Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

O Pingo Amargo

As centrais sindicais fazem parte do mobiliário da vida social, e têm assento no Conselho Permanente de Concertação Social, para manter um estado de coisas. Uma parte dos sindicalistas representa aquilo que o PCP acha que são os interesses dos trabalhadores, isto é, uma sociedade comunista adaptada às circunstâncias locais, outra parte aquilo que o PS acha que são os interesses dos trabalhadores, isto é, uma sociedade nórdica imaginária adaptada às circunstâncias locais, e, finalmente, uma outra ainda acredita representar os trabalhadores propriamente ditos, enquanto na realidade lhe cabe o papel de compagnon de route das duas primeiras.

Supõe-se que o Governo defenda uma certa ideia de interesse nacional, na concretização do qual vai negociando com os sindicatos e os "representantes" dos patrões, de modo a atenuar e, preferentemente, anular tensões sociais.

Tem funcionado bem. É porém carote (são os contribuintes que pagam o Conselho, e indirectamente as mordomias de muito sindicalista) e implica uma quantidade considerável de língua-de-pau: A CGTP nunca está satisfeita, nem poderá estar, por ser obrigada a dizer que quer aperfeiçoar o sistema que na realidade visa destruir; a UGT vive em perpétuo estado de fingimento por, concordando no essencial com o que o Governo do dia quer, ser obrigada a mostrar serviço; as associações patronais, que com frequência ainda são menos representativas que os sindicatos, tentam limitar os estragos das cedências dos governos; e estes colocam a barra mais alto, de modo a simular cedência, a fim de evitar "convulsões sociais".

A geringonça por estes dias anda emperrada: O Governo não pode fazer concessões para comprar paz, Troika oblige; a CGTP discorda das exigências que o protectorado implica, e hesita entre achar que a situação está madura para a Revolução, e achar que ainda não; a UGT quer, mas não quer, cumprir as exigências, tal como o PS, e espera que a "Europa" de uma forma ou de outra descalce a bota; as associações patronais quereriam mais cortes na despesa, menos impostos e mais liberalização, mas não tantas falências nem tanto desemprego - a coisa assusta.

O ambiente radicaliza-se. E é aqui que entra o Pingo Doce, o 1º de Maio e o golpe do saldo a 50% de desconto.

Se fosse apenas marketing marqueteiro, seria difícil de entender: i) o Pingo Doce não tem falta de notoriedade; ii) A clientela pode entrar em estado frenético com a enormidade do desconto, mas não vai no futuro deixar de comparar preços, e a fidelidade só se manterá se a cadeia não tentar recuperar depois o que perdeu agora; iii) A iniciativa não arredará concorrentes do caminho; iv) Salvo algum consumo oportunista (Glenfiddich Reserve 12 years a metade do preço - hum, a fome é negra), o grosso foi de bens de primeira necessidade, cuja venda se vai ressentir durante algum tempo.

Não, contas bem feitas isto não é marketing, golpe de génio comercial ou o catano: é política.

E é por o ser que a direita e a esquerda blogosférica salivam: uns porque acham que o empresário, quando falha, é incompetente e criminoso e, quando tem sucesso, é explorador e ladrão, e nada do que faça pode realmente beneficiar o trabalhador; os outros porque apreciam ter sido feita a prova de que o trabalhador mediano troca com facilidade feriados, passeatas a pé, bandeiras, amanhãs que cantam e ilusões por três carrinhos de compras a saldo, cheios até às bordas. Nada que não se soubesse, mas que ficou demonstrado de forma um tanto crua e por conseguinte imperdoável por parte da esquerda, que não aprecia que lhe desfaçam as ilusões.

A mim me parece que o Sr. Alexandre Soares dos Santos tem tanto direito a fazer política como outro cidadão qualquer. E que, dada a sua merecida notoriedade pública, não lhe faltam púlpitos. Mas se a porta do sucesso é estreita, muito estreita, e isso justifica a admiração por quem por ela conseguiu passar, o génio e as qualidades que exornam quem o conseguiu não dá garantias de nenhuma forma de lucidez na gestão da coisa pública. Tal, e simetricamente, como o sucesso na carreira política, até mesmo de estadistas, nunca deu nem dá nenhuma garantia de igual performance na carreira empresarial. É por isto aliás, entre outras razões, que o Estado empresário costuma ser um empresário falido.

