Sábado, 4 de Maio de 2013

Cato hodiernus

Estou farto, refarto deste tipo e deste paleio. Tem um fonds de commerce, que é a corrupção: Portugal tem há séculos um atraso relativo, em numerosos domínios, em relação à maior parte dos países com os quais partilha o continente? Corrupção. As dívidas privada e pública não têm precedentes, pelo seu montante? Corrupção. O País não cresce, mas cresce o desemprego, a emigração e o desespero? Corrupção.

 

Tem costas largas, a corrupção. E que bom seria que o Mundo fosse tão simples: contratava-se o Dr. Paulo Morais para inteirar a Assembleia de Republica, entretanto depurada de gente fortemente suspeita, das medidas legislativas que esta devia tomar; refundiam-se as leis penais, incluindo processuais, eliminando truques, obstáculos e alçapões; davam-se meios e poderes aos magistrados do Ministério Público, que entretanto também sofreria uma varredela justiceira. E o País floresceria, finalmente liberto desta cáfila que o sufoca.

 

É que os partidos, a administração pública, as instituições, tudo está minado de corruptos. Tanto que o próprio Morais, que já andou pela política militante, se afastou com nojo. E fez mal, porque o eleitorado (ao menos a parte do eleitorado que entope indignada as caixas de comentários dos jornais on-line) não deixaria certamente de lhe confiar o voto, dando-lhe a oportunidade de expulsar do templo, democraticamente, os vendilhões.

 

Claro que os vendilhões se haveriam de defender, exigindo-lhe um mínimo de prova ou consistência. Por exemplo, quando Paulo destaca "o peso do caso BPN e das Parcerias Público-Privadas (PPP), entre outros, na dívida pública", acrescentando que "68% da dívida privada é resultante da especulação imobiliária", e salientando que "só cerca de 15% da divida privada se pode atribuir aos alegados excessos dos portugueses", conviria porventura fazer a demonstração.

 

É que, no caso BPN, haverá decerto quem devesse ter feito companhia ao Dr. Oliveira e Costa; e a nacionalização foi manifestamente um erro (num juízo ex post facto, porque durante o processo não faltaram vozes isentas a defendê-la), assim como ainda hoje não se compreende que a SLN tenha sido deixada de fora. Mas eram corruptos todos os envolvidos? Teixeira dos Santos, porventura o principal responsável pela decisão, também? E é esta história lamentável, cujo custo total será, supõe-se, de aí uns 6,5 mil milhões, que explica a dívida pública, que já vai aí nuns 200 mil milhões?

 

No caso das PPPs, o que se vai sabendo das blindagens dos contratos e do desequilíbrio dos direitos e obrigações das partes desperta (mais: impõe) suspeitas. Mas o problema será fácil de resolver, isto é, é fácil fazer a prova da corrupção, e renegociar os contratos com base nisso? Entendamo-nos: eu sou pela renegociação, e acho que ela só tardou e deu poucos resultados por causa do medo pânico de abalar interesses da União, da banca internacional e da nossa - mas isto nada tem directamente a ver com corrupção.

 

68% da dívida privada resulta de especulação imobiliária?! 68%? Não será 68,04%? Aqui este paisano estava convencido que aquela dívida resultava, na sua maior parte, do crédito à habitação; que este era concedido com garantias sobre os imóveis (garantias mais garantidas não há); que a procura de imóveis resultou do juro baixo que o Euro permitiu e das leis do arrendamento salazaro/comunista. Morais vê aqui "especulação" e sonha com os especuladores na cadeia - afinal os especuladores são uma subcategoria de corruptos.

 

Com Paulo Morais temos sempre direito ao dedo em riste, ao olhar indignado, aos lábios trementes, e às acusações descabeladas. Boa parte do que diz não dá matéria para queixas-crime, excepto contra incertos. E no único caso que lhe ouvi a acusar uma pessoa concreta, a acusação não tinha fundamento.

 

Paulo Morais faz mal à luta contra a corrupção. Esta é para gente com poucas ilusões e muito conhecimento sobre os homens, o Estado e a tradição. E implica trabalho, paciência, frieza e realismo. Não implica discursos moralistas de Catões de aldeia. 

publicado por José Meireles Graça às 00:57
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