Quarta-feira, 16 de Outubro de 2013

Inês é morta

A mim, o Orçamento não surpreendeu: é a tradução de uma impotência e uma inevitabilidade, como já havia sido o corrente e o anterior, embora com a diferença de, desta vez, se atingir seriamente a maioria dos eleitores e não apenas, como habitual, aquela parte da classe média que ainda podia jantar fora aos sábados, passar férias fora de casa e ter pelo menos dois automóveis por casal - tal é a medida do desespero.

 

Tem algumas coisas cómicas, como a redução da taxa de IRC em dois pontos, a par da criação de novo imposto sobre o gasóleo, algumas coisas ridículas, como o aumento do imposto sobre o tabaco, e algumas coisas positivas na área do ensino, através da criação de mestrados e doutoramentos para cálculo das pensões de reforma e aposentação.

 

Fosse eu economista e haveria de contratar um matemático (para evitar o asneirol) com vista a fazer uma folha de cálculo, com as seguintes variáveis: i) efeito depressivo resultante do aumento de impostos (xis por cento do aumento previsto da receita, após correcção deste com um desconto à taxa de optimismo da previsão orçamental); ii) efeito depressivo resultante do corte de despesas (xis por cento do montante do corte, a percentagem sendo obrigatoriamente inferior à do ponto i); iii) taxa de crescimento da economia, resultante da aplicação daquelas correcções à média das previsões oficiais. Com estes dados, seria possível corrigir os cálculos do défice e da percentagem da dívida pública no PIB. E como o défice acrescenta à dívida, e o esforço de consolidação orçamental terá que continuar porque senão não há financiamento, pode repetir-se o exercício para os anos seguintes, em páginas diferentes da mesma folha - não há nenhuma razão para não ter estilo em folhas de cálculo. Convirá ter presente, para os anos subsequentes, que a economia é muito mais resistente e flexível do que imaginam os alquimistas da Academia, e que, portanto, em cada ano, os efeitos depressivos referidos em i) e ii) tendem a diminuir.

 

Falta associar tudo isto a um calendário, para ver quando é que se atinge o défice de 3% (na realidade este défice implica, para não ser comprometedor, uma taxa de crescimento de não sei quanto, mas isso agora não interessa nada - o médico já fica todo satisfeito com umas corezinhas no doente, mesmo que a infecção não esteja vencida), e qual será o PIB então - não ouso imaginar.

 

Não vale a pena complicar com factores de política interna, porque o PS no Governo fará, no essencial e ainda que com bastante mais inépcia e melhor propaganda, a mesmíssima coisa, e ninguém sabe dizer se a populaça aguenta - o meu palpite é que sim; não vale a pena complicar com factores de política externa porque já se percebeu que, para defender o Euro, a burocracia europeia fará o que for preciso do ponto de vista deles; não vale a pena meter mais variáveis, de geopolítica ou outras, porque abundam as opiniões, e até certezas, na matéria, mas ninguém sabe, de ciência certa, nada do assunto.

 

Foi pena que, naqueles primeiros seis meses da Situação, esta não tivesse folheado as Páginas Amarelas: porque a reforma do Estado era pelas Páginas Amarelas que deveria ter sido feita, desde que, sobre as entradas "Ministério", "Direcção-Geral", "Serviço", "Alta Autoridade", "Observatório", "Direcção Regional", "Câmara Municipal", e as outras quinhentas nas quais se declina o Estado, se tivesse feito a pergunta certa: precisamos mesmo disto? Ou então, se a lista telefónica não estivesse à mão, um desses assessores (pertencente, de preferência, à minoria que não iria ser despachada) que abundam poderia espiolhar o Diário da República, desde 1974, com o propósito de descobrir o que foi criado - duas vezes em cada três poderia tranquilamente ser extinto.

 

Agora é tarde, o momentum passou. E o que o Governo pode invocar, na reforma do Estado que ainda queira e possa fazer, é a troica: Foram eles que mandaram! Nós até nem queríamos.

 

Como ficou amplamente demonstrado.

publicado por José Meireles Graça às 21:05
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Não disse que a formação em filosofia o desqualifi...
Palavras e campanhas levam-as o vento, talvez seja...
de ferias em porttugal e a gozar algum descanso re...
Eu cheguei a ponderar escrever tudo num só parágra...
Caro Manuel, tenho este blogue como leitura diária...

Arquivos

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter