Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

Os frades

Imagine que lhe entra pela porta dentro uma dupla de frades, brandindo ao alto o bastão de Esculápio, um com cara de quem acabou de cheirar merda e o outro sofrendo de alopecia e com o olho reluzente de indignação justiceira. Medieval, não?


Pois bem: esta dupla, aggiornata, quer vir dentro do meu carro certificar-se, sob pena de multa, de que trato bem as minhas netas.


O carro é meu, as netas são minhas, e se se abrir a porta a que o Estado meta o nariz dentro da propriedade das pessoas para ver como tratam a descendência, é lícito perguntar onde, exactamente onde, é que está o limite: porque se não se pode fumar dentro do carro, mesmo com o tecto aberto, também não se pode fumar em casa onde haja crianças - e vá de ir lá espreitar pela janela, se for um rés-do-chão, ou bater (arrombar?) à porta se for um andar; e vá de investigar denúncias de vizinhos maldosos e enxeridos; e vá de checar também a alimentação - muitos chocolatinhos, smarties e junk food, é?; e, já agora, a ginásticazinha, têm feito ginásticazinha os meninos?


Estamos no domínio do abuso, da iniquidade e dos pequenos passos insidiosos para a construção do novo homem, perfeito por prescrição médica e inspecção aleatória, sob a cominação de sanções. Isto só é diferente do totalitarismo comunista no grau e no objectivo: quer-se o homem sem vícios, educado de pequenino, num caso; e no outro a formiga obreira exactamente igual às outras. Agora a golpes de multas e censura social, dantes pelo método mais expedito dos gulags, sempre o mesmo essencial desprezo pela liberdade, que ou é a da diferença ou não é liberdade.


Frade Paulo, esquece: Já me puseste a tratar-te mal, entrando-me com suficiência,  superioridade e ameaçadoramente em casa, para a qual não te convidei. Logo eu, que até simpatizava contigo por seres economicista, que é o que todos os ministros também deviam ser. Deixa lá as maluqueiras do teu adjunto, manda-o antes fazer obra útil e fechar a matraca do discurso santarrão. Se fores ver, às tantas tem vícios ocultos - acontece muito a quem anda por aí a verberar os dos outros.


E vê-me mas é essa coisa da sustentabilidade do SNS, onde já tens inimigos que chegue.

publicado por José Meireles Graça às 16:11
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1 comentário:
De Anónimo a 12 de Abril de 2012 às 22:42
Gostei.

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