Quinta-feira, 31 de Outubro de 2013

Sobre o Guião

Dedução depois de ler o Guião da Reforma do Estado:

 

- O Estado é irreformável.

publicado por João Pereira da Silva às 18:16
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Instituto Invisual de Portugal

Sobre o tamanho do Estado, os serviços que devem ou não desaparecer, as características comportamentais dos funcionários públicos típicos, o que são e para que servem as instâncias de supervisão, quase toda a gente tem uma opinião.

 

Eu também, e como os mais uma opinião ideologicamente condicionada; com a diferença de que, dada a natureza da minha profissão e as particularidades do meu feitio, feita também de vasta experiência.

 

Ontem, enviei o e-mail seguinte ao Instituto de Seguros de Portugal. Os detalhes da história, que estão naturalmente omissos, não interessarão. O que interessa, a meu ver, é perceber-se de que forma uma entidade supervisora interpreta a sua missão.

 

Exmo. Senhor dr. xxxxxxxxx xxxx xxxxx:

 

Exma. Senhora dra. xxxxxxxx xxxxx:

 

Notamos a V/ carta de ontem, da ref.ª xxxxxxxxxxxxxxxxxx, à qual passamos a responder:

 

Antes de mais, manifestamos a n/ alegria por constatar que VV. Ex.ªs seguem no desempenho das altas funções que lhes estão cometidas: já admitíamos que, sendo o nosso último contacto de Abril último, salvo erro, sérias perturbações teriam impedido respostas tempestivas; e outrossim, com pedido de desculpas pela excessiva familiaridade, confessamos a n/ esperança de que o período de férias, que neste hiato interveio, tenha servido para um merecido e gratificante repouso.

 

Receamos que o assunto, embora infelizmente não tenha perdido actualidade, esteja, no que toca à intervenção do Instituto de Seguros de Portugal, prejudicado; porque demos entrada de uma acção contra a Companhia de Seguros xxxxxxxxx, na esperança de que o Senhor Juiz veja o que o ISP nunca viu, isto é, a razão que nos assiste.

 

Permitimo-nos, ao apresentar comovidamente as nossas despedidas, agradecer a diligência que puseram em veicular a posição da companhia de seguros em causa, repetindo reiteradamente o que ela própria já nos havia dito, e que esteve na origem da nossa ousadia em solicitarmos a intervenção do organismo de soi-disant supervisão.

 

Porém, ousamos sugerir, a benefício de outras empresas, que, ao menos, se abstenham VV. Ex.ªs no futuro de ministrar aulas de Introdução ao Estudo do Direito, mormente invocando disposições legais que de modo nenhum se aplicam aos casos em apreço: o empresário, se não tiver formação jurídica, tem senso; e costuma estar provido de assessoria, se o senso não chegar.

 

Fiquem VV. Ex.ªs muito bem, que nós ficamos melhor

 

Graças a Deus. 

publicado por José Meireles Graça às 15:39
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Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013

Para além da Troika…a caminho do socialismo

Pouco depois da tomada de posse do actual governo, alguns dos seus membros e apoiantes mais empenhados começaram a usar o slogan “para além da Troika”. Uma vez que o que queria (e quer) a Troika já me parecia bastante difícil achei o slogan de uma ousadia inaudita. Cedo percebi que era um slogan, de alguém perturbado por uma transição demasiado rápida da blogosfera para os cadeirões do poder.

 

Embora as reformas estruturais ficassem muito aquém da Troika e a reforma do Estado ficasse mais para o fim da Troika, houve uma área em que o governo tem ido sempre muito além da Troika.  Trata-se de uma área genérica e difusa que decorre do empenho de vários ministros, e sobretudo de uma ministra, em construir uma sociedade socialista.  Primeiro, acabando com tudo o que tivesse a ver com avaliação individual do mérito nas empresas públicas—seguindo a governação anterior—e depois, através de regulações, limitações e restrições várias e avulsas, sempre no sentido de reduzir a liberdade individual e a diversidade de escolha dos portugueses, sejam pessoas ou empresas. O zénite foi atingido na tentativa fruste de domesticar as escolhas de animais domésticos. O barulho foi muito e a proposta, ficando repentinamente orfã, talvez caia no esquecimento.

