Terça-feira, 10 de Dezembro de 2013

Medalha sem abrigo

Parece que a sala irrompeu em aplausos: as salas e as praças gostam disto, gente que diz, fremente de indignação, coisas justas e necessárias, vindas do coração, a alma sangrando pelas injustiças do mundo, o gesto largo abrangendo o universo tão sofrido, o dedo indignado e justiceiro apontando os maus, a esperança redentora aflorando em palavras lúcidas, que explicam o caminho das pedras aos incréus e desviados.

 

O profeta, neste caso, veio de Campanhã, onde é assistente social. E não se refugiou em declarações genéricas: desceu ao concreto, instando os governantes a estancarem “imediatamente este processo de retrocesso civilizacional que ilumina palácios, mas ao mesmo tempo deixa pessoas a dormir na rua”.

 

É bonito, mas um pouco confuso talvez, que eu não estou bem a ver de que forma é que, se cortarmos a luz ao Palácio Ratton, os senhores juízes terão tempo, apenas com a disponibilidade da luz solar, para confeccionar as suas excelentes sentenças para defender os mesmos direitos dos quais José António é, presume-se, incansável advogado.

 

Mas prontos, dou de barato que efectivamente há por aí uns palácios que não perderiam muito em lhes apagando algumas luzes, e até mesmo a alguns edifícios menos apalaçados, mas igualmente caros para o erário público, não deixava nem um watt - o nº 176 da Rua de S. Bento, ocorre-me assim, en passant. E como bem percebi que o profeta falava em parabolês, atrevo-me a sugerir que se acabasse com a iluminação, por exemplo, da RTP - isso já dava um ror de abrigos.

 

Podemo-nos entender nesta parte, Zé Tó, embora tenha algumas suspeitas que tivéssemos algumas divergências sobre os palácios objecto do blackout. Agora, sobre as manifestações de comunistas e primos nas galerias da Assembleia, pá, isso é que não: bem vês, a comunistada lá dentro já fala a duas vozes - uma autêntica e a outra pintada de verde. Mas falam na vez deles, porque têm um Regimento, e regras, e Presidente e Secretários e o catano. E isto quer dizer que os outros também falam, e também na vez deles; e foram todos lá postos, mais uma vez, segundo regras iguais para todos. Se queres que todos os ofendidos da terra, ou que assim se imaginam, também lá possam ir gritar de sua justiça, o que vais ter é leis feitas na rua. E leis feitas na rua talvez pudessem, durante algum tempo, agradar aos sem-abrigo, mas as pessoas que estão debaixo de telha não iam apreciar.

 

"O assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã afirmou que trocava a medalha por outro modelo de desenvolvimento económico".  Não duvido nada, e eu, se tivesse alguma medalha, também trocava. Com duas diferenças: não me ocorreria impôr a troca fosse a quem fosse; e, se fosse assistente social em Campanhã e distinguido pela Assembleia da República, não deixava a medalha em S. Bento - punha-a no prego para ajudar um sem-abrigo.

publicado por José Meireles Graça às 22:03
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