Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013

Serviço de tradução

Houve um tempo em que dos banqueiros se esperava que falassem pouco e que, quando obrigados a falar por dever de circunstância, se refugiassem em generalidades inócuas: em boca fechada nem entra mosca nem sai asneira. Esta útil limitação à liberdade de expressão, que afectava outras categorias de cidadãos cujas palavras pudessem ter efeitos intranquilizadores ou perversos, como militares e magistrados, era compensada, oficial ou oficiosamente, com benefícios a que não tinham acesso as restantes categorias de cidadãos. Os que não gozassem de qualquer favor do Estado, esses sim, podiam dizer o que lhes passasse pela cabeça: de motoristas de táxi, por exemplo, podia-se razoavelmente esperar opiniões definitivas sobre o Papado, o orçamento para o próximo ano, o despovoamento do interior, o lugar exacto do CR7 no ranking dos melhores marcadores, e a verdadeira natureza dos políticos.

 

Já estes últimos exprimiam-se num dialecto de poderosos efeitos sedativos, a famosa língua de pau, que consistia em serem absolutamente previsíveis, não se comprometerem com coisa alguma excepto falsidades consensuais, utilizarem bordões de linguagem como quem não sabe andar senão de canadianas e afectarem conhecimentos enciclopédicos, em particular sobre matérias nas quais nem sequer alcançavam a extensão da própria ignorância.

 

Bons tempos, que a única classe que mantém o respeito pelas tradições é, precisamente, a dos políticos: Jerónimo ou o edil Costa, ainda antes de usarem da palavra, já causaram o eco dela, o primeiro porque repete incansavelmente a letra de uma ladaínha, e o segundo porque trauteia a música de outra.

 

Os militares, agora, pedem audiências ao Presidente da Republica, que lhas concede, para ameaçarem com levantamento de rancho, após o que confessam aos jornalistas ávidos de declarações o seu amor pátrio e a rejeição da austeridade; e os magistrados ameaçam com greves se o Poder lhes cortar mais nos rendimentos, por essa via pérfida pondo em causa a independência do Poder Judicial e a serenidade das digestões.

 

Fernando Ulrich é decididamente moderno, não há cá contenções: semana sim, semana não, alivia-se de opiniões como se ainda escrevesse nos jornais. Por que razão imagina que o gestor de um banco que o Estado ajudou com empréstimos, para lhe evitar a falência ou a absorção por outro, tem alguma clarividência especial, é um mistério. Felizmente, a maior parte do que diz é sensata, embora sejam banalidades; mas a menor parte tende com preocupante frequência a ser asneira - desgraçadamente.

 

Vejamos as duas frases seguintes, no último ataque de incontinência verbal:

 

"Só fala de reforma do Estado quem nunca reformou coisa nenhuma. No banco, as reformas demoram anos a fazer e há uma equipa que está junta há 30 anos."

 

"O ajustamento não foi só feito a partir da contração da procura interna. Não se podia continuar indefinidamente a comprar casas e a construir estradas. Nada disto se vai voltar a repetir. Não é preciso, nem é financiável".

 

Vou traduzir:

 

Levamos muitos anos a fazer reformas que se poderiam realizar em poucos porque, bem vê, um banco não é uma PME, é mais assim a modos que uma repartição. E:

 

Não se podia continuar a comprar casas, nem a construir estradas, porque não nos é mais possível continuar a financiar, como fizemos estúpida e cegamente, aquelas actividades. A gente, quando se habitua durante trinta anos a sinecuras, perde o contacto com a realidade.

 

Cala-te, Ulrich.

publicado por José Meireles Graça às 22:41
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1 comentário:
De Gato Fuji a 15 de Novembro de 2013 às 22:31
Não nutro especial simpatia pelo Ulrich, mas tampouco particular desdém e, diga-se talvez um pouco ingenuamente, até acho piada ao despudor tão pouco tradiconal em banqueiros (do passado). No entanto, é verdade que uma economia baseada em consumo e "investimento" público que, durante um década, não cresce apenas demonstra que tem de mudar de trilho para tentar ser mais bem sucedida. Os bancos também colaboraram na asneira mas, não sendo o Ulrich japonês, não é surpresa que não faça mea-culpa.

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