Domingo, 30 de Dezembro de 2012

Exibições

 

 

O "pensador" português é, por tradição, um tipo ágil. Assistir às suas surpreendentes evoluções é um espectáculo privilegiado que suspeito não estar ao alcance do espectador de outra nacionalidade. Nesse capítulo, tivemos sorte e devemos estar agradecidos.

 

Fátima Bonifácio

 

Anteontem no Expresso da Meia-Noite a professora Fátima Bonifácio, "especialista em séc. XIX", confirmava com segurança que nunca tinha havido liberalismo em Portugal. Estranhei. Peguei no comando da televisão e carreguei no botão de "parar". À minha frente ficou uma imagem da senhora, ufana, com a boca aberta, os beiços tensos, sobrancelhas subidas e os olhos semi-cerrados - o que não sei interpretar. Talvez fosse a expressão da sua superior capacidade académica. Ou apenas o efeito da coincidência: interrompi-lhe o processo de lubrificação daqueles irrequietos globos oculares. Mas com ela assim, calada e paradinha, fiz as contas: de 1834 até 1910. Usei os dedos, para me certificar. Sim, estava certo, eram 76 anos. Carreguei noutro botão, e aquilo andou outra vez.

 

Já estava fidelizada: o Expresso da Meia-Noite, a par com a Quadratura do Círculo, destaca-se entre os programas de humor e entretenimento mais competentes da televisão portuguesa. E aquela comediante prometia. Os melhores "pensadores" fazem-no sempre em directo. Energicamente. Em movimentos mentais flexíveis, rápidos, contentes. Parecem carpas. Olham para uma premissa inesperada e atiram-se a ela com convicção. Por exemplo: "Eu, como liberal que sou, no sentido clássico do termo, dou muito valor à responsabilidade individual". Depois correm para outro ponto do lago e abocanham outra ideia: "Os portugueses têm de perceber que realmente se excederam. E que estão a pagar por isso". Dão ao rabo, como quem dá uma gargalhada, o que lhes altera a trajectória. Parece um percalço, mas não é (já me apercebi).

 

Dirigem-se com uma precisão milimétrica para a figura seguinte. Tomam balanço e arrancam o primeiro salto. Sem medo: "Em relação às privatizações tenho mixed feelings, devo dizer". E o salto evolui, roda sobre um eixo, continua a subir: "Pelo lado do serviço público, se for só público e propriedade do Estado, tende a burocratizar-se". E a descida para o mergulho, num ponto que a plateia raramente consegue prever, vem com a conclusão: "Porque não há, de facto, o acicate do lucro que obriga os patrões a andar em cima dos empregados e a fazê-los funcionar mais produtivamente". Lá está: aquela voltinha do "acicate do lucro" é que concentra toda a subtileza do movimento. Quem assiste não tem tempo para temer o embate. Mesmo sabendo que nem sempre corre bem, e que lhe pode atirar um jacto de água verde para cima das calças: "Infelizmente, a natureza humana não é perfeita e às vezes precisa de uns encontrõezinhos, de uns electrochoquezinhos, para a coisa andar melhor".

 

Foi lindo. As roupas do espectador ficaram todas molhadas, mas compensa largamente a elegância e a alegria do bailado. Não acaba aqui. As carpas, se lhes dá para dançar, só param quando exaustas ou lesionadas. Ainda não era o caso. Mais umas voltinhas e, sem dar tempo para a merecida salva de palmas, o entusiasmo da brincadeira depressa endireitou a balística rumo à premissa seguinte: "Por outro lado, se há um serviço público servido por uma empresa privada, o lucro sobrepõe-se a tudo". E largam por ali acima, para mais uma pirueta de grande domínio técnico e superior capacidade artística. Opondo-se, com muito treino, às leis da atracção da matéria, sobem a alturas sempre surpreendentes: "O lucro sobrepõe-se à qualidade do serviço". No ponto mais alto da evolução, rodam sobre si mesmas: "Dito isto, só sou capaz de responder casuisticamente".

 

Depois desta elevação, fica a curiosidade sobre o estilo da descida e a localização da aterragem. Precipitam-se por ali abaixo, rodando desaustinadas, já sem controlo aparente: "Por exemplo, sou totalmente contra a privatização dos correios. Ofende a minha consciência histórica". Nem sempre acertam no lago; frequentemente, falham a pontaria e caem duras em cima do lioz: "Os correios foram uma forma de apropriação territorial por parte do Estado português. Acho um ultraje, uma coisa outrageous, não suporto". Por vezes, ficam a contorcer-se na pedra e quando são socorridas já não há nada a fazer. É quando aterram de focinho: "Os correios são qualquer coisa cuja privatização me desencadeia uma crise identitária".

 

Ricardo Arroja

 

Parecendo que não, na blogosfera também se encontram alguns artistas promissores. Mas precisam, regra geral, de mais treino. Vamos por partes:

 

“O Estado Novo foi um período de enorme convergência para os padrões de vida de uma Europa mais rica, tendo o PIB per capita português passado de 30% da Europa rica em 1930 para mais de 50% imediatamente antes do 25 de Abril. Desde então, no espaço de outros 40 anos, a convergência não foi além de 10 pontos percentuais, de 50% para 60% do norte da Europa. E desde 2000 tem sido até uma história de divergência económica, ao ponto de hoje estarmos pouco melhor que em 1974” (p. 150). 

 

Esta parte é um bocado aborrecida. O espectador não absorve, segundo Pirandello, mais do que uma linha de algarismos. Perdoemos-lhe o zelo: Ricardo Arroja é um artista jovem, e cuida que a apresentação de números credíveis, e até "politicamente incorrectos", lhe garante a afluência de uma plateia cujo nome, mesmo pertencendo a uma família de reputados profissionais do ramo circence, ainda não seduz. É uma questão de tempo, tenho a certeza. Porque exibe o talento que manifestamente lhe corre no sangue.

 

Lá vai praticando as suas piruetas: "Juntamente com o período do Marquês de Pombal, o Estado novo foi dos períodos onde as contas nacionais estiveram em ordem e a economia teve boas prestações". E depois inflecte, já dominando alguns conceitos cénicos: "Períodos não-democráticos com certeza." E a seguir avança para um salto, que considero ainda meio tosco: "O que nos leva a considerar que as pressões democráticas das massas contribuíram consideravelmente para o actual descalabro". Enfim: não estaria mal. Mas falta-lhe requinte e o elemento "surpresa".

 

Não basta ao aprendiz de comediante a originalidade de ignorar olimpicamente os motivos do comportamento das contas portuguesas nos anos do Estado Novo, passando por um período em que se compara com uma Europa quase toda destruída pela II Guerra. Admiro a coragem dramática com que remove do guião o facto do dr. Salazar ter de arranjar dinheiro para pagar a guerra de África. Não cede à tentação de explicar que Portugal foi um dos países fundadores da EFTA, em Maio de 1960, o que deu a sua ajuda. Nem que a EFTA, ao contrário do que veio a acontecer com a CEE, não estabelecia limites à liberdade de cada país decidir sobre os impostos a cobrar pelas suas importações. Nem sequer passa perto do facto das leis do "condicionamento industrial" terem sido levantadas por Marcelo Caetano, bastante mais tarde, porque o dr. Salazar não via com bons olhos a livre concorrência entre as empresas.

 

O domínio da história económica é um ponto a favor de Ricardo Arroja. Dá-lhe uma elasticidade plástica muito favorável ao espectáculo sempre refrescante do livre "pensamento" português. Aguardemos as próximas exibições. Acredito que o caminho do estrelato não lhe será penoso, e não teremos que esperar muito até que seja convidado para fazer parte de um "elenco de luxo" no palco do prestigiado Casino de Carnaxide.

 

publicado por Margarida Bentes Penedo às 17:58
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1 comentário:
De Graza a 3 de Janeiro de 2013 às 10:05
Parabéns pela desmontagem ao discurso de Fátima Bonifácio. Este texto acabou por me fazer terminar um que tinha deixado por concluir sobre aquela sessão.

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