Sexta-feira, 28 de Junho de 2013

O jogo de dardos

O jornalista conta uma história às três pancadas, não fala com toda a gente, não investiga, não consulta especialistas. Nunca trabalhei em jornais, admito que contar um incidente com princípio, meio e fim, fique caro, e suponho que por estes dias recursos é o que os jornais têm de menos.

 

Mas isto irrita, ler uma notícia sobre um fait-divers e sobrarem dúvidas:

 

i) Um tipo está num café e decorre um jogo de bingo, mas não está a jogar. Vem a GNR e leva-o "apenas" para interrogatório no posto, mas "sem ficar detido em cela". Perguntas: A polícia não pode no local fazer as perguntas pertinentes? Se não pode, por que razão não pode? Porque não notifica a testemunha, ou lá o que é, para comparecer no Posto à hora xis? Em Tribunal, leva uma multa de 150 Euros e "três meses de pena suspensa". Como?! Mas a suspensão de três meses é para a "pena" dos 150 aéreos ou para pena de prisão?

 

ii) Os celerados criminosos britânicos tinham entre 23 e 76 anos. O senhor dos 76 anos também foi na ramona? E esteve quanto tempo no Posto, dado que a operação policial se iniciou por volta das 23H00 e "só depois das 3h da manhã puderam sair do posto"?

 

iii)  A legislação que regula estas coisas é de quando? E as molduras penais são como, mínimos e máximos? Porque se, como o texto insinua, houve uma pena de três meses por "testemunho de jogo ilegal", então, se o jogo não fosse a biscoitos e fosse por exemplo roleta, podemos razoavelmente supor que a pena poderia ser, sei lá, cem chibatadas no pelourinho local.

 

Seja a legislação assim ou assado, em tudo isto há abuso, desmedida, falta de senso e lesão de um interesse económico relevante, que é o turismo, para já não falar da hospitalidade. E que a GNR, numa região famosa pela criminalidade violenta contra residentes, se tenha dado ao trabalho de enviar adiantadamente dois agentes "à paisana" para o local do crime, e tenha remetido mais doze para deter a maralha, justificaria que o jornalista nos tivesse inteirado dos nomes e declarações do comandante da força, de quem decidiu a operação, e do Juiz.

 

Para que lhes pudéssemos dar razão, se a história não tiver sido exactamente como foi relatado, ou pudéssemos colar as fotografias de todos estes guardiães da Lei e da Ordem num alvo do jogo de dardos - se não for ilegal.

publicado por José Meireles Graça às 01:20
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Quinta-feira, 27 de Junho de 2013

Proletários da função pública, uni-vos até às 24H00

Acho bem a greve de hoje, pela mesma razão que compreendo a necessidade das válvulas nas panelas de pressão. E quanto mais entusiastas forem os jornalistas, criativos os cartazes, veementes os insultos, confiantes os comunistas que dirigem a coisa e os socialistas que se lhes colaram, bem como a massa anónima de funcionários que está em luta - melhor. A greve é uma festa, pá.

 

Porque realmente quem não está a trabalhar são funcionários públicos, e uns quantos do sector privado que ou são comunistas, ou têm genuínas razões de queixa, ou não têm outro remédio porque não se podem deslocar. E, sendo as coisas assim, para a maioria das funções (as excepções óbvias são a saúde e os transportes), um dia a mais ou a menos não faz diferença. E até, no que toca a uma quantidade razoável de funcionários, se entrassem definitivamente em greve seria um grande benefício, não para eles, coitados, que não escolheram povoar serviços inúteis ou daninhos, mas para quem é obrigado a sustentá-los.

 

Isto é, em parte, retórica, claro. Que, conforme ficou demonstrado com a recentíssima greve dos professores, a berrata e a intimidação surtem algum efeito, ao contrário do que imaginei sucederia.

 

Mas uma coisa é os professores fazerem uma listinha de reivindicações e darem um chega-pr'a-lá na reforma, nos outros funcionários e na troica, e outra os gerais, incluindo portanto os privados, fazerem o mesmo. Porque, se são todos, não fica ninguém para comprimir. Donde se deduz que os Arménios desta vida, e na circunstância os idiotas que lhes servem de compagnons de route, o que querem é agitação e instabilidade, reivindicando eleições não porque imaginem que as vão ganhar, mas porque o PS não fará nada de substancialmente diferente. E, não fazendo, confiam em que, de exclusão em exclusão, as massas se voltem para eles, sob a lúcida direcção do camarada Jerónimo.

 

Jerónimo, meu chapa, esquece: não vai suceder. Esta multidão que engrola a Grââândola vai-te cravar um facalhão nas costas nas eleições próximas, e nas seguintes, e nas outras, dando-te uma vitória histórica, com pouco mais de 10% dos votos. E mesmo acrescentando os votinhos do teu alter-ego verde, e os dos teus doentes infantis bicéfalos, não chega.

 

Entretanto, vamos cantando neste dia de comunhão, e chorando nos restantes.

publicado por José Meireles Graça às 18:35
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Quarta-feira, 26 de Junho de 2013

As vacas leiteiras

No actual Governo, tal como em todos os anteriores, não há gente que represente os interesses das PMEs, e isto tem tido, e continuará a ter, consequências.

 

Entendamo-nos: na classe dirigente lisboeta (incluindo os importados do resto do País) não há falta de economistas nem de gestores, e uns e outros às vezes não são completamente idiotas. E acontece chegarem ao Parlamento, ao Governo, à banca, às associações patronais, aos jornais, à televisão, pessoas que intuem alguma coisa sobre o funcionamento da nossa economia, e que têm algumas noções sobre a realidade, e de como esta persiste em desmentir pressupostos, insistindo ela, a realidade, no facto de ter razão, como não a tem quase nunca a teoria livresca com que a querem vestir para futuro.

 

Cabe perguntar então, antes de mais, porque não há pequenos empresários, mesmo de sucesso, senão dentro das suas chafaricas, dos quais se tem notícia apenas em artigos raros, para ilustrar fantasiosas bondades da política x ou y, ou em publicações de especialistas que nisso têm interesse profissional, ou em panegíricos para evidenciar que no nosso desgraçado País há gente de sucesso que faz coisas do arco-da-velha.

 

As razões são várias:

 

A um político exige-se que tenha concepções globais sobre o funcionamento do Estado (ou ao menos de uma autarquia, benza-o Deus), experiência ou intuição sobre o jogo político e as inclinações do eleitorado, e capacidade para articular e expôr, num todo convincente. Mas, desgraçadamente, as qualidades que se requerem para a carreira política não são as mesmas que fundam o sucesso empresarial: o torrencial palavreado de um troca-tintas notório, como o malogrado Sócrates, poderia ser aproveitado para dar um bom vendedor, mas dificilmente chegaria para pôr de pé uma fabriqueta.

 

Depois, a menos que estejamos a falar de um empreendimento na área das novas tecnologias, ou outra que requeira conhecimentos técnicos específicos, os quais façam germinar na cabeça do estudioso a ideia de um novo processo, um novo produto, uma nova técnica que este queira, possa e saiba converter numa organização para ganhar dinheiro, o tempo alocado a estudar formalmente é quase sempre, para este efeito, perdido. Ao contrário da ingénua crença nas virtudes da educação para aumentar o empreendedorismo, o que o pode promover são condições culturais para tentar e falhar, de facilidade regulamentar e financeira para nascer, de viabilidade por satisfazer uma necessidade, e fiscais para sobreviver e atrair. A educação interessa, apenas, como condição adjuvante - e muitas vezes nem isso. Essa gente que se queixa da "falta de formação dos nossos empresários" anda a nanar: a PME nasce quase sempre da circunstância, da ambição e do tipo que vê o que os outros não veem, e isso não se ensina. Ora, isto que vale para o empreendedorismo não vale para a carreira política: o canudo é indispensável (temos disso patéticas provas) e o político, mesmo que nunca tenha lido um livro e se limite a ler as trincas e mincas da comunicação social, precisa de saber afectar que leu e sabe.

 

Mas há mais: Os próprios empresários, se conhecidos e inquiridos sobre questões de ordenamento da nossa vida colectiva, dão respostas que com frequência fazem rir ou chorar - depende do feitio e dos preconceitos de quem ouve. E, decerto por ser assim, não se lhes pergunta nada e qualquer rapazinho que ainda há pouco se livrou do acne que lhe atazanou a adolescência, ou qualquer prestigiado professor de economia suficientemente imbecil para imaginar que sabe de ciência certa alguma coisa, são perfeitamente capazes, quando chegam ao Poder, de causar danos sérios às PMEs, de cuja realidade e vidas têm uma noção muitas vezes colhida noutras realidades e com frequência romântica.

 

Finalmente, o empresário tem mais que fazer: a pequena empresa é uma amante totalitária. Quando algum aparece no espaço público a opinar e fazer lobbying com assiduidade, ou já não é pequeno, ou não é empresário, ou não vai longe, ou tem algum esquema. E com a aceleração da concorrência, os condottieri empresariais de hoje ou estão ocupados a subir a ladeira do sucesso, ou assoberbados a evitar - ou adiar - o escorregão da falência.

 

O Governo socialista era, por definição, inimigo das empresas: estas precisam de tribunais que funcionem, leis de trabalho que permitam despedir, contas públicas equilibradas, impostos baixos e muitas outras coisas; mas não precisam de ajudas - a própria noção de ajudar umas empresas e não outras é em si deletéria; e, na medida em que todos os governos, incluindo o actual, acrescentaram sempre novas obrigações para as empresas, pode dizer-se que a maior ajuda que o governo actual pode dar é não fazer nada, a não ser reverter parte do asneirol que tem vindo a ser diligentemente construído há décadas.

 

É nesta linha - fazer marcha-atrás - que vejo com olhos benevolentes estas declarações. Mas - lá está - se me perguntassem se isto servirá realmente para alguma coisa, diria que mal não fará, mas se é para atrair investimento seria bom que pensassem em alguma coisa de revolucionário, algures entre 10 e 15% de IRC. Se ficar, como suponho, muito longe disso, e for portanto apenas uma poupança significativa para grandes empresas, trocava por outras medidas: que tal o Estado pagar as suas dívidas vencidas às empresas, permitir a conta/corrente fiscal, eliminar adiantamentos compulsivos, ao menos no âmbito do IRC, instituir o IVA de caixa para empresas maiores do que um vão de escada, reformar o funcionamento da máquina fiscal, acabando com a ideia daninha que se instalou nos serviços e na legislação de que os resultados é que contam, os meios para lá chegar não ... isso é que era.

 

Não vai suceder, é claro, nem nada de parecido: estas e muitas outras são coisas pequenas, miúdas, não têm originalidade nem panache.  Mesmo assim, chapeau a Frasquilho: não acha que as empresas sejam vacas leiteiras que possam dar cada vez mais leite, comendo cada vez menos. A maior parte dos colegas, do partido, dos outros partidos e da profissão, nem isso sabe.

publicado por José Meireles Graça às 12:50
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Terça-feira, 25 de Junho de 2013

Barbaridades à solta

 

 

Para que a Câmara Municipal de Lisboa me aprove um projecto, tenho de apresentar as cores de todos os elementos das fachadas (com as respectivas referências no catálogo RAL). Se a Câmara aprovar aquelas cores (o que não é certo), o proprietário não pode alterá-las sem um pedido de autorização prévia, que obriga à apresentação e apreciação de novo processo de Licenciamento. No entanto, discute-se placidamente a "liberdade de expressão" dos "artistas" de graffiti.

 

Aparentemente, o governo planeia passar a sujeitar estas "intervenções" a uma aprovação pelas câmaras municipais. Os "artistas" mostram-se naturalmente contrariados: "Epá, eu conde chego aqui é que sei o que é que o meu espírito quer pintar". E vão logo avisando: "Puto, a mim ninguém me vai impedir de pintar a Anjelamérquel a mandar nos plíticos, meu!".

 

Pressupõe-se que as câmaras municipais, munidas dos desenhos (e sabe Deus de quantas mais "peças" que irão "instruir o processo" de acordo com "a regulamentação aplicável") vão apreciar os pedidos. Com base no gosto, porque não podem fundamentar a decisão em mais nenhum critério, vão aprovar uns e indeferir outros. No fim, só falta cobrar a taxazinha e emitir a respectiva licença.

 

Quem distingue as obras de "arte" do lixo? Quem separa as "maravilhas" que "enriquecem" as cidades das simples selvajarias que destroem as fachadas dos edifícios? No entender deste governo "liberal" (já não uso "ultra" nem "neo" porque este post não é uma galhofa), as câmaras municipais estão em condições para decidir.

 

Pessoalmente, considero que os graffitis são quase sempre um nojo. E os marmanjos que os pintam são vândalos puros que, em lugar de colo, mereciam dos cidadãos decentes, se não castigo, o mais absoluto desdém. Mas isto é o que eu penso, e o que eu penso vale tanto como o que pensa qualquer "artista", de graffiti ou de outra "arte", e por isso não deve transformar-se em decreto.

 

Eu sou arquitecta. Faço essencialmente reabilitação. Sou obrigada por lei a ser membro da Ordem dos Arquitectos. E a Ordem dos Arquitectos tem a obrigação de me vigiar (não vigia: só me cobra quotas principescas e ocupa-se de fechar, em nome dos arquitectos, péssimos negócios legislativos com o Estado), de garantir que eu sei fazer arquitectura, e de me punir se eu não cumprir a lei (designadamente, expulsando-me e impedindo-me de exercer a minha profissão). Como tal, nenhuma outra entidade pública devia ser autorizada a emitir pareceres, com base no gosto, sobre os meus projectos.

 

Não se trata da minha "liberdade de expressão" nem da minha "arte". Trata-se da vontade dos meus clientes, que são cidadãos particulares e se dispõem, do seu bolso e de livre vontade, a reabilitar os centros históricos. E trata-se da minha experiência, da minha cultura, do meu estudo, e da minha responsabilidade profissional. Não reconheço a nenhum burocrata qualquer superioridade que o habilite a emitir juízos estéticos sobre o meu trabalho.

 

Conhecendo os riscos, estou disponível para aceitar, no capítulo dos graffitis, a seguinte solução: Podem expressar-se, pintar, escavacar o que entenderem desde que autorizados pelos proprietários dos edifícios. Por maioria de razão, exijo para os arquitectos a aplicação do mesmo princípio.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 00:06
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Sábado, 22 de Junho de 2013

Faleceu devido a complicações

 

 

Para fazer meio quilo de seda natural é necessário assassinar barbaramente entre dois e três mil bichos-da-seda. Por aqui já se vê que, para confeccionar um elegante vestido de Verão, daqueles que devastam corações ou que usa a senhora Christine Lagarde, estamos a falar de verdadeiros genocídios.

 

Os bichos em questão, quando terminam o seu processo de transformação em insectos, têm o desagradável hábito de perfurarem os casulos para se porem na senhora da alheta, e esta perniciosa tendência estraga algumas valiosas fibras. Daí que os criadores, com oportunista prudência, cozam os casulos, com as lagartas lá dentro, em água fervente.

 

Isto gela o coração: os pobres animais indefesos, os ocelos (ou lá o que é) arregalados de pavor, revendo num instante as suas até aí confortáveis vidas, e os quilos de folhas de amoreira que devoraram. Ai credo!, que se tivesse aqui à mão um formulário, não sei se não era desta que me inscrevia no budismo ou no PAN.

 

Mas para as (e os) elegantes com um coração de esquerda (esta modernice dos seres sencientes e não sei quê é, como quase todas as causas, uma coisa de esquerda e de lunáticos, com perdão da redundância), há a alternativa da seda da paz: o insecto Eri vai à vida e os locais recolhem os casulos vazios, com os quais confeccionam à mão uma seda extremamente compassiva.

 

Se porém ainda isto for demais, há uns filamentos de uma árvore, e umas sementes de uma erva - também dão seda, sobre cuja qualidade o artigo, infelizmente, diz nada.

 

Já estou por tudo, desde que não se estenda o amor pela Natureza até às bactérias maléficas e aos vermes nojentos, e se deixe Braga em regime de extra-territorialidade.

 

É que hoje encaro a hipótese de jantar arroz de lavagante na cidade dos Arcebispos, num estabelecimento cujo nome não divulgo. E é claro que não tenciono inquirir de que forma, exactamente, se deu o falecimento do infeliz animal.

 

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publicado por José Meireles Graça às 18:20
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Sexta-feira, 21 de Junho de 2013

O ex-libris do ex-BRIC

As manifs no Brasil não têm propósito ou, melhor, têm os propósitos de cada grupo ou manifestante que se queixa do Estado porque é corrupto ou incompetente, porque não fez o suficiente pelos pobres, porque os políticos, mesmo os sérios, têm um estatuto e proventos que são para a maioria dos cidadãos uma miragem, porque há ainda, e cada vez mais, milionários cujo nível de vida é visto como um insulto para os que apenas têm um par de alpergatas, um prato de feijão e uma renda mínima; e ainda pelos comunistas, radicais e lunáticos de múltiplas declinações, especialistas da rua porque só ela lhes pode dar poder (a democracia burguesa do um homem/um voto pode eleger demagogos como Dilma, trapaceiros como Collor, e sindicalistas como Lula, mas comunistas só se forem travestidos de outra coisa qualquer). E há lugar ainda para os que farejam que os breves anos do crescimento via aumento de consumo e exportação para os outros tigres estão à beira do ocaso, que o acordo tácito entre o lulismo e o capital (pagais mais um pouco, com isso distribuímos milho aos pardais, e a bomba-relógio da revolta fica desarmada) já deu o que tinha a dar, e para inúmeros outros que acham que o Estado faz coisas que não devia fazer (estádios de futebol, por exemplo), em vez de lhes dar o dinheiro a eles.