 

Os nossos políticos permanecem iguais a si próprios. Apostados em regular, condicionar, impedir, evitar, atrapalhar. A Troika há-de sair, mas a construção da nossa sociedade socialista prosseguirá. Com estes e com os que se lhe hão-de seguir.

publicado por ANL às 19:09
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Terça-feira, 29 de Outubro de 2013

Clássicos do Gremlin: "Uma casa portuguesa"

 

 

«Um indivíduo está aborrecido com o emprego que tem, ou precisa de emprego ou ambiciona, por razões óbvias, ganhar mais. As coisas correm-lhe cada vez pior e as empresas privadas não o querem. Esclarecidamente, o indivíduo pensa no Estado, a que supõe o dever de lhe dar uma ocupação e proventos compatíveis. Não encontra nada ou o que encontra não o satisfaz.

 

Deste fracasso o indivíduo retira a conclusão de que o Estado não cumpre cabalmente as suas funções. Os seus enormes talentos merecem com certeza ser usados e seriam com certeza usados por um Estado que se prezasse. O indivíduo concebe então o plano simples de conseguir que o Estado reconheça a sua utilidade. Procura dentro de si sinais de distinção. Depressa se descobre uma especialidade, um amor, uma causa. Digamos, por exemplo, a casa portuguesa.

 

A casa portuguesa típica, que lhe despertou sempre surtos de paixão, desaparece lentamente da paisagem. As câmaras não a protegam; a Fundação Gulbenkian ignora-a; o público despreza-a. A preservação da casa portuguesa constitui um interesse social, digno da atenção do Estado. Aliás, todos os interesses sociais são dignos da atenção do Estado. O indivíduo decide, portanto, persuadir o Estado a encarregá-lo de preservar a casa portuguesa, tão ameaçada pela incúria, por autarcas néscios e pelos emigrantes.

 

Convoca três amigos: dois arquitectos e um autoproclamado sociólogo, como ele convencidos da sua importância e carentes de uns dinheiros. Os quatro põem-se em campo. Trata-se de obter acesso a um ministro ou a um secretário de Estado, através de relações pessoais ou de influências partidárias. O ideal é escolhê-lo num departamento com objectivos tão etéreos e brumosos como a própria preservação da casa portuguesa: a Cultura, a Qualidade de Vida, a Família, o Ordenamento Territorial, a Paz nas Consciências. Em rigor, qualquer serve, mas estes apreciam em particular os projectos fantásticos.

 

Imaginemos que o indivíduo e os três amigos se apoderam do ministro da Cultura. Tal ministro, principalmente se, como com frequência sucede, é analfabeto ou quase, jamais se atreverá a manifestar indiferença seja pelo que for que se lhe apresente como Cultura (com C grande). No "Botequim", Natália Correia vela. A esperteza reside em que tudo lhe pode ser apresentado como Cultura, até Natália Correia e a preservação da casa portuguesa. Intimidado, aflito, prevendo críticas devastadoras à sua relutância em preservar a casa portuguesa, o ministro rende-se. Discretamente, e supondo assim desembaraçar-se do sarilho, nomeia por despacho uma Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa, com o indivíduo e os três amigos, que passam a receber a remuneração mensal de cento e cinquenta contos, para o chefe, e cem cada, para os comparsas.

 

Ganhou-se a primeira batalha. O indivíduo adquiriu uma posição oficial. O próximo passo consiste em montar um cerco ao gabinete do ministro para lhe subtrair "espaço", isto é instalações. Como preservar a casa portuguesa nos corredores ou nos cafés? Sem telefones? Sem um sítio para guardar os papéis e atender pessoas? Os argumentos parecem racionais, a reivindicação justa. Comprometido no princípio, o ministro volta a render-se. A Comissão para a Preservação da Casa Portuguesa instala-se em duas assoalhadas, num canto obscuro do ministério.

 

Daí reclama telefones, um contínuo (para recados), uma escriturária-dactilógrafa e um técnico de terceira, destacados de outros serviços ou contratados de fresco entre familiares indigentes. Como recusar pedidos tão lógicos e triviais? Existe a Comissão, existem duas assoalhadas: o resto segue-se. O trabalho vai, enfim, começar a sério.

