Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

A monstra

 

 

 

Aparentemente a privatização da RTP foi adiada para "um momento mais adequado face às circunstâncias". Suspeito que uma das "circunstâncias" a remover do caminho da privatização tenha o apelido Relvas. O ministro com a pasta das privatizações é uma "circunstância" que só tem prejudicado as privatizações (foi exemplar a maneira como rebentou com o processo da TAP), e todas as que se fecharam até agora (desde que este governo entrou em funções) foram feitas apesar do sr. Relvas.

 

Compreendo. Tentar evitar que semelhante "circunstância" tome decisões irreversíveis é próprio de um governante prudente. Porque depois de devolvida ao seu lugar (seja ele um conselho de administração, a praia de Copacabana, ou o anonimato), a "circunstância" vai à vida dela; e nos braços do responsável seguinte é que ficam aqueles meninos imundos.

 

Se além de prudente o governante estiver interessado no que é melhor para os portugueses, o "adiamento" ganha uma justificação redobrada. Até agora as opções do sr. Relvas não resolviam o problema essencial que é livrar o contribuinte do pagamento de um serviço que ele não contratou, não lhe faz falta, nem pode pagar. Com a agravante de ser um serviço pernicioso (como se tem verificado pelos "conteúdos" dos últimos anos).

 

A ideia de que "os privados gerem melhor", tão nutrida pelos nossos "senadores", é um erro grosseiro. Os "privados" só "gerem melhor" (quando gerem) se arriscarem aquilo que é seu (e não os dinheiros públicos). E se operarem em condições de livre concorrência, o que não acontece quando se trata de um monopólio (e, o que é mais grave) subsidiado. Ou seja, os cidadãos ficam mais bem servidos se recorrerem aos serviços de privados excepto quando "os privados" operam no tipo de enquadramento que o sr. Relvas se preparava para lhes servir.

 

Este conceito tem visto dificuldades em entrar nos crâneos portugueses. Alguns, possivelmente, por falta de espaço uma vez que já se encontram superlotados com importantíssimas conclusões académicas. A explicação mais frequente é que "os patrões" (note-se que só existem "patrões" nas empresas privadas), movidos pela "ganância" natural e pelo "acicate do lucro", "andam mais em cima dos empregados" o que os faz "funcionar mais produtivamente" (como tão bem explicou Fátima Bonifácio).

 

Para certos entendimentos "liberais" (no "sentido clássico do termo") a técnica para o sucesso de uma empresa é bastante simples. Arranjam-se uns "patrões" (quanto mais "gananciosos" melhor) e acena-se-lhes com um embrulho de petrodólares na ponta de um par de varas devidamente encaixadas nas orelhas. Depois gastam-se umas massas a equipar esses "patrões" com instrumentos de agressão. Há quem proponha Tasers. Eu estou convencida que o mau hálito é suficiente; basta para tal incluir este requisito no briefing do casting, e seleccionar os "patrões" mais apetrechados. Em caso de dificuldade, umas résteas de alhos resolvem o problema com reduzido empate de capital.

 

Na fase seguinte, contratam-se empregados. Mas de estatura média (ou desejavelmente baixa, 1,20 seria o ideal), para que não dificultem aos "patrões" a tarefa de "andar em cima deles". Por fim, basta puxar de uma cadeira e assistir ao entusiasmo dos empregados a "funcionar mais produtivamente", estimulados por electrochoques ou por bafos de carapaus de escabeche.

 

A única desvantagem deste sistema é que "o lucro sobrepõe-se à qualidade do serviço". Mas esta é uma pequena factura que devemos ponderar, uma vez que "a natureza humana, infelizmente, não é perfeita".

