Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Uma vergonha e meia

(Originalmente publicado no Senatus, em 16 de Janeiro 2012)

 

 

Uma vergonha embaraçante é o que vejo nas nomeações da EDP. Ou uma grande falta dela, consoante olho do lado de cá ou de lá. As nomeações na EDP são muito mais do interesse da EDP do que do Governo. Porque interessando à EDP influenciar o Governo ou, que mais não seja, obter dele informação privilegiada, tem toda a vantagem em contratar quem com o Governo se dê bem. O Governo ganha, quando muito, a oportunidade de encaminhar alguns militantes dos seus partidos para saídas profissionais simpáticas. Ganha também uma enorme quantidade de sarilhos, com a berrata das histéricas de serviço (há quem lhes chame "opinion makers") e com a perda de independência, real ou aparente, que é suposto haver nas suas relações com as empresas privadas. E fica a saber, ficamos todos, que a EDP tenciona continuar, na linha do que fez até hoje, a abusar da posição favorecida que detém no mercado português, sem qualquer espécie de concorrência que lhe mereça o nome, e a fazer com as regras e com os preços o que lhe apetece.

 

Com a Águas de Portugal não me custa compreender que, sendo esta uma empresa do Estado, o Governo queira ter em postos de decisão, e muitas dessas decisões são de natureza política, gente que lhe é leal e que obedece ao que o Governo decidir fazer. Faz todo o sentido que os governos assim procedam; para isso se determinou que algumas empresas sejam públicas, e não privadas. É suposto que as empresas privadas obedeçam às regras do mercado e às disposições impostas pela regulação. Espera-se delas que sejam lucrativas, competitivas e se fortaleçam. É suposto que as empresas do Estado tenham outros objectivos, e esses objectivos são determinados pelas políticas dos governos eleitos.

 

O que não é desejável é que o Estado tenha o tamanho que tem, e que haja tantas empresas, tão grandes e tão decisivas para a economia, que dependam do Estado e das suas vontades políticas. Não sei se é boa ideia que um recurso natural e um bem essencial se mantenha nas mãos do Estado. Tenho dúvidas, mas a haver empresas do Estado, há quem diga que estes casos são dos mais justificáveis.

 

Pelo que o problema não são as nomeações. É o tamanho do Estado. Que sendo tão tentacular, não é esperável que funcione de outra maneira. E o que vejo é que quem mais se queixa é, simultaneamente, quem mais está pronto para impedir que o tamanho do Estado seja reduzido a dimensões menos obscenas e menos permeáveis à promiscuidade.

 

Querem ter o Estado na economia? Muito bem. Levam com a economia no Estado. Não gostam? Têm que se decidir.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:50
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