 

A Comissão produz, após esforços esplêndidos, um documento de dezassete páginas, com título de: "A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural". Forte de semelhante obra, entra na matéria. Pouco a pouco, estende os seus tentáculos. Ocorre-lhe desde logo que os seus objectivos são intradepartamentais. A casa portuguesa também é da responsabilidade dos ministérios das Obras Públicas e Habitação, da Qualidade de Vida e dos Assuntos Sociais. A Comissão exige, por consequência, que se forme uma subcomissão com "representantes qualificados dessas áreas", e que se lhe atribuam os respectivos subsídios. Requisita, evidentemente, um carro para as tarefas de coordenação (e para ir a Sintra aos domingos). Mas não se esquece nem das autarquias nem dos emigrantes. Cheios de zelo, os seus membros partem para a província, enquanto o chefe, com mais majestade, "se desloca" às colónias portuguesas no estrangeiro, com o objectivo de esclarecer os emigrantes sobre as vantagens de "manter o perfil" das nossas queridas aldeias.

 

Entretanto, o chefe já informou o ministro da impossibilidade física de prosseguir estas enérgicas actividades em duas meras assoalhadas. Em luta dura com várias direcções gerais, institutos e gabinetes, a Comissão acaba por conquistar mais cinco e aumenta o seu pessoal de sete para vinte e sete. Chegou a altura de se ocupar da decisiva questão dos "contactos internacionais". A inutilidade notória do exercício assegura que a Comissão brilhará. No Conselho da Europa, na UNESCO, em viagens diplomáticas à Assíria e ao Daomé, o chefe e os sócios discutirão moções, aprovarão recomendações, estudarão acordos de intercâmbio, comerão jantares e tirarão retratos. O mundo ficará sabendo que Portugal, país civilizado, se preocupa com a preservação da casa portuguesa. O orçamento da Comissão subiu de três mil contos por ano para cinquenta mil, o que a torna uma coisa digna de respeito e, pelo menos, de uma condecoração da Embaixada Francesa.

 

A Comissão, porém, é precária. Não tem lei orgância e não tem quadro. Acima de tudo não tem quadro. Os seus membros e empregados vivem no risco de despedimento, o que compreensivelmente os perturba, impedindo-os de trabalhar como gostariam. Para eles, os seus inestimáveis serviços justificam, mais, clamam, que lhes seja concedida segurança e aposentadoria. O ministro da Cultura entende esta angústia, porque aprecia que os seus subordinados o estimem. O ministro das Finanças, que não entra no ministério da Cultura, não se comove tanto. Mas é-lhe explicado o alcance da preservação da casa portuguesa, a sua indispensabilidade, o prestígio que a Comissão adquiriu em Bogotá e em Munique, e ele contrariadamente cede.

 

A Comissão transforma-se, deste modo, em Instituto para a Preservação da Casa Portuguesa, com um quadro de oitenta lugares, sendo cinquenta instantaneamente preenchidos. Muda de instalações, recruta telefonistas, motoristas, contínuos, técnicos, conselheiros, assessores. Gasta agora duzentos mil contos. O chefe inscreve-se no PSD e fala-se discretamente dele para secretário de Estado, em parte por causa de um livro de excessivo mérito chamado "A Preservação da Casa Portuguesa: Vectores de uma Problemática, a Nível Urbano e Rural".

 

A moral da história é a seguinte: se amanhã desaparecessem duzentos mil funcionários públicos, ninguém, excepto os próprios, daria por nada. Ou daria - daria porque pagava metade dos impostos.»

 

Vasco Pulido Valente

(Diário de Notícias, 5 de Fevereiro de 1984)

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 19:17
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Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

André não é Spartacus

Causou alguma comoção nas hostes mesozoicas um discurso de um tal André Albuquerque, actor desempregado. Um blogue do cretácico chegou mesmo a dizer que o texto "passou a ser um documento de luta. Daqueles que ficarão para sempre"; e a minha figadal inimiga Joana Lopes também o transcreveu com gosto no seu blogue da Antiguidade Clássica.

