Domingo, 23 de Agosto de 2015

Férias

De Julho a Setembro, no hemisfério Norte, corre o tempo de quem gosta de sol e água. Quem, como eu, prefere sombra e vinho, passa mal, porque não escapa à fatalidade das praias, das estâncias de férias, das viagens, das comidas inabituais e dos ajuntamentos da gente que, furiosamente, se diverte - ou assim parece. Nem que, por radicalismo, teimássemos em ficar em casa, o flagelo deixaria de cair sobre nós: ou vivemos num sítio turístico e este fica inçado de gente de shorts e alpercatas, entupindo as ruas e os restaurantes, e urgindo-nos a cada momento a dar à sola; ou não vivemos e subitamente os melhores estabelecimentos fecham, os amigos desaparecem e as caras conhecidas somem - porque está tudo de férias, man, e as férias são um direito.

 

Suspeito que somos muitos, as marias-vão-com-as-outras que, no regresso, dão consigo a sorverem com gosto o café do costume no sítio do costume, retomam a rotina de trabalho que a necessidade lhes impõe e que imaginam detestar, dando por momentos o devido valor à aurea mediocritas que é a vida de tantos.

 

Por mim, escapa-me o propósito de as pessoas se esparramarem durante horas ao sol, untadas, por medo que tal prática lhes aumente o risco de cancros na pele, de unguentos pegajosos, e refractários à fatalidade de que o bronze penosamente adquirido não sobreviverá dois meses; e suspeito que os banhos de mar, excepto para quem tenha camadas adiposas possivelmente deletérias para a saúde, são uma contrariedade, por as águas estarem uma frialdade, e já não haver sequer a desculpa, na qual Ramalho, Eça, os ingleses, e tanto médico ignorante e presunçoso, acreditaram, de os banhos gelados fazerem bem à saúde.

 

Salvo numa pequena porção do Algarve, e num ou noutro lugar mais distante ainda, e onde só se chega ou aturdido pela viagem de automóvel ou mortificado pela tortura dos vagões de gado que são os aviões modernos, completos com um processamento que, excepto pelos procedimentos de segurança, por causa do risco de atentados, se diria reservado a ovinos:

 

O mar é frio.

 

O mar é frio, a areia introduz-se, insidiosamente se a costa for a do Sul e descaradamente se for a do Oeste e a nortada soprar, onde não deve, o café é caro e mau, o serviço rasca e o toldo miserável ao preço, por metro quadrado, de um flat em Manhattan - realmente o sortilégio da praia é um mistério.

 

Há outros destinos. Pode-se por exemplo ir, como eu fui, à Dinamarca, por uns dias, e visitar Kolding ou a capital - mas sob um calor de ananases, que naquela maré fresco, fresco, estava no Porto. Isto, hoje em dia, não é só nas instituições que não se pode confiar, o clima, desde que os cientistas se meteram a interpretá-lo, prega-nos partidas soezes.

 

A verdade é que, por todo o lado, o turista polui tudo - a autenticidade dos modos de vida, as ementas dos restaurantes, as lojas de recuerdos dos museus, os bairros typical, até mesmo as praias. E isto decorre dessa estranha transumância moderna que, sobretudo em Julho e Agosto, faz com que hordas de vikings desertem do Norte para o Sul da Europa, à procura do sol, da água e da boa cozinha, enquanto no Sul se foge do interior para a costa e daqui para ali porque, realmente, a felicidade está, duas ou três semanas por ano, longe do nosso habitat - procura que, por excessiva, anula a possibilidade de a encontrar.

 

Hoje o regresso. Creio que o sorriso discreto que se via nas caras agora passageiramente morenas dos que fazem a viagem de volta não é de expectativa - é de alívio.

 

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publicado por José Meireles Graça às 21:21
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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

Outros tempos

William Howard Taft foi o 27º presidente dos EUA, pesava 150 kg para 1,80 m de altura, e foi o último a usar bigode. De uma colecção de biografias de presidentes americanos, retive-lhe o nome, sobretudo, porque era calmo, bonacheirão e fazia a sesta. Não foi reeleito, não se lhe citam os discursos, e não figura nos lugares cimeiros das listas de presidentes ilustres. Estes, infalivelmente, são o Lincoln da guerra civil, o Kennedy das frases bombásticas (...ask what you can do for your country, mantra mais socialista não há), o Roosevelt do New Deal e da II Guerra e, presume-se, também virão a estar povoadas pelo inspirador Obama do yes we can... (print money as if there was no tomorrow, acrescento eu), o primeiro presidente negro, perdão, afro-americano.

