Domingo, 22 de Setembro de 2013

Matérias fundamentais

 

 

Foi tímido, a meu ver, Nuno Crato (e um pouco cobardolas, aqui para nós) ao decretar que as escolas deixam de ser obrigadas a oferecer a disciplina de Inglês aos alunos do 1º ciclo. Senão vejamos: porquê só o Inglês? Até parece que temos dinheiro para esbanjar em Matemática, Português, História, Geografia, Física, Biologia, e toda essa cangalhada de disciplinas supérfluas que deveriam ser obviamente facultativas.

 

Diz o ministro que é uma questão de "liberdade", e que não estima o conceito de "obrigatório", pelo que deixa a decisão ao critério de cada estabelecimento de "ensino". Mais de 90% dos pais não concorda, por motivos que o cérebro ladino de Crato rapidamente interpretou: para esta gente, quanto mais disciplinas houver mais horas ficam as crianças retidas na escola. O tempo (não é assim?) é um bem precioso que preferem gastar em ocupações mais dinâmicas e socialmente mais fecundas, como passear no Colombo ou arrastar-se nos cafés a criticar o Governo, em vez de aturar os filhos. E o Inglês, como todos sabem, é uma língua indispensável para entender e dominar os menus da Playstation.

 

Agiu portanto o ministro de acordo com o seu superior entendimento dos atavismos pátrios. Pessoalmente, incomoda-me a falta de alcance educativo, de higiene financeira, e de vontade política. Porque (sejamos sérios) vamos analisar a coisa com a profundidade que merece: que espécie de teimosia insiste em manter as outras disciplinas nos currículos do "ensino" básico? Servem exactamente para quê, se excluirmos a proverbial inclinação portuguesa para fingir que se ensina, e a bonomia com que os contribuintes estão sempre ávidos de se endividar para pagar salários a uma praga de funcionários públicos?

 

Não bastava a Crato ter cedido aos mimados dos professores; agora dobra-se todo perante os irresponsáveis dos encarregados de educação. A continuar assim, um dia acordamos sem verba para "oferecer" Estudos do Meio, Expressão Artística, e Cidadania. Aos filhos dos portugueses ninguém ensinará a "amar o planeta", a "respeitar" o ambiente, a separar os lixos, conceber espectáculos multi-média, ou formar "associações", "plataformas" e "movimentos" de "cidadania" - que são as matérias verdadeiramente fundamentais.

 

Enquanto dependermos de políticos frouxos, as políticas servirão os interesses dos inúteis e os critérios serão sempre despesistas. Alguma coisa teremos de mudar se queremos que a qualidade das nossas escolas atinja níveis exemplares. E se, nas tabelas da ONU para o capítulo educativo, queremos mesmo garantir que Portugal nunca mais passa a vergonha de sair dos 10 últimos lugares. Abaixo da Somália.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 15:17
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Na Suiça é isso mesmo que sucede: cada um opta pel...
As escolas publicas, servem para manter imbecis, n...
Muito bem!
O caso é que o zé pagante, já nem protesta, paga e...
Concordo em absoluto. Como é possível 4 anos depoi...

Arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter