Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Manda quem pode, obedece quem tem juízo

Exmo. Senhor Presidente do Instituto de Mobilidade e dos Transportes:

 

O signatário, José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça, portador do cartão de cidadão nº xxxxxxxx e residente na xxxxxxxx xx xxxx, nº xxx, xxxx-xxx Guimarães, vem expor e requerer a V. Exª o seguinte:

 

No dia 28 de Novembro último foi objecto do auto de contraordenação xxxxxxxx, EA xxxxxxxxxx, cuja cópia anexa, porquanto se alega que o veículo de sua propriedade, e que conduzia, teria instaladas nos vidros, além das películas constantes no certificado de matrícula, sem coloração, outras películas de cor escura.

 

Semelhante alegação é falsa por três razões: não só os vidros nunca tiveram películas sem coloração (que estariam lá a fazer?) como as películas instaladas não eram de cor escura (se fossem realmente não se poderia ver para o interior, o que não era o caso) como o concessionário da marca informa que as películas coloridas estão homologadas. O signatário não sabe, nem lhe é exigível que saiba, interpretar os algarismos e letras gravados nos vidros, o que significam exactamente as observações que a este propósito constam presumivelmente no documento único automóvel (aliás apreendido) nem apurar se este último documento está ou não conforme com as homologações de que o veículo tenha sido objecto.

 

Na altura, significou ao agente da GNR que o autuou, xxxxx xxxxx, a sua perplexidade por um veículo recentemente inspecionado ter sido dado apto para circular pelo organismo que faz inspecções periódicas obrigatórias; que a falta do selo que atesta aquela inspecção, e que ele diligentemente tinha apurado se estava colado no para-brisas – estava - implica uma coima de 250 euros; e que não se compreendia que um serviço concessionado pelo Estado certificasse, sob ameaça de multa, algo que outro serviço, aplicando multa, nega.

 

Mas não ficou por aqui a desastrada intervenção do agente, porquanto na mesma ocasião lavrou um auto de apreensão de veículo, e uma guia de substituição de documentos, esta válida por vinte e quatro horas, cujas cópias também se anexam.

 

Estamos já no domínio da prepotência e do abuso de autoridade, porquanto deveria ser óbvio que a existência de uma leve coloração dos vidros de modo nenhum constitui perigo para a circulação automóvel, senão nunca seria homologável – e é. E deveria ser evidente que a correcção da falha lesiva da segurança deveria ser, se a falha não fosse imaginária, a prioridade, e não a sôfrega aplicação de multas e interditos, sendo que a correcção não era compaginável com as meras 24 horas fixadas.

 

Apesar disto, o signatário promoveu no mesmo dia a remoção das películas em questão, trabalho descrito na nota de serviço de oficina em anexo. Para o fazer dentro daquele apertado prazo teve aliás que recorrer à sua influência pessoal, visto que as oficinas não costumam estar disponíveis para, de imediato, satisfazer exigências inopinadas.

 

No dia seguinte promoveu diligências para apurar junto da delegação desse Instituto em Braga a forma como desenlaçar o imbróglio.

 

A primeira reacção foi que o documento apreendido, e cópias dos autos, só chegariam na terça-feira seguinte, e que portanto até lá não estariam em condições de prestar quaisquer esclarecimentos.

 

Seguiram-se algumas trocas de informações que desembocaram na extraordinária notificação recebida em 7 do corrente mês, cuja cópia se anexa, para no dia 20, pelas 9H00, o veículo ser submetido a inspecção em Braga, numa localidade denominada “Celeirós”, sem indicação de rua nem número de porta (o funcionário que a subscreve suporá porventura que é da obrigação de todos os habitantes do distrito saber onde fica um “CIMA”) e na informação de que deverá ainda pagar aquele “serviço” e os custos de emissão de nova documentação.

 

A multa de 250 euros foi paga no mesmo dia 7, não por achar que fosse devida mas por ter concluído que a reclamação implicaria o risco de ver o automóvel apreendido não apenas quase um mês, como será o caso, mas possivelmente muito mais tempo, que seria o de recorrer aos tribunais e obter satisfação.

 

Crê que este assunto merece aprofundamento, além do mais para evitar que agentes da autoridade desprestigiem o Estado por adoptarem, por ignorância ou instruções deficientes, comportamentos lesivos dos direitos do cidadão.

 

Razões por que requer:

 

A restituição do montante indevidamente pago, e a anulação do que ainda lhe virá presumivelmente a ser exigido para a inútil, e abusiva, inspeccão, e para a desnecessária emissão de novo documento de circulação;

 

Proposta razoável de um valor justo de indemnização pelas despesas incorridas, perdas de tempo de trabalho, imobilização abusiva do veículo e danos morais;

 

Informação sobre as diligências feitas ou a fazer junto dos agentes da autoridade que tão mal a exercem, para prevenir o risco de outros abusos junto de condutores;

 

Informação sobre as diligências feitas ou a fazer junto da vossa delegação em Braga para a sensibilizar, porventura, para o facto de que o papel dos funcionários públicos não consiste em utilizar interpretações capciosas da lei e dos factos para agravar prepotências, nem dar cobertura corporativa a desmandos, juntando o ridículo ao abuso.

 

Informação sobre as diligências feitas ou a fazer junto da entidade que efectuou a última inspecção periódica, no caso de os serviços teimarem, e demonstrarem, que o veículo não estava em condições de circulação, sobre as razões pelas quais não detectou a alegada falha.

 

Está o signatário certo de que V. Exª convirá em que, de longe em longe, é salutar lembrar aos agentes de autoridade, e aos outros funcionários, que o poder que o Estado lhes confere é para servir os cidadãos e não para lhes infernizar a vida em nome da angariação de receitas e da satisfação das suas rotinas cegas de imposição arbitrária de conformismos.

 

Esclarece finalmente que esta exposição é também dirigida às entidades abaixo mencionadas e que dela fará uso público quando entender apropriado, não pela relevância do seu caso, que é diminuta, mas porque acredita ser crescentemente numeroso o grupo dos que, sob um pretexto ou outro, são vítimas dos pequenos incidentes com que se constrói um Estado arrogante e, com perdão do exagero, totalitário.

 

CC: Comando-Geral da GNR; ministério da Administração Interna; ministério do Planeamento e das Infraestruturas; Provedor de Justiça.

publicado por José Meireles Graça às 19:48
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Sobre o ensino universitário tendencialmente gratuito

Um adolescente tem boas notas, é responsável e aplicado, os pais metem-no a fazer o secundário num daqueles colégios que preparam os alunos para a média, consegue acabar o secundário com média de 19 e entra em Medicina. Consegue terminar a licenciatura, as boas notas anteriores eram um bom preditor de que teria essa capacidade, e depois consegue completar com sucesso o internato e obter o grau de especialista. Dá o salto para o estrangeiro, onde vai ganhar, pela medida dos salários portugueses, uma pequena fortuna. E nós continuamos sem médico.

2017-12-11 Emigração jovens médicos.jpg

Esta não é a história dos médicos que conhecemos, ou pelo menos dos que eu conheço pessoal ou profissionalmente, que estão esmagadoramente a trabalhar no país onde se formaram ou, se estão no estrangeiro, trabalham em missões humanitárias enquadrados por organizações de voluntariado. Dedicam-se à comunidade e devolvem-lhe o que investiu neles. Tal como provavelmente a esmagadora maioria dos médicos portugueses.

Mas é a ambição de, diz o estudo A carreira médica e os factores determinantes da saída do SNS realizado pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto cujos resultados acabam de ser publicados, metade dos jovens médicos que estão a fazer a formação da especialidade no Norte. E como admito que a latitude não deva ser um factor determinante para formar este tipo de preferências, será a ambição de metade dos jovens médicos portugueses que estão a fazer a especialidade.

A ambição deles não tem nada de ilegítimo. Possuem, ou estão em vias de adquirir, uma formação valiosíssima, trabalharam aplicadamente desde a adolescência para a adquirir, têm a possibilidade de exercer um trabalho de grande utilidade social, onde quer que o venham a exercer, e ponderam todas as opções profissionais que têm pela frente privilegiando as que lhes oferecem melhores perspectivas laborais e remuneratórias. Não há nada que se lhes possa apontar.

Mas a saída para o estrangeiro de médicos especialistas acabados de formar é um péssimo negócio para todos os portugueses genericamente e para os contribuintes em particular.

Os cursos universitários custam muito mais do que é cobrado aos alunos das universidades públicas em propinas, cerca de mil euros por ano para a licenciatura. E se há cursos que envolvem custos moderados por serem ministrados essencialmente à base de papel e tinta, como os de Direito, há outros que envolvem custos elevados, nomeadamente os que exigem a disponibilidade de laboratórios e equipamentos por vezes muito sofisticados, como os de Engenharia. Ou de Medicina. As estimativas do custo de formar um médico especialista rondam os cem mil euros para a licenciatura de seis anos, para os quais os próprios contribuem em propinas com cerca de seis mil, e duzentos a quatrocentos mil para a especialidade.

Se os médicos especialistas acabados de formar emigram, o investimento da comunidade na sua formação, que pode atingir valores da ordem dos quinhentos mil euros, não tem retorno nenhum, ou terá, mas na comunidade que os acolher sem ter investido na sua formação.

Não sendo a oferta de formação aos médicos um prémio pelas boas notas conseguidas no secundário, mas um investimento num bem social maior, a saúde dos portugueses, seria importante a comunidade dispor de instrumentos para garantir que esse investimento é efectivamente utilizado para contribuir para o fim que o justifica.

Não tendo já chegado ao socialismo cujo caminho a Constituição nos obriga a percorrer, não temos à nossa disposição instrumentos como os das ditaduras que respondem pelo nome de democracias populares, em que o indivíduo não tem mais direitos do que os que lhe advêm de ser propriedade do Estado, de que o mais óbvio é de servirem o Estado, e não podemos tratar os médicos do modo que são tratados, por exemplo, pelo regime socialista cubano, que os proibe de emigrar e, quando é oportuno colocá-los ao serviço de sistemas de saúde de outros países, cobra pelo seu trabalho honorários de advogado de negócios e paga-lhes a eles salário de empregada doméstica. Não os podemos proibir de sair.

O problema, ou o risco potencial de o problema se concretizar, não resulta da liberdade de escolha deles, que é um dado em sociedades livres como aquela em que vivemos e queremos, eu pelo menos quero, viver, mas de a comunidade investir neles sem qualquer compromisso deles que lhe ofereça uma garantia mínima de retorno do investimento. O problema é de o ensino ser tendencialmente gratuito e, no caso específico da formação em Medicina, cobrado muito abaixo do custo real. Se o curso de Medicina tivesse propinas compatíveis com a cobertura dos seus custos, o investimento da comunidade estaria liquidado no fim do curso e não haveria prejuízo para a comunidade se eles emigrassem.

Mas se os alunos de Medicina tivessem que suportar propinas que cobrissem integralmente os seus custos, cerca de cem mil euros ao longo dos seis anos da licenciatura seria algo como mil e quinhentos euros por mês onze meses por ano, abrir-se-ia uma frente de ineficiência na alocação de recursos. O curso seria limitado, não aos alunos com provas dadas de terem potencial para virem a ser no futuro os melhores médicos, mas aos que tivessem capacidade de pagar propinas nestes montantes. A qualidade média dos médicos formados seria certamente inferior à que pode ser conseguida se todos forem elegíveis para entrar e forem seleccionados por critérios que indiciem a sua capacidade para virem a ser bons médicos. E se as notas obtidas no secundário são uma medida adequada ou não para a aferir é outra discussão, mas que são uma tentativa de aferição quantificada do seu potencial como futuros médicos é indesmentível. E o ensino tendencialmente gratuito permite alargar o recrutamento de estudantes a todos, independentemente da classe social de origem, os que têm mais potencial para o transformar em conhecimento em benefício da comunidade.

O problema pode ser então reformulado como encontrar modo de a comunidade garantir o retorno do investimento que faz no ensino sem negar liberdades cívicas aos diplomados mas também sem impedir jovens com capacidade mas sem meios de se diplomarem.

E mesmo para este problema mais complexo há muitas soluções provadas.

Desde o ensino tendencialmente gratuito mas sujeito ao compromisso de no fim do curso o formando ficar a trabalhar durante um determinado período para o Estado, ou para o que a comunidade determinar como relevante para reaver aquilo que investiu nele, e sujeito a uma indemnização que compense os custos da formação se o formando quiser sair antes de ter completado esse compromisso com a comunidade, como se faz por exemplo para os pilotos formados na Força Aérea...

... ao ensino com propinas ajustadas à cobertura dos custos reais mas suportado pela concessão aos formandos que o necessitam de crédito a ser reembolsado ao longo da vida profissional pós-formação, como é prática corrente em países onde vigoram versões mais light do Estado Social do que na União Europeia, como os EUA...

... há muitas formas de, com mais Estado Social formal ou menos Estado Social formal, conciliar a maximização de eficiência que permite o acesso ao ensino dos melhores independentemente da sua classe social de origem e da sua capacidade financeira, com a garantia de a comunidade não investir nos que forma sem qualquer garantia de retorno desse investimento. De conciliar a justiça social com a eficiência na alocação dos recursos públicos. De fazer Estado Social sustentável

Oferecer ensino gratuito a todos como se fosse a única possibilidade de o fazer, e permitir aos que podem, que frequentemente até são dos que à partida tinham menos necessidade de apoio do Estado para estudarem, que recolham em privado os resultados desse investimento público é que é um desperdício de recursos, um desperdício do nosso dinheiro, porque o Estado Social somos nós, e não dinheiro caído do céu, que o pagamos.

Estado Social, sim, mas minimamente inteligente para poder servir para enriquecer a comunidade em vez de lhe drenar recursos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:08
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Domingo, 10 de Dezembro de 2017

Falemos de sexo

Cinquenta anos depois da revolução sexual chegou a contra-revolução sexual e, num mundo em que a esquerda tomou as rédeas da fiscalização da moral pública e dos bons costumes, o puritanismo ganhou.

Hoje em dia o problema mais sério que qualquer humano sexuado tem para resolver deixou de ser conceber formas de manifestar o interesse sexual por uma parceira ou um parceiro com sucesso, ou seja, de modo a suscitar reciprocidade no interesse, mas como pode manifestá-lo dentro da lei, ou seja, de modo a não arriscar a exposição à censura ou ao ridículo social, ou mesmo uma pena de prisão. Para um encontro em que se deposite alguma esperança deve-se levar, não uma embalagem de preservativos, mas o Código Penal.

Não admira nada a afluência aos acampamentos do BE onde os meninos podem ver meninas nuas no duche ou são organizados combóios onde podem aproveitar, e até são incitados a fazê-lo, para se apalparem uns aos outros, tudo em ambiente controlado como gosta a nova moral esquerdista para autorizar o exercício do pecado em qualquer das suas vertentes, seja a do sexo, a de consumir substâncias ilegais, ou a do exercício de qualquer actividade económica. É legal, e é o que há.

2017-12-10 Reiser Vivent les femmes.jpg

Mas as acusações de assédio sexual com mais de trinta anos que se andam a relevar quase diariamente, sempre envolvendo figuras públicas, começam a meter nojo.

Em caso de assédio sexual, digno de mulher com M grande, ou de homem com H quando é o caso, é dar uma bofetada ou uma joelhada nos tomates ao autor do assédio. Em não o avaliando possível ou aconselhável por qualquer motivo, por exemplo pelo ascendente físico do autor sobre a vítima, apresentar denúncia pública ou mesmo queixa policial na primeira oportunidade. Em havendo em jogo interesses, por exemplo profissionais, que as tornassem demasiado penalizadoras para a vítima, esperar para as apresentar quando o assédio em local de trabalho começasse a ser social e criminalmente penalizado e as vítimas protegidas de retaliações, e em Portugal já começou há mais de vinte anos.

Quem não aproveitou todas as oportunidades que teve para o fazer e faz agora, passados mais de trinta anos, revelações sobre alegadas tentativas de assédio sexual, todas tendo como autores figuras públicas, chega a parecer que os anónimos e os pobres não as faziam, a surfar a crista de uma onda de denúncias quase todas impossíveis de provar por ser a palavra das vítimas contra a dos agressores mas de que também é impossível aos acusados ilibarem-se por ser a palavra dos agressores contra a das vítimas, parece-me motivado por outros objectivos que já não são o de obter justiça e reparação para uma situação de que se foi vítima. Não acredito em nenhuma, e acho que merecem ser tratadas como injúria e difamação. Por mim, podem meter as denúncias num sítio que eu cá sei. E que não revelo para não cometer nenhum atentado à moral vigente, ou mesmo uma ilegalidade.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:31
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Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2017

Os gangsters e o teste do algodão

2017-12-07 Francisco Assis Felgueiras.jpg

Todos os partidos têm entre os seus militantes gangsters, não no sentido alegórico de pessoas cujo carácter e métodos de actuação reprovamos e que se movimentam individual ou colectivamente para contrariar os nossos interesses ou o que interpretamos ser o interesse colectivo, mas no sentido literal de andarem com malas de dinheiro ou darem, ou mandarem dar, valentes cargas de porrada a quem se lhes atravessa no caminho e atrapalha no exercício da actividade.

A política também se destina a determinar quem gere os recursos públicos, e a possibilidade de gerir recursos públicos é um atractivo irresistível para quem vê nela uma oportunidade para os gerir para seu benefício pessoal, pelo que a política atrai gente desonesta, e, tal como noutras profissões que têm inerente a delegação de alguma autoridade que aconselha a serem de acesso revervado a gente honesta, desde polícias, a magistrados, a fiscais de obras, é virtualmente impossível encontrar métodos eficazes para a detectar e lhe impedir o acesso à profissão. E os partidos também não tem métodos para impedir a admissão de gente que se filia para vir a ter a possibilidade de gerir recursos públicos em seu favor, nem de esta encontrar ou trazer para dentro do partido mais gente com as mesmas ambições, a mesma flexibilidade ética e capacidades que complementem as suas em diferentes áreas de actuação, incluindo, mas não exclusivamente, o exercício de violência física quando é conveniente.

Esta gente que exerce cargos políticos com a finalidade de se apropriar de recursos públicos em seu benefício pessoal provoca danos colectivos evidentes, a corrupção está mais do que caracterizada e qualificada para valer a pena enumerá-los aqui, e é, e bem, pelo menos nos tempos mais recentes porque nem sempre foi, mas também é verdade que nem sempre foi alvo de uma reprovação social tão intensa e generalizada como é actualmente, de modo que talvez se possa dizer que a justiça, para além de se guiar pela Lei, como devia, também se parece guiar pela pressão social, como não é óbvio que deva, perseguida pela justiça. Perseguição que também está mais do que caracterizada e qualificada para valer a pena detalhá-la aqui.

Mas, em paralelo com este efeito pernicioso, esta gente também proporciona um importante benefício de que nem sempre toda a sociedade se apercebe e, consequentemente, de que nem sempre se coloca em posição de usufruir. É que esta gente costuma ter uma apurada sensibilidade e capacidade de avaliar o carácter dos outros no domínio de serem favoráveis ou, pelo menos, permissivos, às suas actividades, ou de serem intolerantes com elas e, comulativamente, capazes de, pela denúncia ou mesmo pelo exercício do poder, as contrariar.

Ou seja, esta gente tem uma capacidade mais apurada do que o comum dos cidadãos, militantes ou eleitores para identificar

  • quem lhe pode fazer fretes e quem lhe pode fazer frente,

e essa capacidade pode ser preciosa para as pessoas honestas mas sem a sensibilidade nem a informação de que ela dispõe fazerem através dela uma avaliação dos candidatos que tem que escolher para diversos cargos electivos, por critérios que muitas vezes serão exactamente opostos aos dela.

E, infelizmente, não faltam oportunidades para nos apoiarmos nas escolhas de gangsters partidários para avaliarmos o carácter de personalidades de políticos que, por um motivo ou outro, gostaríamos de conseguir avaliar.

Umas das clássicas foi a sova que os militantes socialistas de Felgueiras aplicaram ao, à época, presidente da Federação Distrital do Porto do Partido Socialista, Francisco Assis, quando se deslocou a Felgueiras depois de, na sequência de lhe ter sido decretada pelo tribunal a medida de coação de prisão preventiva no processo em que era arguida por motivos de corrupção, a presidente da Câmara Municipal de Felgueiras ter fugido para o Brasil, a federação liderada por ele lhe ter retirado a confiança política e ter solicitado aos restantes vereadores socialistas a apresentação da demissão para provocar a dissolução da Câmara Municipal e criar a oportunidade convocar eleições intercalares para eleger um novo presidente, e perante a recusa destes em se demitirem, lhes ter retirado a confiança política também a eles.

Mais do que relatado, o episódio foi filmado e ficou escrito na pedra como um documento que perpetua o modo de actuação dos gangsters dos partidos.

E este episódio disse, a quem lhe interessava saber, que o PS tinha no seu seio gangsters capazes de recorrer à agressão física, neste caso ao linchamento, para defender os autores, prescindo de lhes chamar alegados porque os preciosismos da linguagem juridicamente precisa são essencias para o exercício da justiça num estado de direito mas dispensáveis para cidadãos como eu tirarem as conclusões que entendem dos factos que conhecem, de actos de corrupção, mas que também que tinha dirigentes capazes de enfrentar, mesmo colocando em risco a sua integridade física, os autores de casos de corrupção e os seus apoiantes em diversas vertentes de apoio, desde o institucional à agressão física.

E disse, a quem isto interessa, e independentemente de partilhar com ele opiniões, ideologias e interesses partidários, ou os seus contrários, que o Francisco Assis se revelou um político de uma dignidade admirável.

E disse também que os gangsters souberam muito bem identificar quem estava com eles e quem estava contra eles, ou seja, quem lhes fazia fretes e quem lhes fez frente. A presidente da CM Felgueiras fazia-lhes fretes, os vereadores socialistas também, e o Francisco Assis fez-lhes frente. Eles nunca se enganam e por isso nunca enganam que olha para o que eles fazem.

Mas o PS não é, ainda que não se conseguisse deduzir do que eu disse no início que penso que é suficiente claro para o fazer, o único partido onde militam gangsters. No PPD/PSD também os há, e também com provas dadas.

Há, por exemplo, dirigentes locais condenados por agressões a outros dirigentes locais e autarcas do mesmo partido. Há dirigentes distritais não-condenados por fraude fiscal qualificada e falsificação de documento no fim de um processo em que se deu como provado que receberam uma pequena fortuna de construtores civis em malas de dinheiro. Quase resistia a juntar a estes exemplos de gangsters clássicos que praticam a agressão física ou trasportam dinheiro em malas os de novos gangsters, os perfis verdadeiros ou falsos que são colocados nas redes sociais para lançar porcaria sobre adversários internos no partido, mas desisti de resistir e apresento um modesto exemplo retirado de um perfil do Facebook de alguém que é alegadamente, e aqui recorro ao alegadamente por poder não se tratar de uma pessoa real mas de um perfil falso, se bem que com origem facilmente contextualizável, militante do PSD e critica o ainda presidente do partido com a elevação que se pode comprovar.

Rui Rio - Nuno d Orey Brás tapado.jpg

Os gangsters estão lá, as suas qualidades e capacidades comprovadas, e os danos sociais que causam concretizados.

Mas, e o tal benefício potencial que se pode retirar da observação das escolhas que eles fazem e, através delas, a aferição que fazem do carácter dos escolhidos e dos preteridos, a expectativa revelada por eles próprios de quem lhe pode fazer fretes e quem lhe pode fazer frente?

Nesta caso concreto é clarinho como a água. Todos apoiam o mesmo candidato à presidência do PSD, e o candidato que eles apoiam não é o candidato Pedro Santana Lopes. É o outro.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:17
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À bomba

Pois é, apreenderam-me o carro. E está ali, na garagem, sereno e grave, como convém a quem aguarda pacientemente regressar ao serviço do dono e esquecer o convívio do Estado pulha.

 

Talvez pudesse ter sido ontem, mas não, não houve notícias.

 

Porém o dono teve, na sexta-feira passada, uma ideia luminosa: que tal mandar pôr em ordem de marcha o carro anterior, que nunca chegou a vender?

 

Meu dito meu feito. E na verdade com uma bateria nova, umas abraçadeiras e substituição de um tubo de gasolina, o velho Audi, pimpão no seu quase meio milhão de quilómetros, estava ontem ali para as curvas – é o caso de dizer.

 

Haveria que fazer o seguro e a inspecção periódica – desta provação estava o pobre automóvel livre há mais de dois anos.

 

Portanto, telefonema para o corrector, para reavivar a antiga apólice, entretanto cancelada. E resposta compungida: Senhor Fulano, tudo bem mas tem que fazer a inspecção antes do seguro, sem inspecção o seguro não pode fazer-se.

 

Hãa? E como levo o carro à inspecção – sem seguro?

 

Ora bem, talvez arranjando alguém que tenha um seguro de carta, diz o corrector.

 

Feito, já arranjei, para ontem, pagando, que isto ninguém trabalha de graça. Foi pena não ter havido aprovação, por falta daquele colete com que as pessoas se disfarçam de bombeiros, em caso de avaria ou acidente. Os malditos coletes estão no carro apreendido.

