Terça-feira, 26 de Junho de 2012

Uma agente cultural

 

 

A Raquel é jornalista e escritora. Em "jovem" (até perto dos 40 anos) deitava-se com "gajos" - na altura ainda não eram "fulanos", isso veio com a maturidade. Um deles tinha o apelido atraente, e escusou-se a repetir a farra porque não justificava outra viagem a Corroios. Uma guerra jurídica, com testes de ADN, obrigou "o gajo" a reconhecer a paternidade da Benedita, porque nem o nome da criança conseguiu enternecê-lo. Morreu de cancro, pouco tempo depois.

 

Ficou orfã a Benedita e atraente de apelido, uma vez que do pai não herdou mais nada. Conheceu uma variedade grande de sofás alheios, onde dormiu sempre que a mãe conseguiu que as amigas tomassem conta dela enquanto jantava, entrevistava, investigava e teorizava gajos. Ou fulanos. Ou directores. Ou candidatos. Ou especialistas. Ou editores, que a Raquel preparava-se para escrever um romance. Às vezes colegas de redacção, que a Raquel, nas suas palavras, não gostava de arranjar problemas laborais com a ralé. Um desses demorou-se lá por casa mais tempo do que era habitual, o suficiente para a Benedita ficar a saber que se chamava Vítor. E que tinha uma empresa de "conteúdos" ligados "à cultura" chamada Convicções Propícias, cheia de "contactos". E que a mãe odiava as camisolas que ele vestia, e a maneira como pronunciava os "erres", e nem sempre lhe atendia o telemóvel.

 

A Benedita viu como eles se cansavam a trabalhar, porque respiravam depressa e com muito barulho, e a mãe dobrava as pernas em posições muito esquisitas, e deixava as roupas espalhadas por cima das almofadas da sala e penduradas no poster do Paul Klee, e tinha as costas todas lambuzadas com tofu, e diziam coisas que a Benedita não percebia, acerca da "formação social" e da "instância do económico", e o Vítor tropeçava na ficus benjamina, e respondia com a "sobredeterminação da instância dominante" enquanto apertava um cachecol de tricot à volta dos pulsos da mãe, e a mãe gritava pelo "materialismo aleatório" e tinha uma pastinaca na mão, e no fim quem é que ia limpar aquilo tudo?

 

Mudaram de casa, foram viver para as Avenidas Novas, e a Raquel disse ao Vítor que "precisava de espaço". O Vítor deu o seu melhor. Entrou "em diálogo". Adoptou a Benedita, que se viu na contingência de passar a tratá-lo por "pai". Mas a Raquel não voltou atrás, e a Benedita passou a estar com o Vítor em fins de semana alternados, às quartas feiras para jantar no japonês, na véspera de Natal e durante metade do período de férias escolares.

 

Passados uma série de fulanos, a mãe começou a entrevistar o Zé Gonçalo, que a Benedita conhecia do Liceu Francês porque era pai de uma colecção de irmãs, as Fonseca Bastos, e costumava ir buscar as filhas às quartas feiras num carro escuro com a bandeira de Portugal no capot.

 

"Por insistência do Zé Gonçalo", a Raquel passou a andar muito ocupada a presidir a um "organismo da cultura". E a Benedita percebeu, passado um tempo, quando o governo caiu e o Zé Gonçalo já não era ministro nem andava lá por casa, que era dele que a mãe falava na televisão, dizendo que "a direita, ignorante e trauliteira", tinha "passado as últimas décadas a oferecer-nos gentinha deste género, como o dr. Fonseca Bastos" e que "toda a sua biografia" demonstrava que ele era "um carreirista praticamente analfabeto", e que não entendia "como é que as pessoas estavam tão surpreendidas".

 

Distraí-me uns anos e perdi o rasto à Benedita. Mas sei da Raquel que continua a participar em debates televisivos e a escrever (para os jornais; que se saiba, ainda não publicou nenhum romance). Sei também que, nas redes sociais, é considerada uma pessoa muito contundente.

 

______________

 

Nota: Pura ficção. Qualquer semelhança com nomes, factos ou não sei quê, é simples coincidência.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 01:28
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