Terça-feira, 1 de Outubro de 2013

Amanhã voltamos ao défice

Milhares andaram pelas ruas, nas televisões se travestidos de comentadores, nos jornais e nas redes sociais. Deram o litro: os que disseram o que o eleitorado queria ouvir, ou o convenceram do que o que propunham era o que melhor lhe convinha, ganharam; e os outros perderam.

 

Resumindo com originalidade, ganhou a Democracia: não houve chapeladas nem incidentes relevantes; e nem mesmo o ter-se tratado de umas eleições em que à volta de mil freguesias sumiram comoveu as pessoas, salvo em duas - de quase 3100.

 

Chato chato é que mais de 5% votaram branco ou nulo; e, teoricamente, mais de metade do eleitorado absteve-se. Descontando os mortos, que já não votam, pelos menos em eleições terrenas, e que vivem nos cadernos por um excesso de respeito do Ministério da Justiça, que deles não quer dar baixa; e os emigrantes, cujo número ninguém conhece ao certo, mas estará algures, para a primeira geração, entre um e dois milhões: sobra ainda assim que o partido dos abstencionistas é o maior de todos, e o que mais cresceu.

 

Fosse eu émulo de António Barreto, ou outro intelectual prestigiado e profundo, e, com duas rugas de preocupação na testa, declararia a democracia em risco.

 

Os abstencionistas, porém, acham que as eleições não mudam coisa alguma; que entre Fulano e Beltrano, ou entre o partido x e o y, venha o Diabo e escolha; e que, de toda a maneira, os políticos são todos uma corja de ladrões, que por isso não merecem que por causa deles se gaste uma pouca de gasolina, ou um passeio a pé, e menos ainda uma espera numa fila. Razões por que vão espairecer a azia para o centro comercial e o Facebook, alardeando de passagem a sua superioridade moral e uma lucidez que impressiona os próprios.

 

São posições legítimas, as dos abstencionistas, e não completamente despidas de razão. Infelizmente, não é possível traduzi-las em nenhuma escolha ou acção política concreta, pelo que na realidade se trata de uma delegação de poderes nos abnegados que se dão ao trabalho de ir votar. Daqui não vem nenhum mal: se houvesse algum perigo real de o dr. Bernardino, em vez de tratar diligentemente das urbanizações de Loures, ter alguma a coisa a decidir nos destinos do País, logo os centros comerciais estariam desertos à hora de abertura das mesas eleitorais.

 

Do que decidiu a metade que foi cumprir o seu dever cívico tenho lido inúmeras análises, quase sempre pertinentes. Santas eleições, que deram quase tudo a toda a gente, salvo o BE. Este, pela voz do habitualmente cordato, e desta vez agressivo, João Semedo, queixou-se amargamente do boicote televisivo, que explica a débâcle, sem se dar conta de que a queixa é o reconhecimento implícito de que o pobre BE nunca existiu fora da pantalha.

 

Exceptuando o futuro saudoso Bloco, toda a gente ganhou:

 

O PSD, cuja derrota não é de molde a seriamente se lhe discutir, senão retoricamente, a legitimidade para governar, quando se podia razoavelmente temer que se afundasse a pontos de a esfinge de Belém ter que fazer alguma coisa; o PS, porque cresceu, sem porém ter crescido tanto que corra o risco de governar quando as castanhas ainda estão ao lume; o CDS e o PCP, o primeiro porque rebentou com o estigma da inexistência nas autarquias, o segundo por ter recuperado algumas aldeias gaulesas que se tinham passado para os Romanos.

 

Correu tudo bem: até mesmo a vitória do saco-de-vento Costa, em Lesboa, vai alimentar, a benefício do sossego governamental, a novela da liderança do PS e a dúvida sobre se poderá colocar, a prazo, o seu retrato em Belém, ao lado do das nulidades que o antecederam; Rio, cujo protégé ganhou limpamente, fica na reserva da República.

 

E pode, quem sabe, ser necessária uma reserva. Porque ontem esteve boa a festa, pá. E amanhã voltamos ao défice.

publicado por José Meireles Graça às 00:27
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

O professor Rebelo de Sousa, se lhe pedirem para d...
Só um povo como os portugueses´consegue gerar polí...
Muito bem.
O que me espantou foi o elevado número de político...
As conclusões são simples, se houver honestidade, ...

Arquivos

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter