Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Os trabalhos do Pedro Passos Coelho

Estas linhas destinam-se a uma espécie em vias de extinção, a fazer fé na generalidade dos jornalistas e comentadores de quase todos os jornais e canais de televisão, incluindo os que foram dirigentes e até presidentes do partido mas deixaram de o ser por, entre outros motivos, nunca teram conseguido ganhar eleições legislativas, os militantes, dirigentes e eleitores do PSD. Se já não houver nenhum entre os leitores, há pelo menos este que as escreve.

Está em plena execução uma campanha mediática com exactamente o mesmo objectivo, remover a liderança de um partido incómoda para os autores da campanha, o mesmo alvo, os militantes, dirigentes e eleitores desse partido, o mesmo argumentário, sugerir fragilidades e isolamento dessa liderança para sustentar a ideia que ela não é suficientemente forte para ganhar eleições apesar de as ter ganho sempre até aí, os mesmo actores, jornalistas e comentadores notáveis de diversos partidos e has-been e adversários internos do mesmo partido, todos unidos no incómodo que o sucesso do dirigente a remover lhes proporciona, e os mesmos meios, uma série conhecida de jornais e canais de televisão que dão palco aos actores, que a que foi montada, e resultou, para derrubar o anterior líder do PS António José Seguro e o fazer substituir pelo actual, o António Costa. E o mesmo autor, o mesmo António Costa que, na altura, tinha deixado o Seguro fazer sozinho a travessia do deserto de uma legislatura na oposição e construir uma alternativa credível ao governo e estava na altura de colher os frutos antes que ele mesmo os colhesse, e agora perdeu as eleições e preferiria disputar as próximas contra um adversário a quem as consiga ganhar, e até tem uma proposta bem definida nesse sentido. O objectivo da campanha, os leitores já identificaram, é a remoção e substituição do Pedro Passos Coelho como presidente do PSD.

A campanha contra o Seguro resultou, apesar de ele ter ganho todas as três eleições a que o PS concorreu enquanto foi liderado por ele, duas delas de âmbito nacional, as autárquicas de 2013 e as europeias de 2014, e o PS, infectado pelo receio de que ele ser incapaz vir a ganhar as legislativas de 2015, substituiu-o em eleições directas pelo Costa, que depois as veio mesmo a perder.

A campanha actual, lançada pela equipa do Costa ainda antes das eleições legislativas ao identificar como seu adversário preferido no PSD o Rui Rio, para além da participação natural de agentes da política, do jornalismo e do comentariado dos adversários políticos, envolve inimigos políticos na definição de Winston Churchill, os do próprio partido, inúmeros figurões do PSD incluindo a maioria dos antigos presidentes do partido ainda vivos, começando pelo Pinto Balsemão com a sua máquina de propaganda declaradamente criada para vender presidentes como se fossem sabonetes, se bem que nunca o tenha conseguido vender a ele como presidente, o doutor Rebelo de Sousa, que tem usado todo o magistério de influência que as actuais funções colocam à sua disposição para louvar e defender o primeiro ministro e criticar e menorizar o líder da oposição, a Manuela Ferreira Leite e a sua facção, incluindo o Pacheco Pereira, o mais esforçado detrator do Passo, e o Rio, o mais interessado na substituição dele por si próprio, e até o Marques Mendes no seu programa semanal de divulgação de mexericos da política. Dos ex-presidentes vivos, só se têm matido de fora da campanha o Cavaco Silva, que ganhou três eleições legislativas, o Durão Barroso, que ganhou umas, os únicos ex-presidentes do PSD vivos que, tal como o Passos por duas vezes, ganharam eleições legislativas, e o Santana Lopes e o Luís Filipe Menezes, que nunca ganharam nenhumas, tal como todos os que participam na campanha.

Mas a campanha tem o handicap do dejá vu que filtra os que caem nela segundo o princípio da ciência das campanhas na primeira caem todos, na segunda só cai quem quer.

Mesmo assim, e apesar de o Passos ser, lado a lado com o Sá Carneiro e o Cavaco, o único presidente do PSD que conseguiu ganhar segundas eleições legislativas depois de ter governado, e em condições de submissão a um programa de assistência financeira externa incomparavelmente mais duras do que aquelas em que eles tinham governado, a campanha actual tem conseguido inocular alguma dúvida entre militantes, dirigentes e eleitores do PSD, para além, obviamente, dos que participam nela de alma e coração por pretenderem devorar o cadáver se ela resultar, sobre a sua capacidade de ganhar eleições legislativas. E por três razões:

  • As sondagens, que dão vantagem sistemática ao Costa e ao PS, nalgumas delas suficiente para formar maioria com apenas o apoio parlamentar do BE, noutras poucas próximo da maioria absoluta.
  • A aparente inabilidade política do Passo, ou indisponibilidade para fazer demagogia, que parece afugentar eleitores que, com um bocadinho mais de manha, seria possível reter ou conquistar.
  • A aparente passividade do modo de estar e fazer oposição do Passos, que a alguns chega a parecer saudosismo ou ressentimento por ter sido afastado do governo apesar de ter ganho eleições, e inaptidão para recuperar a maioria a partir da oposição. 

Todas estas razões são importantes e têm indícios a sugeri-las, pelo que todas merecem ser analisadas para perceber até que ponto são mesmo fundamentadas, ou meros enganos que a campanha inocula habilmente nas suas vítimas.

 

As sondagens

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Depois de nas eleições de Outubro de 2015 a coligação PàF ter derrotado claramente o PS, com 38,5% dos votos contra 32,3%, neste primeiro ano de governação socialista o PS tem conseguido recuperar nas sondagens essa desvantagem e ultrapassar, não apenas o PSD, mas até o PSD e o CDS somados, obtendo actualmente uma média próxima de 40% das intenções de voto declaradas contra cerca de 30% do PSD e 7% do CDS.

Esta recuperação de intenções de voto parece sugerir que o governo está a governar de modo popular, e bem, e o PSD está a fazer oposição de modo impopular, e mal, e suscita dúvidas com algum sentido em dirigentes, militantes e eleitores do PSD, que não os que participam na campanha, sobre a capacidade da actual liderança do partido dar a volta a uma desvantagem que já é significativamente expressiva. E tanto mais quanto a ambição do PSD é voltar a governar e, para isso, com a mudança de paradigma operada nesta legislatura em que a esquerda radical passou a estar disposta a apoiar governos do PS e o PS a acolher as exigências que esse apoio lhe custa, tem que conseguir uma maioria absoluta de deputados nas eleições legislativas, pelo menos em conjunto com o CDS com quem consegue tradicionalmente entender-se para formar governo.

Uma análise um pouco mais ponderada revela que a desvantagem actual do PSD (e do CDS) face ao PS não é muito, ou mesmo nada, diferente da desvantagem que teve ao longo de toda a legislatura anterior desde que o programa da troika entrou a doer no bolso dos portugueses, sendo natural que muitos atribuissem as dificuldades por que estavam a passar, não ao governo que tinha mergulhado o país na crise, mas ao que estava a tentar tirá-lo da crise, e que não impediu a vitória da PàF nas eleições de Outubro de 2015.

Uma análise um pouco mais atenta revela que as sondagens em Portugal tendem a convergir para o resultado das eleições apenas nas últimas semanas antes da sua realização, o que parece atestar o rigor e a seriedade das empresas que as realizam, mas a ter resultados muito diferentes até poucas semanas antes das eleições. O que sugere que a predisposição para responder a sondagens não se distribui sempre de modo uniforme por todo o espectro político, parecendo que às sondagens distantes das eleições os eleitores da direita tendem a recusar responder mais que os de esquerda, o que faz os resultados terem um peso exagerado da esquerda face à realidade, e à medida que as eleições se aproximam tendem a aceitar responder, proporcionando resultados bastante fiáveis nas últimas sondagens que precedem as eleições. Ou seja, sugere a existência real de uma maioria silenciosa, até para efeitos de resposta a sondagens.

Revela ainda que, mesmo sem permitir aferir as consequências que poderia vir a ter nas eleições seguintes, até porque ele foi afastado antes de elas ocorrerem, uma campanha de descredibilização como a que foi lançada sobre o Seguro resulta numa violenta queda nas intenções de voto declaradas nas sondagens, como se pode verificar imediatamente a partir do desafio à sua liderança que o Costa formalizou no dia seguinte às eleições europeias de 2014, assinalado pela seta mais à esquerda na figura. Ou seja, demove pelo menos os eleitores dispostos a responder nas sondagens.

Lição? Deduzir dos resultados das sondagens actuais que o PS se prepara para obter uma vitória eleitoral em 2019 e que a actual liderança do PSD é incapaz de o levar à vitória eleitoral é uma previsão de grande risco não sustentada pelos factos verificados em eleições passadas.

 

A inabilidade política

O Passos distinguiu-se em toda a legislatura anterior por fazer o que pensava que era preciso fazer para resolver o gravíssimo problema financeiro, económico e social que tinha que ser resolvido em Portugal, mesmo que isso lhe viesse a custar o apoio de grupos de interesses importantes na sociedade portuguesa e a simpatia dos eleitores e, consequentemente, a reeleição, modo de estar na política que resumiu cristalinamente na frase

  • "Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal".

A frase evidencia uma coragem política rara e o traço de carácter mais nobre que se pode ter na política: colocar os interesses de Portugal e dos portugueses à frente do seu interesse pessoal como político que pretende continuar a ser eleito, e do do partido. Muitos políticos disseram coisas nobres como esta, mas raros foram capazes de ser tão coerentes com este princípio como ele foi. Até porque a coragem política nem sempre é apreciada na política. Na série Yes, minister, quando um dos assessores comentava com o ministro que uma decisão sua mostrava grande coragem política, o ministro tratava logo de a mudar para não correr riscos. Era mesmo o melhor argumento que eles tinham para o fazer mudar de ideias a propósito de qualquer iniciativa dele de que eles não gostassem. O Sá Carneiro definiu a sua posição sobre este tema, correr riscos para lutar pelas suas convicções, com outra frase cristalina,

  • "A política sem risco é uma chatice e sem ética uma vergonha".

Apesar de ter corrido o risco de governar com ética, o Passos Coelho acabou mesmo por ganhar as eleições. Não conseguiu obter maioria absoluta, e por isso foi derrubado no parlamento. A vitória não foi suficiente para o novo paradigma inaugurado pelo governo actual, de que não se consegue governar com maiorias relativas. Mas não deixou de ser uma vitória impossível, a primeira de um primeiro-ministro português ou europeu que teve que governar sujeito a um programa de assistência tão violento, e impondo tanto dano e sofrimento aos portugueses como o da troika. A ética e o risco compensaram.

Mesmo assim, podem-lhe ser apontados alguns excessos de honestidade política que alguns consideraram ingénuos e pensam que lhe podem ter feito perder votos e, desse modo, impedido de obter a maioria absoluta que necessitava para vir a assegurar a sobrevivência do segundo governo. E um dos exemplos que lhes parecem mais gritantes desta inabilidade política foi o anúncio pela Maria Luís Albuquerque em 16 de Abril de 2015, a menos de seis meses das eleições de Outubro, da necessidade de cortar mais 600 milhões de euros anuais na despesa da Segurança Social para assegurar a sua sustentabilidade. O anúncio foi um dos temas mais usados pelos socialistas e por toda a esquerda durante a campanha eleitoral, e ainda hoje continua a ser.

É verdade que se pode dizer a quem aponta ao Passos falhas como esta que não se pode ambicionar ter um candidato que consiga ganhar as eleições por ter um sentido de ética e de risco ímpares, e ao mesmo tempo desejar que fosse um bocadinho demagógico para as ganhar por mais. Isso não existe.

Mas, mais do que isso, vale a pena tentar perceber se, como parece evidente, este anúncio terá mesmo afectado negativamente o resultado das eleições? Sendo impossível de determinar sem perguntar a cada eleitor se deixou de votar na PàF por causa dele, pode-se, no entanto, testar a hipótese olhando para os resultados das sondagens, e para o modo como foram afectados pelo anúncio, que está marcado na figura pela seta da direita. E o que se pode verificar é que o anúncio não alterou em nada, nem os níveis de resultados, nem as suas tendências, que se mantiveram estáveis até ao início de Setembro antes de convergirem para valores próximos do resultado real das eleições. O anúncio provocou grande alarido mediático e a condenação unânime dos do costume, mas não há evidência de ter feito perder votos.

Lição? A honestidade não é tão penalizadora na política como se costuma pensar.

 

A passividade a fazer oposição

Alguns militantes, dirigentes e eleitores do PSD têm manifestado alguma inquietação relativamente ao modo aparentemente demasiado passivo como o PSD liderado pelo Passos tem feito oposição ao PS.

Parece-lhes pouco, nomeadamente, o PSD não desmentir todas e cada uma das mentiras e enganos dos governantes, dos deputados socialistas e dos outros partidos da esquerda, e dos militantes e porta-vozes desses partidos, para não falar de todos os jornalistas e comentadores que participam na sua disseminação, para louvar e justificar as medidas do governo e desculpabilizar os seus insucessos atrás de responsabilidades do governo anterior, não propor permanentemente alternativas para as propostas políticas do governo e da maioria que o apoia, até não mandar para a puta que os pariu os governantes e deputados socialistas que dedicam as suas intervenções no parlamento a fazer piadolas e insultar os dirigentes dos partidos da oposição, a que o Passos normalmente reage levantando-se e saindo da sala em vez de confrontar directamente os seus autores como fez em tempos, por exemplo, o deputado comunista Bernardino Soares, num episódio semelhante com um governante socialista. Parece-lhes pouco, no fundo, o PSD não se deixar orquestrar pela batura do governo e da maioria parlamentar que o sustenta na definição da sua agenda política, e não procurar ganhar no espaço mediático todas as discussões que lhe são propostas e todas as sondagens.

Acontece que, ao contrário do que podia parecer previsível no início da legislatura, até porque a maioria parlamentar exige o apoio permanente do BE e do PCP, partidos com interesses antagónicos, até mais do que posições divergentes, a coligação de apoio ao governo socialista tem-se mantido muito coesa, mesmo quando encena fracturas em domínios especialmente impopulares para os eleitorados de um ou outro dos partidos minoritários em que eles contrariam o governo no parlamento, e basta um deles não o apoiar para o fazer perder uma votação, esperando que a oposição de direita a viabilize, e basta a abstenção de um dos partidos da oposição para a viabilizar, para não haver disrupção na governação. Deste modo conseguem fazer parecer aos seus eleitorados que as medidas populares se devem à sua influência na governação, e as impopulares aos socialistas que eles tentaram sem sucesso demover e à direita que apoiou os socialistas. Para eles é um bom negócio. Para o Costa, que salvou politicamente a pele in extremis quando se preparava para ser esfolado por ter perdido as eleições que tinha prometido ao partido ganhar, e ficou com os negócios públicos à mão de semear para distribuir pelos seus melhores amigos pessoais e políticos, ainda melhor.

Pelo que, a não ser que os partidos de esquerda o decidam e cumpram a decisão, o governo não será derrubado e a legislatura durará os quatro anos até 2019.

Ora, tal como uma maratona não é uma sequência de 421 sprints de 100 metros e um de 95, mas uma corrida contínua que é ganha por quem chega à frente ao fim dos 42.195 metros, uma legislatura de 4 anos não é uma sucessão de vitórias diárias em debates no parlamento e na opinião pública e mensais em sondagens, mas um processo longo e continuado em que o vencedor só é apurado nas eleições legislativas para a legislatura seguinte, no caso actual em 2019.

Mesmo assim, os militantes, dirigentes e eleitores do PSD mais apreensivos têm-se deixado invadir pela dúvida  se a falta de resposta imediata e permanente do partido às provocações e humilhações regulares dos socialistas e dos outros será apenas estratégica, ou se indiciará uma falta de combatividade que, a arrastar-se até ao fim da legislatura, lhe poderá ser fatal nas eleições. Deixavam. Na última semana tiveram direito a três decisões inequívocas sobre a capacidade de afirmação política do Passos como político na oposição:

  • O PSD garantiu que se vai opor à nacionalização do Novo Banco, mesmo que temporária.
  • O PSD negou terminantemente a possibilidade de viabilizar no parlamento a redução da TSU para as empresas que pagam salário mínimo, uma das partes do acordo de concertação social apresentado mediaticamente como um sucesso brilhante da capacidade negocial do governo, apesar de o governo ter oferecido o que não podia cumprir, e também uma das fracturas encenadas entre o governo e os partidos da esquerda para lhes permitir desresponsabilizarem-se da medida, impopular entre os seus eleitorados, contando no entanto com a sua viabilização pelo PSD e o CDS.
  • O PSD desfez qualquer equívoco relativamente à hipótese de apoiar a candidatura da Assunção Cristas à Câmara de Lisboa, que foi uma excelente iniciativa do CDS para marcar território mas foi lançada como facto consumado à revelia de qualquer acordo prévio com o PSD para fomalizarem uma candidatura conjunta, o que faria do eventual apoio do PSD uma mera submissão seguidista à iniciativa liderada pelo CDS.

Estas decisões levantaram um coro de indignação universal que juntou em uníssono todos, de esquerdistas radicais a dirigentes de associações empresariais, de banqueiros a jornalistas, de dirigentes costistas ao presidente da república, de economistas anti-austeritários à aristocracia ressabiada do PSD, de sondagens a centrais sindicais, todos a apelarem ao Passos para dar mais uma vez colinho no parlamento ao Costa em vez de o obrigar a negociar com os partidos que o apoiam o apoio que precisa para concretizar a promessa que fez e não estava em condições de fazer, ou a sugerir-lhe uma candidatura suicida, porque seria facilmente derrotável como candidatura oportunista para ocupar o lugar a prazo até voltar a concorrer a primeiro-ministro nas próximas eleições legislativas, à CML. Todos a apelarem-lhe à coerência para respeitar os seus princípios, que eles detestam, a quebrar o seu isolamento político, que eles sonham promover, e a salvar a credibilidade do PSD, que eles tentam demolir.

Todos? Todos menos os militantes, dirigentes e eleitores do PSD, para quem estes anúncios, e o repúdio generalizado que resulta do receio que eles suscitaram nos adversários e inimigos do partido, foram o sinal que precisavam para acordarem, perceberem que têm mesmo liderança para levar o PSD à vitória que necessita para voltar a governar, e voltarem a galvanizar-se em torno desse objectivo. Ou seja, todos, menos todos os que realmente interessam, que são os que vão estar até ao dia das eleições a lutar pela vitória necessária para afastar esta gente manhosa e ressabiada do poder.

Por uma excelente razão, aliás, ou mesmo duas: esta gente está de má-fé e pretende enfraquecer o PSD, ao contrário do que lhe acena nas sugestões que lhe faz, e tem experiência, não em ganhar eleições legislativas, mas em perdê-las, e é nisso que tem capacidade de lhe dar lições.

Lição? A melhor coisa para eles, para os portugueses e para Portugal, que o PSD e o Passos Coelho podem fazer com os apelos e conselhos desta gente que não vota nem nunca votará neles é agradecê-los e fazer exactamente o contrário do que lhes sugerem.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 21:00
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Sábado, 14 de Janeiro de 2017

The Three Stooges

Há tempos havia decidido não voltar a ver a Quadratura do Círculo, por ter evoluído para um programa de debate entre Jorge Coelho, que apoia o PS, Pacheco Pereira, que apoia o PCP e o Bloco, e Lobo Xavier, que apoia Costa, todos irmanados numa solidária aversão a Passos Coelho e admiração pelo patente génio do trafulha que agora nos pastoreia.

 

Os programas de debate político, salvo os frente-a-frente entre deputados, que repetem os mesmos argumentos já utilizados no Parlamento, transformaram-se em rodas de amigos de onde está ausente qualquer forma realmente diferente de ver a coisa pública. E por exemplo Santana Lopes, outrora o enfant terrible do PSD (PPD/PSD, como diz, não vá alguém julgar que não é contemporâneo das gloriosas lutas do falecido Sá Carneiro), confraterniza semanalmente com António Vitorino, ambos remoendo com deleite o estatuto e os proveitos que as respectivas carreiras políticas lhes garantiram, Santana insinuando às vezes que talvez pudéssemos estar um pouco melhor, e Vitorino garantindo sorridentemente que não senhor, estamos em mãos boníssimas.

 

De debates, os espectadores preferem os sobre os méritos e deméritos de Jorge Jesus ou outra refulgente personalidade do mundo do futebol, e fazem muito bem: sempre vão mobilando o imenso vácuo que lhes habita as cabeças, e o que é facto é que com Costa tá-se melhor, o PCP vela pelos dereitos dos trabalhadores, o Bloco pelos dos transsexuais, e a Europa há-de tomar conta de todos, que nós somos pequeninos e eles não querem cá chatices.

 

Isto é estranho. Que num país que tem a quarta ou quinta dívida pública do mundo, cujo serviço em juros, medido em percentagem do PIB, é, no acabrunhado rol de potenciais caloteiros, o primeiro ou segundo; que sobrevive com crédito e taxas de juros relativamente moderadas apenas porque vive ligado à máquina do BCE, o qual estatutariamente apenas nos apoia porque tem a desculpa de evitar a desinflação, risco que está a dar sinais de ter desaparecido; que cresce raquiticamente; e que segundo os comunistas da Bayer e os genéricos, ambos apoiantes do governo do dia, jamais pagará o que deve, pelo que deve desde já dizer aos credores que vão bugiar, a fim de estes nos continuarem a emprestar, mas sem arrogâncias: seria de esperar que as melhores cabeças não apenas denunciassem o absurdo risco em que o país está mas também se digladiassem, de faca nos dentes, sobre o caminho a seguir.

 

Mas não. O caso do dia é a decisão da Concertação Social que pariu um aborto, que se pode descrever assim:

 

O salário mínimo sobe mais de 5% (27 Euros sobre 530, a que acrescem os 23,00% da TSU - já há um desconto de 0,75% - e aumento do custo de seguro de acidentes); as associações patronais encararam com horror a percentagem, cientes de que nem a situação de inúmeras empresas, nem a do país, nem a taxa de desemprego, nem a de inflação, recomendariam um tal salto; e para dourar a pílula o comissário de serviço da Situação, o celebrado ministro Vieira da Silva, ofereceu um aumento do desconto sobre a TSU, de 0,75 para 1,25%, passando portanto o encargo da entidade patronal a ser de 22,50%, incidindo sobre os salários mínimos pagos, e não os 23,75% que incidem sobre todos os outros. É fantástica a gigantesca baralhada que todas estas cabeças são capazes de produzir, no afã de poderem fingir que estão a concertar.

 

Contas feitas, o que os "patrões" pagam a menos do que pagariam sem a "benesse" são cerca de 3 Euros em 27 (isto é, pagando 22,5% em vez dos anteriores 23%). O que isto quer dizer é que as contas futuras da Segurança Social serão agravadas nesta medida e, portanto, ou o contribuinte futuro suporta a diferença ou, mais provavelmente, os futuros reformados a suportarão, dada a demonstrada insustentabilidade da trajectória das pensões sociais. Com a anuência dos "patrões" portanto, a Concertação colaborou numa pequena vigarice.

 

O que os patrões deveriam ter feito era não chegar a acordo algum, com ou sem descontos de mercearia, e recomendar aos seus associados que se puderem aumentar aos seus trabalhadores sem pôr em risco as empresas o façam, e se não puderem não. Mas isso era se fossem patrões, e não poltrões.

 

Pois bem: Dá-se o caso de os comunistas, desta vez, não estarem dispostos a um arranjo que não é tão penalizador para o patronato como desejariam, além do que começam a ter fortes suspeitas de que, para o PS ganhar eleições, podem eles perder clientela; e o PSD resolveu, e bem, não dar cobertura a mais um episódio governamental da novela "gaste agora, dê-nos o seu voto, e pague depois, quando abrir os olhos". Ora, os três senhores do primeiro parágrafo acham que isto é baixa política por entenderem que, sob pretexto de que o PSD tem o rabo trilhado na matéria, destrilhá-lo seria incoerência. E portanto entendem que, faltando o apoio dos dois pés botos da geringonça, deve a chamada direita suprir a falta.

 

Isto acham eles. Eu acho que tenho livros atrasados para ler, e filmes para ver: parece que estão disponíveis para aluguer episódios dos Three Stooges.

publicado por José Meireles Graça às 01:36
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017

Foi bonita a festa, pá!

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O governo socialista introduziu um algoritmo alternativo às médias obtidas pelos alunos nos exames nacionais para fazer o ranking alternativo das escolas, o indicador Percursos directos de sucesso que serve de base ao Ranking de sucesso que, como o nome indica, evidencia o sucesso do socialismo, neste caso específico no domínio da Educação. Trocado por miúdos, é a percentagem de alunos que completam um ciclo de ensino passando (com dez ou com vinte, é igual) nos exames finais de Português e Matemática desse ciclo sem nunca terem chumbado nos anos intermédios do ciclo.

Neste Ranking de Sucesso a escola secundária pública mais bem classificada no ano lectivo de 2015/2016 é a Escola Secundária José Falcão, em Coimbra.

A escola tem raízes históricas, teve origem no Liceu de Coimbra, um dos primeiros de Portugal fundado em 1836, e por ela passaram as mais ilustres personalidades históricas que estudaram na cidade, e as instalações actuais, construídas nos anos 30 do século XX, estão classificadas como Monumento de Interesse Público. Mas está num estado de conservação deplorável, não tendo sido intervencionada no âmbito do programa de requalificação das escolas, o Parque Escolar, cujo objectivo primeiro e mais nobre é Recuperar e modernizar os edifícios, potenciando uma cultura de aprendizagem, divulgação do conhecimento e aquisição de competências, o que motivou o lançamento pela associação de pais de uma petição com vista à realização urgente de obras que devolvam a dignidade ao edifício e a segurança e conforto aos seus utentes.

Para além das boas intenções subjacentes à sua missão, a criação de condições para melhorar a qualidade e os resultados do ensino nas escolas intervencionadas, o Parque Escolar foi uma festa.

O facto de a melhor escola secundária pública do país, medido pelo critério que o governo socialista considera mais relevante para aferir a qualidade do ensino, estar num estado de conservação deplorável é que, pelo menos, suscita dúvidas sobre a validade da convicção, no entanto aparentemente pacífica, que recuperar e modernizar os edifícios, de facto, potencie uma cultura de aprendizagem, divulgação do conhecimento e aquisição de competências, já que as escolas intervencionadas não conseguiram obter melhores resultados que esta escola degradada, e esta conseguiu obter melhores resultados que as intervencionadas.

Pelos vistos, o Parque Escolar valeu mais pela festa que pela melhoria da educação em Portugal.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 11:33
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2017

Soares para o séc. XXI

O Mário Soares que morreu há dias não me era uma personagem simpática. O meu Mário Soares, que tinha aplaudido num comício no estádio das Antas, o equivalente nortenho do da fonte luminosa, veio com o tempo a gastar o capital de simpatia que a minha juventude dedicou fugazmente ao partido Socialista, primeiro, e depois quase só ao próprio.

 

Por alturas da adesão à CEE já o seu europeísmo feroz me causava urticária; ainda sorri interiormente com a guerra que moveu a Cavaco, um político daninho que desperdiçou a oportunidade - o primeiro a fazê-lo - de reformar seriamente o Estado que dez anos de esquerdismo haviam transformado no principal obstáculo ao desenvolvimento do país; e mesmo antes de lhe conhecer o lado obscuro e ainda por explicar das negociatas de Macau e outros lugares já via nele o socialista típico, capaz de fazer tudo e o seu contrário para comprar votos com o expediente de imprimir dinheiro, podendo, e de pedir emprestado quando tal prática deixou de ser possível.

 

Como disse, por exemplo, aqui, Mário Soares "declinou na sua importância com a adesão à CEE, já tinha cumprido a maior parte do seu papel quando chegou a Presidente da República, e morreu no fim do seu segundo mandato. Os episódios das candidaturas falhadas a presidente do Parlamento Europeu (cuja concorrente insultou) e de novo à Presidência da República, aos 80 anos, fazem parte da decadência".

 

Resta porém que num momento crucial da nossa história esteve à altura; e não é nada certo que se não fosse ele teria sido outro qualquer. Outro qualquer, por exemplo Sá Carneiro, não teria conseguido federar todas as aversões ao Partido Comunista, por lhe faltar a aura de esquerda e de combatente anti-salazarista; e outro qualquer socialista, por exemplo Salgado Zenha, não teria a lucidez, nem a determinação, nem a vontade, nem a lata, de ao mesmo tempo defender o socialismo, as nacionalizações, a Constituição e toda a parafernália da revolução, então cara a uma parte significativa do eleitorado, enquanto curava de granjear o apoio da Igreja Católica, dos seus amigos da Internacional Socialista, dos Estados Unidos e do povo do Norte, que abominava os vermelhos.

 

Ganhou. E por ter ganho posso, e pude sempre, tranquilamente aliviar-me destas opiniões e doutras que me dê na veneta, na certeza de que não corro quaisquer riscos.

 

Talvez venha a ser preciso, se Rui Ramos tiver razão, um Mário Soares, de direita, para o século XXI. Por mim, estaria disposto a perdoar-lhe a ambição sem freio, a vaidade sem limite, o descaso dos amigos que se lhe atravessem no caminho, o amor dos charutos, das viagens, da boa vida, até mesmo a venalidade, se a ela ceder, desde que nas ruínas da UE, no naufrágio do Euro, e no oceano da dívida, preserve a liberdade.

 

Existirá esse homem? Porque a circunstância talvez venha.

publicado por José Meireles Graça às 13:32
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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

Noutros palcos

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O primeiro-ministro António Costa foi para a Índia pôr a render politicamente as suas raízes étnicas.

O guião consiste em encantar os indianos como o menino prodígio que chegou ao ocidente e se tornou primeiro-ministro, e encantar os portugueses como o primeiro-ministro que trouxe do oriente ouro, incenso e mirra na forma de exportações, investimento, competências tecnológicas e imigração dourada. Tanto uma como a outra parte do guião são ficcionadas, porque ele nem da parte oriental de Lisboa provém, e isto sem entrar na deselegância de comentar o modo como ele ascendeu a primeiro-ministro quando um primeiro-ministro está no estrangeiro em visita de estado, e a Índia está muito longe de precisar de abrir novas portas de entrada no ocidente para a sua economia, actualmente até a Jaguar é uma marca de automóveis pertencente a uma multinacional indiana, mas a ideia de base é boa é um guião inegavelmente bom, e foi a base da superprodução da longa-metragem, de seis-dias-seis de duração, que está neste mesmo momento a ser projectada.

Azar dos azares, mal se iniciou a projecção, faleceu o Mário Soares que, para o bem e para o mal, foi a pessoa mais determinante para o percurso que fizemos nos últimos cinquenta anos da nossa História, e as televisões fizeram zapping da Índia para a superprodução das suas cerimónias fúnebres e foram invadidas por legiões de entertainers a dizerem coisas mais para se fazerem recordar do que para recordar o falecido e a participarem em concursos de disparates onde muitos socialistas e parceiros de percurso se têm distinguido pela sua capacidade ímpar, se bem que já conhecida e reconhecida, de os dizer, pelo que seria injusto destacar nomes. E, entre as reacções iniciais, as cerimónias propriamente ditas, e o rescaldo que se seguirá, os seis dias de antena em que era suposto assistirmos em directo às maravilhas e realizações da visita do António Costa à Índia vão ser ocupados com o funeral do Mário Soares.

Ou por sentir que o dever não lho permitiria, mesmo que vontade não lhe faltasse, ou por mero calculismo político para não deixar fugir a oportunidade de facturar os resultados potenciais da visita à Índia, o António Costa decidiu manter o programa da visita em vez de regressar e protelá-la para outra ocasião ou de a interromper, nem que fosse por um dia, para vir ao funeral. Preferiu manter a sua participação como protagonista na superprodução da visita à Índia que passa no canal Arte, que quase ninguém vê, em vez de aceitar um papel de actor secundário na do funeral do Mário Soares que passa na CM TV, que quase toda a gente vê. Onde aceitou, no entanto, fazer uma breve aparição como artista convidado através do Skype.

Não sei se fez boa escolha. Nem me interessa. Entre os disparates que ele tem uma capacidade inegável de dizer e os que a generalidade dos outros socialistas e compagnons de route têm dito, venha o diabo e escolha. Por mim, até podia ficar na Índia.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 10:57
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Sábado, 7 de Janeiro de 2017

O Ministro das Finanças já tem sucessora

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O Ministro das Finanças Francisco Anacleto Louçã fez duas importantes comunicações ao país esta semana.

  • Na primeira, anunciou que o Novo Banco vai ser nacionalizado, medida que suscitou apoio entusiástico generalizado, incluindo o da família Espírito Santo, da secretária de estado das finanças Manuela Ferreira Louçã, e do presidente do maior partido da base de apoio do governo bloquista Carlos César. Este medida permite isentar os bancos que operam em Portugal de terem que reembolsar o empréstimo de 3.900 milhões de euros que o Estado fez ao Fundo de Resolução de que eles são titulares e por cujas respponsabilidades respondem, confirmando a carta de conforto que já lhes tinha sido anteriormente anunciada pelo porta voz do ministério Mário Centeno, que já os isentava do risco de virem a ter que fazer contribuições extraordinárias para o fundo, e dá aos contribuintes a oportunidade de serem eles a salvar mais um banco com o seu próprio dinheiro, deste vez pelo custo muito em conta de apenas 390 euros por português, pouco mais de mil euros para uma família de três pessoas. Uma pechincha!
  • Na segunda, designou como sua sucessora no Ministério das Finanças da República Socialista Soviética de Portugal a sua ghost writer e sucessora na linha dinástica bloquista Mariana Mortágua. Ficará com a incumbência de conduzir a renegociação da dívida quando ela se tornar impagável, objectivo para o qual o governo tem focado todas as suas capacidades e competências com resultados cada vez mais inegáveis.

Estão ambos de parabéns, e estamos nós.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:27
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

O milagre da gravata

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O Bloco de Esquerda insurgiu-se desde sempre contra a utilização de dinheiro público para salvar bancos.

(Eu sou do tempo em que ser de esquerda era ambicionar uma sociedade onde a miséria fosse, se não erradicada, pelo menos minimizada na medida do possível, onde não se passasse fome e as pessoas pudessem viver em condições de higiene e salubridade minimamente decentes e ter acesso a tratamentos na doença e à educação, se tivessem vontade e cabeça para estudar. Quis o destino que o modelo de sociedade e de economia que se aproxima mais de possibilitar esta ambição seja o de democracia liberal com economia de mercado e um nível de estado social minimamente sustentável por ela, e eis-me aqui neoliberal de esquerda.

Mais tarde, vim a perceber que ser de esquerda não é ter esta ambição e procurar as soluções que a consigam concretizar no domínio das possibilidades, mas sim exigir que seja o estado, mais do que a regular a economia e os agentes económicos, que somos todos nós, o agente económico que se dedica à produção, desejavelmente em regime de monopólio, dos bens e serviços e, acima de tudo, dos disponibilizados pelo estado social, coisa que em breve fará um século que está provado que não faz nem bem nem com eficiência no consumo de recursos.

Mais tarde ainda, foi-se tornando claro que ser de esquerda já não tem nada a ver com aquela ambição, mas apenas com o controlo da sociedade pelo estado para defender grupos de interesse específicos, que incluem corporações como a função pública e os sindicatos, mas não os mais desfavorecidos e em risco de cair, ou ser impedido de sair, da miséria, que não há sindicatos de desempregados nem de sem-abrigo, em detrimento dos dos que não fazem parte desses grupos de interesses. Isto sem nunca abandonar a retórica, marketing oblige, da defesa dos mais desfavorecidos, que lhe rende votos quando os mais desfavorecidos são também desfavorecidos de lucidez e informação.

E tornou-se também evidente que para se ser verdadeiramente de esquerda é necessário padecer de uma disfuncionalidade cognitiva permanente relativamente à origem do dinheiro colocado à disposição do estado para gastar, ignorando persistentemente que é o dinheiro dos cidadãos passados, quando o estado tem poupanças, actuais, quando se financia com os impostos que lhes cobra, e futuros, quando se endivida para eles pagarem mais tarde, formulando as suas políticas como se o dinheiro caísse do céu. Quem diz caído do céu pode também dizer doado pelas instituições europeias que o vão buscar aos cidadãos europeus, ou por credores que o emprestam sem a preocupação de o vir a receber um dia mais tarde. Dinheiro que há-de aparecer, se Deus quiser.

É este o motivo mais ponderoso para o Bloco de Esquerda ser sempre contra o resgate de bancos com dinheiro público, admitindo que não é necessário porque eles podem ser resgatados com dinheiro caído do céu, ou podem ser deixados falir porque dinheiro caído do céu haverá de compensar os pobres da perda das suas poupanças se o seu banco falir, e um milagre há-de garantir que quem é compensado são apenas os pobres a que recorre na sua retórica e não os ricos.)

No mundo real, quando um banco chega a uma situação de risco de falência, e para evitar o risco de disrupção económica e social que a perda das poupanças e investimentos confiados a esse banco por particulares, empresas e outras instituições teria grande probabilidade de desencadear, resgatam-se os bancos. E resgatam-se por uma de duas vias alternativas:

  • a nacionalização, em que o estado, ou seja, os contribuintes, cobre todas as reponsabilidades do banco e garante o reembolso de todas as poupanças e investimentos que estavam à sua guarda;
  • a resolução, em que se definem as regras que determinam que responsabilidades com depositantes e investidores devem ser garantidas, e a quais deve ser dado o calote, se cria um banco novo para onde estes clientes são transferidos, e se cria um fundo de que todos os bancos são titulares e responsáveis para capitalizar o banco novo de modo a assegurar as responsabilidades com esses clientes, sendo o fundo inicialmente capitalizado com dinheiro emprestado pelo estado, remunerado com juros e para ser mais tarde reembolsado pelos bancos titulares do fundo usando, nomeadamente, a receita da venda do banco novo se ele for vendido, e sendo responsáveis pelo reembolso do resto se a receita da venda não for suficiente.

Na primeira, os contribuintes cobrem todas as reponsabilidades do banco falido. Como aconteceu em Portugal no BPN e no Banif. Na segunda, os contribuintes adiantam aos outros bancos o dinheiro para assegurarem as reponsabilidades que se determina que devem ser cobertas, a juros, e para ser reembolsado por eles. Como aconteceu em Portugal com o BES e deu origem ao Novo Banco.

O Conselheiro de Estado Francisco Louçã acabou de pedir ao governo a nacionalização do Novo Banco. O que significaria desobrigar os outros bancos de reembolsarem o estado pelo crédito concedido ao fundo de resolução, ou seja, fazer serem os contribuintes, e não os outros bancos, a suportar as responsabilidades, seleccionadas de acordo com o critério definido, do BES.

Para quem sempre se insurgiu contra a utilização de dinheiro público para salvar bancos, defender a utilização de dinheiro público em vez de dinheiro dos outros bancos para salvar o Novo Banco é uma grande progressão. Merecia ser nomeado para um Conselho de Administração de um banco, num cargo não executivo para salvaguardar a saúde financeira do banco contemplado, ou, pelo menos, para um Conselho Fiscal.

É o milagre da gravata que passou a usar nas reuniões do Conselho de Estado.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 17:09
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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

A censura só conta quando é feita pela direita.

O Alberto Gonçalves, pessoa que não conheço socialmente a não ser das redes sociais, como aliás boa parte dos amigos mais chegados das redes sociais, e autor de colunas de opinião no Diário de Notícias e na revista Sábado com um sentido de crítica e de humor cáusticos quase sempre dirigidas ao governo e aos partidos de esquerda que o apoiam, com especial incidência sobre os socialistas e os bloquistas que lhe dedicam publicamente um odiozinho especial e se dão ao trabalho de o comentar, acabou de ser despedido do Diário de Notícias, jornal do grupo Global Media presidido pelo advogado Proença de Carvalho.

