Terça-feira, 26 de Novembro de 2013

Homem velho, homem novo

Eis o verdadeiro problema da integração europeia: tendo baseado a sua legitimação e a sua popularidade nos resultados durante décadas (crescimento, aumento do bem-estar, abolição de fronteiras, etc.), a sua aceitação é posta em causa quando ela entra em crise e deixa de providenciar as vantagens que tradicionalmente proporcionava. Depois da crise, a União Europeia precisa de uma base de legitimação democrática mais funda, mais genuína e mais estável. A União Europeia precisa de criar europeístas não somente para os tempos das "vacas gordas" mas também para os tempos difíceis, por sobre os tempos e as circunstâncias -- ou seja, europeístas para todas as estações.

 

As eleições europeias são a melhor sondagem sobre a aceitação do governo do dia e a força relativa dos partidos: não há cá entrevistas telefónicas a 432 pessoas, nem margens de erro, nem dúvidas originadas em resultados diferentes da sondagem ao lado, ou de uma semana antes, ou de uma semana depois.

 

Isto é um grande benefício; e não é o único: as direcções partidárias livram-se de militantes prestigiados e incómodos, ou premeiam dirigentes que precisam de férias e de melhorar o passadio.

 

E eles lá vão para o shuttle Bruxelas/Estrasburgo, aprender inglês ou francês e a gostar de moules, bem como amealhar uns cobres para os dias maus, que a pátria ingrata e miseranda paga mal e regateado aos seus políticos domésticos.

 

Os meus concidadãos não ligam a ponto de um corno ao Parlamento Europeu, intuindo que aquela porra não produz nada de útil: não sabem quem são os deputados (nem sequer os portugueses - eu mesmo, assim de repente, sei lá quem é que o PCP meteu), não veem debates ou sessões, ignoram o que lá se discute e nunca ouviram falar das estrelas locais, parlamentares e governamentais, com excepção talvez do simpático Schulz, aquele tipo com aspecto de professor Tournesol e paleio a condizer (Van Rompuy, para os cognoscenti) mais o outro ferrabrás que fala inglês como um martelo-pilão e que, por causa da troica, nos polui volta e meia a pantalha, Olli Rehn de seu nome. Sem esquecer o muito nosso Mr. Barrôsô, um artigo de exportação afamado, quase tanto como a cortiça de que é feito.

 

É claro que os meus manhosos concidadãos sabem alguma coisa do assunto, isto é, que da Europa recebemos mais do que para ela contribuímos. E agradam-lhes as autoestradas, a ausência de fronteiras, o não terem que cambiar fora de portas uma moeda que mais de uma década atrás nos envergonhava, e a longa lista dos progressos materiais que a realidade nuns casos, e a crença noutros, atribui à proto-federação.

 

Enquanto a Europa pingar, daqui não lhe vem perigo. Mas Vital Moreira sabe que o sentimento popular no seu rincão não é exactamente o mesmo que noutras paragens; e, não ignorando o descontentamento crescente, não lhe ocorre que talvez haja alguma coisa de fundamentalmente errado com aquilo que defende, desde logo porque o crescimento e aumento de bem-estar que refere são muito da CEE e quase nada da UE. Mas não, não é preciso parar para pensar. O que é preciso é um homem novo.

 

O homem que há é sempre o velho. Mas isto Vital não sabe. Nunca soube.

publicado por José Meireles Graça às 23:25
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