 

Curioso, fui ver. E a minha primeira reacção foi pensar que é muito mau o moço estar desempregado, porque pode-lhe dar para escrever, empolgado pelo sucesso da incursão nas artes oratórias, pelo que seria talvez recomendável dar-lhe uns subsídios, a ver se sossega. É que de Valter Hugo Mães, agora na versão dramatúrgica indignada, já estamos servidos; e há sempre o risco de tropeçar inadvertidamente num texto quando se têm hábitos de leitura a esmo. Tal perigo, porém, é menos assinalável nos teatros, porquanto há sempre a possibilidade de, inteirados do nome dos autores da peça, passarmos prudentemente ao largo.

 

Que diz então o genial André? Diz, por quatro vezes, que Portugal não é a Grécia e que está desempregado. É o que se chama uma anáfora, figura de estilo que, se usada a martelo, como no caso, se pode designar como enjoo. Desempregados, Andrezinho, meu chapa, há, além de ti, aí uns 599999, fora os que deram à sola. E uma larga maioria não produzia, quando estava empregada, artigos que ninguém queria, textos que ninguém lia, peças sem espectadores, serviços indesejados ou palavreado sortido. E se pesaram e pesam no orçamento é em nome do trabalho que desempenharam e perderam, não é em nome do direito a que a comunidade lhes sustente a alegada superioridade cultural.

 

E é de superioridade cultural que falas quando contrapões a Nini - seja lá quem for -, o La Féria, e o cacilheiro da Ajuda, não se sabe bem a quê, mas presume-se que aos outros Andrés e aos espectáculos culturais do bocejo, ainda que ignorante. A menos que aches mal que os poderes públicos subsidiem o gosto popular - é isso? Se é, André, aos meus braços, que ainda havemos de nos entender - basta que, como eu, queiras que o teu rico dinheirinho de contribuinte sirva para pagar a conservação do monumento, da biblioteca e do museu, e para financiar a escola, mas para o agente cultural - nicles: queres escrever compra um lápis, queres pintar compra tela e tintas, queres representar vê se arranjas um mecenas que te pague o teatro ou vai para as telenovelas - ups, parece que já lá estás, parabéns.

 

Quanto ao resto, olha, a aulazinha de Direito Constitucional esquece. Que o texto da Constituição, na parte dos direitos de uns sobre as obrigações de outros - morreu. E só dá ainda a impressão de estar vivo porque do óbito não foi ainda claramente informada uma parte da população nem os guardiães da revolução. Morreu porque acabou o arame. E esses que com sanha enumeras, e que ainda o têm, no geral aliás menos do que se imagina, só podem ser pilhados uma vez.

 

Por isso, a figura de Spartacus que, com grande rasgo de imaginação e uma pontinha de imodéstia, escolheste para muso inspirador, resulta um tanto, vá lá, deslocada: o escravo revoltoso foi morto pelas tropas de Crasso, e tu apenas tens de sobreviver até ao próximo discurso (se até lá não arranjares emprego). Além disso, Spartacus liderou 100 mil homens. Que mal te pergunte, André, tu lideras quem?

publicado por José Meireles Graça às 21:27
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D. Zulmira, Mouraria

Na Mouraria há muitas moradas e uma delas pertence à D. Zulmira. Mais precisamente as águas furtadas do nº 16 do Largos dos Trigueiros. É onde vive há precisamente 59 anos, num bairro a que se habituou a chamar casa.

 

Ao princípio, quando chegou com o Sr. Pedro, o seu marido, vinha todos os dias cá abaixo à rua buscar água à fonte do largo. Fonte de água viva, assim a chamava, talvez porque refresca e renova todos os que ao longo destes quase 60 anos por aqui vê passar.

A fonte passou a fazer parte da sua rotina e da sua vida, mesmo que agora já não precise, nem possa, vir buscar a sua água. Mas ficou-lhe a sede…

“Depois de se conhecer a água, fica para sempre a sede” - ouviu uma vez a alguém e achou tão bonito e certeiro que o fez seu e repete sempre que lhe parece a calhar. Muitas vezes ouve-se a dizê-lo a si mesma, quando olha cá para baixo e vê caras conhecidas debruçadas sobre a fonte, sentadas no seu beiral, esticando conversas e o tempo. “Olá D. Zulmira, estava aí em cima? Que tal anda…?”, “Ai, com sede de conversar…”.

 

 

Na Mouraria há muitas moradas e o rés-do-chão do mesmo nº 16 é agora ocupado por uma artista que fotografa pessoas e compõe as paisagens do bairro.

Uma vez fotografou a D. Zulmira, que só pediu que a deixasse trazer o seu bem mais precioso – o colar de pedras que o marido lhe deu. A fotografia sorri agora na rua que vai até à Igreja de S. Cristóvão.

 

 

 

A D. Zulmira lembra-se de ter perguntado à rapariga artista: “A menina pode fazer uma mulher velha renascer?”. Mas isto foi antes de ter visto o retrato. Porque depois soube logo que sim, que a sua fotografia a fez renovada a si e à casa que é o bairro, que agora mora em sítios novos e que é mesmo verdade que na Mouraria há muitas moradas.

publicado por Ana Rita Bessa às 17:58
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Sábado, 26 de Outubro de 2013

Da confiança pessoal e nos negócios

Saudável regra operativa no mercado italiano: não se pode confiar em dois de cada três italianos. Por causa dos dois primeiros, nunca sabemos se podemos confiar no terceiro. Com dois de cada três alemães a confiança é a base da relação e mantê-la uma honra mútua. Depois, interrogamo-nos porque não funciona a economia a sul.


O que estragou a confiança em Itália? Segundo os próprios italianos, a porca da política dos últimos 20 anos com um ex primeiro-ministro e uma classe política para quem a palavra é o reflexo da conveniência do momento e das próprias contas bancárias. Perguntarão não é assim em todo o lado? Não. Na Suíça, por exemplo, a confiança contratual também é estabelecida com a palavra de honra dada apoiada num contrato. O contrato regula o modo de relação, mas a honra das partes sedimenta-a.


Em Itália, um contrato tem pouco valor para proteger as duas partes quando se for a tribunal dirimir as faltas aos compromissos assumidos. Como o processo pode durar 10 ou mais anos e de pouco serve pelo emaranhado de leis oriundo da política que visa em muitos casos proteger os prevaricadores, muitos deles políticos, sucede um bloqueio económico e pouco valor é dado aos contratos que se podem furar sem graves consequências. Honra e confiança conceitos ultrapassados? Antes fossem para estar de acordo com as nossas expectativas desiludidas sulistas. Sem justiça operativa em tempo útil, por cá, o contrato é papel pouco mais que inútil e a palavra dada tem pouco valor.


Como acontece o reforço da confiança pessoal nos países do norte? Apoia-se numa justiça eficiente que tutela a parte ofendida e condiciona o potencial ofensor a comportar-se. A norte, o bom funcionamento da justiça reforça o valor da confiança e da honra. A sul, a justiça lenta e muitas vezes participante na porca da política desagrega a confiança social e económica paralisando a cooperação necessária. Porquê isto?


Quando se vêem notáveis magistrados a participarem em acções de campanha de notáveis bandidos políticos, o impacto social é claramente o de erodir ainda mais a confiança no funcionamento justiça que já é muito mal visto. A honra e a confiança pessoal convêm às partes quando a justiça também é de confiança e dissuasora de comportamentos incorrectos.


Mais vale ser e agir em confiança que correr o risco de apanhar com uma sentença rápida e eficaz. Coisa de somenos importância que nada tem a ver com o nosso bem-estar social e económico, não é?

publicado por João Pereira da Silva às 10:45
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Quinta-feira, 24 de Outubro de 2013

Regresso ao futuro

Fiquei sentido com este texto, às vezes as verdades doem: sou um desses que odeia Sócrates - tenho-lhe um tal ódio que, se dependesse de mim, punha-o numa cela a ouvir música pimba 18 horas por dia, no caso de ele não gostar.

 

Por outro lado, ainda que confesse sem pejo a minha triste condição de direitista irrecuperável, ocorre que talvez haja uma ou outra razão que atenue a minha culpa. Vejamos:

 

Numa análise a todas as acusações que lhe tinham sido feitas, Daniel concluiu em Fevereiro de 2010 que nem uma se provou; e como os acusadores não eram socialistas, o que resulta evidente, para ele,  é que o homem era provavelmente inocente e de modo nenhum beneficiou da complacência, ou da impotência, das autoridades. Sucede que o PGR e o Presidente do STJ da época eram admiradores da deslumbrante personalidade do visado, como se demonstra com a sua presença no lançamento recente da obra seminal sobre a tortura, que estrelaram e que Sócrates escreveu na sua alegada condição de melhor aluno de Sciences Po. E assim as pessoas que, como eu, têm uma visão pessimista sobre as pessoas, ficam na sua: pode ser que nem todas as acusações tenham fundo; mas é improvável que nenhuma o tenha.

 

Bom, havia mais umas coisas que nunca foram esclarecidas, como aquela história do fatinho adquirido em Beverley Hills - coisa mesquinha, por certo, fico até envergonhado por trazer o fait-divers à colação. Mas, lá está: a boa-fé, a largueza de vistas, a confiança, o sentido das proporções, são tudo coisas que na esquerda brotam com naturalidade; na direita, só por excepção, e eu, desgraçadamente, sou bastante típico.

 

"É pura e simplesmente falso que Sócrates tenha falido o país. E isto não é matéria de opinião. Sócrates faliu o país da mesma forma que todos os que eram primeiros-ministros entre 2008 e 2010 em países periféricos europeus o fizeram".


Todos?! Mau, a Finlândia, cuja capital dista de Bruxelas tanto como Lisboa, também faliu? E alguns países aflitos, como a Espanha, Itália e a França, não estão relativamente perto do centro e, no caso da França, não está a capital a 300 km de Bruxelas? E Dublin, a 960 km, está assim tão longe? Que significa este argumento da perificidade?

 

"Mas, com estas opções europeias e a arquitetura do euro, um excelente governo apenas teria conseguido que estivéssemos um pouco menos mal".

 

Tenho dificuldade em confrontar os actos do governo que houve com actos de um governo que não houve. Mas como, à época, o que Daniel defendia era um governo do BE, lanço-me também num exercício de história contra-factual: com um governo do BE o país teria ficado caribenho; e teria boas contas - como Cuba. E mais não digo.

 

"No fundo, move-se [Sócrates] pelo mesmo que todos os políticos que ambicionaram mais do que uma pequena carreira: o sonho da imortalidade. E essa é, entre outras, uma das razões porque não compro o retrato do pequeno bandido que enriqueceu com uns dinheiros dum outlet em Alcochete. Parece-me que a sua ambição é muito maior. Por isso, façamos-lhe justiça de acreditar que também serão maiores e mais nobres os seus pecados".

 

Eu tenho a convicção de que Sócrates é um pequeno bandido com um destino improvável, que mereceu pelos seus talentos de oratória, um certo tipo de inteligência fulgurante mais adequadamente descrito como esperteza, e, como sempre, um conjunto de circunstâncias que lhe favoreceu a ascensão.

 

Espero que as circunstâncias não facilitem o regresso;  mas suspeito que, se Sócrates retornasse para nos assombrar, e lhe conviesse adoptar uma retórica mais consistentemente de esquerda, Daniel Oliveira bem podia ter um papel no renascimento do verdadeiro socialismo. Não por lhe imaginar uma alma trapaceira; por lha supôr ingénua.

 

publicado por José Meireles Graça às 21:14
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Cinco mil

 

 

Fazem-se amigos na chamada blogosfera. Começamos a ler o que escrevem, e um dia damos por nós a gostar deles. Não "aconselho", nem "recomendo". Muito menos "sugiro", e nem me vou dar à arrogância de "explicar". São afectos que só comento com os meus botões.

 

Foi anteontem mas só hoje reparei: o meu amigo Nelson Reprezas, publicou 5.000 posts - escritos por ele, um a um (é preciso "importantizar estas rigorosidades"), desde Julho de 2004.

 

Fico à espera de outros tantos. Deixo os meus parabéns e uma garrafa de Bollinger para comemorar com ele:

 

♫♪ ♫ ... nhic... ♪ ♫ ... nhic...   ♪♫ ♪ ... nhiiiic... ♫♪ ...BUM!

 

(Ups... Espero que a rolha não tenha acertado no nariz de ninguém.)

 

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publicado por Margarida Bentes Penedo às 20:09
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"Crescimento, Auto-determinação, Abundância e Honestidade numa Sociedade Keynesiana" por José Sócrates

Com prefácio de Manuel Alegre e notas de Mário Soares, publicado pela fundação do ex-Presidente e actual decano da nação, o próximo livro terá como tema "Crescimento, Auto-determinação, Abundância e Honestidade numa Sociedade Keynesiana". 


O Gremlin Literário, graças às fontes internas que mantém junto do lado forte do PS, sabe que as linhas mestras do livro se desenvolverão assim: 

Crescimento: Não bastam duas legislaturas para o mesmo governo. É preciso défice durante mais de dez anos consecutivos para se criarem as condições necessárias ao "desenvolvimento sustentável". A dívida resultante dos défices não é responsabilidade do governo mas dos investidores mal-informados e dos mercados que além de não emprestarem à sociedade keynesiana a juro negativos, não entendem que 150, 200% de dívida em relação ao PIB, é tão "rolável" como uma dívida de 60%. Crescimento é igual a dívida e dívida é consumo antecipado que faz as pessoas felizes hoje, e permite ao governo, amanhã, ganhar as próximas eleições. Na perspectiva de crescimento keynesiano o depois de amanhã não existe. 

Auto-determinação: Se pedirmos muito dinheiro emprestado vamos ter mais poder junto dos mercados, porque ameaçamos não pagar, e os mercados amedrontados terão que nos emprestar mais. Se não nos emprestarem mais dinheiro, e a nossa economia começar a ter dificuldades de financiamento haverá uma fase apenas transitória em que muitas empresas estrangeiras começarão a comprar muitas empresas portuguesas. Contudo, esta aparente dependência do exterior é enganosa para os estrangeiros pois faz parte de uma estratégia nossa muito mais abrangente de conquistar capacidade de determinação e independência pela lógica de Mario Puzo: "mantém os teus amigos perto e os teus adversários ainda mais perto". Quando os adversários estiverem muito, mas mesmo muito perto, vamos aprender tudo com eles e mostrar-lhes como somos bons. Depois vamos ser muito independentes e capazes de nos auto-determinar, porque sim.

Abundância: O verdadeiro segredo da governação de sucesso é abundar. Abundar em: infraestruturas colossais, aeroportos, auto-estradas, estádios, muita tecnologia e obras faraónicas que ocupem muitas pessoas contratadas pelo estado ou seus fornecedores. Abundar em linguagem específica da política feita para o sucesso: simplificação, inovação, revolução sistémica e outros termos que devem ser criteriosamente escolhidos em enciclopédias feitas ao abrigo do Acordo Ortográfico. Muito importante também é abundar em palavrões nas conversas telefónicas com os amigos que a oposição pede ao ministério público para escutar. Abundar também em "Armandos Varas". Nenhum governo funciona bem sem ao menos dez Armando Vara em  cada ministério para desenvolverem contactos e identificarem muitas oportunidades empresariais de estado que muito enriquecem o país.

Honestidade: O verdadeiro bom líder tem de ser honesto, profundamente e consigo próprio. A palavra é acção e a acção é pragmatismo de direcção, no caso do líder, logo o valor da palavra emitida deve servir os bons fins que apenas a mundivisão do líder permite conhecer. A palavra é  utilitária e deve ter em conta a capacidade de entendimento dos cidadãos que apesar de não serem tão limitados como alguns acreditam, são capazes de entender que a verdade pode não ser o melhor para um bom caminho comum. Honestidade significa ser amigo dos amigos e os amigos do líder por osmose partilham da liberdade honesta do líder  de controlar a palavra pública para os bons fins comuns do país que apenas um grupo ilustrado pode conhecer plenamente. 

Sociedade keynesiana: como Keynes já não se encontra entre nós, podemos usar os conceitos e sugestões que ele deixou escritos com plena discrição e nem é preciso ler os seus livros. Que Keynes tenha defendido que a dívida deve ser sustentável e que um certo limite não deve ser ultrapassado, ou que as obras públicas e o intervencionismo devem também ser limitados, não é relevante para o nosso caso particular. Keynes é um belo nome, até seria capaz de o dar a um cão, e Hayek soa a gato autoritário. Portanto: Keynes. O modelo keynesiano também é um que permite justificar por muito tempo, desde que se pegue apenas nos chavões mais fortes, o imenso desenvolvimento da sociedade por mérito das políticas centralizadas. Veja-se o caso de sucesso do Japão. 

O livro será apresentado imediatamente antes da apresentação da candidatura de José Sócrates a Presidente da República. 
publicado por João Pereira da Silva às 14:51
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