 

Esta escola de pensamento económico é tão divertida quanto pulverizada pelas opiniões "liberais" portuguesas. Os filósofos nacionais constituem "um foco" que tem sido subvalorizado "lá fora", mas nem por isso devemos recuar perante o facto de estarem errados. A realidade (mais sisuda) é que "os privados" só "gerem melhor" se tiverem alguma coisa a perder no caso de gerirem pior. Designadamente, se estiver em causa o seu próprio capital e a clientela da empresa. Quando os planos do sr. Relvas propõem aos privados a possibilidade de "gerirem" com dinheiros públicos uma "carteira de clientes" que abrange, garantidamente, todas as famílias e empresas portuguesas, já se está mesmo a ver onde fica "a qualidade do serviço", para onde são encaminhados os dinheiros desta habilidade e, sobretudo, onde vai cair a factura dos prejuízos.

 

Mal por mal, melhor que as soluções do sr. Relvas, que Paulo Portas conseguiu travar a tempo, é a alternativa de deixar tudo como está. Fechar a RTP (e quando digo a RTP refiro-me a todos os canais públicos de televisão e rádio) era a opção ideal. No dia em que a RTP deixar de ser olhada pelos doidos como se fosse o nariz da República, pelos "profissionais do sector" como a árvore das patacas, e pela populaça como um castigo fatal, talvez seja possível.

 

Até lá, com funcionários mais ou menos presunçosos a presidir à monstra, desde que devidamente acompanhados, prevê-se uma "restruturação" com "parceiros tecnológicos" e as demais "modernizações" que acompanham estes processos. Alberto da Ponte já foi avisando que a manobra vai ser "dolorosa". Espero que seja.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:25
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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

A farinha

Ausentei-me por uns dias do País, com o meritório propósito de vender umas merdas que fabrico a uns clientes que talvez as venham a comprar - coisa corriqueira dessa estranha classe de pessoas ignotas, os donos de PMEs, em nome e intenção das quais se dizem e fazem tantas asneiras.

 

Algumas vilas e cidades, muitos quilómetros, uns quantos incidentes, ausência curta demais para que as saudades batam. Por vício e hábito, no silêncio da noite no hotel, vou dar um giro ao Feice, a ver se aligeiro ou enveneno umas conversas - é conforme.

 

Vejo também os feeds dos blogues que sigo - mais de uma vintena, benza-me Deus - e as notícias da terrinha. Tropeço numa, e paro. O Banco de Portugal organiza uma conferência, é? Devem ser assuntos da supervisão, ou do Euro, ou lá dessas coisas misteriosas em que se ocupa um organismo cujo director se trata por "Governador" e cuja sede tem, suponho, umas caves onde se guarda o que resta da pesada herança.

 

Nada disso: O objecto da iniciativa é "Para uma reforma abrangente da organização e gestão do sector Estado". Ora bolas: se a conferência fosse para explicar por que razão é que o Banco de Portugal (como alguns outros bancos centrais) tem feito a clássica figura do corno da clássica história, passando ao lado, por exemplo, do BPN, do BPP e da nebulosa história do BCP, ainda se compreendia. E faria até sentido que os dirigentes aparecessem simbolicamente com umas orelhas de burro; ou convidassem o ex-Governador Vítor, com a condição de este vir com uma grossa corda ao pescoço.

 

Mas reformar o "sector Estado"? E o BP acha-se com autoridade para isso por alminha de quê ou de quem?

 

Ah não, isto é só a sociedade civil a falar, convidaram umas pessoas de reconhecido mérito para darem o seu contributo, por certo se dirão ali coisas de grande alcance. Bom, vejamos este conferencista, que diz ele? Diz o seguinte:

 

"A reforma da administração pública tem que ser uma das principais prioridades da acção do Governo e da supervisão do Parlamento – a par do saneamento das contas públicas – para o qual tal reforma pode dar determinante contributo – e da criação de condições para o crescimento económico".


A sério, Santos? Achas então que o Governo, o Parlamento e a opinião pública têm estado a dormir mas, agora que os espevitaste, fez-se luz e vão todos a correr reformar, sanear e criar condições. Mais vale tarde que nunca, realmente, mas porque tens estado calado, Santos? É que a coisa, sabemo-lo agora, é luminosamente simples, como se depreende das tuas palavras:

 

"Para uma reforma abrangente da organização e gestão do sector Estado”, sustenta que “deve haver um membro do governo com grande autoridade, cuja única responsabilidade deveria ser a execução da reforma perante o qual devem responder todos os ministérios".


Fallait y penser: um membro do Governo, perante o qual todos os outros respondem ... Espera - não é isso que faz o Primeiro-Ministro? Mau, Santos, não estás a adiantar muito. Deixa ver mais:

 

"... os cortes de custos não deverão ser transversais, sem critérios qualitativos e não deverão ser feitos todos de uma só vez”. Isto porque “as políticas têm que estar apoiadas em valores e criar cultura”.


Neste passo, confesso que comecei a ficar um tanto circunspecto: já tenho ouvido dizer muito mal dos cortes transversais e continuo à espera de que se me explique onde devem incidir se forem longitudinais. Porque sem essa explicação a tese é sem dúvida profunda, mas um pouco demais: não se percebe. E queres às pinguinhas, Santos? É capaz de não ser grande ideia: as anestesias, com o tempo, perdem efeito. Quanto aos valores e à criação de cultura, temos definitivamente a burra nas couves: todas as políticas são apoiadas em valores, estas ou outras; podem é não ser os valores mais recomendáveis. E a cultura é uma palavra apanha-tudo: ou se diz que conteúdo tem ou não significa nada.

 

O resto do discurso (pelo menos a parte que a imprensa refere) são mais pilritos, pelo que ainda passei a outro conferencista, um desses que, para reformar o Estado, quer reformar o sistema político. Imagino que isto queira dizer, como quer quase sempre, que a reforma consista em garantir que só lá vai parar quem ele entenda que tem "qualidade", mas a notícia é lacónica e o assunto eriçado de dificuldades, pelo que ficará para outra maré.

 

Abençoada internet, que me permite estar cá fora sem sair lá de dentro. É como dizia uma, creio, personagem de Eça: o nosso país é um torrãozinho de açúcar. Claro que o açúcar, às vezes, não passa de farinha, mas quand même.

publicado por José Meireles Graça às 19:09
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

Quando os lobos uivam

Para o primeiro post nesta ilustre casa, tinha de escolher matéria pacifica. Vai daí, e porque ainda ontem abri mão de duas horas e de mais de um conto e duzentos, falarei sobre o filme da polémica: Zero Dark Thirty.

Kathryn Bigelow fez um filme muito competente, onde nos conta tudo, desde o high tech, até às simulações de afogamento. Conta-nos todos os passos que foram dados para chegar a Ben Laden. Todos os passos que tomaram conta da vida da mulher que o perseguiu e o encontrou.

Perante isto, perante a história e os factos que a compõem, apareceu Naomi Wolf, um misto de Carla Alves e Maria Teresa Horta com uma cara laroca, ícone liberal das élites democráticas, que vem a público desfazer Bigelow.

Em modo epistolar, lança-se como um lobo à carótida de Bigelow. Chama-lhe a Riefenstahl da administração Bush e dos poderes ocultos. Acusa-a de serva da tortura e dos agentes que a praticaram. Julga-a sumariamente por colaboracionismo com a CIA, os militares, os poderes ocultos e o pior de tudo: os Republicanos.

Não escondo a minha preferência pelos Democratas, nem o meu entusiasmo por Obama, malgré tout. No filme, as mudanças políticas são bem retratadas, são encaradas tal qual são: o tempo traz a sucessão de diferentes tempos políticos, e o de Obama é necessariamente diferente do de Bush, o mundo é diferente em Obama. Bigelow constata este facto, mostra-nos uma administração escaldada pela "armas de destruição massiva no Iraque", mais prudente, mais insegura na aproximação, mais observada por um mundo que já guardou na gaveta da história o horror do 9/11. Obama e os seus homens são aqui muito bem tratados. Não percebo o problema de Wolf.

A tortura domina o inicio do filme, do processo. Deu resultado. A crueza com que nos é mostrada é semelhante à Paixão de Gibson; não é um filme para os mais sensíveis. A componente multifacetada da relação inquiridor-torturado é muito bem explorada e em momento algum somos empurrados para a simples dialética do bom policia e do bandido.

Entre outras coisas, se há uma particularmente bem sucedida no filme, é despertar-nos o dilema moral e ético da tortura. Não é a situação fácil do inocente torturado, mas a dificuldade do confronto intimo de cada um de nós com a eficácia da tortura.

Wolf não quis ver nada disto, aliás, não quis ver nada; quis pendurar-se num enorme sucesso e ser falada às suas custas.

Mas Wolf tem virtude no que faz, lembra-nos que não é só neste rectangulozinho nosso que há gente assim, lembra-nos que na vida para cada Sarah Palin há uma Naomi Wolf.

 

publicado por Raul Almeida às 20:43
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Falará francês?

 

 

 

Movida pelo aconselhamento de "conteúdos" do facebook, alterei o curso do meu serão e fui direita à "RTP i" para ouvir falar "um jovem". Chama-se João Marecos, preside aos estudantes, e discursou na cerimónia comemorativa da fusão da Universidade Clássica com a Universidade Técnica de Lisboa.

 

Cinco minutos foram suficientes para se aliviar de uma série de inconfidências sobre os "sonhos" (sem vestígio de originalidade) dos colegas que representa (e em nome dos quais falou). Por uma questão de rigor científico, presumo que tenha dormido com a quantidade de colegas, de ambos os sexos, suficiente para que o universo estudado possa considerar-se significativo. Se o não fez, já estamos perante o primeiro barrete.

 

Esse intervalo de tempo chegou também para citar Sophia de Mello Breyner, Vergílio Ferreira, e Manuel Alegre. Só me ficou uma dúvida: falará francês?

 

Deduzo, ao contrário de Maria Flor Pedroso, que o jovem não gosta de literatura. É legítimo. Mas se em lugar de literatura João Marecos gosta dos autores que mencionei, vejo ali uma espécie de Sampaiozinho da Nóvoa e não dou o meu tempo por bem empregue.

 

Já devia ter aprendido. Os jovens com idade inferior a (vá lá, não exageremos) 30 anos deviam ser defendidos de falar em público.

 

Portanto passo. Este rapaz vai direito à reitoria, não precisa da minha ajuda. Estou certa que saberá empregar os anos de universidade para aprender o que lhe falta sobre a arte da intriga. De resto tem bom aspecto, serve para decorar uma sala.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 06:02
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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

O atraso atávico

Há dias, Francisco George, numa útil iniciativa do Correio da Manhã, revelou ao País os Dez Mandamentos para melhorar a saúde dos Portugueses e prevenir o risco de uma morte prematura.

 

O País dedica ao que diz George ainda menos atenção do que às correntes de ar. E faz muito mal, porque os conselhos são preciosos: o primeiro Mandamento consistia em consumir água ao longo do dia, o segundo tinha que ver com a problemática da sopa e os restantes tocavam em questões delicadas como o leite, o pão "de qualidade", a fruta e as ervas aromáticas.

 

Que um funcionário que sustento com os meus impostos se dedique a retribuir-me com conselhos parece-me, da parte dele, uma delicada atenção. Embora, no meu caso de pessoa um tanto mal-agradecida, ache os conselhos dispensáveis e imagine que haveria porventura tarefas mais úteis e urgentes para ocupar um Director-Geral da Saúde.

 

Mas enfim, que seria das nossas vidas de cidadãos se o Estado, através de alguns ungidos que lhe preenchem os quadros, não nos guiasse contra os perigos que espreitam quem se permite guiar-se pela sua cabeça?

 

Mas, nisto como noutras coisas, o nosso atávico atraso sempre aflora a sua hedionda cabeça: Francisco vai a uma conferência e expectora os Mandamentos que lhe inspiraram os seus aturados estudos; e o Governo Irlandês, farol da tecnologia de ponta, para resolver o escândalo das mulheres que, por beberem um pouco demais, ficam com o nariz avermelhado, faz uma aplicação.

 

Isto incomoda-me: que a Irlanda não é maior do que nós, nem melhor, nem ocupa lugar mais saliente no ranking do futebol, nem está menos falida. Mas, lá está: para resolver um problema sério, ele é Apps para Mirror Android e iPhone, além da versão web, naturalmente; e os nossos melhores dizem umas coisas místicas ao microfone.

 

Assim, "não vamos lá".

publicado por José Meireles Graça às 18:05
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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013

Amy Martin

 

 

Carlos Mula acaba de se notabilizar. Não pelos adornos académicos, que são muitos (e dos bons: Cambridge e Columbia inclusive). Também por cá temos disso com fartura. Nem por ser um dos "especialistas" do FMI que elaborou o nosso admirável relatório. Em seis, um era este; outro era filho de um ex-ministro português (que, de resto, se apressou a elogiar-lhe o trabalho como compete a um pai extremoso).

 

Carlos Mula tampouco se distinguiu por ter trabalhado directamente com Zapatero, redigido o programa eleitoral do PSOE para as últimas eleições, ou ser "participante" na campanha "A Austeridade não está a Funcionar" (um movimento "pan-europeu" que se proclama "pró-crescimento económico"). Qual é o espanto? Um socialista a impingir soluções "ultra-liberais"? Era preciso que as "soluções" constantes do dito relatório fossem "ultra-liberais". Não são; algumas são sensatas (poucas), outras são inaplicáveis (muitas), outras ainda são ridículas (aumentar 1 ano na idade da reforma?), e quase todas se baseiam na comparação de números incomparáveis. Por isso o relatório não é "ultra-liberal", é só bastante-parvo. E um socialista não se destaca por ajudar a conceber um documento bastante-parvo.

 

Carlos Mula dirigia uma fundação, pertencente ao PSOE, e considerou que o seu salário não correspondia às suas aspirações. Começou por inventar uma escritora e baptizá-la com o bonito nome de Amy Martin. Depois pediu à mulher que lhe registasse a "marca comercial" e desenhasse um logotipo para os textos da senhora.

 

Esta parte correu muito bem. O logotipo actualiza o "Homem Vitruviano", pelo expediente de transformar a figura de Leonardo da Vinci na "Colunista Despachada" de proporções ideais, dioptrias adequadas, oxidação nórdica, e guarda-roupa formal para as cerimónias de tomada de decisão. Em tonalidades cor-de-rosa, para afirmar que o sexo da colunista (sendo identitário) é indiferente aos directores da Fundação Ideas, podendo tratar-se de um travesti.

 

A seguir "contratou" a sua menina para escrever redacções sobre temas sortidos, que iam desde a indústria cinematográfica da Nigéria, à central nuclear de Fukushima, à crise na zona Euro, ou à "medição da felicidade" (não inventei). Amy Martin era, como o logotipo fazia suspeitar, um crâneo renascentista capaz de desenvolver dissertações sobre um leque vastíssimo de assuntos. Desde que devidamente compensada a cerca de 3.000 euros por artigo.

 

Entre 2010 e 2011, a contazinha em opiniões atingiu 50.000 euros. Tudo com facturas detalhadas, caracter por caracter. Surpreendentemente, quiseram conhecer a senhora.

 

Carlos Mulas não forneceu mais do que um endereço electrónico e um número de telefone registado nos Estados Unidos. Nunca apareceu um currículo, nem outras obras da criatura. O estupendo economista disse que estava "convencido que Amy Martin era uma analista política", mas "só a tinha visto uma vez". Sobre os honorários, Carlos Mula informou que "não se ocupava desses assuntos na fundação", e que "desconhecia que tabelas se lhe aplicavam". O que fazia sentido, uma vez que alguns dos "trabalhos" de Amy Martin coincidiam com outros publicados pelo próprio Carlos Mula.

 

Descoberta a solução de Carlos Mula para o impasse do seu orçamento pessoal, a Fundação Ideas tratou de o despedir. Suponho que o seu nome contribui, neste momento, para embelezar as estatísticas do desemprego espanhol.

 

Sem se atrapalhar, considerou que era suficiente tirar uma rúbrica daqui, para a acrescentar ali, os "comprovativos" não eram um problema. E foi nesta mundividência alargada que Carlos Mula desprezou qualquer conhecimento dos meios jornalísticos. Se tivesse partilhado o seu plano de "ajustamento" com o primeiro estagiário que encontrasse, mesmo com o colégio por acabar, ficaria apetrechado com a noção de que não valia a pena inventar um colunista. Porque se fosse bera, não lhe pagavam 3.000 euros por artigo. E se fosse bom, iam querer conhecê-lo.

 

O conhecimento dos meios sobre os quais fazem incidir os seus magníficos "planos" não é um costume frequente nesta raça de profissionais. Em matéria de vigaristas, estamos mais bem servidos que os espanhóis: os nossos, em lugar de despedidos, são promovidos.

 

Recomenda-se portanto este mamífero pela estupidez e incompetência que mostrou no desempenho da sua fraude, de natureza puramente contabilística. Carlos Mula é uma brincadeira. É a vergonha dos vigaristas, mesmo na classe mais rasteira dos falsificadores de documentos.

 

Por isso não se entende a insistência em contratar profissionais estrangeiros para nos escreverem os relatórios. Os portugueses têm sido sujeitos a sacrifícios duríssimos. Um módico de caridade obrigava à contratação de vigaristas sérios.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 04:40
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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

O brinde

 

Hoje foi um bom dia: o regresso aos mercados tem sido denunciado, desacreditado, desmontado com mais ou menos eficiência e convicção por toda a esquerda, sem uma única voz dissonante. É portanto uma coisa boa, e digo-o sem ironia.

 

Lendo os especialistas fica-se com uma grande dor de cabeça por causa dos prazos, dos spreads, dos yelds, do mercado primário, do secundário, das taxas, da tomada firme, dos hedge funds e dos outros funds que não são hedge. Não interessa: o céu de chumbo teve uma aberta e passou por ela um raio de Sol. E como a economia também vive de expectativas e de confiança, chapeau Gaspar! - bem jogado.

 

Claro que uma taxa de juro superior à da troika, cujo empréstimo tem um prazo de 11 ou 12 anos, e às taxas a que se financiam economias que não estão em recessão, só parece aliciante pelo contraste com o passado recente e o sinal de inversão de tendência; e que nada faz sentido sem o regresso do crescimento e a diminuição da dívida pública, sobre a qual as novidades são descoroçoantes. Mas, num dia de festa, abrir a boca faz sobretudo sentido para por ela despejar o champanhe.

 

E mais ainda quando esta não foi a única boa notícia do dia: o anúncio de Cameron, se não derrama pelos corações dos Portugueses que ligam a estas coisas nenhuma particular alegria, e pelo contrário é fonte de alguma consternação, é para este Português motivo reforçado para, hoje, não poder conduzir: pode ser o princípio do fim do pesadelo concentracionário que pacientemente vem sendo construído desde Maastricht e o Euro. E que isto não é apenas uma possibilidade teórica é confirmado pela reacção desta personagem ilustre.

 

Sai mais uma taça.

 

publicado por José Meireles Graça às 21:44
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

Pecados velhos

No meu 6º ano de Liceu (hoje 10º, se não me engano) tirei notas más no primeiro, e horríveis no segundo, período. Tinha com meu Pai uma relação que caridosamente posso descrever como de alguma acrimónia. E este intimou-me, por escrito, a justificar, até às tantas horas do dia xis, o desastre dos resultados.

 

Respondi, também por escrito, em termos que não recordo senão vagamente. Mas no meio do desfiar capcioso das minhas razões adiantei, a respeito da disciplina de História, que precisava, para passar, apenas de um 12; e que, se estudasse para 10, a professora "não hesitaria" em dar-me o 12.

 

Num papel que guardo religiosamente, meu Pai informou-me, no seu cursivo de grossos e finos, que um aluno que, precisando de um 12, estuda para 10, merecia bem um chumbo; e que "só por uma unha negra me não convenceste que, para garantir a passagem do sétimo ano, deverias desde já chumbar a todas as cadeiras do sexto".

 

Pecados velhos. E vêm a propósito de quê? Ora, disto.

publicado por José Meireles Graça às 17:32
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

wARTime.

 

O improvável binómio WAR-ART, segundo aprendi recentemente, é muito intrincado e a relação entre ambos tem muito de salvífico.

Em recente visita à National Gallery (Londres), uma amiga falou-me da "Picture of the Month" que era exposta numa das salas do museu durante os últimos anos da Segunda Grande Guerra. O assunto interessou-me e quis saber mais...

 

Nos meses que se seguiram à declaração de Guerra, Londres preparou-se para a violenta chegada desta até si: foram construídos abrigos anti aéreos, muitas crianças foram evacuadas e máscaras de gás distribuídas pela população. Também a coleção da National Gallery tinha que ser posta a salvo e muitas foram as soluções estudadas.
 

Para começar levou-se a cabo um levantamento das casas, em zonas menos propensas a bombardeamentos, que pudessem albergar as obras. Mas havia muitas restrições práticas, desde logo quanto à largura das portas, espaço na casa, condições de temperatura e humidade. Muitas das experiências não correram bem..."The owner is nice, ruled by his wife, a tartar, anxious to have NG pictures instead of refugees or worse"- um exemplo de uma anotação à margem de uma das casas visitadas.

 

Surgiu então a possibilidade da coleção ser levada para o Canadá, mas Churchill - no seu estilo carismático- opôs-se dizendo :"Hide them in caves and cellars, but not one picture shall leave this island". E ainda bem que foi assim, porque muitos foram os barcos bombardeados durante a travessia do Atlântico.

 

Finalmente, depois de meses de planeamento, a coleção acabou por ser transportada para o País de Gales, onde ficou protegida em minas abandondas, secretamente.

 

O diretor do museu -  Kenneth Clark, então nos seus thirties- foi responsável por muitas destas decisões e também a ele se deve a visão do "Picture of the Month", iniciada em 1942.

 

 

A NG tinha-se mantido aberta ao público e, embora despojada da sua coleção, albergava concertos  - os famosos Lunch-Time Concerts by Myra Hess, que duraram os 6 anos do London Blitz - e algumas exposições quer de obras de colecionadores privados, quer de artistas recentes - a quem Clark queria preservar dos horrores da guerra e da provável morte.

 

Mas, com a aquisição do quadro "Margareth de Geer" (Rembrandt) e o sucesso da sua mostra por 3 semanas numa sala - otherwise empty - da Galeria, surgiu a a questão: porque não repetir esta experiência, numa base regular, a partir da coleção permanente?

 

 

E assim aconteceu. O primeiro quadro foi de Ticiano, "Noli Me Tangere". E muitos outros se sucederam, acompanhados pelo ritmo seguro dos concertos da hora de almoço.

 


 

A NG tornou-se num "defiant outpost of culture right in the middle of a bombed and shattered metropolis" (Herbert Read). No meio do pó, dos destroços de Londres, do cinzento dominante: a cor vibrante, a estética, o sentido da permanência.

 

In wartimes, art can save.

publicado por Ana Rita Bessa às 15:46
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O estado do Estado

 

O nosso pano de fundo é simples: A dívida pública continuará a crescer enquanto houver um Euro de défice. E como o País está ligado à máquina, o dono dela impõe as suas regras, que são simples - apertem o cinto, desliguem a luz, emigrem, vão plantar batatas ou pedir para as esquinas, mas mais arame não, que o nosso apoio é um negócio, não uma obra de beneficência.

 

Depois vêm as complicações: ai o que interessa não é o que devemos, é a capacidade de ganhar para pagar - precisamos de crescer; ai se a gente não tivesse que pagar juros, ou eles fossem reduzidos, e pudéssemos pagar mais devagar - 30, 40, 50 anos - a coisa nem se notava; ai Chefe, não somos só nós, há por aí uma quantidade de caloteiros potenciais que estão a assobiar para o lado, a fingir que não vão pelo mesmo caminho. E como são muito maiores do que nós, ou o Chefe se põe manso ou nós damos com os burros na água e atrás de nós vão eles - e aí é o Chefe que também afunda, que não há que chegue para tanto caloteiro; ai que precisamos é de restaurar a agricultura, e a indústria, e as pescas, e olhar o mar - o mar das 200 milhas, do qual a República Checa tem grande inveja.

 

As complicações são, como a palavra deixa entender, complicadas. Há quase quatro décadas que o País vinha perdendo velocidade, até que parou e, de momento, está fazendo marcha-à-ré. A cornucópia dos biliões da defunta CEE, a massiva "aposta" na educação, na formação profissional, nos equipamentos públicos (Depósito de Água de Belém, Caixote Musical do Porto, Exposição de Masturbações 98, estádios do Euro, Pavilhões Multi-Calotes por todo o lado, et j'en passe) deram: a "geração mais bem preparada de sempre", presentemente a enriquecer com o seu trabalho outras paragens; a indústria dos subsídios para disfarçar o desemprego, alimentar empresas, umas inúteis, outras falidas, outras que não necessitavam de qualquer apoio, e ainda para sustentar gabinetes, centrais sindicais e outros luxos; e a erecção de monumentos e a promoção de eventos ligados à Cultura, ao Desporto, ao Lazer, tudo "investimentos" públicos que se distinguiram - e distinguem - pela característica um tanto contraditória de gerarem despesas e não retorno.

 

O Plano Marshall, que algumas almas puras reclamam do Altíssimo, resolvia sem dúvida os nossos problemas, por mais uma geração. Já o investimento público de alguns lunáticos da extrema-esquerda, e de alguns cínicos do PS, mesmo que fosse viável, seria mais do mesmo: eles são os mesmos, e nós também.

 

A ideia de fazer finca-pé na redução dos juros não é má. Tem o defeito de, como aqui se explica, não resolver nada. O reescalonamento tem uma qualidade e dois defeitos: a qualidade é o alívio das nossas dificuldades; os defeitos são o adiar da reforma do Estado e propiciar o regresso às fantasias que nos trouxeram aqui. Não dão algumas sondagens a maioria ao PS? Quod erat demonstrandum.

 

Para a ideia de estourar com tudo, forçando a mão à UE, requerer-se-ia um governo dos comunistas, uma ditadura nacionalista, ou a consciência difusa de que o Euro e a UE fazem parte dos nossos problemas, não das soluções. Não há povo, e menos ainda classe dirigente, para nada disso.

 

O mar está aí, bem vivo nos discursos. E requer investimento privado, que o Estado afugenta, ou investimento público, para o qual felizmente não há crédito. Vai continuar nos discursos, o lugar natural das irrelevâncias.

 

Resta o lamentável Governo que está. Pusilânime e promíscuo com interesses ilegítimos, liberal na medida em que lhe forçam a mão, hiper-intervencionista na economia, completamente alheio à realidade das pequenas empresas, sem ter sequer a humildade de as deixar em paz, intrometido nas casas e nas vidas das pessoas, recheado de personagens, desprezíveis umas, ignorantes outras, revoltantemente subserviente às luminárias europeias, e não apenas na medida da necessidade - chega?

 

Chega. Porque quem não tem cão caça com gato; e, dadas as alternativas, atrás de si viria quem de si bom faria. Entretanto, no que à sorrelfa quase toda a gente aposta é que a Europa descalçará esta bota. É o bom que tem ser empregado: o verdadeiro responsável é o patrão.

 

Escusam assim alguns blogueiros que são ou se imaginam de direita de se absterem de verberar o que vejam como erros, omissões e defeitos - não fazem trabalho útil nem são necessários, o que tiver que ser será. E, para todos, um módico de humildade aconselharia a não dar como adquirido que o caminho dos cortes na despesa pública, sem mais, proporcionará as condições para o crescimento antes de o País estar num caco. Essa certeza, na qual gostava de acreditar sem reservas, tem a virtude de ser a oposta da fé esquerdista na capacidade demiúrgica do Estado. Mas o oposto do erro não é necessariamente o acerto: há muitas maneiras de errar. E de certezas de economistas só os insensatos não estão fartos. 

 

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publicado por José Meireles Graça às 12:30
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