Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

André não é Spartacus

Causou alguma comoção nas hostes mesozoicas um discurso de um tal André Albuquerque, actor desempregado. Um blogue do cretácico chegou mesmo a dizer que o texto "passou a ser um documento de luta. Daqueles que ficarão para sempre"; e a minha figadal inimiga Joana Lopes também o transcreveu com gosto no seu blogue da Antiguidade Clássica.

 

Curioso, fui ver. E a minha primeira reacção foi pensar que é muito mau o moço estar desempregado, porque pode-lhe dar para escrever, empolgado pelo sucesso da incursão nas artes oratórias, pelo que seria talvez recomendável dar-lhe uns subsídios, a ver se sossega. É que de Valter Hugo Mães, agora na versão dramatúrgica indignada, já estamos servidos; e há sempre o risco de tropeçar inadvertidamente num texto quando se têm hábitos de leitura a esmo. Tal perigo, porém, é menos assinalável nos teatros, porquanto há sempre a possibilidade de, inteirados do nome dos autores da peça, passarmos prudentemente ao largo.

 

Que diz então o genial André? Diz, por quatro vezes, que Portugal não é a Grécia e que está desempregado. É o que se chama uma anáfora, figura de estilo que, se usada a martelo, como no caso, se pode designar como enjoo. Desempregados, Andrezinho, meu chapa, há, além de ti, aí uns 599999, fora os que deram à sola. E uma larga maioria não produzia, quando estava empregada, artigos que ninguém queria, textos que ninguém lia, peças sem espectadores, serviços indesejados ou palavreado sortido. E se pesaram e pesam no orçamento é em nome do trabalho que desempenharam e perderam, não é em nome do direito a que a comunidade lhes sustente a alegada superioridade cultural.

 

E é de superioridade cultural que falas quando contrapões a Nini - seja lá quem for -, o La Féria, e o cacilheiro da Ajuda, não se sabe bem a quê, mas presume-se que aos outros Andrés e aos espectáculos culturais do bocejo, ainda que ignorante. A menos que aches mal que os poderes públicos subsidiem o gosto popular - é isso? Se é, André, aos meus braços, que ainda havemos de nos entender - basta que, como eu, queiras que o teu rico dinheirinho de contribuinte sirva para pagar a conservação do monumento, da biblioteca e do museu, e para financiar a escola, mas para o agente cultural - nicles: queres escrever compra um lápis, queres pintar compra tela e tintas, queres representar vê se arranjas um mecenas que te pague o teatro ou vai para as telenovelas - ups, parece que já lá estás, parabéns.

 

Quanto ao resto, olha, a aulazinha de Direito Constitucional esquece. Que o texto da Constituição, na parte dos direitos de uns sobre as obrigações de outros - morreu. E só dá ainda a impressão de estar vivo porque do óbito não foi ainda claramente informada uma parte da população nem os guardiães da revolução. Morreu porque acabou o arame. E esses que com sanha enumeras, e que ainda o têm, no geral aliás menos do que se imagina, só podem ser pilhados uma vez.

 

Por isso, a figura de Spartacus que, com grande rasgo de imaginação e uma pontinha de imodéstia, escolheste para muso inspirador, resulta um tanto, vá lá, deslocada: o escravo revoltoso foi morto pelas tropas de Crasso, e tu apenas tens de sobreviver até ao próximo discurso (se até lá não arranjares emprego). Além disso, Spartacus liderou 100 mil homens. Que mal te pergunte, André, tu lideras quem?

publicado por José Meireles Graça às 21:27
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