Sexta-feira, 31 de Julho de 2015

1984

Sempre suspeitei que o cartão de cidadão, com a possibilidade de armazenar dados, e os seus três ou quatro pins que é preciso memorizar, era uma pedra na tumba das liberdades; e que seria apenas uma questão de tempo até que um dos controleiros que pululam no governo e fora dele - a falta de respeito pela liberdade é, na esquerda, um dado adquirido em nome da igualdade e, na direita, quando ocorre, em nome da segurança, da eficiência, da ignorância ou da inconsciência - começasse a tirar partido do mundo de possibilidades que a informática oferece.

 

Aí está. E em vez de se ver a iniciativa por aquilo que é, um perigoso passo para amanhã se começarem a tratar dados e com base neles se imiscuírem Savonarolas da saúde pública, como o Secretário Leal, na relação médico-doente, ensinando uns a prescrever e outros a adoptar os comportamentos que as autoridades acham recomendável, censura-se os médicos porque - ó escândalo! - apenas metade "tem Cartão do Cidadão ou da sua Ordem".

 

Um imbecil que preside a um organismo que responde ao nome de Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) declarou que "um médico do Serviço Nacional de Saúde (SNS) sem Cartão do Cidadão é uma vergonha", em "sessão de esclarecimento".

 

Vergonha é haver funcionários que se permitem "esclarecer" os cidadãos que os sustentam com os seus impostos sobre o que é melhor para eles; e que não hesitam em considerar que os médicos deveriam sentir "vergonha" por não terem a merda do cartãozinho que o burocrata acha importante.

 

Já hoje as autoridades fiscais acham que o cidadão tem que ter um endereço de e-mail e uma conta bancária, o primeiro para comunicarem directamente as suas importantes opiniões e decisões, a segunda para devolverem o que não deveriam ter cobrado e, eventualmente, juntar à pilhagem dos próprios bancos a do Estado. E é claro que todos temos que ter uma ligação à Internet, e tirar cursos de formação, se tivermos menos de 65 anos, para navegar no mar de declarações que os nossos extremosos patrões nos exigem, para nosso benefício.

 

O regime fascista exigia que não nos metêssemos na política ou que, se o fizéssemos, tivéssemos a elementar prudência de o fazer do lado dele. Afora isso, deixava-nos em paz. Possivelmente, porque não tinha meios informáticos.

publicado por José Meireles Graça às 23:01
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