Sexta-feira, 4 de Outubro de 2013

Como aparcar as ideias

Gosto de estar ao corrente das causas que inflamam alguns jovens e alguns eternamente jovens; e das modas de pensamento, seja na gestão das empresas, no arranjo de jardins, nos menus dos restaurantes, no combate aos fogos ou na preservação das espécies. Disto e de muito mais. As pessoas, parece, precisam de causas e de bandeiras, tanto mais quanto mais novas e radicais forem, e suspeito que uma parte do apelo das causas vem do conforto da pertença a uma tribo cujos membros defendem a mesma coisa contra terceiros que, como os cépticos do aquecimento global, defendem "interesses" e estão maculados com uma insondável ignorância, um egoísmo reprovável e um comportamento inadmissível - castigo neles.

 

Em tempos, frequentei um blogue onde lavrava uma campanha contra os carros nas cidades. Os autores apresentavam, dia sim, dia não, fotografias onde se viam passeios pejados de automóveis e desprezo contumaz pelas proibições de estacionamento; e, em paralelo, vinham as fotografias de aprazíveis bairros e mesmo cidades em que a circulação era ou proibida ou fortemente condicionada (creio que em França, na maioria dos casos).

 

Um dia lembrei-me de dizer, num comentário, que a solução para o problema não era nem a proibição de circular, nem o transporte colectivo, salvo se escolhido voluntariamente, ou por economia, ou por insuficiência de recursos; e que as pessoas não são burras - se, podendo fazê-lo, escolhem o automóvel, lá terão as suas razões. E, se bem me lembro, insinuei que, conscientemente ou não, havia por ali, na mania da proibição, na aversão ao transporte individual e na obsessão com a poluição e o consumo de combustíveis, muita mentalidade de esquerda.

 

O que eu fui dizer - caíram-me em cima, indignados. O blogue e os leitores habituais não se viam a essa luz, e pelo contrário defendiam o que lhes parecia uma melhoria considerável da qualidade de vida, prejudicada pela inconsciência dos automobilistas, a preguiça das edilidades, e a ignorância e inércia dos cidadãos. No decorrer da, aliás relativamente cordata, discussão, referi uma cidade onde tinha estado (Minneapolis) onde, pelo menos na parte da cidade onde permaneci por uma semana, não se viam carros estacionados em muitas ruas, porque não era permitido, mas se circulava livremente. Porém, havia um silo-automóvel em cada quarteirão, e não vi nenhum que não tivesse muitos lugares disponíveis, a um preço razoável.

 

Lembrei-me desta história por causa disto. Um parque deste tipo conheço há muito, em Vigo, mas é caro. Com a evolução tecnológica e a massificação, os preços descerão.

 

É por aqui uma parte da solução, a meu ver. Não para casar perfeitamente o transporte individual com o colectivo, e os dois com a qualidade de vida nas cidades, porque isso não é possível em cidades velhas, que nasceram e cresceram num mundo onde não havia automóveis. Mas para melhorar um compromisso incómodo. Com proibições sim, mas também com alternativas de aparcamento - não se pode meter o automóvel ao bolso; com transportes colectivos, mas que sejam superiores em comodidade e rapidez ao individual; e com liberdade de escolha, dentro dos meios de cada qual.

 

Não convenci ninguém, claro. Nem importa muito: o progresso, como sempre, vem nada das pessoas, que são hoje iguais ao que sempre foram; um pouco das instituições que, aos solavancos e sempre prontas a involuir, lá vão progredindo; e muito da ciência e tecnologia, que vão resolvendo problemas. É verdade que criam outros - mas, lá está, muitos de nós precisam de bandeiras.

publicado por José Meireles Graça às 15:41
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