 

Taft foi talvez o último presidente que, genuinamente, não perdia o sono por causa do crescimento, a taxa de desemprego e a obsessão com o andamento da economia. E certamente ficaria trespassado de espanto se lhe viessem propor que, com apoio do Estado, milhões de cidadãos se transformassem de inquilinos em proprietários. Mas foi precisamente naquela terra dos fortes e bravos que essa luminosa ideia nasceu umas décadas mais tarde. E acabou numa bolha imobiliária, numa gigantesca espiral de especulações financeiras demenciais e, finalmente, numa crise que se propagou ao resto do mundo.

 

A ideia pegou de estaca entre nós: interessava aos inquilinos que, em vez de pagarem uma renda ao proprietário rentista, pagavam-na a si mesmos sob a forma de investimento num imóvel; aos construtores civis e indústrias conexas, que tiveram muitos e bons anos dourados; aos governos que assim "criaram" emprego, eleitores satisfeitos e "crescimento", a troco de descontos na receita de IRS, sob a forma de juros subsidiados; e, sobretudo, aos bancos, sector segurador e outras parasitagens financeiras, que encontraram um negócio rotineiro e de pouco trabalho, seguro, de receita certa e gerador de bons prémios de gestão para a malta dos fatos às riscas e palavreado sempre disponível para esclarecer as massas sobre macroeconomia.

 

Claro que os inquilinos apenas trocaram uma servidão leve por uma pesada: a prestação da casa seria maior do que a renda, se existisse mercado de arrendamento, e a conservação passava a correr por conta do antigo inquilino, agora proprietário nominal; a mobilidade ficava reduzida porque, em necessitando mudar de terra, teria que arranjar comprador para o imóvel, para se poder enfrascar com outro; e o investimento penosamente feito podia, se a vida corresse mal, resultar numa terrível enrascada, por a entrega do bem ao banco não extinguir a dívida remanescente, segundo legislação acagaçada do poder político, esquerdista umas vezes, cobarde outras (o mesmo que havia liquidado o mercado de arrendamento e nunca encontrou coragem para corrigir o torto) e interpretações de juízes funcionários, com fartos conhecimentos de direito positivo e nenhuns de doutrina.

 

Acabou, é claro, mal: os postos de trabalho, que aliás eram com frequência de imigrantes, esfumaram-se; gente sem culpas nem falta de diligência viu a sua vida destruída ou a andar seriamente para trás; e os bancos, que se haviam com inacreditável imprudência endividado no exterior para poder financiar todo este progresso de cimento podre, viram-se subitamente entupidos com imóveis que ninguém queria, em volume aliás confidencial, não vá abalar-se ainda mais o prestígio das instituições bancárias, e com isso perturbar-se o tranquilo gozo das suas reformas milionárias a quanto idiota geriu bancos nos últimos anos, assim como a serena inimputabilidade de quem nominalmente os supervisiona.

 

Enquanto esta maluqueira da construção durou a outra economia, a dos bens transaccionáveis, estiolou. E mesmo que recentemente, por razões ainda mal explicadas e compreendidas, a economia verdadeira, isto é, a que cresce à margem do Estado e com frequência apesar dele, tenha encontrado em si forças para sobreviver e, muitas vezes, prosperar, resta que deveríamos da crise ter retirado lições.

 

Mas não, esta gente não aprende: um pequeno empresário que queira fazer um leasing para uma máquina, obter um empréstimo para uma ampliação, ou um financiamento para executar uma encomenda gorda de um cliente que paga a prazo, só o consegue se demonstrar que na realidade não precisa de financiamento nenhum, ou arranjar forma de garantir que o banco não corre qualquer risco; mas o empregado da mesma empresa pode, se produzir uma declaração de IRS que prove ter rendimentos bastantes, obter o financiamento para a casinha - santa estupidez.

 

Tenho esperança que do que estamos a falar seja de imóveis encalhados no activo dos bancos, e que os empréstimos sejam portanto operações de lavagem de asneiras. Mas não estou certo. Porque, excluindo o BES (de forma aliás inadmissível, mas isso são outros quinhentos) a tropa é a mesma. E os pilriteiros, como é bem sabido, não dão senão pilritos.

 

Precisávamos - muito - de fazer marcha-atrás, não digo a ponto do vivermos habitualmente de má memória, mas com um módico de confiança nas instituições. A bonomia de Taft, infelizmente, não nos seria de grande utilidade porque para dormir é preciso ter a casa arrumada. E para a arrumar não seria má ideia chamar o governador do Banco de Portugal e perguntar-lhe: olha lá, ó Costinha das proclamações em economês, o que é que esta merda dos empréstimos ao nível de 2011 quer dizer?

 

Não vai suceder, claro. Não há quem pergunte e, se houvesse, o homem não diria nada de jeito. A Taft, palpita-me, não ocorreria nem a dormir reconduzir num lugar quem no desempenho dele tivesse falhado clamorosamente. Outros tempos.

publicado por José Meireles Graça às 12:59
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