Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

Palhaços que não o são

Chamar palhaços a Berlusconi e a Grillo, tal como tenho lido em artigos internacionais e nacionais portugueses é ignorar as necessidades muito humanas da sua existência. Dessas necessidades se alimentam os dois e cada um ao seu modo, com maestria.

 

Berlusconi é um homem perigoso socialmente. Um, talvez sociopata, preocupado apenas com a resolução dos seus problemas pessoais com a justiça, o poder económico das suas empresas e a sua capacidade de condicionar a vida política italiana, sempre em benefício próprio. Não há nele um átomo de “pensar no bem comum”. A maior parte dos italianos sabe-o e despreza-o tanto ou mais como o resto do mundo. Contudo, Berlusconi é um mestre na arte de manipular massas, um homem de televisão, de show, encantador e manipulador que sabe como poucos como tirar proveito de uma fraqueza humana. Qual? A espera do messias, do encantador de serpentes, bom contra todos e sempre vítima de inimigos ainda piores que ele.  Vende soluções mágicas a cidadãos pouco ilustrados, sobretudo velhotes pensionistas e pessoas de baixa instrução que tendem a crer que apenas ele poderá resolver a miséria da sua vida. Não é nas classes mais abastadas que tem a maioria dos seus apoiantes, é nas classes baixas. Durante a campanha eleitoral enviou uma carta onde prometia a devolução do IMI italiano e formaram-se filas que entupiram os correios com pessoas que levavam o “formulário” de devolução contando receber de volta o imposto pago em 2012. Berlusconi, manipulou, sabiamente, a mente de milhões de crédulos e incapazes de perceber melhor. Pobres. Verdadeiros pobres.

 

A interrogação mais premente é: porque este homem vinga em Itália e no resto da Europa não há equivalente. Não há? Temos a certeza? Quantos políticos prometem este mundo e o outro e a faixa mais desfavorecida pela evolução acredita? Este é o mercado de Berlusconi. Em Itália é evidente, no resto da Europa não existe? O seu partido que ganhou o senado, recebeu nestas eleições menos metade dos votos que nas eleições anteriores. Uma melhoria, portanto. Quantos palhaços como Berlusconi há por aí? Em Portugal recordo-me de um, que sem usar o nariz de ovo, conseguiu duplicar a dívida pública em cinco anos incluindo comprar os votos dos funcionários públicos para ganhar as eleições em 2009. Mesma moral e capacidade de manipular massas em benefício próprio. 

 

Para Beppe Grillo ainda há menos razões para o apelido palhaço. Três anos atrás, um cómico que é um homem de sucesso com uma carreira brilhante, percebeu que havia espaço para um movimento contrário ao sistema político, profundamente podre, italiano. Contra tudo e todos, mobilizou como nunca antes, milhões de seguidores insatisfeitos com o “status quo” que não são mais que gente comum. O seu discurso de “contra” é facilmente entendido por todos nós: os políticos são intrinsecamente corruptos, pensam apenas no seu próprio bem e devem ser controlados e impedidos de fazer mal social. Os italianos viram e vêm em Grillo, a possibilidade de substituir deputados e senadores que há décadas não contribuem para resolver problemas e impulsionar o país (onde já vimos isto?). O estado italiano é uma gigantesca máquina de sugar impostos com uma tremenda burocracia que condiciona fortemente toda a actividade privada. A Itália é um país fortemente empreendedor onde a maior parte da actividade económica depende de pequenas e médias empresa, que como já disse antes em outro post, são taxadas a 70% da sua actividade. Insustentável. O sofrimento destas pessoas, foi aproveitado, sem benefício pessoal, até agora, por um homem muitíssimo trabalhador e visionário que conseguiu congregar a vontade de mudar e a força de milhões de italianos que vêm um futuro negro à sua frente, e para os seus filhos, sabendo que o actual sistema é auto-alimentante de uma clique sugadora dos recursos dos impostos. Onde já vimos isto?

 

A Itália, país latino como nós, emocional e quente, membro do G7, uma das maiores economias do mundo, com um território e população de média dimensão, é uma potência mundial. Os italianos são dos povos mais cultos do mundo. O sistema educativo funciona e as pessoas em média têm um nível cultural muito bom. “Palhaços” a dois líderes que representam mais de 50% do eleitorado? Brincamos? Pois. 

PS.: A propósito de Grillo, um bom post sobre o fenómemo, encontra-se aqui

publicado por João Pereira da Silva às 10:58
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