Quinta-feira, 10 de Outubro de 2013

Tiro pela Culatra*

 

Os jornais estão a morrer, por causa da internet, do imediatismo, da televisão, queixa-se toda a gente; vivem da parasitagem da blogosfera, do conúbio com os políticos, e da reprodução acrítica das notícias difundidas pelas agências - dizem uns; e, pior, publicam opiniões travestidas de notícias, inventando títulos a latere dos factos, dos quais salientam uns e não outros, difundindo certas versões dos acontecimentos mas não as concorrentes - dizem outros. E terceiros ainda, ou os mesmos, acrescentam que há uma palpável quebra de qualidade na expressão escrita, atribuível aos dois vinténs que hoje se pagam a um jornalista, ou às deficiências da formação académica, ou ao Diabo - este assunto é um mundo.

 

Quem quiser aprofundar o tema só tem que ler Pacheco Pereira, especialista na matéria, devidamente munido de Bromalex para reforçar a paciência e um colírio para amaciar os olhos cansados, e logo, se não ficar completamente baralhado, concluirá que o jornal vai desaparecer, excepto no caso de se reinventar para isso não acontecer.

 

Eu não tenho opinião, por não ser do meio, nem como assalariado, nem como patrão, nem como colaborador, nem como estudioso, nem sequer como curioso - apenas tenho a esperança de estar cá para ver, e o secreto desejo de que os jornais não acabem. Não por razões rasteiras, como lamentar a embalagem de castanhas assadas em recipientes de plástico, ou acender a lareira com acendalhas caríssimas, mas porque a opinião paga é com frequência a melhor, e pena-me que desapareça do espaço público quem, legitimamente, espera ser recompensado por expor as suas opiniões, quando fundadas em trabalho, estudo e reflexão, e veiculadas em Português de lei - não há hoje muitos.

 

Suspeito porém que a imprensa se deixou apanhar numa armadilha: como vende mal não tem recursos; como não tem recursos não investe - nem em pessoas, nem em viagens, estadias, tempo, nem no mais que é necessário para investigar ou comprar a colaboração de quem valha a pena. E limita-se apenas a conseguir, de graça, títulos, que são o chamariz - ler a notícia quase não vale a pena, porque não acrescenta nada.

 

É o que se passa aqui: fizeram o heliporto (70 toneladas de betão, ui que pesado), estão a fazer a estrada, é tudo clandestino, incluindo as casas cujos moradores o heliporto vai servir, e uma data de gente dá opiniões, imagino que pelo telefone.

 

A senhora jornalista não se ocupou de informar: Quem paga? De quem são os terrenos? Os "moradores" vivem ali, ou são casas de férias? Que tipo de urbanização é aquela (a última vez que vi, era um extenso e repelente condomínio de barracas)? Que idade e que história tem a ocupação da ilha?

 

Ai isso não sabemos. Não interessa nada: ele há um ror de gente a fazer heliportos com a colaboração dos moradores, um pouco por todo o país, aos fins-de-semana, e os materiais compram-se no IKEA, a crédito e com desconto.

 

__________

 

 *Com a inestimável colaboração da minha camarada Margarida, que tem a caridade e a paciência, às vezes, de corrigir a toilette dos meus textos, endireitando as costuras, melhorando a combinação de cores, eliminando uns adereços pirosos e recomendando outros discretos e adequados.

 

publicado por José Meireles Graça às 16:28
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