Sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014

Tristezas à beira-mar

Quando o actual governo tomou posse, fui um dos que viram com bons olhos a diminuição de ministérios: apenas onze, uau.

 

Houve quem dissesse que os ministérios eram grandes de mais, mas era gente que acha sempre mal qualquer indício de diminuição do peso do Estado, fazendo portanto parte daquele ruído de fundo que acompanha a vida pública entre nós. Creio que, dos magistrados da opinião, Pacheco Pereira também terá dito qualquer coisa, mas Pacheco de modo geral respeita muito o PCP, detesta o PS quando este está no governo, odeia o CDS e abomina o PSD quando calha não lhe pedirem licença para eleger um militante que não o seja da pequena capela da qual julga ser o pároco. Daí que não fosse, também, para levar a sério.

 

Por mim - ó santa ingenuidade! - supus que a diminuição do número de ministérios era o sinal da reforma do Estado, e que esta consistiria na diminuição de intervencionismos sortidos, extinção de serviços, eliminação de sobreposições, privatizações do que não pertencesse às funções essenciais (as clássicas e as hoje consensuais), reforma do Poder Local diminuindo a quantidade de autarquias, as suas competências e a sua liberdade, na medida em que ela pudesse ser usada para a gestão democrática da compra de votos com endividamento, e um longo etc. - tudo dentro do que sem propriedade nenhuma se chama neoliberalismo, a fim de o qualificativo, que passa por insulto, passasse a ser justificado, se atingisse rapidamente o défice zero (nem que para isso fosse necessário utilizar parte do ouro do Banco de Portugal, a fim de ter recursos para indemnizar os funcionários despedidos), e se criassem as condições, num futuro não excessivamente distante, para poder diminuir a sufocante carga fiscal.

 

Claro que a ingenuidade tem limites. E deste programa maximalista estava preparado para ver com bons olhos a realização de apenas uma pequena parte.

 

Sabe-se o que sucedeu: o Estado sofreu apenas os cortes que a férula dos credores impôs, ou ainda menos; foram sobretudo transversais; o Poder Local, incluindo essa equivocada conquista de Abril que são as autonomias insulares, ficou incólume nas suas competências e no direito ao calote, logo que haja quem empreste; as privatizações não visaram o aumento da concorrência e da eficiência, mas apenas a obtenção de receitas para tapar um buraco que só pouco e timidamente se começou a diminuir no ritmo a que cresce; e a opinião está entupida de profetas do desenvolvimento, que têm grandes projectos de investimento na educação, no mar, na formação profissional e no mais que uma Academia de lunáticos esquerdistas, economistas do intervencionismo sortido, e autores por castigar do buraco em que enfiaram o pais, recomendam - desde que haja quem empreste.

 

Foi assim. E em devido tempo alguns ministros cansados cederam algumas competências: já que não era para extinguir nada nem revogar coisa nenhuma, realmente não se aguentava. Um dos ministérios que renasceu das cinzas foi o do Ambiente, em Julho de 2013.

 

Pois o responsável por esta pasta em má hora ressuscitada foi ver os estragos que o mar causou, como periodicamente causa, na orla costeira, e declarou há dias a uma comunicação social embevecida: “Quando, muitas vezes, algumas pessoas olham com uma certa sobranceria, até com algum cinismo, para o discurso a favor das energias renováveis, da eficiência energética, da mobilidade sustentável, da redução das emissões, é importante que tenham a noção de que a mudança climática, infelizmente, não é ficção científica, não é matéria para daqui a 20, 30 anos. Está a ocorrer”.

 

Olha, Ministro: eu sou um desses que olha com sobranceria para as energias renováveis - se e quando forem necessárias o mercado inventa-as, até lá as tuas políticas o que fazem é engordar a minha factura da EDP para sustentar parasitas, senão corruptos; não preciso de ti, nem dos teus diplomas, certificados, burocratas e taxas, para me preocupar com eficiência energética; dispenso a tua mobilidade sustentável, que suponho consista em andar de transportes públicos de pé, quando não estão em greve; se queres reduzir as emissões, vê mas é se arranjas maneira de tornar o gás mais barato; e as tuas alterações climáticas, que ainda ontem eram aquecimento global, não são ficção científica - são patranha científica para justificar fundos, estudos, tachos, conferências, notícias alarmistas e importância para gente como tu.

 

Regressa a Lisboa, vai - de bicicleta.

publicado por José Meireles Graça às 01:23
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