Domingo, 20 de Agosto de 2017

Silly season o ano todo

É da natureza dos romances serem transgénero, informa a autora da entrevista, uma revelação surpreendente com que o leitor desprevenido é brindado. E o romance em questão, somos ameaçados, é além disso transatlântico, transformador e transgressor.

 

Para um só romance é muito, mas reconforta-nos a informação de que tem 550 páginas, o que deve realmente sossegar quem tivesse dúvidas sobre se haveria espaço bastante para conteúdos tão atravancadores.

 

A entrevista processou-se através de uma corda de palavras a atravessar o oceano, diz Fernanda Câncio, a parceira do lado de cá, modalidade ao mesmo tempo original e pouco prática, mas conduzida a bom porto pela sua mão segura, e presumivelmente ornada com membranas interdigitais.

 

A corda em apreço é naturalmente submarina, donde a profundidade das perguntas e respostas, o que faz com que se tenha de envergar previamente um escafandro para as entender.

 

Vejamos:

 

"És ateia, mas este livro pode ser considerado religioso. Não tanto por beber em noções bíblicas como a do mundo feito em sete dias e do apocalipse, mas pela forma como estabelece uma ligação entre tudo e todos, uma ideia de retribuição e redenção, de um certo fatalismo, e sobretudo pelo misticismo. Assumes isso?"

 

A marota da entrevistada, Alexandre Lucas Coelho, não diz que sim nem que não, antes se refugia na convicção de que as leituras de facto variam entre "quem vê nele um romance queer e essa ideia de que será religioso". Já ela, que o escreveu, não sabe bem, mas mesmo assim "continua avessa a aparelhos religiosos, espantada com o milagre diário que é ficar vivo".

 

Pessoalmente tenho também alguma aversão a aparelhos religiosos, em particular o hissope dependurado num cabo, que imagino me pode estropiar a cabeça, e até mesmo o báculo, que brandido por um clérigo colérico pode causar grandes estragos; mas não vejo qualquer milagre em Alexandra acordar viva todos os dias - seria mais o caso de falar numa maldição, tendo em vista o seu hábito deplorável de perpetrar livros.

 

"Contém também a ideia de deambulação, da errância. 'Bolar um romance é ir achando constelações, unir pontos num novo desenho', dizes a dada altura. Tão depressa estamos em casa dos irmãos Judite e Zaca no Cosme Velho como na Torre do Tombo a ler relatos com 500 anos, como a saber de astronomia ou do rinoceronte que se afogou no naufrágio de uma das caravelas".

 

Fernanda Câncio baseia-se nas palavras da autora para alegar que esta  é astrónoma, mas Alexandra rejeita com veemência a insinuação: "Falo em montagem porque desde o início pensei num mecanismo cinematográfico, alternando panorâmica - nos dias ímpares, em que se vagueia pela cidade - e zoom - nos dias pares, com planos fixos em cada personagem".

 

Não foi, mas devia ter sido, aprofundado, se os dias são os da semana ou os do ano. Porque se forem os da semana conviria esclarecer quais são os ímpares, em particular qual a natureza aritmética do sábado e do domingo; e se forem os do ano se apenas anos bissextos ou os ordinários, caso em que, tal como para os da semana, haverá um desequilíbrio a favor dos dias ímpares, o que será decerto uma escolha prenhe de significados.

 

"É como se tivesses querido escrever algo voluntariamente difícil. Não tens medo de que os leitores se percam?"

 

A julgar por esta entrevista/recensão o medo razoável deveria ser o de que não se encontrem leitores. Mas Alexandra parece ser uma mulher destemida e como, nas palavras dela, "o autor escreve o que sente que tem de escrever, trabalha para que o livro se torne no que precisa, e não pode perder-se no medo da recepção", ficamos sossegados.

 

"Contaste este mês, numa apresentação do teu livro na Bahia, que depois de leres esse relato foste aos Jerónimos olhar os túmulos de Gama e Camões. Achas que Camões quis voluntariamente ignorar esse episódio horrível?"

 

Alexandra não sabe. Não sabe, a pobre querida. Talvez Camões tivesse querido deitar água benta por cima de episódios violentos ou bárbaros ou cruéis dos Descobrimentos, da escravatura, da relação com pretos, ameríndios e asiáticos, mas se calhar teve receio, ele e todos os homens bons daquela época, da reacção dos homens maus, que detinham as alavancas do Poder.

 

Que Camões e Vasco da Gama fossem homens do seu tempo, e que portanto concepções nascidas séculos mais tarde sobre direitos humanos, dignidade e igualdade básica de direitos entre cidadãos e pessoas de raças e de geografias diferentes lhes fossem inteiramente alheias, não lhe ocorre.

 

Não lhe ocorre isso nem que a mistificação do "colonialismo doce" está mais do que denunciada, e de há muito, por inúmeros historiadores, o que, para uma historiografia séria, não exclui que tenham existido diferenças entre os vários colonialismos, e que essas diferenças tenham tido consequências que se manifestam ainda hoje. Mas fazer juízos de valor, como se a contemporaneidade fosse um tribunal, sobre o comportamento de figuras históricas do passado, com ignorância e descaso das circunstâncias de tempo e lugar, cultura dominante, influências, jogos de poder, percursos, resultados e consequências, com o dedinho em riste do politicamente correcto a servir de bússola, é um exercício de estupidez e ignorância.

 

O mundo não nasceu em 1789 nem em Maio de 68; e para Portugal decerto 1820 foi um ano importante, e o 5 de Outubro, o 28 de Maio e o 25 de Abril espirros com consequências. Mas para perceber tudo isto requer-se estudo das fontes, método, espírito inquisitivo, cepticismo e lucidez - moralismo não.

 

César, que mandou amputar uma mão a milhares de guerreiros de tribos celtas vencidas, ou Truman, que despejou duas bombas atómicas sobre o Japão, têm direito a ser compreendidos nos seus próprios termos, e à avaliação objectiva das alternativas possíveis, e não a julgamentos sumários de gente com poucas luzes.

 

Os japoneses honraram os seus mortos com monumentos comoventes; e os franceses só não o terão feito porque foi há muito tempo e a sua identidade é mais tributária de uma tribo germânica bárbara, e da romanização, do que do fundo celta que partilham com boa parte da Europa.

 

Aos americanos e aos italianos de Roma é que não deve ocorrer o frenesim de monumentos a pedir desculpa. Pobres coitados, que Alexandra mostra o caminho:

 

"Defendes a necessidade de, a par do Padrão dos Descobrimentos, dos Jerónimos, de tanto monumento a celebrar o épico da gesta, criar um memorial daquele outro lado, o do horror. Que forma imaginas para isso?"

 

Alexandra quer um "tributo a ameríndios e africanos nas imediações da Torre de Belém, do Mosteiro dos Jerónimos e desse Padrão com que o salazarismo glorificou uma versão infantil do império". E deseja ardentemente "poder levar os [meus] sobrinhos a ver a cabeça do rinoceronte na Torre de Belém".

 

Os sobrinhos em questão, se tiverem juízo, apreciarão talvez mais os afamados pastéis daquelas redondezas, que Alexandra pague do seu bolso; e eu ficaria grato que não se escavacasse o meu dinheiro de contribuinte a erigir monumentos às manias infantis de reescrever a história por outra forma que não seja em livros que posso comprar ou não.

 

E se fossem apenas monumentos, ainda vá. O Padrão dos Descobrimentos é muito feio, plantar-lhe ao lado outras pessegadas pode até ser aceitável se forem pequenas, para não se verem ao longe e para que Alexandra, e as outras alexandras todas, sosseguem. Mas a afogueada moça quer mais, muito mais: "Tudo isto para dizer que não só falta uma descolonização do pensamento em Portugal como é urgente fazê-la com reflexos práticos na vida de milhões agora, também. Portugal não é branco, nem em primeiro lugar dos brancos. Como a língua portuguesa, aliás, não é de Portugal, mas de todos os que a falam, e são 300 milhões".

 

Não vejo nada disto com bons olhos, e declaro solenemente que recuso que Alexandra Lucas Coelho e Fernanda Câncio me descolonizem o pensamento. Poderia talvez aceitar outras formas de interacção, mas descolonizarem-me não, e creio que somos milhões com esta firme determinação. E vou já adiantando que só aceito que Portugal deixe de ser branco se Angola, Moçambique e as outras antigas colónias deixarem de ser pretas, perspectiva que ignoro se cabe dentro deste arrojado plano.

 

Quanto à língua portuguesa, cada um dos países que a fala trata-a como entende, e está no seu direito. Alexandra Lucas Coelho e Fernanda Câncio também estão, mesmo que só a usem, praticamente, para dizer asneiras.

publicado por José Meireles Graça às 22:59
link do post | comentar
Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

A madrassa de Coimbra

2017-08-18 Workshop_Bea.jpg

A madrassa com mais sucesso em Portugal é o Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra dirigido pelo conhecido académico das ciências sociais Boaventura Sousa Santos.

Uma das funções que a notabilizam é oferecer lugares de retaguarda como investigadores a políticos, sindicalistas, académicos e activistas do marxismo, dotando-os dos meios de subsistência, financiados pelos contribuintes, necessários para prosseguirem condignamente a revolução socialista quando secam os meios de subsistência, igualmente financiados pelos contribuintes, decorrentes dos lugares que ocasionalmente ocupam no sistema que combatem. E o CES tem os seus ilustres investigadores espalhados por instituições como o Parlamento, o Parlamento Europeu ou mesmo o Governo da República.

Mas uma madrassa não se limita a tornar mais confortável a vida material dos líderes para se poderem dedicar melhor à causa espiritual, tem um papel importante na radicalização de fiéis. O CES acolhe, e até oferece doutoramentos, a candidatos à radicalização, criaturinhas fracas de espírito e de carácter que acreditam na superioridade do seu credo, de estar no lado certo da história, que, para mostrar a sua fé inabalável na ditadura do proletariado, papagueiam para defender uma ditadura como a venezuelana as palavras de ordem do velho testamento marxista como "oposição de direita e extrema-direita", "suposto regime ditatorial", "carácter fascista e golpista da oposição", "episódios de violência instigados e executados por forças paramilitares organizadas pela direita", "oposição de oligarcas golpistas", e, claro, "imperialismo dos Estado Unidos da América", para além de uma algarviada que me abstenho de seguir, à uma, por falta de espaço, às duas, por falta de tempo, e às três, porque não tem ponta por onde se lhe pegue e não vale a pena continuar a gastar tinta, mesmo virtual, com ela. Com o toque modernaço de designar a imprensa que não está alinhada com eles como mainstream, modernidade que partilham, aliás, com a alt-right. Uma boa redacção no esquerda.net que junte todos estes ingredientes e que apoie solidamente outra recente do imã garante um lugar na academia ao candidato.

Qual é o segredo da sobrevivência destas madrassas? A Constituição da República Portuguesa que, por um erro estúpido decorrente do medo em que se vivia na época em que foi redigida, proibiu no nº 4 do Artigo 46º, não as organizações que perfilhem a ideologia totalitária, mas apenas as organizações que perfilhem a ideologia fascista, abrindo as portas da permissividade a todos os fascismos que têm outras designações e que esta e outras madrassas como ela defendem, nomeadamente o socialismo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 22:34
link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

Nuvens negras

Ontem o INE anunciou um crescimento, para o segundo trimestre, de 2,8%, e portanto temos direito às declarações, repetidas até à exaustão, do ministro Centeno, que abunda em gabarolices, do mesmo modo que o faria se estivéssemos a falar de 1,ou 2 ou 3 ou 5%. O homem, como acontece muito aos técnicos paraquedizados no mundo político, absorveu rapidamente os piores tiques da classe, no caso agravados pelo carácter contranatura do governo de que faz parte e pelo perfil essencialmente troca-tintas do chefe.

 

O que este ministro diz, com o característico sorriso alvar que só lhe perdoaríamos se não suspeitássemos que traduz a irremediável mediocridade que o aflige, não tem na realidade qualquer importância: sabemos que o governo aproveita os benefícios do ciclo económico, o boom impressionante do turismo e a tolerância das instâncias europeias, gratas porque Costa faz os malabarismos necessários para fingir que vai seriamente a caminho de respeitar o Tratado Orçamental; e que o Estado anafado disfarça, com as cintas do crescimento, as novas gordurinhas que vai acrescentando.

 

Não houve ocasião de a comunicação social ouvir o chefe, que aparentemente continua de férias, mas podemos estar certos de que o país que acaba de fazer a maior reforma da floresta desde D. Dinis, na opinião do ministro Capoulas, estará sem margem para dúvidas a caminho do maior crescimento desde D. João II logo que Costa tenha ocasião de se pronunciar.

 

Claro que a reforma da floresta durará até à próxima época de incêndios sem precedentes, ou o próximo ministro, conforme o que ocorrer primeiro; e o crescimento até à próxima crise, que o país defrontará mais endividado do que em qualquer das anteriores porque ainda não se inventou maneira de aldrabar a dívida pública, nem a externa, como se tem aldrabado tudo o mais.

 

Que as contas estão aldrabadas não é a Oposição que o diz, embora o diga, nem é o crescimento da dívida pública, nem o que consta sobre as dívidas do SNS e todas as outras que se podem empurrar com a barriga  ̶  é o Tribunal de Contas.

 

Sobre este pobre organismo, porém, não ouviremos entrevistas nem declarações, salvo as de circunstância para protestar um grande respeito, nem haverá um clamor público a reclamar reformas. De reformas, o respeitável público quer saber se há aumentos. E o governo, pressuroso, lá irá esportulando as esmolas que no seu calculismo cheguem para contentar a clientela dos seus parceiros revolucionários, e a sua própria, enquanto o PCP assenta arraiais no ministério da Educação e vai metodicamente minando os serviços do Estado.

 

Nem tudo porém são apenas nuvens negras no horizonte, que o cidadão não quer ver porque está anestesiado por uma comunicação social domada, um comentariado tradicionalmente esquerdista e a fé bovina de quem prefere ser enganado: a tela cuidadosamente tecida da propaganda começa a esgarçar e pelos seus rasgões percebe-se que algumas daquelas nuvens estão afinal muito próximas:

 

Uma entidade que dá pelo nome de Entidade Reguladora da Saúde, e que suponho seja igual, na sua inoperância, ao Tribunal de Contas e a todos os supervisores que o Poder foi criando para dar a impressão que o capitalismo português não vive em conúbio com o Estado e que os serviços públicos estão ao serviço do cidadão, vem denunciar as mortes que ocorreram no SNS (uma pequena parte, presume-se, que fazer a prova seja do que for que suceda dentro de um hospital é uma corrida de obstáculos com frequência inultrapassáveis), num relatório que a notícia qualifica de "retrato assustador".

 

O título é "ERS puxa orelhas", e a julgar pelas medidas que aquele organismo tomou (por exemplo "recomenda que se garanta 'o acesso a tratamentos oncológicos em tempo útil', adequados às necessidades dos doentes e que 'devem ser prestados humanamente, com prontidão e respeito pelo utente") há boas razões para pensar que nem o ministro da Saúde, nem as direcções dos hospitais, nem os médicos e restante pessoal envolvido correm qualquer risco de ficar com aqueles apêndices a arder.

 

A maior parte da população não presenciou tais casos de falência do Estado; nem os dos mortos de Pedrógão Grande, nem as centenas de feridos naquele e noutros incêndios. E é certo que a bem oleada máquina da propaganda governamental para tudo encontra uma explicação que tem a ver com o governo anterior, as forças da Natureza, os incendiários, o acaso, o espírito derrotista e retrógrado da Oposição, as fases da Lua e os desmandos de Donald Trump.

 

As sondagens não mostram ainda, mesmo que se lhes faça a correcção do enviesamento pró-esquerda que quase sempre têm tendência a ter, a censura que devia merecer um governo que todos os dias demonstra que nos livrámos de Sócrates mas não do socratismo. Agravado por uma aliança espúria e completo com a maior parte do mesmo pessoal político, de cuja cumplicidade nas tropelias socratianas é ingénuo duvidar.

 

Estamos assim. E precisamos de paciência porque é como diz o outro: pode-se enganar toda a gente durante algum tempo, e alguma gente durante o tempo todo; mas... (o resto da citação que a complete o leitor astuto).

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 13:05
link do post | comentar
Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Uma lição de Ética de esquerda

2017-08-08 Salgueiro Maia.jpg

Aproximam-se as eleições, um tema que me é particularmente sensível porque vou, pela primeira vez nos últimos 60 anos, apresentar-me como candidato a um lugar político, mas nem este facto me esmorece a minha natureza solidária que se sobrepõe a qualquer sectarismo, e vou partilhar uma reflexão de grande oportunidade e utilidade para os meus leitores de esquerda, no entanto os meus adversários no combate político que me vai ocupar os próximos dois meses. Eu sou mesmo assim.

Quer fazer uma declaração política?

Não hesite em mentir. Arranje uma figura mediática capaz de sensibilizar o público-alvo, como se faz nos anúncios da televisão das operadoras de telecomunicações ou dos suplementos alimentares, parta de factos reais

"...deixou Portugal em 2011..."

para a mentira ser plausível, omita os detalhes suficientes

"...chegou ao Luxemburgo a 15 de Março de 2011..."

para a conclusão saltar à vista, e seja claro na conclusão

"...foi convidada a sair de Portugal pelo primeiro-ministro Passos Coelho".

Faça-se publicar no jornal Público em tempo de pré-campanha eleitoral. E candidate-se às eleições pelo Bloco.

E se for apanhado na mentira?

Diga que foi um exercício de ironia.

E o jornal Público?

Altere o título da edição online de "Filha de Salgueiro Maia no Luxemburgo depois de convidada a sair por Passos Coelho" para "Filha de Salgueiro Maia emigrou para o Luxemburgo e lembra convite de Passos". Não remove o lixo, mas varre-o para debaixo do tapete.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:29
link do post | comentar
Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

El pajarito de Chávez

Seria um grande exagero dizer que Portugal não tem, nas Nações Unidas, muito maior importância que o Vanuatu, desde logo porque parece estatisticamente improvável que os menos de 300.000 habitantes daquelas ilhas produzissem um vulto como António Guterres. Esta personalidade, que reúne aqueles requisitos de vacuidade, habilidade oratória e ausência de princípios que são necessários para o desempenho das funções de Secretário-Geral, já se pronunciou sobre os sucessos venezuelanos, apelando previsivelmente ao diálogo.

 

E é com alguma desenvoltura que declaro que, na União Europeia, ocupamos um lugar de maior relevo que o da Eslovénia, desde logo porque somos cinco vezes mais numerosos, e cada um de nós deve mais 10.000 Euros do que cada um dos eslovenos.

 

Sucede que ninguém sabe o que pensa o Vanuatu ou a Eslovénia da crise na Venezuela. E seria talvez o caso de imaginarmos que o mundo não sabe o que pensam aqueles países mas sabe o que pensamos nós, não se desse a circunstância de sobre a posição, por exemplo, da Polónia, que tem o quádruplo da nossa população e mais do dobro do PIB para menos de metade da dívida em percentagem daquele, tudo se ignorar.

 

Quem tem uma posição conhecida é a União Europeia e os Estados Unidos. E nos dois casos de condenação do regime bolivariano e das suas mascaradas pseudodemocráticas.

 

Sucede que destas duas posições a primeira não nos convém e a segunda não se entende. Vejamos:

 

  1. Maduro não é essencialmente diferente de Chávez senão nas circunstâncias, e nestas avulta a queda do preço do petróleo.
  2. A legitimidade democrática do governo e do regime chavista foi comprada com a distribuição de benefícios aos mais pobres enquanto se lançavam as bases para uma economia dirigida, à boa maneira socialista, que produziu os mesmos resultados de destruição da capacidade de produzir riqueza que produz sempre.
  3. Não é diferente o processo venezuelano do brasileiro de Lula, senão no grau, nas instituições locais (que apesar da corrupção generalizada têm mais anticorpos contra o caudilhismo), na composição do eleitorado e no facto de a economia brasileira ser muito mais diversificada e resistente. Logo que os preços das matérias-primas caíram nos mercados de exportação a economia começou a dar sinais negativos e o regime entrou em convulsões.
  4. Quanto à nossa opinião pública, o PCP é o PCP, e não tem estados de alma: apoia sempre quem, caso a caso, lhe pareça estar mais perto de facilitar a construção da sociedade totalitária que defende. Se a sociedade em questão já existir, como na Coreia do Norte ou Cuba, nega-lhe os defeitos, que não vê, e exalta-lhe as virtudes, que imagina.
  5. A doutrina económica do PS actual é enquadrada pela União Europeia, as suas referências ideológicas são as da social-democracia, mesmo que a entenda mal, e não se imagina que aquele partido, apesar da aliança com comunistas, compactuasse com derivas descaradamente antidemocráticas. Os socialistas não venderam a alma ao diabo, apenas lhe deram uma quota minoritária para prejudicar o sócio maioritário e abocanhar as mordomias do conselho de administração.

Mas, caso singular: a prática de comprar votos com benesses, a ideia de que o Estado é o verdadeiro motor da economia, a demagogia ululante de Costa, a naturalidade com que mente, até mesmo a sua compleição, tudo compõe o quadro do que de mais parecido na Europa se pode encontrar com o regime venezuelano. Quem tiver dificuldade em aceitar o ponto não tem mais que imaginá-lo de bigode e fato de treino, a açular as massas de dependentes na defesa da Conxituição, e logo vê as semelhanças com o antigo motorista de autocarro.

O aumento de pensões e de salários da função pública, compensado com o crescimento dos impostos indirectos, que são menos visíveis; e o exemplo actual de actualização das pensões para dois milhões de reformados ao mesmo tempo que se cria um adicional ao IMI para 200 mil proprietários (o imposto Mortágua) são tudo manifestações do espírito chavista, cujo pajarito deve aparecer, em sonhos, ao nosso Ronaldo das Finanças.

   6. Não há diferenças significativas de filosofia entre o regime chavista, o de Lula e aquele a que teríamos direito sob a férula do nosso Bloco de Esquerda, que defende a mesma mistura de esbulho dos mais ricos com compra de votos através de benefícios concedidos aos mais pobres. O fosso histórico, geoestratégico, de literacia, de desenvolvimento económico, de tradições, hábitos e processos mentais, que separa estes três países, torna esta comparação esquemática. Nem por isso menos real, porém: não é um acaso a simpatia que o Bloco costumava ter tanto por Lula como por Chávez.

    7. Se isto é assim, surpreende agradavelmente o recente desligar do apoio a Maduro, com artigos veementes de Daniel Oliveira e de uma das gémeas Mortágua (este último não consegui encontrar). Claro está que o pretérito apoio a Chávez, que não faria coisas muito diferentes das que o seu sucessor anda a fazer, traduz a incapacidade de o BE perceber as consequências das políticas económicas que Chávez protagonizava, tal como não percebe as consequências das políticas que defende para Portugal. Mas o respeito pelos formalismos da democracia significa que a prazo o Bloco, ou parte dele, pode vir a fundir-se no PS: não faltam lá maluquinhos com a mesma agenda fracturante nem com delírios voluntaristas em matéria económica. E um só partido, o PCP, para federar todos os raivosos, e todos os radicais comunistas, é suficiente, e seria uma desejável clarificação.

 

Resta portanto que, não fosse o caso dos emigrantes portugueses que correm o risco de se transformarem em retornados em massa, e a situação importar-nos-ia tanto como a prisão de gays na Chechénia: é lá coisa deles, que se amanhem. Mas a União Europeia falou, como acima se disse, virtuosamente indignada, e sobre os nossos disse nada.

 

Em bom rigor, não tinha nada que falar: a que propósito é que a União Europeia tem que reconhecer ou deixar de reconhecer a legitimidade de um processo eleitoral noutro continente? Acaso tem a mesma assertividade quanto a eleições na China, em Angola, ou, já agora, em muitos dos países representados na ONU, cuja maioria não é democrática? Se Federica Mogherini, que finge ser ministra dos Negócios Estrangeiros da União, quer ser levada a sério, não faz ameaças que não pode cumprir; e, se as quiser fazer e houver acordo para sanções, alguma coisinha tinha que dizer sobre Portugal ou a Portugal. Por exemplo, que haveria apoio significativo para os nacionais regressados e seus descendentes, e que seriam bem-vindos porque por uma vez haveria um influxo de cristãos fáceis de integrar, e não de comunidades para viver em ghettos inassimiláveis.

 

No tempo da Guerra Fria os EUA não se podiam dar ao luxo de deixar de interferir na vida dos países sul-americanos. Cuba, que imprudentemente permitiram que se transformasse numa ditadura comunista, pôs o mundo à beira de uma guerra nuclear; e a multiplicação de Cubas no quintal das traseiras seria portanto um perigo mortal.

 

Mas a União Soviética já não existe; a superpotência que se segue é a China, e esta continua a parecer mais interessada em adquirir dimensão económica do que em sustentar regimes subsidiários para alimentar um conflito prematuro (para manter os EUA em cheque já tem várias cartas, das quais a mais óbvia é a Coreia do Norte). Sobra que a intervenção através de sanções económicas sofre de quatro defeitos: um é que penaliza a população, não os próceres do regime; outro é que serve para que Maduro jogue, como já está a fazer, as cartas da ameaça externa e do nacionalismo; o terceiro é que é ineficaz, e mesmo contraproducente, como Cuba demonstra; e o quarto é que o cidadão, americano e estrangeiro, a quem se atordoam os ouvidos com a defesa da democracia, haverá de coçar a cabeça e perguntar a si mesmo porque não a defendem na Arábia Saudita.

 

Talvez o filme em tempo real da miséria a que conduz o voluntarismo revolucionário, e a retórica e prática da esquerda anticapitalista, tenham um efeito de vacina na América do Sul e noutras paragens; ou talvez a pobre Venezuela consiga, com ou sem empurrão dos Estados Unidos, soltar-se do negro destino da sociedade comunista para a qual o regime caminha; e certamente não nos deve ser indiferente a sorte dos nossos que lá estão.

 

Não se nos peça porém que ponhamos likes nos textos em que, sem arrependimento, se verbera Maduro quando se enalteceu Hugo Chávez. Porque sem perceber que os dois são iguais, tal como eram no essencial iguais Lenine e Estaline, não se percebe nada.

Tags:
publicado por José Meireles Graça às 12:00
link do post | comentar
Terça-feira, 1 de Agosto de 2017

Venezuela, meu amor

2017-07-30 Boaventura.jpg

Tantos portugueses assassinados depois de vidas inteiras de trabalho honesto e duro para tentarem, e nalguns casos conseguirem, construir na Venezuela a vida decente que não conseguiram construir cá, e tantos filhos da puta que mereciam ser abatidos em assaltos ou por snipers milicianos em vez deles nas ruas de Caracas acolitados em departamentos de ciências humanas de universidades europeias para, e sempre à custa de dinheiro dos contribuintes, inventarem folhas de cálculo com indicadores cientificamente calibrados para defender os assassinos.

Pronto, o desabafo já está cá fora, passemos à discussão.

A esquerda portuguesa, ou melhor, as esquerdas portuguesas, partilham entre si um grande amor à revolução socialista venezuelana e diferentes níveis de adaptação ao air du temps que lhe identifica uma ditadura indefensável.

Os socialistas sempre viram na Venezuela uma oportunidade de negócio na implementação das suas políticas e estratégias económicas. Fosse para impingir navios construídos em estaleiros assassinados economicamente por negociatas de compra, rescisão e aluguer a outros do, então, presidente do Governo Regional dos Açores, agora, presidente do partido, fosse para passar contratos de construção de habitação social de biliões ao, anteriormente, ministro socialista das obras públicas, então, presidente de uma das construtoras do regime socialista, e agora, o mais moderado anti-passista dos paineleiros costistas da Quadratura do Círculo, fosse até para impingir o computador Magalhães ao povo venezuelano. É verdade que nenhum destes negócios miraculosos montados pelos socialistas se concretizou, e o dinheiro da Venezuela nunca chegou, nem enriqueceu nenhum empresário, nem criou nem salvou nenhum emprego. Vicissitudes recorrentes e mesmo típicas das políticas e estratégias económicas socialistas. Isto enquanto havia o dinheiro do petróleo que, agora, não há dinheiro, não há palhaços. Os socialistas puseram-se ao fresco.

Os comunistas são o que são, andam cá para fazer a revolução socialista e não para serem engraçadinhos nem telegénicos. Mesmo quando se torna impossível disfarçar que o resultado mais notável do socialismo venezuelano foi ter transformado num inferno, em que não se conseguem comprar nas lojas os bens essenciais mais básicos, se mata por meia dúzia de carcaças, e já nem sequer há os medicamentos mais simples nos hospitais, a vida dos milhões de venezuelanos, no entanto os habitantes do país com as maiores reservas de petróleo do mundo, ou seja, o socialismo matou a economia venezuelana, os comunistas continuam a apoiar o regime venezuelano, quer directamente, quer através das suas organizações satélite, dizem uns, fantoches, dizem outros, saídas do jurássico da guerra fria, como o Conselho Português para a Paz e Cooperação que organiza matinés musicais de solidariedade com a revolução bolivariana abrilhantadas pela Banda do Exército. Apoiam o regime venezuelano aconteça o que acontecer, como apoiam o angolano ou o coreano, não para conquistar adeptos mas porque esse apoio faz parte do caminho para a revolução que um dia ambicionam vir a abençoar-nos as vidas.

Já os bloquistas, mais sensíveis às questões de telegenia, e desde sempre, não nos devemos esquecer que o primeiro combate político do BE quando chegou pela primeira vez ao parlamento em 1999 foi contra o PCP por um lugar na primeira fila do hemiciclo, e apesar do amor que sempre lhes despertou a revolução bolivariana e de ela implementar o grosso da sua visão e ideias para a sociedade e a economia, a bloconomics, esmoreceram as suas manifestações de afecto quando a brutalidade do regime se tornou tão gritante que qualquer apoio, mais do que incómodo, passou a constituir para os apoiantes o lastro do apoio a uma ditadura, fama de que o BE se tenta livrar como pode, apesar de não lhe faltar vontade de as apoiar a todas.

Como é que descolou mediaticamente do regime? Com a retórica habitual, o regime deixou-se corromper pelo dinheiro do petróleo, deixou-se vencer pela chantagem imperialista, deixou os reaccionários levantar a cabeça, deixou, em resumo, de ser socialista, e depois não teve como resistir à contra-revolução sem o habitual recurso à violência. Deixou de ser uma democracia, como dizem agora as figuras mais proeminentes do BE, como a mais discreta das manas Mortágua, que baptizou, sem desconfiar, este texto, ou a própria Catarina Martins. O BE podia ter descoberto há muitos anos que o regime populista venezuelano exibia todos os sinais de vir a fazer batota eleitoral e a usar a força bruta quando fosse necessário por a propaganda se tornar insuficiente para se manter no poder, mas mais vale tarde que nunca e descobriu-o agora, quando já há mortos demais a comprová-lo. O que os bloquistas ainda não perceberam é que a miséria em que o regime bolivariano mergulhou o país não resultou de nenhum desvio ao socialismo, nem de boicotes do imperialismo ianque, nem sequer da queda dos preços do petróleo, resultou integralmente das receitas socialistas usadas para controlar a economia do país, da bloconomics, como resultou sempre em todas as experiências socialistas que foram realizadas, e resultará sempre em todas as que se vierem a realizar, para além de períodos limitados em que a economia é inundada de dinheiro em abundância, e até ele ser gasto. Como dizia uma saudosa governante britânica, "The problem with socialism is that you eventually run out of other people's money". Na Venezuela, acabou.

De qualquer modo, não é o encorajamento fraternal dos comunistas nem a descolagem dos bloquistas que fazem do regime bolivariano o que ele é, não é por causa das manifestações do CPPC nem dos textos críticos no esquerda.net que o regime armou dezenas de milhares de milicianos, incluindo snipers, para reprimir as manifestações da oposição, nem que decide se mantém os opositores em prisão domiciliária, ou na prisão, ou mesmo numa vala comum se chegar a sentir vantagem nesta solução, nem que recorre à mais reles batota jurídica e constitucional para contornar a pesadíssima derrota que teve nas eleições que, por distracção, organizou em 2015. Eles não contam para nada na Venezuela.

Mas há quem conte.

Muito do modelo social e económico bolivariano que resultou na desgraça que resultou brotou, não apenas daquelas cabecinhas ocas bolivarianas de onde só podia sair desgraça, mas de crânios lúcidos e informados de académicos europeus. O Centro de Estudios Políticos y Sociales (CEPS), embrião de onde sairam quase todos os dirigentes do Podemos, tem um longo histórico de assessorias ao regime bolivariano nos domínios de "promover los conceptos de emancipación popular, conciencia anticapitalista y controlaría social", ou seja, organização e propaganda, desde 2003, ao longo do qual acumulou proveitos de mais de 7 milhões de euros, parece que nem todos declarados ao fisco espanhol, com o propósito, não apenas de assessorar a revolução, mas também de financiar a criação do partido. Como veio a acontecer. E um dos assessores económicos mais influentes, e também mais radicais, do presidente Nicolás Maduro é outro académico espanhol, também oriundo do CEPS onde foi coordenador, o economista Alfredo Serrano. O regime bolivariano não é apenas uma experiência socialista que apela e interessa a académicos de esquerda radical, agora está na moda designarem-se a si próprios como social-democratas, da área das ciências sociais de universidades europeias, é também a obra deles, das suas ideologias, o laboratório onde conduzem as suas experiências científicas com soluções socialistas. Sem nunca tirarem conclusões da experiência, sem nunca eliminarem as hipóteses que as experiências vão todas demonstrando que conduzem à desgraça, diga-se de passagem. Estes contam para a Venezuela.

Por tudo isto, é retemperador o apoio público que o nosso incontornável Boaventura Sousa Santos, o criador de outro centro de estudos políticos e sociais, o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, aliás um dos mais bem dotados antros de bloconomicists de Portugal, acabou de dar ao regime bolivariano nestes tempos de miséria, batota política e banho de sangue. Significa que não há fronteiras geográficas nem linguísticas que separem esta corja de académicos sem vergonha que promovem, apoiam e defendem ditaduras socialistas. Mereciam ser premiados com viagens só de ida para fazerem a revolução socialista nas ruas de Caracas e, se levassem um balázio de um assaltante ou de um sniper, poder-se-ia escrever nas suas lápides que morreram em nome dos ideais de sociedade pelos quais lutaram. Assim, apenas se pode dizer que contribuem para a desgraça de outros mas vivem agarrados à mama gorda do capitalismo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:37
link do post | comentar

Primeiro de Agosto, primeiro de aumentar os reformados e o subsídio de almoço

2017-08-01 Borda d Água.jpg

Em política não vale tudo, diz uma regra moralista que não está na Constituição mas dá realmente muito jeito para usar quando se está entalado e se espera levar uma porrada por se estar entalado, mas no amor e na guerra vale, e na vigarice é até valorizado pelo valor acrescentado que traz à actividade, potenciando os seus resultados.

A colheita eleitoral é já daqui a dois meses, e há-que despejar todo o estrume que ainda se tem em cima dos eleitores, para ver se crescem. No ano passado gastou-se o carro de estrume quase todo nas reversões, e em Janeiro deste ano gastou-se quase todo o que sobrou do ano passado, que havia que continuar a estrumar os parceiros da coligação para cultivar a harmonia fofinha recomendada pelo senhor presidente. Mas o António Costa, agricultor previdente que é, guardou um bocadinho para agora. Ele sabe, ou assume, que os eleitores têm memória de peixe e no primeiro de Outubro poderão já ter esquecido as reversões do ano passado e até os aumentos do primeiro de Janeiro, mas não vão esquecer o dia de hoje.

E que dia é hoje? É dia de aumentar as reformas e o subsídio de almoço.

Que, em política, a honestidade faz toda a diferença, e quando um político honesto consegue passar o crivo das eleições fica-se sempre em melhores mãos, sejam as crenças de base dele mais realistas ou menos, do que quando é um desonesto que o passa, mas o moralismo só serve para os vigaristas distrairem os que o não são da sua própria falta de moralidade.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:39
link do post | comentar
Sexta-feira, 28 de Julho de 2017

Corado de vergonha

Não se conhece o conjunto de erros que levou a que umas pessoas fossem encaminhadas pela GNR, em Pedrógão Grande, para uma estrada onde morreram queimados.

 

Supõe-se que o Ministério Público esteja a investigar. Mas aquela instituição trabalha em segredo, o nome dos responsáveis pelas averiguações é geralmente ignorado, não há memória de algum magistrado se ter alguma vez justificado publicamente pelos processos a seu cargo não chegarem a parte alguma em tempo útil, nem muito menos por um grande número de acusações, após anos de diligências, não desembocarem em condenações.

 

Isto é assim porque os magistrados são independentes, isto é, não investigam assim ou assado, deixam de investigar, acusam desta ou daquela maneira, em obediência a ordens; obedecem à sua consciência e às leis.

 

Que fosse de outra maneira seria, no nosso país, um perigo; e que, sendo assim, se esperem resultados positivos, uma quimera.

 

Os magistrados envolvidos nesta teia, se perguntados, dirão fatalmente que lhes faltam pessoal e meios; e que o nosso direito é demasiado garantístico, razão pela qual investigar e acusar são caminhos eriçados de escolhos.

 

É o que diz qualquer burocracia ineficiente; pior se os burocratas estiverem recobertos pelo anonimato e pela inimputabilidade; e a diminuição das garantias não é mais do que reclamam, em qualquer lugar, as polícias, para suprirem a sua incapacidade.

 

Como se desenlaça este nó cego não sei; e acho que já faço muito se enquadrar correctamente o problema.

 

Somente me ocorre que, se fosse PGR, não mobilizaria magistrados para se ocuparem de quanto processo o governo, ou a comunicação social, me despejassem no colo, mas apenas daqueles que tivessem alguma dignidade penal; não mobilizaria pessoas e meios sem uma dose razoável de probabilidade de chegar a algum lado; e exigiria que, em processos que afectem a paz pública, o magistrado responsável fosse conhecido e desse contas à comunicação social, periodicamente, da evolução do seu trabalho.

 

Neste caso de Pedrógão um inspector ou polícia eficiente chegaria rapidamente, pelo menos no caso das ordens da GNR, a conclusões. Não essencialmente para deduzir acusações que de toda a maneira viriam a dar, por inexistência de dolo, absolvições ou penas suspensas; mas para que, percebendo-se quem falhou e porquê, se pudessem tomar medidas correctivas.

 

Como as coisas estão, o famoso segredo de justiça apenas serviu para adensar as suspeitas, a primeira das quais é desde logo que a entrega do processo de investigação ao MP apenas tinha o propósito de o enterrar nos vagares daquele pântano. A quase totalidade da opinião pública tem, pela classe política, com boas e más razões, um grande desprezo; e a parte da opinião que não tem antolhos nutre pelo desprezível primeiro-ministro que nos pastoreia uma justificada aversão, muitíssimo bem traduzida por José Manuel Fernandes neste artigo, e por Paulo Tunhas noutro.

 

Suspeitas então de quê? De que nesta clamorosa falência do Estado, naquilo em que as suas funções são absolutamente necessárias, alguns membros do Governo, e desde logo Costa e os seus boys, tenham uma responsabilidade apreciável, insusceptível de ser disfarçada por tudo o que sucessivos governos deixaram de fazer ou fizeram mal.

 

O perigo é real. Daí que o presidente da República pretenda pôr uma surdina na contestação, que lhe pode estragar os planos do remanso que deseja para a sua presidência, que imagina coincidir com o progresso e o bem-estar do país; e daí que dos suspeitos do costume surjam vozes teatralmente indignadas com a suposta falta de sentido de Estado e das proporções que o PSD, com o CDS a reboque, adoptou perante o assunto.

 

Até aqui tudo dentro da relativa normalidade de um governo anormal. Mas onde se percebe que António Costa deve estar a sentir as barbas calculistas a arder é no facto de o coro de corifeus da Situação se ver engordado com vozes teórica e nominalmente da Oposição.

 

Destas, a mais saliente é Lobo Xavier. E mesmo que à hora em que escrevo a Quadratura do Círculo ainda não tenha ido para o ar, já uma televisão subserviente, e uma imprensa obsequiosa, antecipam o que aquele prócere da opinião, e dos negócios, vai dizer.

 

Que Lobo Xavier é, tanto como os outros dois comparsas do programa, e talvez até mais do que Coelho, um amigo do "António", não é segredo; e que por causa dessa ligação alinhe quase sempre nos ataques a Passos Coelho, e nas loas à governação socialista, também. Pessoas compreensivas e desenganadas como eu pensarão que num país em que o Estado está na maior parte da economia, e o Governo se confunde com o Estado, ser frontalmente contra faria talvez um grande bem à coluna vertebral, mas um grande mal aos negócios: suponho que não se possa num dia dizer que o ministro xis é um incompetente, e no seguinte telefonar-lhe para desencravar um processo.

 

Há porém limites: O PSD e o CDS devem pedir desculpa?!

 

Do PSD sei apenas que certamente o faria todos os dias, se seguisse o conselho de Pacheco Pereira. Do CDS, do qual Lobo Xavier é figura de referência, militante histórico, e suponho que conselheiro, não imagino que o faça ou sequer mencione Xavier senão para dizer, se perguntado, que as opiniões de Xavier apenas vinculam Xavier.

 

Já eu, que sou apenas um filiado quase anónimo, não-histórico, e conselheiro apenas de quem tenha interesse em comprar frigoríficos industriais, diria, se perguntado, que não supunha que no meu partido chegasse um dia em que uma figura de referência me fizesse corar de vergonha  ̶  e indignação.

publicado por José Meireles Graça às 12:34
link do post | comentar | ver comentários (6)
Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Padeiros, banqueiros, e protecção do consumidor

2017-07-25 Faria de Oliveira.jpg

O Dr. Faria de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, deu mais uma entrevista em que voltou a derramar as suas habituais lágrimas sobre a insuficiência das comissões que os bancos cobram aos seus clientes, nomeadamente das que são impedidos de cobrar por imposições legais, como as das operações realizadas nas caixas da rede do Multibanco, e a reafirmar que, sem as ambicionadas comissões, a rendibilidade dos bancos anda pelas ruas da amargura.

A entrevista foi muito oportuna, porque veio calhar no momento preciso em que se incendiava a discussão pública por causa de o maior banco português, a Caixa Geral dos Depósitos, que não cobrava comissões aos clientes ricos e cobrava as mais altas do mercado aos pobres, ir passar a não as cobrar aos clientes ricos e a cobrar as mais altas do mercado aos pobres, só que agora ainda mais altas do que antes.

O Dr. Faria de Oliveira tem o ar bonzão de um avô babado a quem apetece apertar uma bochecha ou, para os adeptos do cumprimento, trocar um give me five, e é talvez por isso que, ao contrário do que fizeram ao presidente da Associação dos Industriais da Panificação quando há uns anos atrás deu uma entrevista em que disse que, como a farinha tinha aumentado, o pão também teria que aumentar, e todas as autoridades lhe cairam em cima para investigar se o raciocínio era um apelo ilegal, por violador das leis da concorrência, para que os padeiros associados aumentassem de modo implicitamente concertado o preço do pão, ao Dr. Faria de Oliveira lhe deixam apelar ao aumento das comissões em todas as entrevistas que dá sem colocarem a hipótese absurda de se tratar de uma mensagem codificada aos bancos associados a sugerir-lhes para aumentarem as comissões de modo concertado sem terem que falar uns com os outros para se concertarem sobre o aumento, que seria um crime digno de pena de prisão. Ou por isso, ou por as autoridades competentes serem tão intolerantes com os padeiros quanto tolerantes com os banqueiros.

Mas pronto, aceitemos como adquirido que a rendibilidade dos bancos anda pelas ruas da amargura e que um aumento das comissões lhes vinha mesmo a calhar, e que a referência a isto na entrevista, e em todas as outras que ele dá, não passa do reconhecimento de uma evidência e não é um apelo a que todos os bancos as aumentem sem terem de combinar preços uns com os outros e correrem o risco de serem apanhados em escutas e irem parar ao Torel pelo crime de concertação de preços.

Aqui para nós, até é verdade que a rendibilidade da banca já foi mais elevada.

Não é, no entanto, algo que seja evidente nas remunerações que paga aos banqueiros.

Quando um governo socialista aqui recuado recrutou um director de um banco, e um director não é sequer um administrador, para dirigir o fisco como director-geral e ele optou pelo salário de origem, passou a ser o servidor público mais bem pago da história de Portugal, com um salário superior a vinte mil euros por mês. Mas isto era na época em que a rendibilidade da banca era estratosférica, e a banca pagava salários de vinte mil euros aos directores. Era a época em que os cinco membros do Conselho de Administração do banco onde ele era director recebiam por junto quarenta e cinco milhões de euros por ano. Mais reformas, transporte de helicóptero, enfim, vivia-se bem na banca.

Quando o governo socialista actual andou a recrutar na banca privada um banqueiro para gerir a CGD teve que recorrer a todas as engenharias legais e mais algumas para lhe conseguir pagar o salário que ele pretendia, e não era sequer para trocar o seu emprego actual pelo novo, era para aceitar acumular este novo emprego com a pensão de reforma com zeros demais para citar aqui que já tinha assegurada, e para manter em segredo o património pessoal que ele acumulou como banqueiro.

É claro que, como diziam tradicionalmente os neoliberais, e dizem agora os socialistas, e mesmo as bloquistas, quem quer gestores bons tem que lhes pagar bem, para fugir às consequências perniciosas do conhecido ditado if you pay peanuts, you get monkeys. Mas também é verdade que os salários de ouro da época de ouro da banca não serviram para pagar a quem construisse instituições sólidas como um banco se deseja para lhe confiarmos as nossas poupanças e capazes de atravessar sem rombos no casco os momentos menos fáceis do ciclo de negócios. Estes banqueiros criaram instituições merdosas que começaram a afundar à primeira ou segunda sacudidela, e só foram salvas de afundar por milhares de milhões de euros sacados a contribuintes tesos que nem carapaus por uma crise económica que os bancos ajudaram a desencadear. O ditado aqui foi mais if you pay diamonds, you get monkeys.

Também não é evidente que a fraca rendibilidade da banca se deva à exiguidade das comissões que impõe aos seus clientes, num contexto, a ladainha passa sempre pelo contexto, de taxas de juro muito baixas. Mesmo com taxas de juro baixas, mesmo com taxas de juro negativas, mesmo que pagasse juros aos clientes a quem concede crédito, a banca ganha dinheiro, porque financia-se a taxas de juro ainda mais negativas junto do sistema. O lucro do banco não está no juro cobrado, está no spread. A onda, qual onda? o maremoto de imparidades que fez implodir a rendibilidade da banca não se deveu a uma maior tolerância na cobrança de comissões aos clientes particulares ricos ou pobres, deveu-se à concessão de créditos ruinosos, alguns no limiar da gestão danosa, alguns declaradamente criminosos, que justificam aliás que mesmo o banco público estique até ao limite, com a ajuda de sempre dos socialistas e a ajuda inovadora dos bloquistas e dos comunistas, a cortina para tentar esconder das autoridades o crédito malparado e as condições, quanto? a quem? quando? como? por quem? e por ordem de quem? em que foi concedido. A banca não é suficientemente rentável por ter estoirado milhares de milhões em crédito irrecuperável concedido a amigos seus e a amigos dos governos socialistas que fizeram dela o braço financeiro das suas estratégias económicas. E é este buraco ilimitado que, primeiro, os contribuintes, e agora os consumidores, estão a ser chamados a contribuir para tapar.

O Dr. Faria de Oliveira tem aqui uma excelente oportunidade de melhorar os rácios de rendibilidade da banca, mesmo que a banca não venha a ser autorizada a lançar comissões sobre as operações realizadas nos terminais da rede do Multibanco. É sugerir aos bancos associados que ajustem os salários que pagam aos administradores, directores e trabalhadores à rendibilidade do sector.

Mas quem se lixa é o mexilhão, e os clientes mais modestos da CGD, que não têm culpa nenhuma dos negócios estratégicos que o governo socialista do José Sócrates forçou o banco a financiar até à sua ruína, e que taparão a cratera que foi agora parcialmente coberta com dívida que fica para eles ou os seus descendentes reembolsarem no futuro, também vão ser chamados a tapá-la pagando comissões mais elevadas.

(Chegados aqui, deixem-me partilhar convosco uma experiência recente, com a abertura de uma conta bancária para um pequeno condomínio acabado de formar, para a que se fez uma consulta a cinco bancos, há condomínios que preferem a consulta a vários fornecedores à adjudicação directa, de que saiu que a CGD foi o banco que apresentou custos de comissões mais elevados e não foi, por esse motivo, o escolhido.)

E o que podem fazer os clientes da CGD que vão ser mais uma vez involuntariamente envolvidos no resgate de um banco mal, criminosamente mal, gerido? Os consumidores têm basicamente duas alternativas para defenderem os seus interesses. Uma é confiarem a defesa às associações de defesa dos consumidores e aos partidos que os defendem na televisão mas jogam a feijões na feira de gado onde os negoceiam uns com os outros em conjunto com outros interesses. Outra é deixarem o capitalismo e a economia de mercado defendê-los, e simplesmente mudarem do banco que acha que tem o rei na barriga para um que não lhes cobra comissões: o Banco CTT ou o Activobank, que me lembre agora. Adivinhem qual delas resulta?

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:15
link do post | comentar
Sexta-feira, 21 de Julho de 2017

Desventuras do CDS

André Ventura, numa já famosa entrevista, pronunciou-se a favor da restauração da prisão perpétua para certos crimes (e certos criminosos, por exemplo Pedro Dias).

 

Ou seja, quer acabar com um dos poucos exemplos em que Portugal figura como uma referência civilizacional, por acreditar que o aumento das molduras penais é uma arma eficaz no combate contra o crime.

 

E é: na Arábia Saudita pode-se deixar o carro estacionado com uma pasta lá dentro, à vista, com um risco diminuto de ser assaltado. O preço desta segurança é a Arábia Saudita ter uma percentagem anormal de manetas. Podemos estar certos também de que um criminoso executado apenas poderá cometer crimes no Inferno, no Céu ou no Purgatório, e seguros de que o caminho do aumento das penas acaba na pena de morte, por se constatar que são sempre insuficientes.

 

No caso porém de não apreciarmos enterros em vida, nem penas corporais, nem assassinatos legais, nem erros judiciais irremediáveis, isto é, no caso de não sermos sauditas, selvagens, motoristas de táxi ou americanos, olhamos para quem defende tais soluções com desdém.

 

No CDS, que eu tivesse lido, ninguém se incomodou por aí além com as pulsões justicialistas do candidato. Faz sentido: encontra-se por lá, e sempre lá esteve, como está nos outros partidos, uma ala de ignorantes, cobardes e sádicos, que defende a pena de morte para "certos crimes". No caso do CDS, que é o meu partido, esta ala distingue-se neste particular das dos outros partidos por ir muito à missinha.

 

Mas se ninguém se incomodou com isto, surgiram vozes bem-pensantes do partido com reacções indignadas às declarações sobre os ciganos, não fossem as luminárias da opinião de esquerda, credo!, tacharem o CDS de racista, ultramontano e troglodita.

 

Caso estranho, porém: o que se censura ao homem não é a inverdade dos factos que alega, possivelmente porque qualquer investigação séria apuraria que são genericamente correctos; é a circunstância de se referir a um grupo específico de cidadãos, distinguível por ter hábitos, comportamentos, tradições - numa palavra, cultura - diferentes do resto da população. E como alguns desses hábitos e tradições são anti-sociais, e não são tolerados a mais nenhum grupo social, Ventura reclama a igualdade dos cidadãos perante a lei, e portanto a repressão.

 

Repressão de quem, dos ciganos? Não. Repressão daqueles indivíduos em idade e condições de trabalhar que não provam convincentemente que, recebendo o RSI, procuram activamente trabalho; que andam nos transportes públicos sem pagar; que, tendo recursos para o fazer, não pagam rendas sociais; que reagem ao exercício legítimo da autoridade pública com desobediência impune; e que de modo geral se comportam, em serviços públicos como hospitais e repartições, como se estivessem não exactamente acima mas à margem da lei e das regras de civilidade que regulam o comportamento dos não-ciganos.

 

São todos os ciganos assim? Decerto não; e os que não são assim, em particular as mulheres, apreciarão talvez que se lhes dê a oportunidade, que a tribo lhes nega, de rejeitarem tradições que serão talvez identitárias mas que lhes cobram um preço. No caso das mulheres o preço é muito alto, em abandono prematuro da escola, em casamentos forçados e numa vida, para os padrões contemporâneos e ocidentais, de inaceitável subordinação aos machos viris, da navalha e do clã.

 

A razão porque se grita racismo! de cada vez que um grupo ou indivíduo distinguível da maioria pela cor da pele, a religião, o comportamento, é censurado, tem, além da defesa do multiculturalismo (uma doutrina de esquerda, na prática uma reciclagem do marxismo), uma utilidade prática, que é a de garantir votos, a pagar com discriminações positivas em benefícios, subsídios e criação de dependências.

 

O campeão em Portugal desta táctica é o Bloco de Esquerda. E deve ter sido portanto para pescar votos na área do BE que o CDS resolveu retirar o apoio ao candidato do PSD a Loures.

 

Algo me diz porém que a transferência de votos entre o BE e o CDS é, em Loures, tão provável como em qualquer outro lugar, quer dizer nula. E portanto o CDS, na defesa de princípios que entende mal, e ao serviço de uma estratégia que entende pior, fere gratuitamente um aliado para servir objectivamente a esquerda.

 

O meu voto, se fosse louriense, estaria garantido. Mas eu não sou nem desejo ser independente; os eleitores de Loures sim. E os do resto do país também.

publicado por José Meireles Graça às 01:39
link do post | comentar | ver comentários (1)

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Quer dizer, uma incubadora de comunista malvistas ...
Tem razão, esse caso ilustra o ponto muito bem. O ...
Concordo que seja um bocado intangível, mas ocorre...
José, creio estar a reconher esse texto, salvo err...
"Essa perplexidade aumenta muito ao saber-se que a...

Arquivos

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio barreto

antónio costa

arquitectura

atentado

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter