Quarta-feira, 10 de Julho de 2013

A falta de fígados

A difusa nuvem dos meus queridos amigos de Direita é gente que, no geral, quer o Estado longe da economia, acha que despesas públicas de 50% do PIB são uma carga excessiva que a nossa economia produtiva tem dependurada ao pescoço, que o Estado investidor é quase sempre um irresponsável a brincar aos empresários, que a burocracia pública, entregue a si própria, cresce indefinidamente, que a fiscalidade é predatória e opressiva, que a despesa pública não pode ser superior à receita, que sem superavits orçamentais a dívida pública não pode nominalmente baixar, que o dirigismo é um entrave a eliminar... e um longo etc. Neste longo etc. cabe a redução de quase tudo ao mercado, à eficiência, às diferenças de capacidade produtiva e aquisitiva dos indivíduos e um certo darwinismo social que, no limite, a mim me desperta a instintiva desconfiança de quem acredita quase nada no progresso das pessoas,  pouco no das instituições e bastante no científico e tecnológico.

 

Claro, o mix destas coisas e muitas outras varia consoante a doutrina exacta de que cada qual se reclama, quando se reclama de alguma, e mesmo assim há diferenças - no limite quase tantas quantas os indivíduos, felizmente.

 

Sou cliente deste aglomerado. E compro, a feitio, conservadorismos, liberalismos e libertarianismos sortidos, nos quais ocasionalmente, como quem deita um condimento exótico num prato conhecido, enxerto elementos de outras cozinhas, se achar que fica bem. Pragmático, é o que é, nem todos temos vocação de seguidores de textos sagrados e excessivo respeito pelos doutores das Igrejas.

 

É que são raras as grandes desgraças das nações e das sociedades que não sejam originadas num corpus doutrinário; e o que distingue os intelectuais dos cidadãos portadores de ignorância e senso é serem áulicos de teorias que explicam o mundo como julgam que ele é, afirmam como deveria ser, e enunciam os meios para lá chegar. Gente perigosa, portanto, ao mesmo tempo que indispensável.

 

Dou um exemplo: Este meu estimado blogger acha que, no país dele, se deveria aprender com a Austrália, que mitigou admiravelmente o problema de falta de rins e fígados para transplante, com o expediente de compensar monetariamente os dadores, que assim passaram à condição de vendedores. E na Austrália ainda é, parece, o Estado; Mark J. Perry não é de modas e recomenda a compra e venda directa, do produtor ao consumidor.

 

Prof. Mark, meu querido, pá: estás a abrir a porta a coisas do carago, que ofendem o que a tua Constituição protege, como o direito à dignidade humana, com a qual nascemos, que não nos pode ser retirada e da qual não podemos dispôr. E desculparás, mas um indivíduo que, por necessidade ou ambição, vende um rim, ou um bocado de fígado, ou outra víscera, é um escravo, ou da necessidade ou de uma avaliação deficiente do respeito que à sua condição deve.

 

Há mais coisas debaixo da roda do Sol do que o compra e vende; e quem isso não perceber instintivamente não está em condições de entender a explicação.

publicado por José Meireles Graça às 19:44
link do post | comentar
1 comentário:
De Anónimo a 11 de Julho de 2013 às 07:48
Uma pila nova dava jeito

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Tem razão, esse caso ilustra o ponto muito bem. O ...
Concordo que seja um bocado intangível, mas ocorre...
José, creio estar a reconher esse texto, salvo err...
"Essa perplexidade aumenta muito ao saber-se que a...
Despedimento coletivo do Casino Estoril de 2010, a...

Arquivos

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio barreto

antónio costa

arquitectura

atentado

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter