Sábado, 6 de Janeiro de 2018

O engano das sondagens

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As sondagens dão ao António Costa mais de 40% de intenções de voto, aos adversários internos, inimigos na terminologia sábia de Winston Churchill, da liderança do PSD nos últimos anos um argumento para a derrubar, e aos militantes que lhes vão na conversa um incentivo para acreditar neles. Dizem que o governo do António Costa é forte e a oposição de direita fraca.

São os mesmos mais de 40% que as sondagens lhe deram até poucas semanas antes das eleições de 2015, que ele acabou por perder com 32%. Resultado para que as sondagens convergiram correctamente nas últimas semanas da campanha eleitoral. Mas não vale a pena argumentar contra a fiabilidade delas com base na hipótese de, do sentido e da amplitude do erro verificado em 2015, se dever deduzir que, com sondagens muito semelhantes, o governo do António Costa está tão forte como a derrota que conseguiu em 2015 e a oposição de direita tão fraca como a vitória que conseguiu nessas eleições. Quem quer acreditar que o governo está forte e a oposição de direita fraca, ou fingir que acredita para efeitos de luta interna nos partidos da oposição, não se demoverá de arrumar esta hipótese como hipotética e especulativa. E eu já tenho idade suficiente para perceber que não vale a pena discutir assuntos de Fé com Crentes, e considerar mais eficaz, além de mais económica, a estratégia argumentativa de "depois falamos"

No entanto, elas falham...

Como eu não sou adepto de teorias da conspiração não vou pela justificação de as sondagens serem manipuladas para darem os resultados desejados por quem as encomenda. Esta explicação foi abundantemente usada, por exemplo, pelos adeptos do Donald Trump para apreciarem as sondagens que, até à última hora, previam uma vitória folgada da Hillary Clinton, com a acusação de serem tendenciosas com a intenção de enganarem o eleitorado e o levarem a votar nela. Este efeito de adesão dos eleitores ao que acreditam, nomeadamente pelos resultados das sondagens, ser a posição maioritária, que os académicos designam por bandwagon effect, que sustenta as suspeições sobre a honestidade das sondagens, está longe de estar provado. Eleições como as legislativas de 2015 em Portugal, em que as sondagens andaram com o António Costa ao colo desde que substituiu o António José Seguro como candidato socialista a primeiro-ministro, mas acabaram por resultar numa derrota do vencedor das sondagens não o confirmam. Mas o que interessa para a crítica das teorias da conspiração é que as sondagens encomendadas pela equipa de campanha do Trump faziam exactamente as mesmas previsões que as encomendadas pelos mainstream media, um neoinsulto na linha de neolibrais, que promoviam a adversária.

Não é, acredito eu, pela manipulação dos resultados que as sondagens falham.

Mas esta notícia da capa do Expresso, e perdoem-me os leitores se me fico pelos títulos gordos da capa, mas os honorários que recebo como blogger não pagam a estopada de ler integralmente todos os artigos de jornal que cito, tem uma pista que ajuda a compreender onde falham as sondagens.

Não é na parte de 41% dos portugueses pretenderem o voto obrigatório mesmo para os que, em consciência ou fora dela, mas em liberdade de escolha, escolhem a abstenção. Faz tanto sentido pensar que tornar o voto obrigatório aumenta a adesão dos cidadãos à democracia, como pensar que obrigar os casais a uma frequência mínima de rituais de acasalamento, seja diária, semanal, mensal ou anual, aumenta a natalidade. São apenas idiotas que gostam de interferir na liberdade dos outros. Adiante, para não dizerem que tenho mau feitio, e para não converter o resto da conversa para o dialecto minhoto, ao qual décadas de experiência me deram um domínio razoável.

É na de 84% garantirem ser votantes habituais.

É que nas eleições no mundo real o número de votantes não chega a 60%. O que significa que as sondagens são realizadas sobre amostras que não são representativas do universo eleitoral. Na amostra desta sondagem 84% dos respondentes dizem que votam habitualmente, mas nas eleições votam apenas cerca de 55%. Ou, 84% dos respondentes fazem parte dos 55% que votam, e apenas 16% dos respondentes representam os 45% que não votam.

