Sábado, 30 de Junho de 2012

Um homem feliz - Concurso literário

 

 

 

 

"Não me interessa dissertar sobre as capacidades de José Luis Arnault para o cargo de vogal da administração da recém-privatizada REN. Assim como não me interessa questionar a sua qualificação para presidente da Assembleia-Geral da Federação Portuguesa de Futebol(*), ou qualquer outro dos demais cargos de regime que lhe pertencem. Apenas constato que a sociedade de advogados de que é sócio - e que tem como cliente a dita REN - louva-se de ter no seu currículo a "elaboração de legislação" no domínio da energia. Ou seja: o Governo, ou governos, encarrega uma sociedade de advogados que tem como cliente uma empresa que explora a distribuição de energia em regime de quase-monopólio de elaborar as leis que regem essa actividade. E a Sociedade de Advogados gaba-se disso! Advocacia, dizem eles..."

 

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso 30 de Junho de 2012)

 

(*) Nota: O dr. José Luis Arnaut foi o promotor dos estádios do Euro 2004. Desempenha hoje, além de outros, o cargo de delegado do Governo para a prestação de elogios ao Governo nos programas emitidos pela SIC.

 

Pergunta:

 

Em bom português, o que é que se chama a isto?

 

_______

 

Regulamento do concurso:

 

1.) As propostas deverão ser apresentadas até à meia-noite de hoje;

2.) É permitida a consulta a qualquer dicionário;

3.) Aceitamos todo o tipo de linguagem;

4.) Este concurso não foi aprovado por etc. etc., em despacho de tantos do tal;

5.) A melhor resposta será premiada com uma fotografia do dr. José Luis Arnaut, em formato a definir, tratada num programa de processamento de imagem pela autora deste post.

 

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 19:47
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2012

A mala de cartão com diplomas

Sempre ouvi dizer que o segredo para o sucesso da economia é a educação. Formam-se engenheiros, técnicos, cientistas às resmas, dá-se um diploma a toda a gente, de física atómica ou entomologia, e o progresso está logo ali, ao dobrar da esquina. Simples, basta esperar uns vinte aninhos para os benefícios começarem a aparecer, como frutos maduros.

 

Há ou houve alguma vez nos tempos modernos um país que de repente começasse a fugir à mesmice da estagnação, sem um grande esforço na educação? Não há, pois não? Ora aí está.

 

Há mesmo quem defenda que a superioridade chinesa, algo que durou pelo menos até ao Renascimento (parece, por exemplo, que a melhor tecnologia naval da época dos Descobrimentos não era a Espanhola ou Portuguesa ou Italiana, era a Chinesa) se ficou a dever à instituição do mandarinato, que permitia o acesso à classe dirigente não pelo nascimento mas pelo conhecimento.

 

Sucede que os países comunistas sempre acreditaram nesta receita; e, concomitantemente, "apostaram" na educação, com os resultados que se conhecem, não obstante um modesto triunfo, mais propagandístico que real, aqui e além. E nós, que temos "a geração mais bem preparada de sempre", no dizer pacífico e orgulhoso de quem nisso acredita, temos também a abjecta situação a que nos trouxe, entre muitas outras coisas, o despejar sem critério de milhões de dinheiro público por cima da educação, mais o empreendedorismo das fábricas privadas de diplomas com a chancela do Estado.

 

Manuel António Pina aponta o dedo premiado, fremente de indignação, a uns quantos privilegiados do regime, e põe-nos a eles de um lado e, do outro, os emigrantes, dos quais "muitos são engenheiros, arquitectos, professores, cientistas, que levam na bagagem conhecimento técnico, doutoramentos, mestrados, licenciaturas, e a frustração por terem nascido num país que os enjeita, castigando-os por terem perdido anos a estudar e qualificar-se ...".

 

O País não os enjeita pelo investimento que fizeram - castiga-os por não ser capaz de criar empregos. E não os criou nem cria por causa do mesmo Estado que acreditou na equação simplista de que mais ensino = mais desenvolvimento. O ensino é condição necessária mas não suficiente - fora preciso, além disso, que não fôssemos governados por gente que como Pina confunde correlações com causalidades e acha por exemplo que mais igualdade = mais desenvolvimento.

 

Pina não entende coisas complicadas - as ideias iracundas de motorista de táxi embrulha-as num português literário escorreito, a ver se ficam mais lúcidas.

 

Não ficam. 

 

publicado por José Meireles Graça às 22:47
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2012

Flores contra o capital

 

 

Ele é militares de Abril avonde, o paizinho do SNS, professores, sociólogos, actores, cineastas, deputados, jornalistas - o who's who da Esquerda alfacinha, mesmo quando não vive em Lisboa. Há pelo menos um cantautor, seja lá isso o que for, e vários politotólogos, com perdão à minha amiga que cunhou o termo.

 

São a gente das Alternativas. Daí não vem mal ao mundo - nos intervalos do Congresso, o dever cumprido, vão beber umas imperiais, a televisão entrevista e os entrevistados, olhando para o infinito, espumam a sua indignação contra a Merkel, o mercado e a realidade, após o que se dirigem aos mictórios.

 

Vejo porém, semeados lá pelo meio, uns quantos próceres do establishment, não da Alternativa mas da Alternância, os Galambas da economia vudu: se queres pagar o que deves, começa por te endividar ainda mais, que ele há muita desigualdade. E isto, confesso, não aprecio, para o peditório dos engenheiros do progresso a golpes de calote já demos.

 

Não vi empresários (nem sequer dos falsos, que todavia também têm interesse no Estado que tudo regula, que investe, dirige a economia, e faz a chuva e o bom tempo).

 

Boaventura há-de fazer um discurso seminal, não sabemos se trajando uma camisa às flores ou o fato e gravata de académico práfrentex fortemente de esquerda. E é esta a única dúvida sobre o que se vai passar.

 

publicado por José Meireles Graça às 19:34
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2012

O manto

 

 

O mantra dos políticos de eleição que dantes havia (Kohl, Mitterrand, Mário Soares, Delors e tutti quanti, para não irmos aos monstros sagrados Monnet, Shuman, de Gasperi, Adenauer ou Spaak) e agora não há é daqueles discursos do "dantes é que era" - não podem ser contraditados porque as circunstâncias eram diferentes e as comparações históricas, precisamente, devem levar em conta as circunstâncias.

 

Há porém um critério seguro para medir a "grandeza" dos estadistas históricos, e esse é o do grau de influência exercido na vida dos contemporâneos e vindouros. Afonso Henriques fundou uma independência sobre a qual, em devido tempo, se construiu uma nacionalidade, César lançou as bases para o Império, Washington foi e Mandela provavelmente é Pai de Pátria, Lenine e sobretudo Estaline, tal como Hitler, são epítomes de tragédias multi-nacionais que, tantos anos volvidos, ainda projectam as suas sombras. Estes homens, e muitos outros, encontraram o Mundo assim e deixaram-no assado.

 

Não podemos ter a certeza de que os tempos que vivemos serão grávidos de consequências de monta. E todavia faz falta alguém como Churchill, para dizer o óbvio para ele, mas original para os contemporâneos, como fez em 5 de Março de 1946: From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic an iron curtain has descended across the Continent. Behind that line lie all the capitals of the ancient states of Central and Eastern Europe. Warsaw, Berlin, Prague, Vienna, Budapest, Belgrade, Bucharest and Sofia; all these famous cities and the populations around them lie in what I must call the Soviet sphere, and all are subject, in one form or another, not only to Soviet influence but to a very high and in some cases increasing measure of control from Moscow …

 

Ele via a cortina e com ela cunhou a expressão "cortina de ferro". E permito-me pensar que hoje, deparando-se com mais um aflorar deste projecto, não veria uma cortina mas um manto que lentamente se estende sobre boa parte da Europa, com a intenção delirante de, para salvar um equívoco e adiar estas consequências, abafar as independências nacionais. 


Não duvido que quem ache, como eu acho, que as contas públicas devem ser equilibradas, talvez possa aplaudir a iniciativa; que quem acalentou o sonho de ficar rico, desenvolvido e moderno por efeito de pertencer a um clube rico, desenvolvido e moderno, não queira despertar; que quem entende que a moeda faz os países, em vez de os reflectir, não queira abrir mão da ambição de forçar o desenvolvimento com a engenharia da moeda; e que a quem pareça que o princípio nacional é uma velharia historicamente ultrapassada, o passo em frente dos desnacionalismos pareça lógico.

 

E sobretudo não duvido que os meus concidadãos, aos quais foi prometido o terceiro D (o do desenvolvimento, para quem não se lembra) não queiram acreditar que a classe dirigente que elegeram e reelegeram os meteu numa enrascada; e que as outras classes dirigentes dos países com os quais partilhamos o Euro se tenham igualmente enganado.

 

Não se enganaram, dizem os responsáveis - apenas calcularam mal alguns detalhes. E para os corrigir basta que o Poder, todo o Poder, passe para quem não fala a mesma língua, não tem os mesmos interesses, nem peso demográfico semelhante, nem o mesmo sentimento de pertença nem as mesmas circunstâncias. Antes acreditavam que o Euro seria o abre-te Sésamo do Progresso; e agora reclamam que os cidadãos que neles confiaram nem sequer os julguem por se terem enganado.

 

Não vai acabar bem: se o Euro não se finar vítima do seu insucesso, acabará mais tarde vítima do seu sucesso, porque este nunca será, nem pode ser, igualmente distribuído. E mesmo que uns porque de tão aflitos queiram apenas ser salvos, e outros os queiram salvar porque deles precisam para manter a ficção e os interesses do barco comum, tarde ou cedo se verá que este não tem condições de navegabilidade.

 

Creio que Churchill diria, mil vezes melhor, isto mesmo. O que me leva a concordar afinal com o mantra do início: dantes é que era - mas temos que ir um pouco mais atrás do que costumamos.

 

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publicado por José Meireles Graça às 23:15
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Terça-feira, 26 de Junho de 2012

Uma agente cultural

 

 

A Raquel é jornalista e escritora. Em "jovem" (até perto dos 40 anos) deitava-se com "gajos" - na altura ainda não eram "fulanos", isso veio com a maturidade. Um deles tinha o apelido atraente, e escusou-se a repetir a farra porque não justificava outra viagem a Corroios. Uma guerra jurídica, com testes de ADN, obrigou "o gajo" a reconhecer a paternidade da Benedita, porque nem o nome da criança conseguiu enternecê-lo. Morreu de cancro, pouco tempo depois.

 

Ficou orfã a Benedita e atraente de apelido, uma vez que do pai não herdou mais nada. Conheceu uma variedade grande de sofás alheios, onde dormiu sempre que a mãe conseguiu que as amigas tomassem conta dela enquanto jantava, entrevistava, investigava e teorizava gajos. Ou fulanos. Ou directores. Ou candidatos. Ou especialistas. Ou editores, que a Raquel preparava-se para escrever um romance. Às vezes colegas de redacção, que a Raquel, nas suas palavras, não gostava de arranjar problemas laborais com a ralé. Um desses demorou-se lá por casa mais tempo do que era habitual, o suficiente para a Benedita ficar a saber que se chamava Vítor. E que tinha uma empresa de "conteúdos" ligados "à cultura" chamada Convicções Propícias, cheia de "contactos". E que a mãe odiava as camisolas que ele vestia, e a maneira como pronunciava os "erres", e nem sempre lhe atendia o telemóvel.

