Quarta-feira, 27 de Novembro de 2013

Soares pós-Soares

Daqui a meia centena de anos não haverá ninguém que se lembre, por ter sido contemporâneo, do 25 de Abril, do que se lhe seguiu, da luta para evitar a russificação, da descolonização, da amarração de Portugal à jangada europeia, das personagens.

 

Sobre o que houver então o nosso passado e presente de agora projectarão sombras. E será o tempo dos historiadores: nunca se entendeu o presente, e muito menos se pôde futurar seja o que for, sem memória, uma verdade como um punho que muito cultor de ciências sociais ignora.

 

O futuro especialista do Portugal do último quarto de século e do primeiro deste tropeçará fatalmente em Mário Soares, por causa da descolonização, do regime democrático e da adesão europeia; e não tropeçará, com o mesmo grau de importância, em mais nenhum actor. Goste-se ou não se goste, é assim.

 

Não é porém do Mário Soares histórico que quero falar: esse declinou na sua importância com a adesão à CEE, já tinha cumprido a maior parte do seu papel quando chegou a Presidente da República, e morreu no fim do seu segundo mandato. Os episódios das candidaturas falhadas a presidente do Parlamento Europeu (cuja concorrente insultou) e de novo à Presidência da República, aos 80 anos, fazem parte da decadência.

 

Mário Soares não soube envelhecer. Deixou de entender o mundo que o rodeia, que não aceita, e a procura de um lugar ao sol da notoriedade e importância têm-no levado a lançar mão de todos os recursos de velho manhoso do jogo político, capaz de todos os truques e cambalhotas, a ponto de hoje os seus amigos (ou os que ele assim julga) serem em boa parte inimigos de ontem, que o aproveitam como alavanca.

 

A idade, que lhe retirou lucidez, acrescentou-lhe à desvergonha: Soares acha que pode incitar à violência, nomear-se procurador do poder local, gesticular na defesa da "cultura" e tachar todos os que não veem o momento presente da mesma forma estreita, obsoleta, facciosa e economicamente analfabeta que é a sua, como "especuladores da comunicação social, ao serviço do Governo" e "ao serviço do poder, para ganhar dinheiro".

 

Portas? "Um artista"; Cavaco? "Aconselhe-se com a esposa, que, como antiga professora, tem cultura".

 

É esta a prosa chula que assina num artigo prolixo e desenxabido no Diário de Notícias.

 

Nenhum homem é um grande homem para o seu criado de quarto, disse Eça algures, citando não sei quem. O Soares homem público de hoje perdeu há muito a grandeza e o que decerto já lá estava ficou exposto à comiseração de todos e ao aplauso da esquerda obtusa, para que se possa ver o que só alguns criados conheciam e alguns inimigos adivinhavam. 

publicado por José Meireles Graça às 21:43
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1 comentário:
De Tiro ao Alvo a 27 de Novembro de 2013 às 22:39
Parece-me que o Mário Soares encarnou o que de pior tinham os políticos da 1ª República.
Ele não avançou no tempo, ele regrediu - julgo que não estou a ser demasiado severo.

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