Segunda-feira, 17 de Outubro de 2016

30 anos a conspirar

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Quem no dia 24 de Janeiro de 2016 saiu da assembleia de voto com a satisfação do dever cumprido por ter contribuído para evitar a eleição de um doido varrido, ainda que votando num humorista com piada, deve-se continuar a dar por satisfeito por ter contribuído para evitar a eleição de um doido varrido, ainda que tendo votado num humorista com piada.

E pouco mais...

É inédito na democracia portuguesa um presidente da república conspirar para derrubar o lider do seu próprio partido.

Pensando bem, é inédito apenas desde que o presidente Mário Soares conspirou para derrubar o líder do seu próprio partido Vítor Constâncio, dissolvendo o parlamento quando, em 1987, o PS votou com o PRD a moção de censura que derrubou o primeiro governo do Cavaco Silva, em vez de os convidar a submeter à aprovação do parlamento um governo de coligação. Permitindo ao Cavaco Silva a obtenção da primeira das duas vitórias eleitorais com maiorias absolutas de um só partido com mais de 50% dos votos, e o período de maior prosperidade da democracia portuguesa, os dez anos de cavaquismo em que a economia cresceu 50%.

Pensando melhor, é inédito apenas desde que o presidente Jorge Sampaio conspirou para derrubar o líder do seu próprio partido Ferro Rodrigues, ao, quando o primeiro ministro Durão Barroso se foi embora para uma carreira internacional de sucesso, aceitar indigitar o sucessor não eleito indicado por ele Santana Lopes, em vez de dissolver o parlamento e convocar eleições que o PS parecia estar em posição de ganhar, tendo esperado pela substituição dele pelo José Sócrates e pela consolidação deste à frente do partido para então derrubar o parlamento onde a coligação PSD e CDS tinha uma maioria absoluta estável e coesa e lhe oferecer a eleição. Que nos levou à desgraça conhecida que resultou na chamada da troika.

Puxando pela memória, o presidente Ramalho Eanes também conspirou para derrubar vários líderes de partidos, sendo o caso mais notável o do Mário Soares, mas tecnicamente não é a mesmo coisa, por não serem do seu próprio partido, por ele não ter sequer partido enquanto foi presidente.

E o Cavaco Silva conspirou para derrubar vários líderes do seu próprio partido, do Rui Machete que ele substituiu, ao Fernando Nogueira que assassinou politicamente depois de lhe ter sucedido, ao Santana Lopes com a metáfora da má moeda, mas nenhum enquanto, nem como, presidente da república. O Cavaco Silva foi o único presidente da república eleito em democracia que, e apesar de ter créditos firmados a derrubar líderes do seu próprio partido, e até dos outros, que não sobreviviam às sovas eleitorais que ele lhes dava, nunca conspirou enquanto presidente para derrubar líderes de partido, nem do seu, nem dos outros. Talvez por ser um institucionalista e o derrube de líderes partidários não fazer parte das competências do presidente prescritas pela Constituição?

Talvez. Mas verdade é que conheço mais do que um ou dois eleitores do Marcelo que têm saudades do Cavaco Silva. Ou mesmo quase todos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:28
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