 

Gente conhecedora da realidade brasileira, e sábios, grupos aos quais não pertenço, haverão com tempo de encontrar pontos comuns entre esta primavera e as outras que a antecederam ou que ainda decorrem, e falarão de redes sociais e aumento do nível de conhecimento, e por conseguinte de exigência, das massas, e de outras coisas que ignoro. E explicarão, caso a caso, as imensas diferenças: um Brasileiro não é um Turco, e os dois não fazem decerto um xiita ou sunita ou wahabita, ou qualquer outro dos fanáticos que por aqui ou por ali se matam alegremente.

 

Por mim, e enquanto espero que me iluminem, não dou nada para o peditório da suposta superioridade moral desta multidão festiva. Primeiro porque não sei o que pensam os que estão em casa, e esses são uma imensa maioria; depois porque o poder do dia, abominável a meus olhos, foi eleito e não tem feito nada que seja radicalmente diferente do previsível. E finalmente porque o exercício do direito à manifestação implica uma medida e um propósito: a medida consiste em não contender indefinidamente com os direitos, que são comprimidos, de quem não se quer manifestar; e o propósito consiste numa intenção anunciada. Os manifestantes contra a guerra do Vietname queriam que os soldados regressassem; os Líbios queriam o fim do regime de Khadafi (os que queriam). Estes nossos irmãos folgazões querem o quê? Mistério - até, muitas vezes, para os próprios.

 

O Poder já cedeu às reivindicações concretas (aumento do preço dos transportes, p. ex.), coisa que aliás não deveria ter feito, a menos que reconhecesse, com boas razões de interesse geral, que foi um erro. Porque se o Poder eleito cede perante a berrata porque tem medo, ou escolhe a facilidade, sem explicar claramente os seus motivos, o que a rua conclui é que ganhou. Mas a rua só ganha na aparência: há sempre o risco de aparecer o clássico caudilho para cavalgar o descontentamento.

 

O caudilho pode estar na própria Presidenta - a personagem de gramática sabe nada mas de rua, pés-descalços e demagogia sortida pede meças ao seu mentor, o intocável Lula.

 

Não vai suceder, creio. Que esta multidão cansar-se-á, e o Planalto atirará possivelmente mais algum milho aos pombos, e um açafate de promessas de virtude.

 

Pobre BRIC.

publicado por José Meireles Graça às 18:09
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Fugiram de casa de seus pais?

 

 

Aos oito deputados da JSD presentes no grupo parlamentar do PSD pareceu relevante perguntar quanto nos custam os sindicatos "do sector da educação". Para efeitos práticos, queriam tornar pública a sua preocupação com os custos dos sindicatos dos professores. E conseguiram algumas proezas paralelas. A mais previsível foi provocar a pergunta de sinal contrário: "Quanto custa a JSD?". Mas as consequências da "intervenção" são maiores do que isto e levantam outras perguntas.

 

Onde é que a JSD quer chegar? Estes deputados sabem que os sindicalistas têm os ordenados pagos pela entidade patronal, e é nesta medida que o Estado contribui para as despesas dos sindicatos. Como também são as empresas privadas que pagam os ordenados aos seus sindicalistas, e consta que os da Auto-Europa não ganham nada mal. O resto é pago pelas cotas dos trabalhadores sindicalizados, e neste assunto a Assembleia da República não pode (nem deve) meter o nariz.

 

Talvez a JSD esteja convencida que os sindicatos são dispensáveis, o que é legítimo. Mas até hoje não se conhece à JSD uma posição sobre o assunto. Se assim for, devem os jovens deputados apresentar uma proposta política forte, coerente, e bem fundamentada. Talvez queiram desgastar, aos olhos da opinião pública, a imagem dos sindicatos. Argumentar, como parece ser a sua intenção, que os sindicatos são prejudiciais porque significam um custo demasiado elevado nas contas do país, seria politicamente pobre e filosoficamente patético. Fundamentar estas contas no peso que têm no Orçamento do Estado os ordenados dos sindicalistas é uma estratégia tosca, desatenta, e pueril.