Isto pode resultar de um erro de amostragem, como seria num exemplo extremo realizar os inquéritos à porta da sede do PS no Largo do Rato, e se fosse erro de amostragem significaria falta de profissionalismo ou de honestidade das empresas que realizam as sondagens.

Mas tem provavelmente uma razão diferente que não pode ser compensada com maior profissionalismo: as pessoas que votam têm mais propensão a aceitar responder a sondagens do que as pessoas que não votam. Ou, nas sondagems sobre intenções de voto, as pessoas que votam no PS têm mais propensão a aceitar responder a sondagens do que as que votam nos partidos da direita. Ou, à medida que se aproximam as eleições, pessoas que anteriormente não estavam dispostas a responder a sondagens começam a aceitar responder, o que faz o resultado das sondagens convergir gradualmente para o das eleições.

Tudo isto podem ser hipóteses realistas ou especulativas. Mas a verdade é que não há 84% de eleitores que votem habitualmente. Nem, digo eu, 40% que tencionem votar no António Costa nas legislativas de 2019.

Depois falamos.

Ah, já me esquecia de dizer uma coisa importante. Num contexto político em que a maioria de esquerda implodiu a possibilidade de governar com maiorias relativas, o que tem uma certa piada por esta possibilidade ter sido implodida pela mesma esquerda que sempre defendeu que as maiorias absolutas propiciavam a tentação do poder absoluto e eram um perigo para a democracia, talvez por até 2005 só ter havido maiorias absolutas da AD do Sá Carneiro e do PSD do Cavaco Silva, os partidos da direita que não vão regressar ao poder sem maioria absoluta, de um só ou dos dois em coligação, têm mais vantagem em colaborar para conseguirem em conjunto maiorias absolutas do que em competir para distribuirem entre si maiorias relativas que serão minorias absolutas.

 

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:34
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Farinha do mesmo saco

Nunca fui aluno da escola do elogio mútuo, organização que tem em Portugal múltiplos estabelecimentos, tradições arreigadas, sócios prestigiados e estatuto inamovível.

 

No tempo do governo da troica isto era um problema: a reforma do Estado (isto é, extinção de serviços, despedimentos de pessoal, revogação de legislação atropelando a liberdade económica e a dos indivíduos, em suma, a diminuição da presença na vida das empresas e das pessoas), bem como a baixa dos impostos, nunca se materializaram. Ao contrário: o governo, injustamente tachado “de direita”, não tocou seriamente no Estado, nem sempre curou, com as privatizações, de assegurar a concorrência e não apenas a transferência de monopólios, nem muito menos se subtraiu ao vento das modas estúpidas do fascismo sanitário e do combate à desigualdade e à evasão fiscal.

 

Problema para mim porque não era razoável que um sócio, anónimo embora na sua quota de 1/10.000.000, acabrunhasse de críticas o administrador da massa falida quando este se esforçava seriamente, e no essencial com mérito, por tirar a empresa do atoleiro, e isto quando havia accionistas inimputáveis que desejavam a falência, uns, e se imaginavam mais competentes, outros, todos aguerridos na sua inconsciência.

 

Havia porém dois elementos do governo que, personificando parte do que nele estava errado, e sendo ao mesmo tempo política e pessoalmente insignificantes, davam um flanco jeitoso a quem, como eu, não queria ser confundido com a turba acéfala dos anti-austeritários mas não via com bons olhos personagens que se dizem de direita mas não defendem, por ignorância ou má-fé, senão soluções de esquerda.

 

Um deles era o secretário de Estado da inquisição fiscal, Núncio; e o outro o seu colega para assuntos da burocracia da saúde pública, Leal da Costa.

 

O primeiro tem estado calado, razão pela qual não pode ser acusado de acrescentar ao ar espesso do asneirol; mas o outro não cessa de se aliviar das suas opiniões, de mais a mais no Observador. Este jornal, originariamente pensado como pretendendo dar voz a correntes de direita, tem vindo a ceder espaço a socialistas como Aguiar-Conraria e Trigo Pereira, por darem ambos a impressão de não ser completamente geringôncicos; e a bem, supõe-se, do Centrão e da modernidade pateta, acolhe também este Savonarola da saúde.

