultivado e os alunos faziam formaturas para entrar nas aulas, para descer para o recreio, para ir para a cantina ou para sair.

O coronel Lemos era também o professor de Matemática e, quando entrava na sala de aula, os alunos levantavam-se todos, como faziam, aliás, sempre que qualquer professor entrava na sala de aula. Era assim nesse tempo.

Um dia o coronel Lemos entrou, percorreu a sala com o olhar, e dirigiu-se ao Pereirinha, aluno de aproveitamento e comportamento irrepreensíveis, nessa altura dava-se importância a isso, que ocupava um lugar numa das carteiras da primeira fila:

- O senhor não se levanta?

E o Pereirinha respondeu-lhe conciliando como podia o respeito a que nunca faltava com a defesa da sua dignidade perante a injustiça de que estava a ser vítima por parte da autoridade máxima do colégio:

- Mas eu estou de pé, senhor coronel!

O Pereirinha estava de facto de pé. Mas o facto, esquecido pelo coronel Lemos, de ele ser o aluno mais baixo da turma do primeiro ano do liceu no colégio, fez dele vítima daquela injustiça involuntária do coronel Lemos, de confundir o seu gesto de irrepreensível respeito por ele e pelo comportamento que se poderia esperar de um aluno disciplinado com uma insubordinação.

Já os deputados do grupo parlamentar do Bloco de Esquerda, mesmo que tenham dois metros de altura, nunca conseguem deixar de ser rasteirinhos. Problemas de coluna, pode-se pensar, mas na verdade meros catraios mal educados.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:07
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Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

Vamos falar de dinheiro? Uma medida da contribuição de cada governo para a factura de juros dos contribuintes

Os yields da dívida no mercado secundário não são os juros exigidos pelos credores a quem deve, os juros devidos pelos devedores são os que são contratados para cada título quando é emitido, em conjunto com os prazos para os pagamentos de juros e o reembolso do capital.

Quando alguém disse "Os juros exigidos à Grécia já vão em 94,59% (!) nas obrigações a um ano. É mais que usura, é terrorismo financeiro", mesmo que tenha sido um grande poeta do Porto, limitou-se a dizer uma asneira resultante de uma conjunção de activismo político, tremendismo discursivo e ignorância financeira. Que os yields da dívida grega tenham atingido valores próximos dos 100% significa, não que alguém exigiu juros de 100% à Grécia para lhe emprestar dinheiro, mas que houve credores de dívida grega que, com medo que os seus títulos de dívida não viessem a ser reembolsados, se desfizeram deles a metade do preço para outros investidores que, se eles viessem a ser reembolsados, obteriam um lucro de 100% neste investimento. E mesmo estes também acabaram por perder dinheiro nos sucessivos haircuts, eufemismo de calotes, a que a dívida grega foi sujeita. Mas eu não estou aqui para chorar a sorte de investidores com gosto pelo alto risco e altas perspectivas de retorno que perderam o que investiram, adiante.

O yield é, pois, a rendibilidade que um comprador de um título de dívida na bolsa, ou mercado secundário, espera obter do seu investimento, dados os pagamentos de juros e capital que esse título lhe deve expectavelmente proporcionar, e o preço a que o compra.

A ligação entre os yields e as taxas de juro decorre de os yields informarem o mercado do nível de rendibilidade que os investidores estão a exigir para comprar esses títulos de dívida no mercado secundário, e quando se fazem emissões de um novo título semelhante no mercado primário os seus tomadores tenderem a exigir taxas de juro de nível semelhante ao yield no momento da emissão.

E, fechada esta introdução demasiado maçuda e hermética para os leigos, demasiado ligeira e imprecisa para os conhecedores, e na medida certa para os que a saltaram directamente para o parágrafo seguinte, passo ao assunto do dia.

Que contributo dá cada governo para a factura de juros da dívida pública que os contribuintes, que são eles e não os governos a pagá-los, pagam?

A contabilização dos juros pagos ao longo do tempo de exercício de funções de um governo não é uma medida deste contributo, porque um governo paga, a não ser que dure muitas décadas, como os dos irmãos Castro, ou, em menor medida, os do Salazar, esmagadoramente juros de emissões de dívida contraídas dos governos que o precederam. Paga essencialmente juros de dívida emitida a 5, 10, 30 anos, por governos anteriores, e também começa a pagar ao fim de algum tempo os de dívida emitida por ele próprio, que quando cessar funções lega aos governos seguintes. A despesa de juros de um governo não serve para aferir o contributo desse governo para a despesa de juros.

Os yields só influenciam, nem sequer determinam, a taxa de juro de uma nova emissão de dívida. Se hoje houver uma emissão de títulos a 10 anos e o yield dos títulos a 10 anos estiver a x% há uma alta probabilidade de a taxa de juro da emissão ficar muito próxima dos x%. Mas se o yield se mantivesse estável daqui para a frente, se as expectativas dos investidores e a avaliação que fazem da confiabilidade do governo emitente se mantivessem estáveis, as emissões futuras também teriam que pagar juros semelhantes e, eventualmente, toda a dívida hoje existente a diferentes taxas de juro acabaria por ser reembolsada e substituída por nova dívida toda emitida à mesma taxa de x%.

Em determinado momento, a despesa de juros potencial depende do montante em dívida e do yield, que tendencialmente pode vir a ser a taxa de juro futura para toda a dívida.

E ultrapassada mais esta parte demasiado maçuda e hermética para os leigos, demasiado ligeira e imprecisa para os conhecedores, e na medida certa para os que a saltaram directamente para o parágrafo seguinte, passo mesmo ao assunto do dia.

O governo socialista do José Sócrates legou ao governo seguinte no dia 21 de Junho de 2011 uma dívida de 172.393 milhões de euros e um yield de 11,3% para os títulos de dívida pública portuguesa a prazo de 10 anos. A prazo, se este yield perdurasse, toda a dívida pública seria renovada por dívida emitida à taxa de juro de 11,3%, e a factura de juros anual ascenderia a 19.600 milhões de euros, cerca de 11,1% do PIB.

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O governo de coligação PSD/CDS do Pedro Passos Coelho legou ao governo seguinte no dia 26 de Novembro de 2015 uma dívida de 231.598 milhões de euros e um yield de 2,33% para os títulos de dívida pública portuguesa a prazo de 10 anos. A prazo, se este yield perdurasse, toda a dívida pública seria renovada por dívida emitida à taxa de juro de 2,33%, e a factura de juros anual ascenderia a 5.400 milhões de euros, cerca de 3% do PIB. Em pouco mais de quatro anos, este governo reduziu a factura de juros potencial em 14.200 milhões de euros, cerca de 7,9% do PIB.

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E o governo actual do António Costa? No final de Setembro de 2016 a dívida pública ascendia a 244.420 milhões de euros, e o yield para os títulos de dívida pública portuguesa a prazo de 10 anos a 3,33% (entretanto já aumentou). A factura anual potencial de juros passou para 8.100 milhões de euros, representando cerca de 4,45% do PIB. Em dez meses, a factura anual potencial de juros aumentou 2.700 milhões de euros, ou 1,5% do PIB.

Boas notícias para os credores. Más para os contribuintes. E péssimas para os apoiantes do governo que vivem numa berraria pegada contra o peso da dívida mas apoiam justamente o governo que o faz engordar. O que não é líquido que consigam perceber.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:24
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Domingo, 27 de Novembro de 2016

E se as eleições fossem daqui a um ano?

E se as eleições fossem hoje?

Como muito bem sublinhou BZ n' O Insurgente, se as eleições fossem hoje algo teria que ter corrido suficientemente mal na coligação de esquerda que sustenta o governo para o parlamento ter sido dissolvido por um presidente que se desfaz em manifestações de afecto pelo governo e ferroadas à oposição.

E algo pelo qual dificilmente a oposição pudesse ser responsabilizada já que, ao contrário do que exigiu o António Costa, e não só, a partir do momento em que atirou com o António José Seguro pela borda fora do partido, e apesar de o Pedro Passos Coelho continuar a usar na lapela um pin com a bandeira de Portugal, o que é por muitos interpretado como tendo a ilusão que ainda é primeiro-ministro, não tem feito qualquer apelo ao presidente para dissolver o parlamento antes do final da legislatura e antecipar eleições, nem qualquer apelo dessa natureza pareceria ter alguma probabilidade de acolhimento pelo presidente. Nem a lendária habilidade da propaganda populista desresponsabilizante dos socialistas, que chega ao ponto de justificar o falhanço do modelo económico do crescimento baseado na devolução dos rendimentos, explicando que o modelo não falhou mas os rendimentos devolvidos foram desviados para pagar as dívidas a que as famílias tiveram que recorrer para se aguentaram ao longo da crise da legislatura anterior, conseguiria apontar responsabilidades convincentes ao governo anterior e à oposição actual para um falhanço que desencadeasse uma crise política, embora certamente ensaiasse explicações pouco convincentes, como faz sempre.

Nesse contexto, se as eleições fossem hoje é natural que o PS levasse uma sova eleitoral, e não o resultado prometedor de 43%, quase a rondar a maioria absoluta, que a sondagem da insuspeita Universidade Católica divulgada esta semana lhe atribui, e que os inquiridos não tenham respondido de modo literal à pergunta "Se neste momento se realizassem eleições legislativas em que partido votaria?", mas antes manifestado a sua intenção de voto futura quando elas se realizarem, expectavelmente daqui a três anos.

E se as eleições fossem hoje daqui a um ano?

Neste caso, em que as eleições seriam suficientemente afastadas para as respostas não estarem contaminadas por um cenário de crise política iminente, mas suficientemente próximas para os inquiridos serem capazes de formular uma previsão realista da sua intenção de voto futura, já parece ser mais adequado inferir previsões a partir dos resultados das sondagens.

E de facto há um histórico significativo de sondagens da Universidade Católica realizadas um ano antes de eleições.

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Um ano antes das eleições de 2011, a sondagem da Universidade Católica previa um resultado de 41% para o PS. O PS acabou por obter um resultado de 28%, apenas menos 13% que a previsão da sondagem.

Um ano antes das de 2015, previa um resultado de 45%. O PS acabou por obter um resultado de 32%, outra vez não mais do que 13% abaixo da previsão da sondagem.

Agora a sondagem prevê-lhe um resultado de 43%. O PS está, pois, à beira da maioria absoluta.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 20:39
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Sábado, 26 de Novembro de 2016

O boneco e o bonecreiro

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Ontem o Circo Costa passou pela cidade e presenteou-a com mais uma magnífica matiné, ao nível a que nos tem habituado, no hemiciclo da Assembleia da República, onde estreou o novo número de ventriloquia apresentado pelo já consagrado membro da companhia Pedro Nuno Santos como ventríloquo, e pelo estreante Ricardo Mourinho Felix como boneco, que desempenharam os papéis de Rafeiro e Cachorrinho na peça "Rosna-lhes às canelas, Bobi".

A técnica de ventriloquia funcionou na perfeição, e os diálogos foram de chorar a rir. Transcrevo alguns excertos:

  • Morde, Bobi, morde!
  • O senhor deputado revela um profundo desconhecimento do RGIC ou uma disfuncionalidade cognitiva temporária!
  • Continua, continua, não pares.
  • Foi demais?
  • E não pares... [Pedro Nuno Santos fala ao telefone] ... Diz que não querias ofender.
  • Não foi minha intenção ofender ninguém, se ofendi peço desculpa por isso.
  • Béu, béu.
  • Grrrrrrrr!

O artista Pedro Nuno Santos, que se tinha notabilizado pelo modo exímio como desempenhou o papel de idiota que faz caretas e manguitos aos banqueiros alemães para lhes provocar tremores nas pernas no número de palhaços "Marimbando para os Credores, nós temos a Bomba Atómica", classificado pelos críticos como "palavras fortes, eventualmente com uma imagética própria e excessiva", o que, para os que não dominam a linguagem hermética da crítica circense, é uma crítica positiva, num jantar de Natal socialista em Castelo Branco, revelou igual mestria como ventríloquo na condução do fantoche Ricardo Mourinho Felix no parlamento.

Quanto a este, esteve à altura do papel de fantoche, não havendo nada a criticar-lhe na actuação, excepto algumas hesitações que foram prontamente corrigidas pelo ventríloquo.

E o António Costa, o gorducho director do circo que engole sílabas, facturou mais uma subida nas sondagens. Por enquanto, estamos entregues aos palhaços.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 16:12
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Alternative media for Trump

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Como suponho que os media tradicionais nunca darão esta informação, aqui fica uma lista de alguns dos principais responsáveis pela campanha bem sucedida de Trump. Será interessante acompanhá-los ao longo da presidência para ver quantos passam de hagiógrafos a fiscais.

