Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Falhar a missão e ganhar o prémio

 

 

E pronto, os três estarolas lá foram a Oslo, perante uma luzida assistência, receber o Prémio Nobel da Paz. Nas cerimónias, parece que se citou Heródoto, Espinoza e Lincoln. Apropriado, é o que se pode dizer: um Grego, um filho de família portuguesa emigrada e um Americano que não hesitou em envolver o seu país em guerra para que não se desfizesse a federação. Incompreensivelmente, não citaram um Espanhol, um Italiano e um Francês, para ficarem devidamente representados os países mais evidentemente aflitos dos Estados Unidos da Europa, além dos dois que de algum modo chegaram ao pódio das referências.

 

O jornal donde respiguei a notícia é prudentemente poupado na transcrição dos discursos, por certo no temor de que os seus leitores desmaiassem de tédio.

 

Disse van Rompuy: "Que audácia a dos pais fundadores da Europa, ao afirmarem: Sim, podemos, podemos acabar com o ciclo interminável da violência, podemos pôr fim à lógica da vingança, podemos construir unidos um futuro melhor. Que poder o da imaginação". Realmente, a imaginação tem muito poder. Tanto que, na despenteada cabeça de Herman, a Europa por estes dias está dando fortes sinais de estar a "construir um futuro"; e Ingleses, Gregos, Espanhóis (nós menos, que somos bem mandados) têm dado sinais de albergarem no seu seio sentimentos descontrolados de amor pelos Nórdicos em geral, e Alemães em particular; os quais, aliás, retribuem com grande consideração e apreço pelos povos do Sul.

 

Mas Van Rompuy não atingiu nos seus arroubos líricos as alturas do muito nosso Durão, para o qual "enquanto comunidade de nações que ultrapassou a guerra e lutou contra o totalitarismo, estaremos sempre ao lado dos que perseguem a paz e a dignidade humana". Isto é bonito, mas um tanto confuso: não se percebe qual foi o totalitarismo contra o qual a comunidade lutou - se estava a falar do Alemão, os campeões dessa luta foram o Reino Unido e os EUA, e do lado de esteve também a Itália; se está a falar da URSS, bem, a OTAN não é exactamente a mesma coisa que a CEE.

 

Os dois disseram as vacuidades que se esperam de quem apostou as carreiras na gorda burocracia da qual são os pináculos. E o Presidente do Comité Nobel da Noruega deu também o seu precioso contributo, declarando: "A União Europeia ajudou a construir a fraternidade entre nações e a promoção da paz que Alfred Nobel deixou como legado. O Prémio Nobel da Paz é assim merecido e necessário". E acrescentou Thorbørn Jagland: "À luz da crise financeira que está a afectar tantas pessoas inocentes, o sistema político no qual a União se apoia é mais importante do que nunca. Precisamos de ficar unidos. Temos uma responsabilidade colectiva. Sem essa cooperação europeia, o resultado podia facilmente ter sido um novo proteccionismo, um novo nacionalismo, com o risco de se perderem as conquistas feitas."

 

Da CEE pode dizer-se, com algum desconto do compreensível exagero retórico, o que Thorbørn  disse da UE. Suponho todavia que este homem não deve ser um daqueles noruegueses que maioritária e consistentemente rejeitaram ter alguma coisa a ver com as trapalhadas europeias, e que presumo não estavam abundantemente representados na plateia. Como também não estavam aqueles cidadãos que, como eu, acham que a bicicleta europeia não precisa de ir em frente para não cair - precisa é de fazer marcha-atrás.

 

É certo que as bicicletas não fazem marcha-atrás. Mas, com perdão da malcriadeza,  a imagem, como a ideia que está por detrás, sempre foi uma merda.

 

publicado por José Meireles Graça às 19:38
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