 

A Benedita viu como eles se cansavam a trabalhar, porque respiravam depressa e com muito barulho, e a mãe dobrava as pernas em posições muito esquisitas, e deixava as roupas espalhadas por cima das almofadas da sala e penduradas no poster do Paul Klee, e tinha as costas todas lambuzadas com tofu, e diziam coisas que a Benedita não percebia, acerca da "formação social" e da "instância do económico", e o Vítor tropeçava na ficus benjamina, e respondia com a "sobredeterminação da instância dominante" enquanto apertava um cachecol de tricot à volta dos pulsos da mãe, e a mãe gritava pelo "materialismo aleatório" e tinha uma pastinaca na mão, e no fim quem é que ia limpar aquilo tudo?

 

Mudaram de casa, foram viver para as Avenidas Novas, e a Raquel disse ao Vítor que "precisava de espaço". O Vítor deu o seu melhor. Entrou "em diálogo". Adoptou a Benedita, que se viu na contingência de passar a tratá-lo por "pai". Mas a Raquel não voltou atrás, e a Benedita passou a estar com o Vítor em fins de semana alternados, às quartas feiras para jantar no japonês, na véspera de Natal e durante metade do período de férias escolares.

 

Passados uma série de fulanos, a mãe começou a entrevistar o Zé Gonçalo, que a Benedita conhecia do Liceu Francês porque era pai de uma colecção de irmãs, as Fonseca Bastos, e costumava ir buscar as filhas às quartas feiras num carro escuro com a bandeira de Portugal no capot.

 

"Por insistência do Zé Gonçalo", a Raquel passou a andar muito ocupada a presidir a um "organismo da cultura". E a Benedita percebeu, passado um tempo, quando o governo caiu e o Zé Gonçalo já não era ministro nem andava lá por casa, que era dele que a mãe falava na televisão, dizendo que "a direita, ignorante e trauliteira", tinha "passado as últimas décadas a oferecer-nos gentinha deste género, como o dr. Fonseca Bastos" e que "toda a sua biografia" demonstrava que ele era "um carreirista praticamente analfabeto", e que não entendia "como é que as pessoas estavam tão surpreendidas".

 

Distraí-me uns anos e perdi o rasto à Benedita. Mas sei da Raquel que continua a participar em debates televisivos e a escrever (para os jornais; que se saiba, ainda não publicou nenhum romance). Sei também que, nas redes sociais, é considerada uma pessoa muito contundente.

 

______________

 

Nota: Pura ficção. Qualquer semelhança com nomes, factos ou não sei quê, é simples coincidência.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 01:28
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O debate imaginado

Fui num pé a Vigo tratar de um assunto, e vim no outro. Parei na área de serviço de Barcelos, para uma água bem fresca, que estava um calor tropical, e vi de relance na TV Heloísa Apolónia, acho que no debate da moção de censura. A sua voz enchia o espaço - a voz da simpática Heloísa enche os espaços como o som de uma broca de dentista.

 

Dizia as coisas previsíveis que Heloísa Apolónia diz. Hesitei sobre se havia de ficar mais um pouco - gosto dos rituais parlamentares, da oratória, sempre fico à espera de uma boutade, uma frase mais conseguida, um argumento novo.

 

Fui à vida. Podia ligar o rádio para ouvir o debate, mas não, que gostar, gosto, mas nem tanto. E dei comigo a pensar que, depois da Heloísa, delegada do PCP para aquela coisa da Verdura e dos aumentos de tempo de intervenção no Parlamento, os moços do BE haveriam por certo de falar na colonização do aparelho de Estado pelos boys da nova Situação - se fosse com eles nomeariam pessoas de reconhecido mérito e credenciais democráticas fortemente de esquerda; e no falhanço das políticas de austeridade - se fosse com eles já Portugal liderava os países humilhados e ofendidos para obrigar a Europa do Norte a aceitar inflação, reescalonamento da dívida e endividamento novo para investimento público e expansão do Estado Social; e no caminho do falso rigor que Crato quer impor ao sistema de ensino - se fosse com eles far-se-ia mais com mais, porque recursos não faltariam, e os diplomas de todos os graus seriam atribuídos a quem soubesse a matéria porque os mereceria e a quem não soubesse porque são contra discriminações; e recomendariam novos impostos sobre os ricos, porque estes evidentemente não exilariam capitais, dado que ficariam prestes sem eles; e nacionalizariam bancos, mas não como aquela vigarice do BPN - se fosse com eles as nacionalizações seriam transparentes, justas, limpas, abundantes e rendosas, não havendo quaisquer riscos de retaliação ou sistémicos ou de crédito; e na Agricultura? Oh, na Agricultura, se fosse com eles, mil campos de papoilas floririam.

 

E assim por diante - não ouvi o debate mas foi como se ouvisse, sei do que a casa gasta.

 

Vendo bem, o gosto por debates é quase um vício indesculpável, visto que de um lado temos três interpretações da mesma melodia, o que a torna um tanto monótona. Do outro temos uma única, embora um ouvido treinado consiga detectar algumas fífias na orquestra. E no meio fica a secção de percussão, com os tambores rotos, os pratos esbotenados, as congas e os djembés feitos num oito.

 

Do meio e do lado direito falarei, ou não, noutra maré. Para já, deixo uma representação gráfica do lado esquerdo do hemiciclo, conforme o debate que adivinhei.

 

publicado por José Meireles Graça às 00:59
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Sábado, 23 de Junho de 2012

O cano

                                                                              

 

Saudades de Sócrates: o país tinha um homem forte e determinado ao leme, trabalhador incansável e orador notável. Num dia típico, ia de manhãzinha a Vila do Conde salvar a Qimonda, antes do almoço inaugurava um troço de autoestrada, de tarde esmagava a oposição apresentando luminosos projectos de desenvolvimento com TGVês, programas tecnológicos, energias renováveis, computadores para as escolas, elas própria remodeladas com gosto e luxo, e, à noite, não descurava a cultura, indo ver uma peça teatral, ou um filme que não se teria feito sem o patrocínio do Estado - bons tempos.

 

Não deve ter havido governante, desde os tempos de Fontes Pereira de Melo, que tantas primeiras pedras tivesse lançado de tanto investimento que nos iria tirar do nosso atávico atraso. E por isso, e porque as pedras ainda as temos todas ao pescoço, não conseguimos esquecê-lo.

 

Fez escola e deixou seguidores, e não apenas entre os seus correligionários. De quando em vez, vemos relampejar nos lugares mais inesperados o espírito Sócrates.

 

Por exemplo: os pescadores da Afurada estão desde sempre segregados dos esplendores da Foz, separados pelas revoltas e traiçoeiras águas do Douro? Há condutores que chegam, na Ponte da Arrábida ou do Freixo, em horas de ponta, a esperarem para cima de meia hora? As cidades do Porto e Vila Nova de Gaia estão incompreensivelmente separadas, quando, se estivessem juntas, qualquer delas ficava maior?

 

Nada que três pontes e um túnel não resolvam. Fallait y penser.

 

É o que Luís Filipe Meneses diz. Porém, a mim ocorreu-me, sem pôr em causa a necessidade ingente de unir as duas cidades, que haveria talvez um processo mais radical de conseguir aquele desiderato: bastaria encanar o Douro, entre a Foz e o Freixo, urbanizando o larguíssimo espaço por cima do cano e assim subtraindo a uma natureza hostil milhares de hectares. Ficaria talvez um pouco mais caro mas as boas ideias - não é verdade? - não têm preço. 

publicado por José Meireles Graça às 15:18
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Quinta-feira, 21 de Junho de 2012

O escândalo pouco escandaloso

Há dias, a propósito de uma carta de um senhor de um Observatório (a palavra faz-me instintivamente apalpar a magra carteira de contribuinte desconfiado) pronunciei-me com profundidade e acerto sobre o Serviço Nacional de Saúde. Confesso que a profundidade não era tal que requeresse, digamos assim, escafandro, e o acerto resulta de uma opinião que, ainda que me mereça o maior respeito, não é completamente isenta, e que é a minha própria.

 

Noutro blogue onde também publiquei o texto, um leitor empenhou-se em demonstrar, com pertinácia e arreganho (e só por me ter dado o pretexto para usar estas duas refulgentes palavras já lhe estou grato) a superioridade do sistema público, referindo, entre outros argumentos, que nos E.U.A. os indicadores de saúde não são tão bons como os dos países onde há sistemas públicos do género do nosso, e que não notava nenhuma diferença sensível de tratamento entre o público e o privado, a julgar pela experiência pessoal que tinha.

 

A esses argumentos, e outros, respondi o que entendi.

 

Sucede que ontem li este post de Joaquim Couto e, curioso, segui o link que lá vem. A história é arrepiante, e consiste na eutanásia de 130.000 idosos por ano, no Reino Unido, por sofrerem de doenças que, aparentemente com ligeireza, são consideradas incuráveis. O "tratamento" liquida as pessoas, em média, em 33 horas.

 

Não pretendo sobre isto formular juízos definitivos, o assunto é certamente complexo e uma notícia de jornal vale o que vale. Mas não creio que vá haver grande escândalo: é um "serviço nacional", é público, é apresentado há muito como uma conquista e um triunfo - uma bandeira, em suma.

 

Imaginemos por um instante que a mesmíssima notícia dissesse respeito a uma cadeia de hospitais de um qualquer grupo privado. Assassínios em massa, investigações, processos-crime, detidos, escândalo, o diabo a quatro, não é verdade?

 

Não vemos nem ouvimos apenas com os olhos e os ouvidos, o preconceito distorce a imagem e o som: eutanásia em nome do interesse público - discretamente aborrecido; em nome da eficiência económica e do lucro - criminoso. 

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publicado por José Meireles Graça às 02:46
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Domingo, 17 de Junho de 2012

Mãos ao alto!

Tem-se vindo a agravar em Portugal um generalizado sentimento de desprezo pela autoridade, que urge combater. O Inspector Amândio, da Divisão de Processos Fiscais, oportuno e sem papas na língua, não está pelos ajustes deste deslizar para uma sociedade anárquica eentende que os fiscais das finanças devem poder dar ordens de prisão, competência que não se compreende ainda não faça parte do limitado elenco de ferramentas que aqueles funcionários têm à sua disposição para cumprimento da sua importante missão. Os fiscais não podem dar ordens de prisão? Pois é um escândalo.


Acho muitíssimo bem o desassombro do Inspector Amândio. Creio mesmo que este assunto deveria ser visitado com interesse pelo Governo, alargando-se a competência para dar ordens de prisão também a outros agentes de autoridade que se deparam com dificuldades para o cabal desempenho das suas missões. As Polícias Municipais, por exemplo, são com frequência vítimas de entraves colocados por Munícipes que restauram os seus imóveis sem autorização, lançam à socapa chapadas de cimento em barracos não licenciados, inclusive em dias destinados a descanso, e que nem sempre usam de urbanidade quando são confrontados com as consequências dos seus actos. E os Inspectores do Trabalho são com frequência vítimas de atitudes arrogantes por parte de patrões grunhos (com perdão da redundância), que têm dificuldade em perceber a importância dos corrimões nos lanços de escadas, ousam discutir a interpretação das leis e dos contratos colectivos de trabalho por parte de quem tem obrigação de os fazer respeitar, e de modo geral não adoptam a atitude colaborante que lhes é exigível.


De resto, nem sequer se entende que, alargando-se desejavelmente o número de agentes do Estado com direito a prender cidadãos, se hesite em adoptar práticas mais restritivas do direito à inviolabilidade dos domicílios: é intolerável que aquele direito sirva de capa para a prática de crimes, que, sem o direito de visita por parte de quem tem por obrigação combatê-los, ficam impunes. Se a autoridade não pode prevenir a criminalidade por assim dizer no ovo, que muitas vezes é o recesso dos lares, como pode exigir-se-lhe depois que a combata nas ruas, quando ela já está entranhada nos costumes e os transgressores atolados no vício da ilegalidade?


Os governantes têm vindo a dar alguns sinais de não serem alheios a estas preocupações, tímidos embora. Já se admite que a ASAE se inteire da forma como as crianças menores de quatro anos são criadas, através de inspecções, por haver pais que, com incompreensível descaso, ignoram as normas da UE sobre segurança eléctrica, altura do armário dos medicamentos e outras relevantes matérias; e dão-se os primeiros passos na repressão dos hábitos tabágicos também ao volante, não obstante o movimento de cidadãos refractários que, invocando erroneamente um suposto direito de propriedade, consideram ser o interior dos automóveis o espaço privado que evidentemente não é.


Vamos portanto, aparentemente, na boa direcção, e seria injusto não referir aqui o trabalho pioneiro do Senhor Secretário da Saúde, Dr. Leal, em cuja determinação o seu colega da Fazenda bem se poderia inspirar. Pode acontecer, como efeito perverso, um aumento da população prisional, circunstância difícil de casar com a actual superlotação das cadeias.


Nada porém que não se resolva com alguma flexibilidade e imaginação, lançando mão, por exemplo, de um aumento das saídas em liberdade condicional. Seria uma generosa benesse para os bem comportados e de nenhum impacto negativo na sociedade: não estamos todos a ficar, progressivamente, em - liberdade condicional?

publicado por José Meireles Graça às 02:24
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Sábado, 16 de Junho de 2012

O Malomil

 

 

Não sei se existe outro. Há blogs decentes (poucos), blogs assim-assim (alguns), blogs péssimos (mas, ainda assim, blogs) e lixo por todo o lado. E há um blog português que é tão bom que parece de outro planeta. Chama-se Malomil.

 

Não falo de mariquices; o Malomil é visualmente fracote e tecnicamente básico. E o nome é um bocado esquisito. Também não é um blog para consultar a correr e roubar umas frases. O António Araújo escreve comprido, profundo, com a simplicidade de quem sabe o que está a dizer, e com a ternura de quem gosta dos assuntos.

 

O António Araújo escreve críticas de livros que são um prazer, mesmo quando o livro é uma fraude. Como o post com que inaugurou o blog, em Dezembro de 2011, chamado "Irei cuspir-vos no túmulo", sobre o livro "Homossexuais no Estado Novo" (Sextante Editora, Lisboa, 2010), da jornalista São José Almeida.

 

Antes de ler esse post, só tinha visto escrever assim (sobre livros) no New York Review of Books onde, para cada edição, os autores são escolhidos entre os melhores especialistas do mundo. E são pagos como tal.

 

Há mais autores no Malomil, ainda não os conheço todos. Um deles assina "Herança Camarido" e publica fotografias curiosíssimas de cenas, pessoas, e papelada que vai encontrando. Como este menu para uma ceia de Natal, escrito à mão, em 1904. Ou esta Casa (que me parece palafitada) do Director da Exploração do Caminho de Ferro de Benguela, em Nova Lisboa. Ou a visita do imperador da Etiópia Hailé Selassié a Lisboa, em Julho de 1959. Ou o António Ferro, em 1922.

 

Todos os posts valem a pena. E quando digo que valem "a pena" é porque, às vezes, os posts são tão grandes e tão completos, contêm tantas fotografias e vídeos, que os ecrãs demoram a fazer "scroll". Então exigem alguma paciência.

 

"The problem we all live with" fala de uma história, de um quadro, e da obra de um pintor. Também do António Araújo, é um presente para uma miúda de 9 anos. Tenham paciência; não percam isto por razão nenhuma.

 

________

 

Nota: Fotografia do João Pina, tirada daqui.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:22
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