Sábado, 10 de Novembro de 2012

Laços de ternura

 

O PS, digam o que disserem os "verdadeiros" socialistas, é e sempre foi de esquerda:

 

Acredita que os dirigentes políticos, desde que ungidos pelo voto, adquirem uma lucidez sobrenatural que os habilita a, em nome da comunidade, fazerem investimentos "estruturantes", desde que precedidos dos competentes "estudos", mesmo quando existam recursos que os privados, sem dúvida por cegueira, não querem afectar àqueles fins; acha que a desigualdade económica entre os cidadãos não é natural e deve ser activamente combatida, pelo expediente de retirar manu militari a uns, que têm, para transferir para os que têm menos; entende o direito de propriedade como instrumental; tem uma concepção amplíssima das liberdades, mas nelas não inclui a liberdade económica; acha que a liberdade de cada qual acaba onde começa a do vizinho, desde que o vizinho não imagine que é dono do que é seu; e de forma geral não vê limites à actuação dos poderes públicos, excepto a força da opinião publica, da qual aliás é escravo, ao mesmo tempo que está sobre-representado nos meios de a influenciar.

 

Em resumo, tem uma fé inabalável nos poderes salvíficos do Estado. Mas distingue-se quantitativamente da esquerda da Bayer porque intui que uma parte da economia deve ser deixada funcionar para gerar recursos para o Estado prosseguir os seus generosos fins - enquanto que comunistas e bloquistas (os primeiros com muito maior consistência) não veem ou fingem não ver por que razão a propriedade pública dos meios de produção e/ou o esbulho dos "ricos" trava fatalmente o motor do progresso, e não apenas do progresso material.

 

Qualitativamente, o PS distingue-se pelo respeito à Democracia. E isto faz com que jamais seja possível uma união das esquerdas - a água não se mistura com o azeite e é tão possível ser democrata (no sentido que a palavra tem para quem a defende na forma representativa) e comunista, como uma mulher estar meio-grávida.

 

Por este bosquejo se percebe que Daniel Oliveira não tem razão. A união com o PS seria um abraço de urso: o PS talvez ficasse um pouco mais esquerdista, tanto mais quanto menos relevante fosse o assunto; mas no essencial não mudaria, porque o PS, se se lhe retirar a democracia "burguesa" e o europeísmo, fica um clube de empreendedores de aviário e treteiros sortidos. Para ganhar votos, é curto. E se os socialistas, em matéria económica, nem sequer estão conscientes da extensão da própria ignorância, têm demonstrado ser excelentes estrategas na influência da opinião pública e no jogo eleitoral.

 

Mas eu, que leio os escritos do Daniel Oliveira e o estimo, estou aqui, graças a Deus. E por isso lhe dou amigavelmente um conselho: vá ao Largo do Rato, vá. Eles recebem-no de braços abertos, adoram gente de esquerda. E - quem sabe? - até não é impossível que aqui e ali lhe sigam os conselhos. Mas aviso, isso tem um preço: há por lá uma ala negocista que acha, com razão, que o verniz de esquerda é um óptimo biombo para, via investimento público, fazer uns bons negócios, digamos, privados. Essa parte não lhe convém, estou seguro. Mas o óptimo é inimigo do bom.

 

publicado por José Meireles Graça às 23:57
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