 

Que diz então Leal? Goza com o  Despacho 11391/2017 de 19 de dezembro, não porque este seja, como é, uma intolerável intromissão do Estado nos hábitos de consumo dos frequentadores dos hospitais e na liberdade dos concessionários das cafetarias mas porque na grotesca lista que consigna  faltam o toucinho do céu, o pudim abade de priscos, o salame de chocolate e – aqui Leal todo se escancara num riso alvar - o salpicão.

 

“É com palermices como a deste Despacho, que fará história, que se matam boas ideias para a melhoria da saúde pública”, diz com suficiência.

 

Sucede que, salvo no que toca à preocupação pueril do Despacho de descer à minúcia de fazer o elenco de todos os artigos de cafetaria que o legislador acha que devem ser vedados a quem entre num hospital público, não há qualquer diferença essencial entre o abuso do fascista Fernando Araújo e os do seu antecessor Leal.

 

Diz este último: “Por muito menos, numa outra vida que já tive, chamaram-me de higieno-fascista por defender medidas, eficazes e de impacto provado, no combate ao tabagismo”.

 

Foi, Nandinho? Chamaram-te isso, credo? Olha, fui um deles e aliás ainda te chamei coisa pior.

 

O tabagismo faz mal à saúde. Mas a doçaria também, e boa parte do que consta da famigerada lista. Se, com o dedinho em riste do frade justo, não hesitaste em atropelar os direitos dos viciados em tabaco, entrando por estabelecimentos privados dentro e indo muito além do pretexto inicial de defender a saúde dos não-fumadores, por que razão é que o teu colega, que faz parte de um governo que poderias perfeitamente integrar se não calhasse teres filiação noutro clube, não pode entrar em estabelecimentos públicos?

 

“Conheces e aprecias” Fernando Araújo. Compreendo: ser farinha do mesmo saco é em si uma base sólida para o respeito mútuo.

 

Saco que, a bem da liberdade daquela minoria que não reconhece ao Estado o direito de lhe dizer o que pode ou não comer, e que vícios são toleráveis, bem podia ser atirado ao mar.

publicado por José Meireles Graça às 13:58
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Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018

O SNS é bom, mas principalmente para quem está bem de saúde

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Por razões que não vêm ao caso, tivemos cá em casa necessidade de recorrer a um tratamento continuado que não era comparticipado, nem pelo seguro de saúde que nos abrangia a todos, nem pela ADSE que abrangia alguns de nós, mas era pelo Serviço Nacional de Saúde, e tivemos que nos tornar, e fomos durante alguns anos, utentes regulares do Centro de Saúde da Reboleira.

O centro de saúde funcionava num prédio de apartamentos de dois andares sem elevador onde tinham retirado as portas de entrada das fracções, a recepção era no R/C, as vacinas e alguns gabinetes no primeiro andar, e o resto dos gabinetes no segundo, e eramos suficientemente jovens para, mesmo quando íamos de carrinho de bebé, subirmos e descermos as escadas com garbo e elegância. Ainda somos.

E tínhamos médico de família.

Para quem não é utente, o médico de família é o passaporte para um utente poder marcar consultas e ter uma probabilidade razoável de ser consultado na data e hora marcada. Não ter condena-o a não poder marcar consultas a não ser de urgência, daquelas para que os utentes formam fila à porta do Centro de Saúde a partir da hora que entenderem, para às oito da manhã o segurança abrir a porta e distribuir aos primeiros da fila um número de senhas igual ao número de consultas de urgência disponíveis para esse dia, e aos outros dizer-lhes que já acabaram as senhas e que podem voltar a tentar a sorte no dia seguinte, talvez chegando mais cedo, concedendo aos detentores de senha o direito de esperarem pelas nove horas, quando abre o expediente, serem atendidos a partir daí pela ordem das senhas, e marcarem a hora da consulta de urgência para o próprio dia, podendo então voltar a casa para regressarem à hora marcada para a consulta. Parece complicado? É complicado, mas apenas para quem necessita, quem tem alternativas safa-se no privado sem estas desventuras.