Já bastam as listas de intelectuais e artistas a quererem influenciar eleitores com a imaginária autoridade que lhes dão as suas carreiras; os sindicatos a quererem fazer passar de contrabando sociedades alternativas, à boleia de reivindicações laborais: era o que mais nos faltava se, para fazer vingar pontos de vista políticos, os empresários desatassem a utilizar as suas empresas para fins que são alheios às próprias empresas.

O Pingo Doce tem todo o direito de tomar as decisões que entenda para a prossecução dos seus fins; mas não tem o direito de ser um player político, senão na exacta medida em que o seu sucesso, em Portugal e sobretudo no exterior, é um exemplo de que o capitalismo funciona.

publicado por José Meireles Graça às 18:11
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10 comentários:
De Margarida Bentes Penedo a 2 de Maio de 2012 às 21:19
A primeira análise com recuo suficiente que vejo sobre este assunto. Há muito tempo que não gostava tanto de um texto teu, Zé Maria.
De José Meireles Graça a 2 de Maio de 2012 às 22:46
Fico contente, e agradeço, mesmo que não mereça, Margarida.
De Jean Valjean a 2 de Maio de 2012 às 22:45
Que o sindicalismo morre de inaptidão pelo partidarismo de génese, estamos de acordo. Que uma empresa faça política à custa da necessidade e religião (a do consumismo) de muitos, nem por isso. Que o capitalismo é funcional, apenas e só se o desiderato for a entropia. Aritmética oblige. E contra essa senhora, nem a outra (a Troika) pode grande coisa. Dois cubos de gelo ou o opróbio do individualismo. Ou egoísmo. Ou entropia.
De Margarida Bentes Penedo a 3 de Maio de 2012 às 01:52
Ó sr. Jean Valjean, o comentário que o meu amigo escreveu quer dizer alguma coisa ou é só um cover de sociólogo?
De Rosário Coimbra a 3 de Maio de 2012 às 09:23
Sinteticamente: o capitalismo não é uma ideologia; é uma entropia.
De Margarida Bentes Penedo a 3 de Maio de 2012 às 10:33
O capitalismo não é uma ideologia; é um sistema económico.
De Rosário Coimbra a 3 de Maio de 2012 às 10:44
Isso era assim nos livros didáticos dos anos 50, Margarida.
É precisamente na ideologização do capitalismo que começa a sociologia.
De Margarida Bentes Penedo a 3 de Maio de 2012 às 11:04
A ver se eu percebo: o capitalismo é um coiso que nos livros didáticos dos anos 50 era um sistema económico. Depois deu-se uma ideologização. Vieram os sociólogos e transformaram o capitalismo numa entropia. É isso? Estou esclarecida.
De Rosário Coimbra a 3 de Maio de 2012 às 11:38
Perfect, then!
De Jean Valjean a 3 de Maio de 2012 às 11:50
O capitalismo é uma ideologia que extrapola a mera sistematização económica e encontra cabimento numa visão individualista tipicamente protestante. Ascendeu a dogma máximo, conduzido pela mão de uma burguesia liberta pelo iluminismo de Hegel. É entrópico porque tende para a centralização da gestão de acesso aos recursos, em função da agregação de capital. A entropia reside nessa característica básica do capitalismo: a desigualdade gerada no acesso aos mais elementares meios de subsistência. Em todo o caso, este senhor explica: http://www.ted.com/talks/richard_wilkinson.html.

Ah! O sindicalismo é o meio de defesa de quem apenas concorre no mercado com o seu trabalho, sendo tão mais eficaz quanto menos permeável for à azáfama partidária. Agora vou rever algumas fotografias em Câmara de Lobos: uns quantos turistas alemães praticam o nobre desporto do lançamento da moeda pela ribanceira abaixo, enquanto meia dúzia de crianças de pé descalço se atira de cabeça em busca da dita cuja (a moeda).

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