Breitbart:

Fundado pelo judeu adoptado Andrew Breitbart, falecido em 2012, dirigido actualmente por Steve Bannon um católico de origem irlandesa. Foi o centro de muito spin pró-Trump e tem escritórios em Los Angeles, Texas, Londres e Jerusalém.

Lew Rockwell:

Lew Rockwell é um católico romano, libertário, amigo de Murray Rothbard, presidente do instituto Ludwig Von Mises no Alabama. No site escrevem vários outros autores e ao longo da campanha fundamentou o motivo utilitário para os libertários na eleição de Trump.

Zero Hedge:

Fundado em 2009 por um búlgaro, é um blogue de economia e Finanças com autores que escrevem sob o pseudónimo de Tyler Durden do Fight Club. É estruturado editorialmente e além de muitas notícias pré-Apocalipse dá bons insides sobre banca central, trading e evolução da economia mundial.

InfoWars

Fundado por Alex Jones, conspirativo e apoiante de Ron Paul. Dos sites até agora listados será o mais controverso e com menos qualidade jornalística compensada por grande activismo e por um apresentador muito virulento.

Milo Yiannopoulos:

Gay, furiosamente anti-politicamente-correcto e ideologia do género, caustico com o feminismo. Onde vai cria confusão e dissensão. Andava já há tempos de guarda-costas. Pertencerá à administração de Trump. Será uma delícia ver as suas intervenções na mainstream media.

Ann Coulter:

Feroz conservadora, fala com todas as letras e é aceite na mainstream media onde intervém frequentemente. Foi famoso o episódio das gargalhadas quando há mais de um ano disse na TV que Trump seria POTUS.

Jeanine Pirro

Descendente de libaneses, juíza, procuradora, directa e ácida, incorrecta politicamente, dá grandes sermões na Fox e na NBC.

John Paul Watson:

Youtuber, Twitter, Contrarian Conservative, especialista em vídeos de choque político é um lone ranger mas também dá o ar de sua graça no InfoWars.

Scott Adams (blog.dilbert.com)

Fundador do Dilbert, apoiante, desapoiante e de novo apoiante de Trump, previu a vitória com muita antecedência e fez campanha muito activa. Scott Adams vale muito a pena ir acompanhando.

Mike Cernovich:

Advogado, escritor, activo, engajante com opositores nas redes sociais. Faz vídeos longos ao vivo no Periscope como Scott Adams.

Stefan Molyneux

Irlandês, anarco-capitalista, filosofante, youtuber, tem vídeos longos e é interessante ouví-lo.

That Guy:

Youtube e Twitter, afro-americano, libertário jovem, millennial activo politicamente.

Tom Woods:

Libertário, trabalha muito com Lew Rockwell, é uma das vozes mais estruturadas do libertarianismo e do paleo-conservadorismo.

James Woods:

Actor de cinema. conservador, suspendeu a conta no Twitter após a campanha como protesto contra a decisão de Jack Dorsey, o esquerdista CEO do Twitter, de suspender contas críticas de Hillary.

Laura Southern:

Menina bonita, canadiana, libertária, anda pelo mundo a fazer vídeos críticos do establishment e do feminismo.

Blair White ():

Transexual capaz de enganar muitos homens, feroz anti-feminista, caustica e incorrecta politicamente.

Justin Raimondo 

Paleo-libertário, conservador (também temos em Portugal) gere o site Antiwar 

E last but not least, o dinossauro histórico, Pat Buchanan, com o blog http://buchanan.org/blog e activo no mainstream media, um republicano contra o establishment.

Claro que houve mais e a lista não é exaustiva. A campanha de Trump foi muito apoiada nas redes sociais e foram milhões de indivíduos a fazer a diferença excepcional. Pela primeira vez a Internet elegeu o seu candidato. Se vão ou não dar com os burros na água? Veremos.

publicado por João Pereira da Silva às 13:33
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Sondagens para que vos quero

 

 

 

Poucos dias antes de se continuar a tentar desapear Pedro Passos Coelho a sondagem da Católica dá esta previsão:

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 Poucos dias antes da eleição nos EUA as sondagens davam esta previsão:

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Poucos dias antes do referendo Brexit as sondagens davam esta previsão:

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 Agora, querem continuar a fazer apostas?

 

 

publicado por João Pereira da Silva às 18:20
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