Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2013

Ideias nebulosas

Soares dos Santos é rico e diz uma quantidade prodigiosa de tolices. As tolices de Soares (deste, que é um privatus amador, não do outro, que é profissional do asneirol) têm acolhimento porque quem enriqueceu detém uma chave que toda a gente gostaria de ter e assim a audiência é garantida: quem é que não quer ficar ao corrente do que pensa George Soros ou Bill Gates, ou até mesmo Richard Branson, quando estes propinam às multidões anelantes as pérolas do seu saber? Se foram capazes de passar brilhantemente pela estreita porta do sucesso, enriquecendo, é porque sabem algo que os outros ignoram; e se a actividade política é hoje na sua maior parte, directa ou indirectamente, dirigida ao sucesso económico, então os conselhos dos magnatas são para ouvir.

 

Há mesmo uma tradição americana, para os homens de muito sucesso, que consiste em contratarem, quando em idade avançada, alguém para lhes escrever a biografia, onde ficará plasmada para a imortalidade a argúcia e o rol de qualidades que lhes deram o estrelato e o império nos ramos da sua especialidade. As pessoas compram avidamente o livrinho, para descobrirem desconsoladas que o grande homem se levantava cedo, trabalhava muito e era fino como um alho. Ora bolas, que não faltam por aí borra-botas com exactamente essas características.

 

Infelizmente, os países não são empresas, mesmo quando têm um PIB inferior ao volume de negócios de muitos conglomerados; e qualquer empresário que se dedique à política descobre a muito breve trecho que está metido num ninho de lacraus - governar cidadãos nem mesmo em ditadura é parecido com dirigir empregados, e produzir um bem ou serviço está a léguas da congeminação de leis. De resto, com o sucesso costuma vir a suficiência e esta, quando associada a doses confortáveis de ignorância, proporciona momentos deliciosos: Belmiro de Azevedo, provavelmente o mais completo e brilhante empresário da sua geração, há anos, quando inquirido sobre as reformas necessárias para o País, começou por pintar o organograma do governo, exactamente como se estivesse a fazer o layout de um qualquer board.

 

Mas eu falo assim dos empresários porque falo assim das pessoas. Não me move qualquer animosidade particular contra os ricos, e pelo contrário entendo que não apenas os ricos, incluindo os muito ricos, desempenham um papel insubstituível numa economia sã, como repousa neles, incluindo sobretudo mas não apenas os pequenos e muito pequenos empresários, a parte mais criativa e dinâmica do crescimento económico.

 

É por isso que o tom chocarreiro deste artigo ("saber vender iogurtes de pedaços, bacalhau demolhado da Noruega e champôs anticaspa...") é profundamente desagradável: Daniel Oliveira não fala assim de uma nulidade qualquer que seja depositária do que ele, Daniel, toma como cultura, isto é, um baladeiro capaz de ganir a um microfone umas fanhosas musiquetas de intervenção, ou uma actriz a declamar desastradamente num palco uma peça qualquer carregadinha de mensagens, ou ainda uma bailarina a espolinhar-se no chão, com o propósito de representar amores contrariados por inultrapassáveis obstáculos de classe, ou outra merda qualquer sobrevivente a golpes de subsídios e críticas favoráveis de críticos piolhosos e esquerdistas.

 

Soares dos Santos não tem clientes por decreto; não contrata trabalhadores apontando-lhes uma pistola à cabeça; contribui para o Estado, directa e indirectamente, com muito mais do que dele recebe; e, ainda que a dignidade das pessoas não se meça pelo seu contributo para o PIB, tem direito à admiração dos seus concidadãos por ter, dentro e sobretudo fora de portas, o sucesso que soube merecer.

 

Não precisamos, é claro, de lhe comprar as ideias políticas; e é aventureiro asseverar  que são os Soares dos Santos desta vida "a decidirem, através da pressão que vão exercendo, o futuro do país".

 

Daniel está enganado: Portugal está como está, chegou onde chegou, não por causa dos Soares dos Santos, mas dos outros Soares, o propriamente dito e a sua família política, mais a nebulosa dos fazedores de opinião que venderam, e continuam a vender, ao eleitorado, a ideia de que a melhor maneira de criar riqueza é começar por expropriar quem a pode criar.

 

Daniel Oliveira, em que pese aos seus muitos méritos, faz - ainda - parte dessa nebulosa; Soares dos Santos não.

publicado por José Meireles Graça às 22:10
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Tem razão, esse caso ilustra o ponto muito bem. O ...
Concordo que seja um bocado intangível, mas ocorre...
José, creio estar a reconher esse texto, salvo err...
"Essa perplexidade aumenta muito ao saber-se que a...
Despedimento coletivo do Casino Estoril de 2010, a...

Arquivos

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio barreto

antónio costa

arquitectura

atentado

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter