Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Autoridade Para as Condições de Tolice

Claro que nenhum patrão vai dizer coisa alguma. Pudera: se disser, corre o risco de atrair sobre si suspeitas, perdendo o crédito que tiver junto dos fornecedores e da banca e o prestígio junto dos concorrentes, além de chamar a atenção das autoridades, coisa que em Portugal, para pequenos patrões, é um não pequeno risco: há sempre uma norma, um regulamento, um decreto, uma lei, uma circular, ou duas, ou três, e na melhor das hipóteses perde o tempo, que lhe faz falta para produzir riqueza, gastando-o com quem produz perdigotos.

 

As associações patronais, elas, dizem aos costumes nada, porque realmente não podem explicar o fenómeno: isso indicia compreensão, e compreendê-lo pode ser interpretado como defesa. E lá vai por água abaixo o módico de respeitabilidade que conquistaram na concertação social junto dos sindicatos.

 

Compreender o fenómeno, conhecer-lhe as causas, é risco que o Senhor Inspector-geral não corre: acha que há uns patrões que, por volta dos fins de mês, roubam os salários que estavam guardados num porquinho de louça fechado a sete chaves, e, com o produto do crime, vão para as suas sumptuárias vidas, oferecendo colares de lápis-lazúli às amantes e fins-de-semana em Phuket às famílias. Consumado o crime, regressam bronzeados aos seus escritórios, de onde, repoltreados, continuam a congeminar maroscas para lesar os famélicos trabalhadores, pelos quais nutrem um revoltante desprezo. Cadeia com eles!, diz o valoroso Inspector, que esta brincadeira já dura vai para vinte anos.

 

O Senhor Inspector-geral estava bem era no Constitucional. Que lá é que acham que os recursos aparecem por decreto, embora ainda, possivelmente por pusilanimidade, não ameacem ninguém com prisão.

publicado por José Meireles Graça às 16:13
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A Itália tem novo governo de defesa dos partidos

 

Na imagem, o "Onorevole" Maurizio Gasparri do PDL partido de Berlusconi, à entrada do parlamento durante a eleição do novo presidente da república italiana, “saúda” os simpatizantes do Movimento 5 Estrelas.

 

Pois é, a Itália tem um novo governo que segundo li em certos blogs e jornais portugueses é reconhecido como um “governo de união nacional”. Nada mais erróneo. O novo governo é a solução de recurso do PD e do PDL de Berlusconi para conter com uma almofada de tempo a evolução perigosa do Movimento 5 Estrelas. Como eleições agora representavam para aqueles partidos um risco demasiado grande de vitória de Grillo que ainda é o primeiro partido nas intenções de voto, os dois antagonistas crónicos resolveram criar um “governissimo” como aqui se diz.

 

As fragilidades são enormes e as dissensões já começaram com alguns ministros a dizerem que a retirada do imposto IMU (correspondente ao português IMI) não era possível na totalidade. Berlusconi diz que ou é cancelado o imposto como prometido por Enrico Letta (o novo primeiro-ministro) ou o PDL não apoia o governo e retira os seus ministros.

 

É evidente que é um governo de recurso, nascido apenas com o propósito de aguentar a situação e que será incapaz de reformar o que quer que seja. Tudo normal para a Itália portanto. 

publicado por João Pereira da Silva às 13:04
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Segunda-feira, 29 de Abril de 2013

As brechas

Temos os que defendem o Euro à outrance (recuar nunca, credo!), dos quais há duas variedades: os que temem que isso faça ruir o projecto europeu, com grandes riscos, imaginam, para a paz na Europa, a qual, aliás, para ter peso no Mundo, tem que "falar a uma só voz"; e os que se abstêm de grandes voos de especulação geoestratégica, mas acham que a sobrevivência dentro do Euro implica disciplina das contas públicas, coisa que a Democracia entre nós nunca deu sinais de garantir.

 

Uns e outros estão dispostos a alienar o mais remoto resquício de autonomia financeira, os primeiros porque supõem que no colégio europeu a voz portuguesa teria, logo que a deriva autoritária alemã esteja emendada, mais peso do que isolada no Mundo, e que a solidariedade entre países não é uma fantasia; e os segundos porque não veem a utilidade da independência, se for para nos condenar ao tipo de gestão orçamental e económica que nos pôs de joelhos, e à sociedade atrasada e pobre que, creem, é o corolário lógico de uma moeda fraca, que seria por sua vez o corolário lógico da gestão socialista a que estamos condenados.

 

Há mais factores, claro, desde o pavor do desconhecido (os precedentes que existem - Império Austro Húngaro, Checoslováquia, Argentina, outros ainda, nem são convincentes nem aliciantes) até à imensa burocracia que tem o prestígio e o bem-estar ancorados à "Europa", passando pelos nossos responsáveis que, tendo comprometido o País na aventura, não podem, sem perder a face, dizer hoje o contrário do que sempre disseram.

 

Depois, há os que defendem a saída do Euro. Fora os comunistas, são uma insignificante, ainda que crescente, minoria, tão pequena que é muito mais provável que o Euro se esboroe, ou dele sejamos convidados a sair, ou dele saiam outros e nós por arrasto, do que algum dos partidos que têm estado no Poder desde há mais de três décadas dê o dito há pouco mais de uma por não-dito.

 

Estes últimos, ademais, têm a vida consideravelmente dificultada porque se lhes exige que digam, expliquem, quantifiquem, o que se vai passar, e eles, coitados, não sabem, que Deus lhes perdoe. É como dizia há dias um economista, cujo nome não retive, para Ferreira do Amaral, com o dedo em riste: Mas reconheça que o problema conceptual da saída é muito diferente do da entrada! Ferreira concordou, e eu também concordaria: a entrada foi muito feliz, mas a sociedade engravidou de um problema, e agora resolvê-lo é conceptualmente - de facto - muito diferente. Para quem quiser inteirar-se do que nos espera, um bom começo é este livrinho e este estudo. Nem um nem outro responde à dúvida principal, que é esta: economia de horror durante quanto tempo?

 

Isto julgava eu: Ficar ou sair, eis a questão. E a ela dei há muito a minha resposta, previsivelmente minoritária.

 

Tropeço agora nesta declaração: "Sou partidário de uma saída provisória da união monetária por parte dos países mais débeis", disse Sinn ao jornal Fankfurter Allgemeine Zeitung.

 

Ele já havia um partido a defender a saída da Alemanha. Saídas provisórias, sem mais detalhes, parece-me à primeira vista fazer sentido nenhum.

 

Mas as brechas do edifício alargam-se; e aparecem novas. Talvez venhamos, mais cedo do que julgamos, os que contam com a Alemanha para pôr ordem na casa, e os que não querem ordem a preço e prazo incomportáveis, a ficar sem motivo para desentendimento. 

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publicado por José Meireles Graça às 22:23
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Sábado, 27 de Abril de 2013

Hoje não há conquilhas

Nunca elegemos um liberal ou um conservador para Presidente da Republica. Aliás, que me lembre, nunca houve um candidato assumidamente liberal ou conservador e, se tivesse havido, teria sido copiosamente derrotado.

 

Ramalho Eanes foi eleito porque parecia, e possivelmente era, a melhor defesa contra a deriva comunista.

 

Mário Soares foi eleito porque ainda havia a memória fresca do seu panache de herói da resistência civil e se apresentava como o amigo de Mitterrand e da Europa rica, para a qual estendíamos olhos cúpidos.

 

Sampaio foi eleito por ter conseguido apresentar-se como o herdeiro natural de Soares, que foi popular por ter sido hábil e festivo num tempo em que a festa ainda era possível, e porque o então candidato Cavaco ainda tinha o peso da erosão recente de dez anos de PM.

 

E chegamos onde estamos, com a eleição de Cavaco em 2006. A Wikipédia diz dele que foi o "primeiro presidente da área ideológica da direita", afirmação que faz sorrir.

 

Cavaco sempre teve uma inabalável fé nos poderes demiúrgicos do Estado como principal agente económico e limitou-se a cortar o cabelo, quando no Governo, aos restos consideráveis da economia comunista, via privatizações, e a modernizar o País noutras áreas, como competia a um membro da CEE, por exemplo permitindo canais privados de televisão. De resto, colaborou entusiasticamente na amarração do País à Europa e ao Euro, manteve um respeitável sector público, criou um sistema de remunerações e carreiras dos funcionários públicos que veio a causar não pequenos problemas no futuro, e nunca hesitou em atrapalhar a vida das pequenas empresas, cuja realidade, aliás, completamente ignorou.

 

Pareceu muito e foi certamente alguma coisa. Mas nada, absolutamente nada, o qualifica como de direita, em qualquer das suas múltiplas declinações, excepto talvez em questões de costumes.

 

Isto significa que uma parte dos eleitores que levaram Cavaco a Belém, mesmo sem contar com as idiossincrasias da personagem, que despertam anticorpos, escolheu um mal menor.

 

Fui um desses. E hoje por hoje, quando um PS delirante, sem fazer mea-culpa por ser o partido da bancarrota; sem parar para pensar que só pode querer o derrube extemporâneo do Governo quem queira aumentar o preço do resgate - quer à viva força ocupar os lugares pouco invejáveis de um Governo aflito:

 

Concluo que não deitei o meu voto fora. Cavaco disse não, que não há eleições. Fez bem. Esperai por 2015, récua de socialistazinhos de uma figa. Se lá chegarmos.

publicado por José Meireles Graça às 14:26
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Sexta-feira, 26 de Abril de 2013

O (a)caso dos cravos

 

 

A revolução dos cravos poderia ser sem flor.


Sei-o porque a mãe de uns amigos foi quem, nessa manhã, comprou as flores que, pela mão do mais perfeito acaso, chegaram ao cano da espingarda de um soldado.


A mãe destes amigos - a "patroa" de quem fala a protagonista deste video - comprou flores, cravos, para oferecer aos clientes do seu restaurante, ao pé do Marquês de Pombal, que comemorava um ano no dia 25 de Abril de 1974. Como se deu a revolução, o restaurante não abriu e os cravos foram oferecidos aos empregados. 

 

Improvável patrocínio, ou como o acaso faz história.

 

publicado por Ana Rita Bessa às 16:24
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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

25 de Qualquer Coisa, Sempre

Acho que, se soubesse o que hoje sei, não teria, se fosse vivo, apoiado o 28 de Maio. Mas, se soubesse apenas o que era razoável saber em 28 de Maio, teria apoiado o 28 de Maio.

 

Se soubesse o que hoje sei, não teria apoiado com entusiamo o 25 de Abril. Mas, sabendo o que então sabia, apoiei entusiasticamente o 25 de Abril.

 

A verdade é que cada revolução é ela própria e a sua circunstância. E porque só há revoluções quando há bloqueios que não se resolvem, quem achar, como eu acho, que as revoluções são soluções de desespero que, para resolver uns problemas, inventam outros novos, deve preferir a evolução.

 

O bloqueio já foi a ditadura jacobina partidária, o caos social, a instabilidade e a ausência de progresso económico, e deu no que deu.

 

O bloqueio já foi a guerra colonial e o imobilismo de um regime orgulhosamente só e orgulhosamente anacrónico, e deu no que deu.

 

O bloqueio hoje é a União Europeia e o Euro. E, se não se evoluir para outra coisa, dará no que dará.

 

Não é hoje o dia dos direitos e das proclamações? Pois então, exercendo o meu direito à opinião, proclamo.

publicado por José Meireles Graça às 21:00
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Há mais de 38 anos preparando o povo

 

 

É com solenidade e sentido de Estado que o Gremlin Literário lembra o dia 25 de Abril de 1975.

 

A brutalidade do calor não foi insuportável aos eleitores: em cerca de 6 milhões e 200 mil inscritos, votaram mais de 5 milhões e 700 mil, e abstiveram-se menos de 520 mil (8,34%).

 

Foram as eleições para a Assembleia Constituinte. A primeira a ser eleita por sufrágio directo e universal, contra a opinião e a vontade do simpático académico Fernando Rosas (e de quase toda a esquerda) que, tal como Salazar e Marcelo Caetano, considerava que o povo português "não estava preparado".

 

Faz hoje 38 anos.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 15:06
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Quarta-feira, 24 de Abril de 2013

O AeroPlano

Pág. 1 - A página 1 anuncia, como é normal, o Programa. E tem apostas. Os planos têm sempre apostas. Estranho que não se aposte no mar. Ultimamente, plano que é plano aposta no mar.

 

Pág. 2 - Horizonte 2020? E o governo PS, compra o plano?

 

Pág. 3 - Excelente, excelente. Mas precisamos de côrzinhas, desenhinhos e esquemazinhos, como nesses manuais infantilóides para o ensino secundário?

 

Pág. 4 - Consolidação orçamental? Óptimo. Mas, espera: para se conseguir um módico de consolidação, francamente insuficiente, não se aumentaram preferencialmente os impostos, penalizando o investimento, ao invés de consolidar preferencialmente pelo lado da despesa? A consolidação futura vai ser diferente?

 

Os dois itens a azul celeste referem-se possivelmente ao que já está feito. O resto é ciclópico - veremos.

 

Pág. 5 - A elencagem cor-de-rosa é para convencer quem? Nós já sabemos que vivemos no país das maravilhas. Os estrangeiros possivelmente não, mas é legítimo duvidar que uma lista de truísmos generalistas os alicie.

 

Pág. 7 - A aprendizagem dual não faço ideia do que seja, a menos que se trate de carteiras escolares com dois lugares, caso em que o número de alunos parece francamente pouco ambicioso.

 

Apoiar a competitividade das empresas "com 50% dos fundos etc." parece uma coisa muito perigosa. Se for a milionésima reedição de um programa ao qual as empresas se candidatam com um "projecto", o resultado será, em boa parte, o financiamento da concorrência desleal (umas empresas terão apoio e outras não), a malbaratação de fundos (agências governamentais pejadas de funcionários a analisarem durante tempos infinitos papelada que consumiu tempo e recursos para preencher), opacidade (jamais se saberá ao certo por que razão António foi apoiado e Manuel não) e corrupção (é ingenuidade imaginar que é possível distribuir recursos públicos por decisão casuística sem que o fenómeno apareça).

 

As medidas para libertar crédito para a economia são atraentes. Mas conviria talvez esclarecer: i) se podia ser feito, porque não o foi ainda; ii) se não podia mas agora pode, o que é que mudou nas circunstâncias financeiras do País ou da CGD; e iii) as linhas de apoio às exportações são novas ou as mesmas já várias vezes anunciadas anteriormente, e que não produziram efeitos visíveis?

 

Vaticino pouco futuro para o Gabinete do Investidor: o grande investidor tem o número de telemóvel de quem decide, ou pede e consegue uma entrevista e um empurrão; os pequenos sabem que mais um organismo não fará qualquer diferença, como não a fazem actualmente os supervisores, provedores disto e daquilo, e todos os organismos que querem agilizar processos decisórios, cuja lentidão deriva do excesso de normas legais e procedimentais, falta de confiança no empresário e inércia da Administração.

 

As reduções de impostos e taxas são benvindas. Quanto? Quando?

 

Pág. 8 - Uma listagem de desastres anunciados. Com a possível excepção do ensino dual, que não sei o que seja, subsidiar empresas para fazer formação profissional é uma ideia péssima: ou a formação não é realmente necessária e os formandos são utilizados como mão-de-obra barata, por ser paga, ainda que parcialmente, com fundos públicos; ou os trabalhadores dispensáveis passam a fazer "formação" numa irrelevância qualquer, para adiar o despedimento; ou, para cumprir imposições legais ou contratuais, se dá formação em fantasias inúteis ministradas por incontáveis empresas de formação de papel e lápis, que consistem geralmente numas boas almas a fingir que ensinam uns pobres diabos que fingem que aprendem; ou a formação profissional é realmente necessária - e muitas vezes é - mas não carece de um tratamento autónomo, por ser um custo da empresa como outro qualquer. O Estado pode efectivamente ajudar as empresas. Mas não desta forma, antes melhorando a qualidade do ensino e, possivelmente, recriando o ensino técnico. Se as "entidades de ensino" quiserem fazer parcerias com empresas, e estas o desejarem, nada o proíbe - que façam.

 

Por trás destes programas estão três ideias, todas falsas: a de que os poderes públicos sabem, mas os empresários não, o tipo de formação de que as empresas carecem; a de que a formação profissional pode corrigir as insuficiências e deficiências do ensino formal; e a de que o Estado pode melhor a qualidade de gestão pelo expediente de pôr nas empresas as pessoas que imagina serem necessárias.

 

Págs. 9 e 10 - A introdução do regime de IVA de caixa, e o cumprimento da Directiva Prazos de Pagamentos, se levados à prática, não apenas me obrigariam a relevar boa parte das observações negativas que venho listando como me fariam esquecer os pedregulhos que este Governo vem dependurando no pescoço das empresas (por exemplo, a recente "legislação" do Banco de Portugal que obriga as empresas a preencher listagens mensais de movimentos de capitais, cujo manual de instruções tem mais de 180 (!) páginas, ou a delirante obrigação de pedir licença para emitir guias de remessa - uma inacreditável patetice que só pode ter sido congeminada por um ignorante, submetida por um idiota e aprovada por um louco).

 

O "apoio à competitividade das empresas", ai!: Estamos a falar das empresas que preencham estes ou aqueles critérios objectivos, gerais e independentes de aprovações e decisões casuísticas? Então haverá talvez qualquer coisa a fazer. Estamos a falar de certas empresas, as que se candidatam a isto e àquilo, mediante processos instruídos por entendidos e aprovados por especialistas? Temos a burra nas couves.

 

Das outras medidas, a simplificação dos requisitos administrativos relativos a operações de reestruturação e do regime fiscal do IRC, a agilização das regras aplicáveis à transmissibilidade de prejuízos no âmbito das operações de reestruturação e/ou fusão empresarial, e a introdução de incentivos temporários (2-3 anos) para acelerar os processos de renegociação de dívida das empresas, são medidas positivas.

 

Já a criação de "bolsas de oportunidade de negócio que incentivem operações de associação e fusão", com o apoio de associações empresariais, depende da natureza do apoio. As associações não são os empresários, e não devo ser o único que não se sente, nem faz questão de se sentir, representado por associações, das quais a mais saliente é dirigida por um estimável empresário que tende a dizer com frequência ou banalidades ou as tolices que imagina são a marca distintiva do empresário moderno.

 

Uma pequena secção da página 10 é dedicada a anedotas, a saber:

 

– Reforço das competências de gestão empresarial: Vamos ter aulinhas, é? Ó Senhores Autores do Plano, isso já existe, por exemplo na Católica. E acreditam mesmo que com a intervenção paternal do Ministério, a menos que seja para lisonjear algum pateta que tenha dinheiro para distribuir, haverá muitos empresários com tempo para alocar, além dos que já para isso estão inclinados?

 

– Ações de consolidação das capacidades de gestão com recurso a gestores sénior: Ah ah ah.

 

– Desenvolvimento de iniciativas para formação em gestão em tempos de mudança e incerteza: Aos autores do Programa terá escapado que as Universidades despejam no mercado, há anos, dúzias de gestores, dos quais há por conseguinte uma plétora tal que se podem contratar por menos do que ganha um bom operário especializado.

 

Pág. 11 - De todas as medidas de simplificação, globalmente positivas, se espera que não sejam intenções pias. Há algumas surpreendentes: A avaliação ex ante do impacto de novas medidas legislativas na competitividade, bem como a introdução do critério one-in/one-out na aprovação de novos diplomas, é algo que, por pudor, não deveria figurar no Programa, dado que, ingenuamente, se acreditava que todas as medidas legislativas implicavam, por parte de quem as assina, uma adequada avaliação do impacto respectivo, na competitividade e no resto, assim como o cuidado de evitar a diarreia legislativa.

 

Reservas:

 

– Criação e dinamização de Zonas Empresariais Responsáveis (ZER) – chave na mão: Hum, estamos a falar de quê, ao certo?

 

- Redução dos encargos das empresas com combustíveis (low cost): Ou os combustíveis têm preços de mercado ou não. Se têm, a intervenção governamental apenas vai provocar distorções; se não têm, o Governo deve fomentar a concorrência e, entretanto, eliminar o supervisor ou dar-lhe meios e exigir resultados.

 

- Dinamização da competitividade do mercado do gás natural: Suponho que se trata de um lapso, os autores terão querido dizer "competição".

 

- Promoção da eficiência energética nas empresas: Já há legislação, no âmbito das regras de construção e na compra e venda de edifícios, com este louvável propósito. Conviria talvez que o Governo se abstivesse de "promover". Isso normalmente serve ou para torrar dinheiro público, ou para criar taxas para sustentar inúteis ou fingir que não são impostos, ou para garantir sinecuras. Qualquer empresário sabe se lhe convém ou não promover a eficiência energética, certamente melhor que o legislador ou um funcionário qualquer.

 

Pág. 12 - O IRC vai ser revisto, através de uma série de meritórias reformas. Destas, porém, a primeira é a redefinição da respetiva base tributável, uma expressão em novilinguês que costuma significar aumento de receita pública. Teme-se o pior. O "aprofundamento das regras aplicáveis para correção do excesso de endividamento das empresas" (ponto 8) significa nada ou muito, dependendo da forma que se irá fazer: se se trata de conferir vantagens fiscais ao aporte de capital às empresas, bem; quaisquer outras medidas - mal. A respeito do ponto 9 (reforço da articulação do IRC com os princípios da contabilidade) o que conviria seria acabar de vez com as reformazinhas anuais do POC, cuja actualização custa milhões em programas informáticos, unicamente para satisfazer as masturbações intelectuais dos senhores membros da Comissão que se ocupa destas matérias. O ponto 10 (revisão da política fiscal internacional do estado português que proteja as empresas e promova a sua internacionalização) é da maior importância, mas a complexidade do assunto justifica que se ouça quem realmente domina a matéria, o que, tradicionalmente, não sucede. A criação de um Crédito Fiscal Extraordinário ao Investimento (CFEI) é uma medida claramente negativa: não é admissível defender a estabilidade fiscal e ao mesmo tempo lançar medidas extraordinárias. O resto são medidinhas, que ou são negativas ou vão falhar: A "Redução do Prazo de Resposta de Informações Vinculativas" quer dizer o quê? Que a Lei estabelece um novo prazo e que por isso a realidade vai mudar? Come on, get real. O Gabinete Fiscal do Investidor Internacional é mais um organismo a duplicar o que já existe (na AICEP), a roubar clientela aos advogados, e a promover a ideia deletéria de que o investidor internacional deve ter um estatuto diferente do nacional.

 

Págs. 13 e 14 - Quase tudo é uma cansativa repetição do palavreado supostamente dinâmico da AICEP e quanto condottiere do dirigismo tem poluído o espaço público há décadas. Tem coisas fantásticas, como uma "Plataforma de Inteligência Económica". Que diabo poderá isto ser? O que há tradicionalmente é, não uma simples plataforma, mas um autêntico porta-aviões de asneiras. Os intérpretes são os mesmos, por que razão onde antes havia intervencionismo desastrado, ignorância inconsciente, e lirismos académicos vários, irá surgir gente lúcida com propensão para se abster de intervir? E a "Rede Nacional de Mentores"?! Nossa Senhora, do que se lembram.

 

Uma nota positiva, porém: não se anuncia a intenção de apanhar o comboio do futuro, nem de estar no pelotão da frente de coisa alguma, nem se fala do reforço da construção europeia - se é para deitar conversa fora, ao menos que não seja no âmbito do falido projecto europeu.

 

Pág. 15 - Excepto pelo "Plano de investimento de proximidade na rede rodoviária nacional", que não sei o que seja, assim seja exequível o que se apresenta, em particular a "adequação da rede ferroviária nacional para o transporte eficiente de mercadorias". Se em vez do TGV para Madrid, e outros delírios como os carrinhos eléctricos e as ventoinhas no alto dos montes, se tivesse olhado para esta gritante necessidade, já hoje parte do que ainda se exporta (ou importa) por via rodoviária poderia vir por caminho-de-ferro.

 

Em resumo:

 

O Plano tem muitas medidas boas e muitas medidas más. Infelizmente, não creio que haja tempo, nem recursos, para pôr em prática senão algumas medidas. E destas receio bem que as más levem a palma.

 

Enganar-me-ei? Oxalá.

publicado por José Meireles Graça às 23:40
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As mulheres de segunda

"Como os portugueses em França também comem o seu bacalhau sempre que podem e ouvem a música portuguesa e há ali uma exacerbação do ser português, também os guineenses assim o fazem, porque há uma luta de sobrevivência da sua identidade, étnica e nacional".

 

Isto é dito a propósito da mutilação genital feminina, não vá julgar-se que os emigrantes Guineenses, para conservação da sua identidade cultural, também comem bacalhau. Nada disso: sentem-se muito desenraizados e vai daí excisão, que é para se sentirem em casa. É um acto civilizacional, qual barbárie o quê - acha Inês Oliveira.

 

Não vou ver o filme, não por causa do que a autora pensa - é perfeitamente possível defender ideias inteiramente cretinas e fazer bons filmes - mas por uma questão de probabilidades: as de ver um filme português de que goste são ainda inferiores às da sobrevivência do Euro.

 

Inês, querida, conheces o bordão "tout comprendre c'est tout pardonner"? Pois é, o teu relativismo cultural dá nisso, compreender tudo e perdoar tudo. Se toda a gente sofresse da tua doença infantil da esquerda pateta, não haveria esperança para os milhões de mulheres que têm um estatuto de inferioridade.

publicado por José Meireles Graça às 12:19
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Terça-feira, 23 de Abril de 2013

Pseudo-palavras-por-minuto

Este post é escrito pela mãe de L.

A L é uma menina de 7 anos feliz e bem disposta, que estuda no 2.º ano de um colégio em Lisboa. É uma aluna regular, esforçada e que gosta de aprender.

Hoje foi dia de reunião de pais.

A professora - de quem muito gostamos por que sim, e também porque consegue um ótimo equlibrio entre exigência e suavidade, criatividade e disciplina - apresentou as metas curriculares para Lingua Portuguesa de 2.º ano. Que dizem assim (meus sublinhados):

 

"Ler em voz alta palavras, pseudo-palavras e textos:
1. Ler pelo menos 50 de uma lista de 60 pseudo-palavras monossilábicas, dissilábicas e trissilábicas (4 sessões de 15 palavras cada).
2. Ler corretamente, por minuto, no mínimo, 35 pseudo-palavras derivadas de palavras.
3. Ler quase todas as palavras monossilábicas, dissilábicas e trissilábicas regulares encontradas nos textos lidos na escola e pelo menos 12 de 15 palavras irregulares escolhidas pelo professor.
4. Decodificar palavras com fluência crescente: bom domínio na leitura das palavras dissilábicas de 4 a 6 letras e mais lentamente na das trissilábicas de 7 ou mais letras.
5. Ler corretamente, por minuto, no mínimo 65 palavras de uma lista de palavras de um texto apresentadas quase aleatoriamente.
6. Ler um texto com articulação e entoação razoavelmente corretas e uma velocidade de leitura de, no mínimo, 90 palavras por minuto."

 

Este post é escrito pela mãe da L. 

A L é uma menina de 7 anos que devia estar a aprender o gozo de aprender. Em quem devia estar a ser estimulado o interesse pelas palavras, pelo que elas permitem falar de nós, dos outros e do mundo. Que são muitas. Que se escrevem de uma determinada maneira. E, claro, que captar tudo isto, torná-lo seu, implica esforço e trabalho.

A professora - de quem muitos gostamos - não devia ter que usar um cronómetro como instrumento de medição do que L, de 7 anos, já aprendeu.

 

Hoje foi dia de reunião de pais. Aprendi que o mundo é um lugar estranho. E embora consiga dizer isto em breves segundos, o "eco" destas palavras perdura por muito mais do que o tal minuto.

publicado por Ana Rita Bessa às 22:51
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