Terça-feira, 1 de Maio de 2012

"SÓ OS PARAZITAS TENHEIM MEDO DO CUMONISMO"

(Originalmente publicado no Senatus, em 25 de Setembro 2011)

 

 

No famoso "verão quente de 75", um Mercedes preto, com as cortinas descidas, transportava uma velha conduzida por um motorista fardado chamado José, homem brutíssimo de linguagem e reformado da GNR como, de resto, era costume em casa da Tia Joana.

 

Atravessavam o Alentejo, vindos de Espanha em direcção a Lisboa, com a bagageira atafulhada de sabonetes, caramelos, pêssegos em calda, frascos de lavanda "Puig", e dois vestidos de sevilhana, tamanho de criança, "para as filhas da Maria Domingas". As filhas da Maria Domingas detestavam aqueles vestidos, que eram obrigadas a enfiar nas festas de Carnaval para cumprir uma tradição inventada pela Tia Joana e que abrangia, desde os anos trinta, todas as crianças da família. Muita sorte serem meninas porque, para além da própria mãe, também o Tio Chico, o Tio Mário e o Tio Germano apareciam em retratos anuais, a preto e branco, sentados sobre a secretária do consultório do Avô Luis, bisavô das miúdas, vestidos de sevilhana por alturas do Baile do Palito.

 

Pararam em Beja, para almoçar e para deixar "à minha irmã Carolina, que vai amanhã para baixo" uma colecção muitíssimo jeitosa de pinceis de caiar. Regressados à estrada, a Tia Joana voltou a apoiar os pés num banquinho que morava entre o encosto dos bancos da frente e o assento dos bancos de trás. De outro modo ficaria com os pés a balançar, não chegava com eles ao tapete do carro. Das irmãs, que eram todas pequenas, ela era a mais baixa. "De la sierra morena, cielito lindo, vienen bajando", trauteou, "unos ojitos negros, negros negritos de contrabando" e levantou uma nádega para deslocar a porção de vestido que estava por baixo, toda molhada de suor. Sentiu reduzir a velocidade e o Mercedes parou. A Tia Joana afastou a cortina da janela. Estavam em Beringel. Viu atravessar um rebanho de borregas e olhou para uma parede onde estava escrito "SÓ OS PARAZITAS TENHEIM MEDO DO CUMONISMO". O Mercedes arrancou e a Tia Joana retomou as suas preocupações.

 

A casa da Praia da Rocha, dividida em duas na sequência de um processo de partilhas, situava-se na avenida principal, frente ao antigo casino, e todos os anos era caiada. Também todos os anos a Tia Joana tinha que decidir se era trancada ou não, pelo lado que dava para a sua garagem, a porta de comunicação interna entre as duas fracções. A casa da irmã Carolina era muito maior e dava para o lado da praia, o que tornava o caminho mais curto. Mas continha uma quantidade incontrolável de netos, com idades variáveis e comportamentos indecorosos; por mais do que uma vez, a Tia Joana tinha supreendido a mais velha do Germano a assobiar. Como um moço da rua. Além disso comiam fora das horas das refeições, tomavam quantos banhos entendiam e, o que era pior, as criadas que os acompanhavam à praia não andavam fardadas. Mas se decidisse trancar a porta pelo lado dela, arriscava que a irmã fizesse o mesmo e depois tinha que mandar as criadas dar a volta inteira ao quarteirão para ir buscar os garrafões de água de Monchique, que ficavam arrumados do outro lado. "Ay, ay, ay, ay, canta no llores" voltou a trautear, e o Mercedes preto com as cortinas descidas parou outra vez. "Quem são estes barbudos", perguntou, e o motorista respondeu "estes cabrões é uma barricada".

 

Estavam vestidos de militares, mas da cintura para baixo e outros era ao contrário, calças à boca de sino e blusão de camuflado, todos tinham os cabelos grandes e uma espingarda. Passavam revista aos automóveis que estavam à frente. Abriam as portas, levantavam os tapetes, esvaziavam os porta-luvas, vasculhavam as bagageiras e a Tia Joana desceu a janela toda. "Olha, olha, temos uma velha fascista!", disse o mais gordo, chegando-se ao Mercedes preto, afastando o elástico que lhe prendia um testículo. "E com chófer, de boné e tudo!", gritou para a malta, já olhos nos olhos com a Tia Joana que lhe tirou as dúvidas: "O José é meu chauffeur há quinze anos. Como não tem cornos, pode usar boné".

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 13:33
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Nos hospitais portugueses há 50 anos havia mulhere...
Só falta mesmo é a Ordem das Sopeiras, quero dizer...
O jornalismo cairá, por cá, como vai caindo por lá...
O conselho que costumo oferecer aos meus correspon...
Não percebo a admiração. O jornalixo cá do burgo m...

Arquivos

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter