Segunda-feira, 14 de Outubro de 2013

Afagar o melro

Como é geralmente sabido, os crimes violentos têm vindo a diminuir consistentemente, e a criminalidade mais banalzinha está em vias de se extinguir. Ainda se fazem assaltos, mas trata-se no geral de uns moços com acne, oriundos de famílias desestruturadas, e que se deixam facilmente intimidar pelas potenciais vítimas.

 

A continuarmos assim, não virá longe o dia em que se poderá estacionar numa qualquer avenida, deixar uma bolsa à vista e as portas destrancadas, havendo fortes probabilidades de, no regresso, encontrar tudo imaculado.

 

As polícias, todavia, nem por isso têm menos que fazer. É que a criminalidade reveste novas formas, não menos daninhas para o bem comum, que andavam um pouco ignoradas, mas vão agora sofrer o peso da lei e a mão vigorosa e justiceira da GNR.

 

O melro é uma espécie protegida, justificadamente: há uma população estimada em pouco mais de cinco milhões (número obtido por palpite, com uma margem de erro não superior a xis por cento), dos quais cerca de trinta no meu quintal. Pois, apesar destes números francamente exíguos, há quem, com grande insensibilidade, aprisione, sem culpa formada, a simpática ave - apenas um exemplar, graças a Deus.

 

A notícia não é inteiramente clara, pelo que não ficou assente se o criminoso fazia parte do grupo dos detidos. Mas se não fez trata-se de uma lamentável omissão, que aprisionar um melro numa gaiola ou não "ter licença para comercialização de espécies não-indígenas" são ofensas cuja gravidade seria ocioso realçar.

 

"O SEPNA e o ICNF estiveram no local entre as 06:00 e as 12:00, tendo sido mobilizados um oficial, quatro sargentos, 30 guardas da parte da GNR e cinco elementos do instituto". A representação do Instituto - apenas cinco pessoas - é a única nota menos boa, dado que o número de funcionários não ultrapassa o de detidos.

 

Os seis criminosos vão ser presentes a juízo, e aqui é justo assinalar uma outra, ainda que colateral, vantagem da operação: o Juiz, que deve ter sobras de tempo, poderá exercitar o seu múnus; e os oficiais de diligências, entediados pela falta de processos, poderão aproveitar para se dedicarem com afinco a elaborar os autos, os termos e restantes peças processuais, que desta feita têm um significado histórico, como se depreende das palavras do  tenente-coronel-ornitologista Francisco Magalhães, que prestou a propósito declarações à comunicação social: "É a primeira vez que tais detenções ocorrem desde que a lei n.º 56/2011 foi modificada porque antes [a detenção e comercialização de espécies protegidas] era considerada contraordenação e agora é crime, prevendo sem margem para dúvidas a detenção".

 

Está de parabéns a GNR, que assim defende a comunidade de comportamentos aviltantes de cidadãos transviados; o legislador, que passou a cominar penas de prisão para os inimigos dos passarinhos e criou condições para o sistema de justiça melhorar a celeridade dos processos; e nós, que vemos com deleite o dinheiro público a ser investido nesta salutar repressão.

publicado por José Meireles Graça às 22:19
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2 comentários:
De Tiro ao Alvo a 16 de Outubro de 2013 às 16:35
Cá estou a ler os seus desabafos. Mais uma vez gostei. Mas saiba que também gostei do desabafo deste outro melro:
http://estadosentido.blogs.sapo.pt/3095599.html
De José Meireles Graça a 16 de Outubro de 2013 às 18:38
Também gostei muito desse texto, que conhecia, Tiro. Leio tudo o que FMS escreve, é um tipo que aprecio.

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