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Onde era o autor de artigos de opinião mais partilhado nas redes sociais, com uma média superior a mil partilhas por artigo, só aproximada pelo António Barreto.

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Em tempos recuados, o despedimento, depois de ter sido criticado por um ministro, do comentador Marcelo Rebelo de Sousa, particularmente crítico do governo, por um canal de televisão que, aliás, era propriedade de um cunhado seu, motivou a dissolução pelo presidente socialista Jorge Sampaio do parlamento onde havia uma maioria absoluta sólida e estável do PSD e do CDS-PP, que estavam mesmo coligados no governo. Isto pouco mais de um ano depois de o mesmo presidente ter aceitado nomear um primeiro-ministro que não se tinha apresentado como candidato a primeiro-ministro nas eleições legislativas, nem sequer a deputado, dizem as más línguas que para dar tempo ao PS para substituir um líder que não parecia suficientemente ganhador por outro que parecesse, substituição que entretanto se tinha concretizado. Mas, para sair do domínio da especulação e regressar ao dos factos, o despedimento do comentador com mais audiência no canal onde comentava por ser incómodo para o governo foi motivo para a dissolução do parlamento e para a convocação de novas eleições legislativas. O governo social-democrata e centrista não podia censurar o comentador que o censurava regularmente.

É verdade que o governo seguinte, socialista, passou uma legislatura e meia a tentar silenciar jornalistas e comentadores através do controlo accionista de jornais e canais de televisão, de ameaças directas e explícitas às redacções, por vezes feitas directamente por telefonemas do primeiro-ministro, e da instauração por ele a jornalistas e comentadores de processos cíveis de valores suficientemente milionários para aterrar qualquer jornalista com a ameaça de falência, e nenhum dos presidentes com quem conviveu institucionalmente, nem o Jorge Sampaio, que o tinha feito na legislatura anterior, nem o Cavaco Silva, que nunca o fez, esteve próximo de dissolver o parlamento por causa de o governo pressionar a comunicação social. O governo socialista podia censurar comentadores à vontade.

Seguiu-se o governo social-democrata e centrista neoliberal do Passos Coelho, que se esteve nas tintas para a comunicação social e o que dizia dele, e dizia mal, e sempre, e muito. Mas mesmo assim foi acusado das mais selvagens violações da liberdade de imprensa por motivos como ter sido encerrada a delegação em Paris da agência noticiosa estatal, a Lusa, e de com isso terminado a comissão de serviço e a estadia na cidade-luz do jornalista que era lá correspondente, e de ele ter sido forçado a regressar a Portugal para não perder o emprego. Mesmo sem censurar jornalistas e comentadores, o governo social-democrata e centrista era censurável.

As ameaças a jornalistas, umas em público, outras em privado tornadas públicas pelos ameaçados, precederam a nomeação do primeiro-ministro socialista actual António Costa, sem que no entanto tivesse sido impedido de se candidatar ao lugar e de perder as eleições. Do mais não se sabe, porque, ou ele deixou de ameaçar jornalistas desde que foi eleito nomeado primeiro-ministro, ou passou a fazê-lo de modo mais discreto do que o seu antecessor socialista e do que ele mesmo enquanto candidato. Mas o Alberto Gonçalves não tem sido de uma maneira geral elogiado pelos socialistas e pelos bloquistas que se dão ao trabalho de comentar comentadores. Nem o presidente da Global Media se tornou conhecido pela sua antipatia relativamente aos socialistas, nomeadamente os que atacam jornalistas, tendo mesmo patrocinado como advogado os múltiplos processos do José Sócrates a jornalistas. Significa isto que o parlamento corre risco de dissolução por ter havido socialistas e bloquistas a criticar um comentador e ele ter acabado por ser despedido de um jornal presidido por velho amigo dos socialistas?

De certeza absoluta que não. O comentador Marcelo, cujo despedimento da TVI foi usado como argumento para o presidente Jorge Sampaio dissolver um parlamento de maioria PSD e CDS-PP não vai fazer nada como presidente Marcelo, nem sequer tomar conhecimento, por haver comentadores despedidos por criticarem o governo socialista com quem ele desenvolveu uma cooperação estratégica exemplar. Por uma razão ponderosa, um artigo não inscrito na Constituição mas desde sempre respeitado: em Portugal é ilegítimo governos social-democratas, ou social-democratas e centristas, pressionarem a comunicação social, mas os governos socialistas têm toda a liberdade para o fazer. A censura só conta quando é feita pela direita. Mesmo quando não a faz.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 20:28
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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2017

O Partido da Pecuária

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Apesar de os seus fundadores terem tido raízes ideológicas comunistas, o PS nasceu como um partido social-democrata empenhado na defesa da democracia liberal, incluindo as liberdades normais, que não as amplas, de opinião, imprensa e associação, da economia de mercado, e do estado social para limitar as desigualdades e erradicar a miséria. E, claro, a defesa do estado de direito, em que, entre outras peculiaridades, as dívidas são para serem pagas. Foi assim durante o PREC, em que se tornou o maior alvo de ódio dos comunistas e da esquerda radical, pelo menos daquela que não fez dos comunistas ou do resto da esquerda radical o maior alvo do seu ódio, que erradicou, parecia que definitivamente, do poder que tinham adquirido pela via revolucionária mas não sobreviveu às eleições, e passou a ser assim, parecia que definitivamente, quando o Mário Soares, reconhecendo que só se podia governar no domínio das possibilidades, declarou que tinha metido o socialismo na gaveta.

Mas ao longo do tempo o PS foi sendo colonizado pelos desertores da esquerda radical, ou por terem descoberto os encantos da social-democracia que antes os encanitava, ou por terem pragmaticamente reconhecido que na esquerda radical não podiam fazer carreira política nem empresarial, tendo admitido tanto ex-militantes do MES, como ex-MRPP, como mais recentemente até ex-BE. E, na mesma medida em que a população nativa de um país de acolhimento de imigração tende a reduzir o seu peso demográfico comparativamente com a população imigrante por esta ter taxas de natalidade mais elevadas, os colonos da esquerda radical, com o seu activismo acrescido e o tradicional apelo pelo disparate das gerações mais jovens, foram ultrapassando em número e em peso político os social-democratas clássicos, e acabaram por tomar conta do partido. Pelo que não é completamente inesperada a constatação de que o PS tem andado a mudar de ideologia, mesmo que lhe continue a chamar de social-democrata. Que, aliás, agora todos são, desde o Pacheco Pereira, ao Podemos, ao Freitas do Amaral.

A questão, que já o Georges Brassens colocava na canção Mourir pour des idées, é "Mourir pour des idées c'est bien beau, mais lesquelles?".

O PS fez uma incursão histórica no domínio da ideologia da escatologia, num célebre episódio protagonizado pelos ex-MES Ferro Rodrigues e Jorge Sampaio e pelo então sampaista António Costa em que o actual presidente do parlamento declarou ao actual primeiro-ministro "tou-me cagando para o segredo da justiça".

Mas foi já no reinado do José Sócrates que o ministro Manuel Pinho propôs ao partido a ideologia da pecuária. Como Winston Churchill muitas décadas antes, o ministro teve razão antes de tempo e, no momento da proposta, foi completamente derrotado, e teria mesmo sido violentamente derrotado pelos comunistas se não tivesse saído a correr do parlamento, mas ela acabou por vingar alguns anos mais tarde, e o PS acabou mesmo por abraçar esta ideologia. Dando, aliás, acolhimento às teses de vanguardistas das massas que o apoiam, que, ora tratam os eleitores como gado ovino, levado em rebanho ao engano das eleições, ora como gado muar, embevecido com a conversa do (então) candidato Marcelo.

E hoje em dia, honra lhe seja feita, e à memória do seu combate político, não há ministro nem deputado socialista que se preze que não inclua no seu discurso referências à ideologia da pecuária. O PS transformou-se, pois, no Partido da Pecuária.

Mas a linha pecuarista do PS deve estar atenta! Há no seio do partido dirigentes que procuram impôr a ideologia da psiquiatria. Se estes acabam por convencer e vencer, como antes os da pacuária, ainda acabamos todos por deixar de ser gado para nos transformarmos em meros maluquinhos.

Ou isso, ou mudamos de governo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:54
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Domingo, 1 de Janeiro de 2017

Tirar aos pobres para dar aos ricos, o socialismo do século XXI

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O socialismo está-se a aperfeiçoar, a tornar cada vez mais justo e menos desigual.

Se durante todo o século XX foi o sistema baseado em tirar a todos para dar a uma ínfima minoria de dirigentes de topo, colaboradores, nomeadamente militares que lhes asseguravam a permanência no poder, e seus protegidos, não parou de evoluir e, em Portugal, já se pode dizer que atingiu o estado mais avançado de tirar aos pobres para dar aos ricos.

Sabem qual é o município com maior poder de compra de Portugal? É Lisboa, com o dobro da média nacional. E o município com poder de compra mais baixo? Cinfães, com metade da média nacional. Em média, os munícipes de Lisboa têm um poder de compra quádruplo do dos de Cinfães.

2017-01-01 Pordata, poder de compra por município

Na realidade a diferença é ainda maior. A esmagadora maioria dos munícipes de Lisboa têm, a walking distance da sua casa, uma caixa multibanco, uma farmácia, o centro de saúde, a escola, a esquadra da polícia, a junta de freguesia, um Minipreço ou um supermercado low-cost. Para não falar num hospital ou numa universidade. E, se não os tiverem assim tão perto, têm uma paragem de autocarro ou uma estação de metro para apanharem o transporte público para os levar até ao destino. Por um preço abaixo do custo real do serviço, e é por isso que as empresas públicas de transporte de Lisboa acumularam prejuízos que foram pagos por uma dívida que cresceu como uma montanha para assumir proporções de impagável.

Já os de Cinfães, e eu escrevo isto correndo o risco de imprecisões sem me ter documentado previamente no Google Maps para não apanhar uma depressão no primeiro dia do ano a sofrer com as penas deles, o único equipamento que provavelmente têm a curta distância de casa é a igreja. Todos os outros, para a esmagadora maioria deles, estão à distância de uma viagem de automóvel, particular, para os que os têm, ou de praça, que é o nome que os taxis têm por esse Portugal fora. A que custo? Comparativamente com o autocarro ou o metro dos lisboetas, upa, upa! Uma única deslocação pode custar mais que o passe mensal para os transportes de Lisboa. E quando querem meter os filhos na universidade, alugam-lhes um quarto na cidade onde conseguirem vaga e pagam-lhes as deslocações à terra. Se ganham quatro vezes menos, gastam muito mais para terem o mesmo, pelo que o seu poder de compra resulta bem inferior a um quarto do dos lisboetas.

Mas eles são poucos e os lisboetas são muitos, e quando se vai a votos a quantidade de eleitores conta, e em 2017 vai-se a votos, e o governo socialista decidiu dar um presente à câmara socialista de Lisboa. Ofereceu-lhe a Carris, para poder dispor dela a seu favor nestes meses que faltam para as eleições.

Mas simplesmente entregá-la à CML tinha um problema: a dívida, resultante de décadas de prejuízos acumulados a disponibilizar aos lisboetas transportes a preço abaixo do custo real, de 700 milhões de euros, que não só constituiria um encargo pesadíssimo, como um bloqueio à capacidade de a empresa se endividar ainda mais para investir a melhorar o serviço aos utentes e fazer uns floreados que ficam bem em ano de eleições, coisas como renovar a frota com autocarros eléctricos ou reforçar carreiras para os utentes não se chatearem por ter de esperar tanto pelo autocarro. Vai daí, o António Costa, que se fosse advogado de divórcios conseguiria aos seus clientes divórcios daqueles em que o marido fica com a casa e a mulher com a dívida ao bancoassumiu a dívida da Carris para oferecer à CML uma empresa sem encargos de dívida e com a possibilidade de começar de novo a endividar-se a partir do zero, ser muito mais perdulária, e fazer um figurão nos primeiros anos de gestão camarária. E, digo eu, os lisboetas que não se assustem com a responsabilidade, porque a Carris vai continuar a gastar mais do que consegue cobrar, e vai voltar a recorrer à dívida, mas, um dia, quando a nova dívida se tornar impagável, outro governo socialista tratará de a assumir, como este fez a esta. A dádiva foi tão generosa que o próprio António Costa confessou que tinha inveja por não ser ele o presidente da CML a recebê-la para fazer floreados com ela, mas desejou-lhe felicidades, o que mostra que não é homem de rancores.

Quem diz o António Costa assumiu quer de facto dizer o António Costa transferiu para todos os contribuintes o encargo da dívida.

E assim chegámos ao socialismo do século XXI. Em vez de deixar aos lisboetas, que são os munícipes mais ricos do país, a dívida de 700 milhões de euros que foi acumulada para lhes oferecer transportes públicos a preço abaixo do custo, e que já ia em 1.400 euros por lisboeta, distribui-a por todos os contribuintes, mesmo os mais pobres a quem não são oferecidos transportes públicos nenhuns, mesmo os de Cinfães, numa razão de 70 euros por português, ou 280 euros para um agregado familiar de quatro pessoas.

Pelo que chegamos ao que queriamos provar: tirar dinheiro aos pobres de Cinfães para dar transportes públicos baratos aos ricos de Lisboa, como fazem em Portugal os socialistas do século XXI, é um grande avanço em termos de justiça social e combate às desigualdades comparativamente com tirar a todos para dar apenas aos governantes e generais e respectivas famílias, como fizeram no século XX, e continuam a fazer no XXI, os socialistas de todo o mundo.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:07
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