Domingo, 24 de Fevereiro de 2013

De pequenino se torce o pepino

 

Nasci no terceiro mundo quando a vida portuguesa ainda era de primeiro. Vivi numa república socialista-científica e fui pioneiro comunista, marchando com uma espingarda de pau, aos onze anos. Joguei futebol com meninos negros amputados no mato que nada tinham que não fosse um sorriso. Comi as omeletes com tomate nas cubatas das avós dos meus colegas de escola que moravam nos musseques de Luanda. Aos doze, tinha três bicicletas diferentes com as quais partia a cabeça e esfolava os joelhos em plena liberdade por toda a cidade. Aos treze anos, cinco depois da independência, cheguei a Portugal e conheci um país diferente do que tinha imaginado, embora as férias anuais sempre aí fossem passadas. Aí vivi até aos vinte e oito, no tal país diferente do que foi imaginado, até ter de ir ver se a saudade de Angola era verdade ou sonho. Depois de quatro anos, voltei ao cantinho. Era sonho.


Aos quarenta e três por força do futuro dos filhos, emigrei para esta Itália que nos recebeu bem.  Aqui estamos e daqui vemos passar Portugal. Nunca tive tanta vontade de viver em Portugal como quando vivo fora. Nunca tive tanta vontade de viver fora como quando vivo dentro.


O melhor presente que tive na vida? A caneta Parker usada de tinta permanente que o avô materno ofereceu aos 11 anos.


A coisa mais divertida e determinante que me sucedeu? Uma sogra italiana.


A maior preocupação? Como se faz para tirar o Cro-Magnon de dentro do Sapiens?


A maior alegria quotidiana? Preparar o jantar de família enquanto o vinho tinto aquece o copo.


Cantávamos:


"Eu vou, eu vou, morrer em Angola

Com armas, com armas, de guerra na mão

Enterro,enterro, será na patrulha,

Granada, granada será meu caixão

Eu vou, eu vou, morrer em Angola..."


Angola é o meu país, Portugal a minha nação. Pelo meu país tenho vontade de fazer pouco. Pela nação, tanto.

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publicado por João Pereira da Silva às 14:30
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