Quinta-feira, 24 de Outubro de 2013

Regresso ao futuro

Fiquei sentido com este texto, às vezes as verdades doem: sou um desses que odeia Sócrates - tenho-lhe um tal ódio que, se dependesse de mim, punha-o numa cela a ouvir música pimba 18 horas por dia, no caso de ele não gostar.

 

Por outro lado, ainda que confesse sem pejo a minha triste condição de direitista irrecuperável, ocorre que talvez haja uma ou outra razão que atenue a minha culpa. Vejamos:

 

Numa análise a todas as acusações que lhe tinham sido feitas, Daniel concluiu em Fevereiro de 2010 que nem uma se provou; e como os acusadores não eram socialistas, o que resulta evidente, para ele,  é que o homem era provavelmente inocente e de modo nenhum beneficiou da complacência, ou da impotência, das autoridades. Sucede que o PGR e o Presidente do STJ da época eram admiradores da deslumbrante personalidade do visado, como se demonstra com a sua presença no lançamento recente da obra seminal sobre a tortura, que estrelaram e que Sócrates escreveu na sua alegada condição de melhor aluno de Sciences Po. E assim as pessoas que, como eu, têm uma visão pessimista sobre as pessoas, ficam na sua: pode ser que nem todas as acusações tenham fundo; mas é improvável que nenhuma o tenha.

 

Bom, havia mais umas coisas que nunca foram esclarecidas, como aquela história do fatinho adquirido em Beverley Hills - coisa mesquinha, por certo, fico até envergonhado por trazer o fait-divers à colação. Mas, lá está: a boa-fé, a largueza de vistas, a confiança, o sentido das proporções, são tudo coisas que na esquerda brotam com naturalidade; na direita, só por excepção, e eu, desgraçadamente, sou bastante típico.

 

"É pura e simplesmente falso que Sócrates tenha falido o país. E isto não é matéria de opinião. Sócrates faliu o país da mesma forma que todos os que eram primeiros-ministros entre 2008 e 2010 em países periféricos europeus o fizeram".


Todos?! Mau, a Finlândia, cuja capital dista de Bruxelas tanto como Lisboa, também faliu? E alguns países aflitos, como a Espanha, Itália e a França, não estão relativamente perto do centro e, no caso da França, não está a capital a 300 km de Bruxelas? E Dublin, a 960 km, está assim tão longe? Que significa este argumento da perificidade?

 

"Mas, com estas opções europeias e a arquitetura do euro, um excelente governo apenas teria conseguido que estivéssemos um pouco menos mal".

 

Tenho dificuldade em confrontar os actos do governo que houve com actos de um governo que não houve. Mas como, à época, o que Daniel defendia era um governo do BE, lanço-me também num exercício de história contra-factual: com um governo do BE o país teria ficado caribenho; e teria boas contas - como Cuba. E mais não digo.

 

"No fundo, move-se [Sócrates] pelo mesmo que todos os políticos que ambicionaram mais do que uma pequena carreira: o sonho da imortalidade. E essa é, entre outras, uma das razões porque não compro o retrato do pequeno bandido que enriqueceu com uns dinheiros dum outlet em Alcochete. Parece-me que a sua ambição é muito maior. Por isso, façamos-lhe justiça de acreditar que também serão maiores e mais nobres os seus pecados".

 

Eu tenho a convicção de que Sócrates é um pequeno bandido com um destino improvável, que mereceu pelos seus talentos de oratória, um certo tipo de inteligência fulgurante mais adequadamente descrito como esperteza, e, como sempre, um conjunto de circunstâncias que lhe favoreceu a ascensão.

 

Espero que as circunstâncias não facilitem o regresso;  mas suspeito que, se Sócrates retornasse para nos assombrar, e lhe conviesse adoptar uma retórica mais consistentemente de esquerda, Daniel Oliveira bem podia ter um papel no renascimento do verdadeiro socialismo. Não por lhe imaginar uma alma trapaceira; por lha supôr ingénua.

 

publicado por José Meireles Graça às 21:14
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