 

Estou aqui a pensar que o Estado Socialista talvez ainda tenha conserto – à bomba.

publicado por José Meireles Graça às 16:12
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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

Chega de sono

Desejei à senhora ministra um sono descansado, mas constato com desgosto que Maria Manuel Leitão Marques me tomou ao pé da letra quando apenas pretendi ser simpático.

 

De 13 de Novembro até agora já teria havido tempo, supunha, para consertar a porcaria do sistema informático. E como, ao contrário do prometido, não recebi nenhuma chamada telefónica, lá fui ontem mais uma vez ao Registo Civil do costume a ver se o sistema aceitava a correcção de morada (correcção, entenda-se, de um erro dos serviços, pela qual já paguei a taxa que me foi exigida, e deslocação necessária em obediência ao ofício que a intima, sob pena de caducidade da alteração em 5 de Janeiro próximo).

 

Tive sorte porque só tinha nove pessoas à minha frente, e mais sorte ainda porque duas faltaram. A delicada senhora que me atendeu repetiu os passos já bem conhecidos de inserir o cartão na maquineta e digitar os códigos obscuros que figuram num dos ofícios que lhe levei; e como a coisa não funcionasse levantou-se e foi repetir a operação na banca de um colega. Nicles.

 

Regressou desalentada, informando que estavam fartos de reclamar mas a situação continuava igual, e que por isso é que não me telefonaram; que o sistema deixava muito a desejar porque com frequência dava mensagens de erro mas não ligavam, iam ver pela porta do cavalo e afinal as alterações estavam feitas; e que no meu caso, como no de outros, a mensagem era a de que havia um problema na internet, pelo que não havia outro remédio senão continuar a esperar, embora a coisa estivesse a ficar preocupante porque a alteração caducava a 5 de Janeiro.

 

Já não conto as horas que perdi, nem os incómodos, nem as despesas. Mas ando desde Setembro para renovar um cartão que não precisava de renovação alguma senão por uma caducidade oportunista e abusiva, e sem o qual, no Estado Socialista, não se consegue viver, a menos que se seja sem-abrigo. E apesar de pagar o que me exigem, e fazer o que me mandam, continuo a patinar.

 

Razões por que te sugiro, Nelinha, que faças uma de três coisas:

 

  1. Acorda;
  2. Demite-te;
  3. Suicida-te.
publicado por José Meireles Graça às 21:24
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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2017

Desventuras de Segismundo

Se eu fosse uma personagem de banda desenhada o autor desenhava-me com ar de guarda-livros, de óculos, careca, um pouco sobre o gordo e de meia-idade.

 

Se a acção se iniciasse de manhã com a personagem, chamemos-lhe Segismundo, a sair de casa, aparecia com os olhos inchados e meio fechados, em particular o esquerdo; e sobre a cabeça uma nuvem escurenta pairava, cheia de raios e coriscos.

 

Segismundo guiava, sem pôr o cinto de segurança, até à bomba de gasolina distante aí uns 500 metros, parava à porta da casinha, por onde irrompia resmungando um bom dia! pouco convincente, para ouvir a funcionária dizer, como diz sempre: Bom dia sr. Segismundo. Dois e um?

 

Isto é um código, e destina-se a confirmar um laço de cumplicidade criativo de uma barreira contra outros clientes que porventura estejam no estabelecimento, carentes do privilégio de a empregada saber antecipadamente o que querem, no caso dois maços de tabaco e um café.

 

Na televisão, ligada todo o santo dia demasiado alto, Gouxa àquela hora grasnava e Cristina não-sei-quê gania; e Segismundo sabia de ciência certa que no outro café, na vilória de destino, onde dentro de meia hora emalaria mais três cafés de enfiada, veria ao cabo deles as mesmas duas personagens numa televisão igual, mas com olhos de respeito por quem tanto trabalha, espanto pelo novo fato de Manuel Luís, que o muda todos os dias, distraída admiração pelas coxas de Cristina, que graças a Deus as conserva sempre iguais, e compreensão pelos milhares de donas-de-casa a quem aqueles chilreios inanes aliviam a maçada das tarefas matutinas.

 

O dia de anteontem foi porém diferente para Segismundo. Porque na rotunda 200 metros acima estavam dois cobradores de impostos na versão guardas nacionais republicanos, e um deles mandou-o encostar, evidenciando alguma suspeita excitação. Segismundo preparou a carta de condução e o cartão de cidadão e abriu o porta-luvas e o vidro para ouvir um simpático jovem dizer, ao mesmo tempo que pegava nos documentos já disponíveis: Bom dia sr. condutor, posso ver os documentos da viatura?

 

Aberta a pasta onde se encontravam, quis apenas o documento único, que era aliás o primeiro. E com ele foi conferir os selos que estão no para-brisas, após o que regressou para dizer com bons modos e usando o sobrenome de Segismundo, ao contrário do que os seus colegas costumam fazer, que havia um problema.

 

Havia, ai.  E após demorado exame dos vidros e dos números que lá se encontram gravados, Segismundo foi confrontado com a informação de que aqueles estavam recobertos por uma película escurecedora que não estava homologada, coisa que aliás o senhor condutor podia confirmar na viatura da GNR onde um ominoso PC atestava com uma série de números incompreensíveis que, de facto, aquela alteração não constava da ficha de não sei quê. Razão pela qual era devida uma multa de 250 euros.

 

Segismundo não conta nas suas numerosas qualidades a de um excessivo respeito pelas cominações das autoridades. E mansamente inteirou o agente da sua perplexidade: se as coisas eram assim, como se compreendia que ainda há poucas semanas a inspecção periódica obrigatória tivesse, a troco de uns modestos trinta e poucos euros, certificado o mais completo respeito do veículo pela legislação aplicável? Tanto mais que a própria GNR, na falta do selozinho que certificava aquela conformidade, aplicava uma multa de 250 euros? Não não, Segismundo não pagava, ia reclamar.

 

O agente declarou com desgosto que realmente aquelas entidades que fazem a inspecção deixavam a desejar, parecendo ignorar a legislação; e que ele, agente, discordava que fossem entidades privadas com aquela missão porque não tinham interesse em afugentar o inspecionado que, se incomodado, da próxima ia a outro centro. Isto não obstante, informou melancolicamente, também lhe parecer que, se fossem públicas, se calhar o resultado não seria muito melhor.

 

A Segismundo neste ponto começou a parecer que o agente, com o qual já estava favoravelmente impressionado, destoava bastante do ordinário dos seus colegas, que tendem a lembrar por demais a digna enxada que nunca deveriam ter largado. E por isso lançou-se numa amena troca de impressões, com o fito de apurar até onde ia a lucidez do moço.

 

Não ia muito longe: confrontado com a informação de que, em países como os Estados Unidos, os vidros fumados eram usados frequentemente e muito mais escurecidos sem que isso fosse considerado uma grave quebra de segurança, retorquiu que os polícias americanos tinham muito mais poder, num salto de raciocínio lógico que não pôde acompanhar. E como o senhor condutor tinha a declarada intenção de não pagar mas discutir, informou o diligente militar, teria que apreender a viatura.

 

Seguiu-se a emissão do auto de contraordenação, do auto de apreensão do veículo e da guia de substituição de documentos, esta válida por 24 horas.

 

Segismundo, com a manhã quase esgotada com estas actividades, foi trabalhar como de costume; e, a seguir ao almoço, levou o automóvel ao concessionário para efeitos de remover as películas em questão.

 

Foi um trabalhão, e o solícito mecânico informou prescientemente que o veículo iria ficar a cheirar a diluente, por causa da remoção da cola. Ficou. E quando o cheiro desaparecesse haveria ainda que desmontar o vidro de trás, visto que o serviço não tinha ficado perfeito por causa da resistência eléctrica – fumado já o vidro não estava mas tinha uns teimosos restos de cola.

 

A operação custou a ninharia de 102,09 euros.

 

Restava portanto ir levantar os apreendidos documentos a Braga, ao IMTT, se aquele prestigiado departamento os entregasse sem o pagamento da multa, pormenor sobre o qual os extensos textos das notificações, redigidos em legalês de funcionário, deixavam pairar uma dúvida angustiante.

 

Entretanto o concessionário em pessoa, inteirado destes sucessos, achou toda a história obscura. E, inquiridos os serviços por causa da falha que de algum modo lhes era imputável, veio o esclarecimento de que não apenas os vidros em questão estavam perfeitamente legais como inclusive dispunham do respectivo certificado de homologação.

 

Como porém a viatura já não pudesse circular, sendo Segismundo fiel depositário e guardando-a em nome do Estado na sua residência, pessoa amiga prontificou-se a inquirir junto do organismo como proceder.

 

Bem, uma coisa ficou certa, e essa é a de que os documentos lá não estão, só talvez para a próxima terça-feira.

 

Neste ponto da história o autor não sabe bem que saída haverá de dar à embrulhada em que Segismundo se meteu e requer o concurso dos leitores pacientes. Pergunta-se:

 

Deve Segismundo pagar a multa?

 

Se sim, e se mesmo assim reclamar, pode ter alguma esperança de recuperar o que pagou?

 

Se o concessionário tiver, como parece, razão, a remoção das películas tornou o veículo desconforme com a homologação. Não implica isso que um outro zeloso agente autue e apreenda por os vidros terem ficado brancos?

 

Nestes dias em que Segismundo usa um veículo emprestado, quem o indemniza pelo favor que fica a dever e pelo transtorno de se deslocar num desportivo que lhe dá cabo das costas? E quem o vai ressarcir das despesas na oficina, das perdas de tempo e dos transtornos escusados?

 

Deve Segismundo, que tem o vício de escrever, fazer doravante textos acerbos sobre o estado a que o Estado chegou no seu afã de angariar receitas de qualquer maneira por processos desonestos e abusivos que o desprestigiam, apoucam os agentes da autoridade que têm que agir como esbirros de uma quadrilha de ladrões, e degradam a cidadania?

 

Estas as dúvidas excruciantes do autor.

publicado por José Meireles Graça às 20:34
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A afeição da esquerda pelo Estado

2017-11-30 AR bancadas esquerda.jpg

Num país em que morrem atropeladas pessoas a fugir de incêndios em cadeiras de rodas torna-se muito fácil interpretar o sentido de a maioria parlamentar obtida pela soma das minorias que perderam as eleições legislativas ter garantido que os dirigentes da Autoridade Nacional para a Protecção Civil continuarão a ser escolhidos pelo cartão do partido e não por concurso, e que os herdeiros das vítimas terão que pagar o IMI das ruínas das casas delas, mesmo que as casas tenham sido destruídas pelo fogo.

É a possibilidade de capturar o Estado para dar empregos a amigos e extorquir dinheiro aos mesmos cidadãos que abandona à sua sorte quando estão em perigo que sustenta a afeição da esquerda pelo Estado.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 17:45
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Sábado, 25 de Novembro de 2017

Ao pé da porta

Os telejornais, as redes sociais, as entrevistas de rua, a rapidez de reacção, a simpatia, a efusividade e as indignações encontram-se entre as piores pragas da política contemporânea.

 

Entendamo-nos: dos telejornais não se pode esperar muito mais do que as notícias do dia editadas a correr, os atropelos ao português, a absurda preponderância do tempo dedicado às trincas e mincas do futebol, o enviesamento governamental e de esquerda do alinhamento, ou a prevalência da faca e do alguidar, consoante os canais.

 

Está muito bem assim. E estaria melhor, sem corrigir um único destes vícios, se não existissem canais sustentados pelos contribuintes, porque nunca a televisão pública se distinguiu da privada senão por nos, aos contribuintes, custar dinheiro.

 

Vozes autoritárias e intervencionistas têm ideias claras sobre o que a televisão deveria ser, e estão dispostas, a golpes de organismos públicos e decretos-lei, a conformá-la de modo a aprimorar o gosto, garantir a independência, promover os valores que cada tribo acha deveriam ser os da grei, e de modo geral fazer uma televisão de qualidade, que consiste quase sempre em ignorar o que o patego do espectador quer e impingir-lhe o que se acha que ele deveria querer, com o louvável intuito de educar as massas e, de caminho, sustentar artistas sem mercado e lisonjear o poder do dia.

 

Já eu quereria que não houvesse canais públicos, nem ERC, nem limitação do número de canais que não decorresse de considerações técnicas de disponibilidade do espectro, nem processos obscuros de rateio de publicidade e de concessão de entrevistas; e apreciaria que os canais, em vez de serem alegadamente isentos e equidistantes, assumissem com clareza as suas simpatias e os seus parti-pris, políticos e outros.

 

As redes sociais são os gigantescos cafés e tertúlias da contemporaneidade; e nelas se forma, no meio do griteiro e do vozear com frequência asneirento de todos os que até ao advento delas estavam reduzidos ao silêncio, boa parte da opinião pública. São isto; e são também o que João Pires da Cruz diz aqui.

 

Está bem assim, e estaria melhor se o puritanismo americano e os poderes governamentais não exercessem explícita ou encapotadamente um controle de contornos nem sempre evidentes.

 

Qualquer jornalista acha normal, e mais do que isso de sua obrigação, agredir um político ou famoso ou vítima de qualquer coisa com um microfone que lhes põe debaixo do nariz, fazendo a pergunta estúpida, ou indiscreta, que julga que a opinião pública precisa de ver respondida.

 

Também está bem assim. Salvo que enquanto os famosos apenas o são quase sempre por exporem a sua intimidade para disso tirarem dividendos, e portanto renunciam ao direito à sua privacidade, já seria o tempo de os anónimos começarem a maltratar jornalistas atrevidos, dando-lhes com o microfone na cabeça em vez de exibirem um sorriso alvar para as câmaras; e que os políticos, em vez de coonestarem a falta de educação e maneiras do quarto poder, teriam talvez a ganhar em gravitas se se dessem ao respeito não malbaratando as suas palavras pelo hábito de as proferirem, sem estudo nem preparação, a torto e a direito e em qualquer lugar. O exemplo acabado entre nós desta modernidade pateta é Marcelo, e certamente tem ganho muito em popularidade em aliviar-se de inanidades que sublinha com um sorriso de plástico e uma solidariedade de fachada. Mas falta demonstrar que aquela resista a ventos adversos, se for chamado a tomar decisões grávidas de consequências; e nem a autoridade da presidência, nem o bem da comunidade, ganharam até agora um vintém com o exercício festivo do múnus presidencial popularucho.

 

Fenómeno estranho: existe hoje uma indústria da indignação, com especialistas, publicações dedicadas e meios de comunicação social atentos. Basicamente, do que se trata é sempre da luta do fraco contra o forte, do pobre contra o rico, do indefeso contra o poderoso, do puro contra o poluidor, do pacífico contra o violento, em suma, do inocente contra o culpado.

 

E como toda a gente aprecia imaginar-se virtuosa e encontra satisfação em diluir-se na massa dos bons, vagas sucessivas de indignações percorrem o país ou o mundo. A esquerda, de modo geral, é campeã a lançar ou cavalgar a maior parte destas ondas porque lhe pertence, e não à direita conservadora e antropologicamente céptica, o monopólio do amanhã das sociedades perfeitas; e porque o contraste entre o que, quando está no poder, consegue, e o que promete, necessita da designação permanente de inimigos, culpados e bodes expiatórios.

 

Vai por aqui uma grande amálgama, porque o que eu queria era falar da transferência do Infarmed para o Porto.

 

A decisão de o transferir é uma idioteira de tal modo gritante que espanta que tenha defensores.

 

Fica o Infarmed mais barato se sair de onde está? Não, fica mais caro porque nem tudo pode ser transferido (parece que tem um laboratório onde se enterraram milhões, o qual evidentemente tem de permanecer) e a separação física de centenas de quilómetros entre pessoas pertencentes ao mesmo organismo ocasiona despesas escusadas. As empresas que precisam do Infarmed ganham alguma coisa se deixar de estar em Lisboa? Não, e de resto nem se pronunciaram nem ninguém curou de saber ou de as inquirir. A transferência pode fazer-se sem custos significativos? Não, não pode, e mesmo que não se tenha, como eu não tenho, uma excessiva preocupação com os interesses dos trabalhadores, a convulsão decorrente da transferência origina por si um custo humano que tem consequências negativas no funcionamento. Foi isto ponderado? Não, não foi. E a instalação no Porto é coisa barata? Não, não é: transferir e instalar mesmo que apenas uma parte de um organismo que tem quase 400 (!) funcionários  custa por si uma tal fortuna que, se houvesse juízo, o Infarmed teria de homologar um novo analgésico mais potente para as dores do contribuinte, um antipirético para a febre de indignação que assaltaria as pessoas conscientes e viagra cerebral para Costa e a sua entourage, a ver se espigam.

 

E então como é que se liga o longo introito das pragas que assolam a política e esta decisão de transferência?

 

Parece óbvio que Costa se precipitou ao anunciar a candidatura do Porto, e não Lisboa, na sequência de uma série de trapalhadas, todas inexplicáveis, a sede da Agência Europeia do Medicamento. E precipitou-se, como se precipita sempre, para aparecer no telejornal a uma luz favorável depois da barulheira que no Norte se estava a desenhar porque o vaidoso presidente de câmara local acha com razão que não é preciso muito para assoprar as brasas do bairrismo tripeiro, aliás com fortes e boas razões de queixa. As redes precisavam também de ser desarmadas, a patrulha do PS não é suficiente para as encomendas. E como a tal agência foi parar a Amsterdão, antes que se pusesse em causa o empenho das autoridades, e antes que ficasse a nu o amadorismo da operação, convinha dar um verniz de respeitabilidade ao conjunto do asneirol, fazendo crer que a regionalização, ou desconcentração, ou lá como se chama o processo de transferência de poderes para as regiões, era o verdadeiro motivo da ideia peregrina da mudança do Infarmed.

 

António Costa foi rápido desde o princípio. Mas depressa e bem há pouco quem. E ainda há menos, e certamente não ele, quem tenha uma ideia do interesse público que não coincida todos os dias com o que a volúvel opinião pública acha que se deve ou não fazer.

 

Isto se a história não envolver combinações obscuras com Rui Moreira e cálculos mesquinhos do que o eleitor portuense poderia ficar a pensar do governo geringôncico.

 

É possível que vá para o Porto alguma coisa, para fingir que Moreira sabe bater o pé e que a regionalização não é uma letra morta; ou pode acontecer que o assunto fique esquecido por ser substituído por uma nova indignação a respeito de outra irrelevância qualquer. Veremos.

 

O que não veremos, e aliás ninguém pergunta, é por que razão, se já existe uma agência europeia, cuja sede vai deixar de ser em Londres e que tem um orçamento de 322 milhões de euros para 113 milhões em despesas com o pessoal (2016), é necessária uma filial portuguesa com quase 60 milhões de euros de receita em 2016 e mais de dez milhões de despesas com o pessoal.

 

É que a receita destes elefantes vem da indústria do medicamento, o que significa que são os doentes que a pagam. E mesmo, como é provavelmente o caso, que estes organismos sejam indispensáveis, cabe perguntar se em Portugal se justifica um tal mastodonte ou se não será mais outra avantesma obesa e antro de parasitas do contribuinte, como é o banco de Portugal, este intocável por ser uma filial do BCE, o anjo da guarda do nosso desregramento financeiro.

 

Perguntas espúrias, claro. Que o que nos anima é saber exactamente se os nossos recursos são torrados na capital, parasitária por antonomásia, ou ao pé da porta, mesmo que neste último caso o esbulho fique ainda mais pesado.

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publicado por José Meireles Graça às 14:41
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Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017

Barjona de Freitas

Barjona de Freitas tem avenidas em Lisboa e Vieira do Minho, e ruas em Barcelos, Cabeceiras de Basto e Penacova. Em Cabeceiras de Basto tem também um largo, e uma travessa em Penacova, mas em Coimbra, de onde era natural, não tem nada - pelo menos é o que se retira do google maps.

 

Em Lisboa, aliás, a avenida é uma ruazeca ali para os lados de Benfica, que vai dar à rua Conde de Almoster, este uma personagem ao que parece ilustre sobretudo por se ter dado ao trabalho de nascer.

 

Barjona de Freitas foi o pai da abolição da pena de morte e a sua ausência de popularidade e notoriedade compreende-se: ainda hoje não é certo que a maioria da população, se consultada, não fosse a favor da restauração daquela pena, sobretudo se ao cabo de uma campanha em que a imprensa, e a televisão, bombardeassem todos os dias a opinião pública com os pormenores escabrosos de quanto assassinato ominoso se comete, em Portugal como em toda a parte.

 

E daí talvez não. Que os crimes da moda não são bem os mesmos do séc. XIX. Dantes, os crimes eram contra a propriedade e contra a integridade física das pessoas, mas agora são mais a corrupção, a evasão fiscal, o racismo e a violência doméstica.

 

Para estes é que se reclamam os furores do Código Penal, para estes é que existem polícias especializadas: a Autoridade Tributária tem poderes inquisitoriais, que incluem a inversão do ónus da prova e a impossibilidade prática de quem não tenha meios de se poder defender em tribunal; a corrupção pode dar origem a penas demenciais, como os famosos 17 anos do sucateiro Godinho; gente paga com dinheiro do contribuinte atroa os ares com acusações generalizadas de racismo, e em lado nenhum figura o direito a ter, e manifestar, ideias racistas, embora se possa, com inteira liberdade, defender ideias comunistas, ou que a terra é plana, ou que a ida dos americanos à Lua foi uma invenção da CIA; e o cidadão a quem roubaram o automóvel ou estroncaram a cabeça vai para o tombo geral dos queixosos, mas se a cabeça em questão tiver sido objecto dos cuidados do cônjuge tem direito a uma secção especial da PSP.

 

Mundo admirável este, em que as cadeias continuam cheias mas crescentemente de gente que infringiu a modernidade.

 

Seja, cada época tem direito à sua galeria de brutidões e patetices, até ao tempo em que as substitui por outras. Mas no vaivém das leis penais havia um progresso civilizacional que consistiu em eliminar a tortura como método de investigação; em admitir que a necessidade de prevenção geral não se deve realizar com penas infamantes, nomeadamente corporais; em partir do princípio que todo o acusado se presume inocente até prova em contrário; e em concluir que os presos perdem a sua liberdade, ao cabo de uma sentença transitada em julgado, mas não a sua dignidade humana.

 

A inversão do ónus da prova em processo fiscal foi uma inovação demoníaca, por se partir do princípio que pena é apenas a privação da liberdade. Ficar um cidadão sem parte ou a totalidade do seu património, quando o ladrão seja o Estado, não é uma pena, e portanto para se defender do esbulho o assaltado tem que provar tudo, e o ladrão não tem que provar nada.

 

Por ela foi entre nós responsável o celebrado Paulo Macedo, com a geral e cobarde aquiescência dos poderes da época, e o aplauso da massa dos cidadãos. Estes foram convencidos de que as vítimas de tais processos seriam os ricos, de cujos bens o Estado, e portanto eles, se apropriariam, com o inerente aliviar da carga fiscal, que todavia nunca se materializou.

 

Foi um retrocesso civilizacional, desde logo porque desequilibrou a relação entre o Estado e o cidadão: se aquele, com todos os meios ao seu dispor, não consegue provar que o cidadão fez, como se espera que este consiga provar que não fez?

 

A opinião pública aceitou isto, e o que seria natural vindo de um comunista passou por razoável por o governo da época ser democrático e o Paulo em questão passar por social-democrata. Os sucessores, por sua vez, com a gritante, e incompreensível, saliência de Paulo Núncio, aprimoraram ainda os requintes dos processos da Santa Inquisição, agora denominada Autoridade Tributária, reforçaram os poderes dos familiares do Santo Ofício, agora denominados inspectores, e acabrunharam os direitos dos judeus, agora designados, para efeitos de geral opróbrio, como evasores fiscais.

 

Neste clima geral talvez não seja surpreendente que tenha quase passada despercebida a notícia de que para a alimentação de cada recluso estejam previstos para 2018 um euro e trinta cêntimos por dia.

 

Ninguém se escandalizou por a ministra ter dito que a alimentação não seria tão boa como a que existe à disposição dos senhores deputados no Parlamento, num acesso de piadismo tão mais frequente quanto menos os ministros são oriundos das bancadas, e ocupam os seus lugares em homenagem à competência técnica que quase sempre se revela imaginária.

 

Claro que a diminuição de verbas é apenas mais uma manifestação do negócio abjecto de cortar nas despesas do Estado para poder contentar as multidões de funcionários e pensionistas, cujos advogados são o PCP e o Bloco.

 

E não duvido nada que, se o caso chegasse às redes sociais em forma de escândalo, vozes virtuosas se levantariam a dizer que se cidadãos inocentes morrem em incêndios porque o Estado cortou nos meios de defesa (não foi sobretudo isso, claro, mas não sou eu a dizer) e se cada vez mais “utentes” do SNS morrem à espera de operações, ou simplesmente infectados por falta de manutenção dos equipamentos, então os presos bem podem rebentar de fome – não fazem cá falta nenhuma.

 

É, não fazem falta, o que faz falta é animar a malta, como dizia o outro. Bem vistas as coisas, o tal Barjona não se lembrou que um dia haveria comunistas no governo, e lentamente a civilização começaria a fazer marcha-atrás.

 

Dever-se-ia ter lembrado. Porque no seu tempo comunistas não havia. Mas já havia maçãs podres e estas, já então, faziam apodrecer as restantes quando no mesmo cesto.

publicado por José Meireles Graça às 21:27
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