Sábado, 4 de Janeiro de 2014

Auto-golo

Uma senhora Indira Kaviratna e um senhor João Henriques resolveram escrever uma carta aberta a Cristiano Ronaldo, no Facebook, pedindo-lhe que recuse receber a condecoração que o Presidente da República lhe quer impôr em cerimónia a decorrer na próxima terça-feira. Quando a li, já ia em mais de duzentos aderentes, mas reúne os requisitos, se bem propagandeada, para ser um sucesso:

 

Começa por tratar a estrela por "tu". Está certo: Cristiano entra-nos em casa pela televisão de calções e t shirt, portanto praticamente de pijama de Verão, e seria porventura um exagero tratá-lo por "você", dado que é nosso íntimo. Ou não? Não, digo eu, não é nosso íntimo, apenas o é da família e amigos - nós somos admiradores de um atleta excepcionalmente dotado e do sucesso que tem sabido merecer, mas isso não nos deveria consentir familiaridades de trato: o homem é maior de idade, pai de filhos e cidadão eleitor.

 

E este detalhe é denunciador: eh pá, somos todos malta porreira, deixa lá o cota mais as condecorações dele, aqui a gente nova é práfrentex, não liga a essas merdas.

 

Depois, o texto explode numa frase profunda: "Ser português não significa apenas marcar golos com camisolas ou símbolos. Ser português é amar, é querer estar próximo dos seus, é ser um expoente de humanidade".

 

Ai sim, ser português é isso? Olhem cá, acho a vossa ideia perturbadora, porque aqui este ignoto escriba não marca golos, não é um expoente de humanidade, ama sobretudo o bacalhau à moda de Braga, o que provavelmente não o qualifica para grandes voos de patriotismo, e às vezes quer estar longe dos seus, por mor de ouvir música sozinho. Ora, não obstante estas desqualificações, sempre se julgou português, pela razão comezinha de ter nascido e sido educado em Portugal.

 

Isto não chega? Mas tem que chegar, senão a maioria esmagadora dos portugueses seria, afinal... estrangeira.

 

E continua, agora numa toada fadista: "... O povo para quem marcas golos...".  Há aqui um mal-entendido: se Ronaldo marcasse golos para o povo, seria quando muito para o espanhol, mas nem isso - a triste verdade é que os golos são apenas para o Real-Madrid.

 

Passamos à parte substantiva da carta: "Esta pessoa que te quer apertar a mão e usar o teu mediatismo para lavar a sua própria imagem, é o mesmo que representa os poderes e as forças que deixam os miúdos que querem usar a tua camisola sem escolas, é o mesmo que representa quem desemprega os que festejam os teus golos e para quem jogas, é o mesmo que representa quem empobrece os milhões de velhos que ficam mais novos quando te veem jogar ou exploram os milhões que nos estádios, nos cafés ou em casa, cantam o hino contigo".

 

Este trecho é comovente: Cavaco Silva é um monstro; e chegou a Presidente da República, depois de ter sido Primeiro-Ministro dez anos, enganando toda a gente, que não percebeu as ignomínias que iria praticar mal se apanhasse no Poder. Pior: eleito em 2006, conseguiu esconder do eleitorado a sua verdadeira natureza, de tal sorte que foi reeleito em 2011. Ah, que diferentes - e tão melhores - as coisas seriam se este povo cegueta tivesse elegido antes o camarada Francisco Lopes, um gigante da Democracia, ou Manuel Alegre, um vulto da Cultura e da caça desportiva.

 

E chegamos finalmente à conclusão, avassaladora na sua comovente simplicidade:

 

"RECUSA RECEBER ESSA CONDECORAÇÃO..."
"... terás o aplauso e o carinho de milhões de lares portugueses onde a comunicação social não entra. Essa é a tua condecoração. Esse é o teu melhor golo... em milhões de lares, Cristiano, simples, pequenos, pobres, anónimos e invisíveis... como um dia foi o teu".

 

Cristiano Ronaldo, é claro, vai receber com orgulho a condecoração; Cavaco dirá as palavras de circunstância adequadas - nem ele, aliás, mesmo que quisesse, saberia dizer outras; os presentes aplaudirão; cá fora haverá uma multidão de admiradores para aclamar o craque, à saída; e os portugueses de senso, de esquerda e direita e centro aplaudirão intimamente, porque o significado das medalhas é reconhecer o mérito dos que de alguma forma se distinguiram, pelo mérito, dos seus concidadãos. E nem por muitas vezes (mas não é aqui o caso) os contemporâneos e os responsáveis pela atribuição de louros se enganarem nos juízos que fazem o significado pode ser outro.

 

É só isto. A assinatura ("Os Portugueses") é por isso um abuso. A dos promotores, mais a dos aderentes, chegaria perfeitamente.

publicado por José Meireles Graça às 23:57
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2 comentários:
De José Domingos a 7 de Janeiro de 2014 às 17:12
Os povos, labregos e pindéricos, que não têm onde cair mortos, são invejosos, a inveja é o motor das suas vidas, miseráveis, agarrados ao chão.
De Visionário do Caraças a 8 de Janeiro de 2014 às 03:39
Agradeço-lhe porque foi graças a si que tomei conhecimento desta palhaçada! Sinceramente...

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