Quarta-feira, 20 de Novembro de 2013

Unanimismo chato

Houve um tempo em que uns maduros faziam artigos sábios recomendando a saída do Euro. Excepto pelo detalhe dos sábios, fui um desses. E, como os mais, tenho estado calado. O meu silêncio não precisa de ser interpretado; o dos outros sim.

 

Ocorrem-me cinco razões:

 

i) Os povos dos países aflitos não querem sair. Pode a economia cair ou não arrancar, o desemprego atingir a exosfera, uma ou outra vez chegar à opinião pública uma lei ridícula, metediça ou simplesmente idiota do Governo Europeu, uma ou outra declaração contraditória do FMI, ou do BCE, ou da OCDE, ou daqueles organismos com siglas estranhas que soam como fé-ré-fé-fé-trás-pum - nada, o povo é sereno, e a ideia de sair mais adamastoriana que a tranquila desgraça do ficar;

 

ii) Na 23ª hora as instâncias credoras competentes sempre dão, e deram, um jeito. Elas sabem disso, os governos sabem disso, e os eleitorados sabem disso. Houve um tempo em que se julgou que, logo que os bancos alemães expostos tirassem o cavalo da chuva, e o jogo passasse a ser apenas entre os contribuintes, outro galo cantaria. Mas o edifício resistiu, resiste, com bancos e fundos interpostos a fingir que arriscam realmente alguma coisa, e não fosse pela maçada de a Europa não crescer, a Grécia progredir ainda em direcção ao Neolítico, e os outros países consabidos do Sul continuarem nos cuidados intensivos, poder-se-ia dizer que a crise passou;

 

iii) Nenhuma corrente de opinião importante, nenhum partido político relevante dos países do Euro (o nosso PCP tem realmente muita importância, mas é mais em Loures, um conhecido arrabalde de Lisboa, e no frente-a-frente da Sic-N) defende a saída; e pelo contrário quase todos juram o seu filial amor à ideia da Europa unida, a cujo destino amarraram o seu e o dos seus dirigentes - actuais e históricos.

 

iv) Tirante alguns economistas anglo-saxónicos, que não são gente da nossa criação, e alguns catedráticos isolados, os magos da economia são quase unânimes: no Euro, na União Europeia, está o futuro; e para os velhos do Restelo fica o cais.

 

v) À direita do espectro político, percebeu-se que a disciplina que o Norte da Europa quer impôr ao Sul, por causa do Euro, é a mesma disciplina que o Sul deveria querer impôr a si mesmo, em vez da utilização deliberada da moeda própria para financiamento do laxismo, e dos governos intervencionistas e expansionistas com a máquina de fabricar cédulas debaixo do braço. E aquela parte da Direita que é, assumida, implícita ou inconscientemente, mais ou menos nacionalista, mais a outra que não é adepta da economia vudu, resolveram fechar a matraca - por ora.

 

Os eleitorados compram, no supermercado das ideias políticas, aquelas que lhes agradam, mas elas vêm em pacote: o Euro não se discute porque, de momento, a guerra é outra, e ambos os lados, nesta matéria, defendem o mesmo. Quem não defende não conta porque vem com outra tralha pendurada.

 

O assunto caminha assim para o tabu. Seja. Eu também nem estou disposto a cantar até que a voz me doa nem me suponho cantautor. Hoje é que me deu pr'ó desabafo; que tanto unanimismo chateia.

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publicado por José Meireles Graça às 12:51
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1 comentário:
De Quim onas a 23 de Novembro de 2013 às 10:26
V-Ó Meireles deixaste de ser pelo rigor orçamental ?

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