Quarta-feira, 4 de Setembro de 2013

Fim de festa

Agora que as férias se finaram, resolvi ir procurar uma prosa antiga que se renova todos os anos.

Como me disse um dia o meu amigo LP, "Moledo é a praia onde o Inverno vai passar o Verão"! Mas isso é para um lisboeta ignorante das maravilhas minhotas ou para um parolo, como eu, que ainda não atingiu a essência da coisa. Moledo é um fenómeno muito particular, paraíso do antes quebrar, que torcer. 

Para os indefectíveis de Moledo, o tempo nunca está mau; corre uma brisa se umas casas se destelham, sentem uma certa humidade ao quarto dia de chuva intensa. É frequente ouvir no café que a praia esteve optima para ler um livro com calma, traduzindo: as folhas do jornal voariam e não havia ninguém que pudesse incomodar num raio de 100 metros, onde volta a haver outro encasacado a sacudir a areia que voa das páginas de um qualquer livro...
Se temos a sorte de chegar num dos únicos dias de sol, toda a gente nos garantirá que foi assim todo o verão, que não percebem o que estivemos a fazer no Algarve. Aliás estiveram uns dias de praia fora de série até à véspera da nossa chegada e voltarão a estar no dia a seguir à nossa partida; é um azar que se repete ano após ano, religiosamente.
Se nos queixamos da água gelada, atiram-nos com o iodo á cara.
Não há argumento que valha contra Moledo. Se o Algarve tem Soares e Cavaco, Moledo tem Barroso que é pior que os dois juntos, afirmam orgulhosos os veraneantes do frio!
Há depois alguns fenómenos interessantes. Nunca ninguém foi pela primeira vez para Moledo; toda a gente vai desde sempre, desde antes de ser moda!
Toda a gente em Moledo conhece toda a gente, toda a gente tem imensos primos e tias e tios com garbosos petit-noms. Toda a gente adora dizer "fomos todos", "estivemos todos", "vamos todos", é tudo muito giro e em grupo, ainda que o grupo não exceda o par... As tias falam todas muito grosso, fumam imenso e disfarçam mal uma certa pelintrice.
Por fim, duas pragas de Moledo. Pobre de quem tem casa em Moledo, há centenas de lapas que acham o máximo vir de Lisboa, Porto e outros pontos do país para a casa dos primos, dos tios ou de qualquer vitima incauta. Se em qualquer lado isto se chama o oporunismo do pelintra sem vergonha, em Moledo, pelo contrário, é tradição, é bem.
A outra praga é o clube de Moledo. Não pelo Clube em si, espaço aprazível, a lembrar os clubes e assembleias que as outras praias do norte deixaram morrer. Mas não há pachorra para o arrivismo com que tantos enchem a boca e o tornam o centro da conversa, é o wannabe de 80% dos veraneantes. Há os do clube e os que querem ser do clube. Os 20% restantes são alienígenas.
E é isto, a essência de Moledo é feita de gente que abomina a praia e o verão, e dos outros, os que gostando de armar ao pingarelho, não tem dinheiro para ir para o Algarve!
E lá passei, mais uma vez, uns belos e divertidissimos dias de férias. Vá-se lá saber porquê!
publicado por Raul Almeida às 02:55
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