 

Desconheço quais são os custos que a JSD considera "razoáveis". A actuação pública dos petizes leva-me a desconfiar que esses custos seriam zero. E ainda assim a existência de sindicatos permaneceria uma concessão incómoda àquilo que parecem entender como caprichos da democracia, uma vez que nunca lhes ouvi apontar nenhuma vantagem. Não sei com quem é que a JSD pretende que os governos portugueses passem a negociar as medidas que afectam o trabalho e a vida dos assalariados.

 

O papel dos sindicatos tem-se traduzido em custos incalculáveis para o país. Ninguém sabe dizer quanto perdemos com a greve dos estivadores. As sucessivas greves dos professores, uma espécie de maldição sazonal que cai sobre os portugueses várias vezes ao ano (com perspectivas de se intensificar), representam custos económicos e sociais que estão acima de todos os luxos.

 

Em 1969 o Reino Unido vivia um pesadelo nas mãos dos sindicatos e Barbara Castle, várias vezes ministra e um dos mais destacados membros do Partido Trabalhista, concebeu uma proposta chamada "In Place of Strife" que previa alterações profundas à lei da greve. Não conseguiu, enquanto esteve no governo, que o seu projecto fosse executado. Foi preciso esperar 10 anos, até que Margaret Thatcher foi eleita e aplicou quase todas as alterações contidas nesse documento. Entre outras regras, a partir daí as greves tinham obrigatoriamente de ser decididas, através de voto secreto, por todos os empregados da empresa. Como é evidente, esta alteração tirou poder aos sindicalistas e reforçou o poder dos trabalhadores.

 

Em Portugal, os sindicatos representam as corporações (com os danos à vista). E estes deputadinhos resolvem contabilizar os ordenados dos dirigentes sindicais. Fizessem eles o que lhes compete, que é conhecer a sociedade portuguesa e representar efectivamente os interesses dos trabalhadores (que são a esmagadora maioria da população), e cada euro gasto em Nogueiras e Avoilas seria abençoado.

 

Espera-se da Assembleia da República que represente o povo português. Compete-lhe contribuir para o alívio das nossas dores. Se é para reflectir a nossa fraqueza, a nossa ignorância, e a nossa pesporrência, proponho para a próxima legislatura que os lugares de deputado reservados à JSD sejam sorteados entre os cidadãos que escrevem nas caixas de comentários da internet. Calculo que "os custos" em moeda sejam equivalentes. E o espectáculo de cabaré ganha outro viço se representado por degenerados livres.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 03:19
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Quinta-feira, 20 de Junho de 2013

Os verdes deputados da bancada laranja

Uns moços deputados perguntaram quanto nos custam os sindicatos do sector da educação. Isto diz a notícia. E quase o mesmo diz este este post: "... quanto custam ao erário público os sindicatos da educação".

 

Na realidade, trata-se de sindicatos de professores. E este é o primeiro equívoco: educação e "professores" não é a mesma coisa, e os interesses dos professores não são os interesses do ensino. Os sindicatos representam legitimamente os interesses dos professores, mas o ensino - o que se ensina, onde, como, até que idade, por que preço, com que meios - é um assunto da comunidade, que é representada pelos seus eleitos. E esses são sobretudo, no nosso ordenamento, os deputados, por muito que sejam desprezados ou não se deem ao respeito.

 

Daí que a pergunta seja pertinentíssima, natural, e estranha apenas na medida em que uma tal informação deveria há muito estar disponível. Só por isto, são menosprezáveis as reacções descabeladas da Esquerda de todas as declinações, como insolente foi o comentário do apparatchick sindical Nogueira. É mais que certo que a pergunta não é inocente, isto é, que se enquadra no conflito que opõe o Governo aos sindicatos, e tem um lado mesquinho. E depois? Um governo sob ataque não se pode defender, expondo no tribunal da opinião pública os interesses de sindicalistas dependurados no Orçamento?

 

Mas, no post acima referido, a banal confusão entre ensino e professores, e entre professores e sindicatos, não é a única. Diz Daniel Oliveira: "...os professores que estão nos sindicatos recebem o seu ordenado e os sindicatos são pagos pelos associados". Como?! Se o Estado paga os salários aos sindicalistas que trabalham em exclusivo para os sindicatos, o que faz é subsidiar fortemente os próprios sindicatos, aliviando-os de custos salariais. Pode achar-se isto bem e pode achar-se isto mal, mas a nenhuma luz se aceitam redacções que escamoteiam o facto.

 

Depois continua, insinuando que porque o grupo dos deputados é oriundo, ou pertence, à JSD, deveria estar caladinho porque a JSD pertence ao PSD, e o PSD vive, como os outros partidos com representação parlamentar, de dinheiro público.

 

Esta coisa de os partidos viverem de dinheiro público é discutível. Mas Daniel, que defende "que os partidos políticos devem ser financiados pelo Estado", já não vê com bons olhos que o PSD gaste algum desse dinheiro com a JSD, um notório antro de malfeitores. Ou seja, dinheiro público está bem, mas só para maiores de idade; e os partidos podem receber o estipêndio, desde que não o gastem com juventudes.

 

"O que não suporto é ver quem desde a adolescência olha para a política como uma simples carreira a substituir o debate democrático sobre uma greve pela mais reles das demagogias", conclui Daniel, com aquela superioridade moral que é a marca d'água do discurso de esquerda.

 

Sim? Todos? Só os da JSD, ou também os da JS, ou da JCP, ou da JP? E o "debate democrático" é o quê? Uns a chamar "ladrões", "gatunos" e coisas piores a outros, e os outros a responderem "VV. Ex.ªs poderiam permitir que aventemos a hipótese, sem querer incomodar, da sombra de uma suspeita de haver no vosso seio carreiristas e oportunistas"?

publicado por José Meireles Graça às 12:08
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Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Os velhos no seu labirinto

Suponhamos que odeio burocratas, burocracias, regulamentos e palermices sortidas; que vivo em Lisboa ou Porto (não vivo, felizmente), que me saiu o Euromilhões (não saiu, uma grande injustiça - tem saído a cada camelo que só visto), que a visão de um velho a dormir num vão de escada numa noite fria de inverno me incomoda, e que num momento de generosa loucura resolvia fazer um lar para idosos.

 

A consequência seria que me candidatava a autos e processos por "falta de certificado de vistoria higio-sanitária, de licença de utilização das instalações, de regulamento interno, de director técnico, de um plano de actividades e ausência do livro de registo de admissão."

 

Regulamento interno?! Director técnico?! Plano de actividades?! Alvará?!

 

O Estado já inovou criando um imposto de 20% sobre os prémios do Euromilhões, E as multas, então, as multas? Não seja por isso: de acordo com o diploma hoje aprovado haverá subidas na ordem dos 301%, no caso do valor máximo, que passará para 40 mil euros (face aos 9.975,97 euros actuais). No caso do valor mínimo, a subida é de 702%, passando para 20 mil euros (face aos 2.493,99 euros actuais).

 

Nada, nada, é muito melhor ter os velhinhos a dormir na rua. Mas os que, por sorte ou cunha, tiverem lugar nas instituições do Estado, podem estar descansados que têm director técnico, regulamento interno e um Plano, que a Lei não esclarece se quinquenal. E, se não tiverem, também não há problemas, que o Estado não passa multas a si mesmo.

publicado por José Meireles Graça às 23:29
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A coesão do discurso

Se fosse convidado pela Caritas a pronunciar-me sobre o problema do cancro da próstata, confessar-me-ia preocupado com a incidência do fenómeno, não porque acredite que o problema tem sido descurado, mas por defender que não deve ser objecto de descaso.

 

Isto sem esconder que esta é uma matéria para o plano médico, não para mim que estou mais virado para fabricar frigoríficos, ainda que não deixe de avisar que se o problema não for encarado fica por resolver.

 

Adiantaria ainda que, sem prejuízo do que antecede, o assunto em apreço me lança num estado de grande aflição, pelo que defendo mecanismos que mitiguem o impacto do processo de tratamento.

 

Para mim, é evidente que há pessoas, umas mais velhas e outras nem tanto, que vão sofrer um tratamento radical sem retorno, o que obriga à criação de condições para que possam retornar.

 

E, dever cumprido, creio que mereceria o aplauso de quem, com a atenção que mereço, me estivesse a ouvir.

 

Isto diria eu, se ganhasse a vida a dizer coisas.

publicado por José Meireles Graça às 11:54
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