Tínhamos mas, já não me consigo lembrar se por gravidez, se por passagem à reforma, se por transferência para outros emprego, deixámos de ter, e passámos à condição de utente sem médico de família atribuído, ou seja, f. Apenas os que necessitam, como já expliquei acima. Os pobres. E os remediados que precisavam das guias para o tal tratamento que não era comparticipado pelo seguro de saúde nem pela ADSE, lembram-se? lembro-me eu. Isto quando ainda nos governava o actual Secretário-Geral da ONU, de sua graça António Guterres, ainda no milénio passado.

E pronto, enquanto a necessidade durou lá nos adaptámos, porque tivémos que adaptar, a este procedimento, que também tem uma curva de aprendizagem em que os utentes vão gradualmente aprendendo alguns caminhos de pedras que lhes permitem chegar ao destino minorando parcialmente os incómodos. Conseguimos sobreviver.

Até que o Ministério da Saúde encerrou o Centro da Saúde da Reboleira e transferiu administrativamente os Utentes, entre os quais o meu agregado familiar, para o Centro de Saúde da Amadora. Ainda mais longe de ter médico de família atribuído do que antes, está de ver. E, com a transferência, a curva de aprendizagem voltou à estaca zero e o processo descrito antes, das filas formadas a partir da madrugada para conseguir obter a ambicionada senha que dá direito a marcar a ambicionada consulta, ou "tenha lá paciência e volte amanhã, pode ser que tenha mais sorte", voltou a vigorar. Mas a necessidade que fazia de nós utentes forçados do SNS também se foi desvanecendo com o tempo, e os nosso incómodos como utentes do SNS também.

Mesmo assim, quando era necessário, e passou a sê-lo quando os funcionários públicos, um dos quais faz parte do meu agregado familiar, deixaram de poder meter baixa com um atestado passado por qualquer médico e passaram a necessitar de um atestado passado por um médico de um centro de saúde, a cena de ir para a fila de madrugada era incontornável.

Até que chegou o governo do Pedro Passos Coelho e, com ele, a austeridade. A coisa só podia piorar.

Mas, surpresa! um dia, lá para entre 2012 e 2013, recebemos uma carta a explicar que tinhamos sido colocados como utentes na Unidade de Saúde Familiar Alma Mater, uma espécie de extensão, a poucos metros de distância, do Centro de Saúde da Amadora, e que nos tinha sido atribuído médico de família. Foi um dia de grande felicidade, é bem capaz de ter havido lágrimas a rolar pelas nossas faces. Não tinhamos médico de família desde o tempo do Guterres e eatávamos a voltar a tê-lo em plena austeridade neoliberal.

Nunca consegui perceber a verdadeira razão desta reviravolta. Provavelmente o governo Passos - Portas atribuiu-nos um médico de família apenas para nos distrair das velhacarias que andava a fazer para demolir o SNS a mando da troika, dos mercados de capitais e da senhora Merkel? Talvez... Mas a verdade é que nos adaptámos muito bem a este logro demagógico. Passámos a poder marcar consultas para quando nos fosse conveniente e a, em caso de necessidade, dar lá um pulinho a meio da manhã para marcar uma consulta de urgência que, tipicamente, conseguíamos que fosse perto da hora de almoço. Para nos enganar ainda mais, as funcionárias do atendimento são solícitas, simpáticas e com a melhor eficácia que se pode esperar de quem se move dentro do sistema da burocracia pública. A troika esmagou-nos com mimos.

Até que o Passos Coelho se foi embora e, com ele, a austeridade. A coisa só podia melhorar.

E melhorou. Aqui recuado, por me ter lembrado que tinha feito 60 anos, foi procurar na internet até quando devia renovar a carta de condução, descansado com a ilusão que deveria ter que ser até ao dia 31 de Dezembro, e descobri que a devia ter renovado até ao dia do meu aniversário, que já tinha sido há alguns meses. Andava com uma Carta de Condução caducada, falha mais grave do que ter um aquário clandestino em casa ou um isqueiro sem licença. E como da renovação da carta aos 60 anos faz parte a necessidade de um atestado médico, lá fui eu ao centro de saúde esperando ter um serviço de lorde e ver o meu problema resolvido sem demoras.

Basicamente foi, como já dei conta aqui. Do que não dei na altura, porque cuidei que era um detalhe sem importância para explicar o que tinha a explicar, é que a minha médica de família estava de licença por motivo que não vem ao caso, a médica que me consultou estava a fazer o internato da especialidade e, apesar de não me ter dado sinais de achar o meu estado de saúde preocupante tendo em conta os meus 60 anos, aproveitou a oportunidade para me receitar todos os exames e análises de que se lembrou que podiam ser úteis para avaliar o estado de saúde de um velho como eu. Também não vos disse, mas digo agora, porque é relevante para o que vos estou a revelar a seguir, a consulta foi no dia 31 de Agosto de 2017.

As análises fi-las logo no dia 1 de Setembro, no laboratório ali perto onde, no próprio dia da consulta, tinha passado e me tinha munido de todo o equipamento necessário para fazer as respectivas colheitas em casa. Mais três ou quatro dias para me darem os resultados e estaria pronto para voltar a mostrá-los à simpática e prudente médica que mos tinha receitado. Quase, porque também tinha que fazer uma ecografia, e essa não a consegui marcar para aqueles dias. E como a curiosidade era mais dela do que minha não passei à frente da fila fazendo a ecografia com urgência e a minhas expensas num estabelecimento privado, e decidi fazê-la num estabelecimento com acordo com o SNS, e ao custo da respectiva taxa moderadora. Consegui uma marcação para o dia 6 de Dezembro.

Nesse dia mesmo, saído do hospital onde tinha acabado de fazer a ecografia, voltei ao centro de saúde para marcar uma consulta e finalmente lhe mostrar à jovem médica os resultados das análises e exames que me tinha recomendado. Uma breve consulta da recepcionista no computador e informou-me que me conseguia arranjar consulta para a minha médica de família, entretanto regressada ao activo, para o dia 23 de Fevereiro de 2018. E eu disse "está bem".

Só que não está bem, está mal.

Se em vez de ser um jovem que fez as análises e exames, mais por cavalheirismo com a médica que se deu ao trabalho de os receitar numa consulta que tinha uma finalidade meramente administrativa e não tinha origem em problemas de saúde do utente, do que por necessidade, eu fosse um velho de 60 anos aflito disto e daquilo a ir ao centro de saúde para procurar alívio ou tratamento para as minhas aflições, entre a primeira consulta em que a médica receitou os exames e análises, e a próxima consulta em que vai olhar para os resultados vão-se passar 6 meses.

A mim não me custam nada a passar, que vou lá mais por deferência com quem teve o cuidado de se assegurar através dos meios de diagnóstico disponíveis que o meu estado de saúde estava tão bem como a mim me parecia e lhe dera conta. Mas a um utente que estivesse mesmo doente, e desde o dia 31 de Outubro de 2017 já vi morrer amigos com idades não muito diferentes da minha, podem significar a diferença entre um diagnóstico e tratamento atempados e com boa probabilidade de serem eficazes e o agravamento da doença ou mesmo a morte.

[E nem vou, para não correr o risco de me darem arritmias ou crises de maus fígados, relembrar aqui casos como o do meu amigo de 63 anos que tinha Parkinson e foi internado num hospital do SNS com problemas na coluna devido a uma queda e saiu de lá morto por uma pneumonia derivada de uma infecção hospitalar, ou do pai de outro amigo que também foi internado devido a uma pequena queda e também morreu de pneumonia devida a outra infecção hospitalar, ou das vítimas da doença do legionário que apanharam noutro hospital do SNS onde tinham ido por problemas menores e até, parece, administrativos, mas não tinham o sistema imunitário suficientemente forte para resistirem às infecções que circulam livremente dentro dos hospitais.]

O Serviço Nacional de Saúde é bom para quem não precisa dele. Mas para as pessoas doentes e velhas é um perigo.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 23:17
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Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2018

Um ano depois

Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim, disse eu, e por o ter dito expus-me à irrisão geral como o trumpista que não sou, condição que me garante comentários mordazes e indirectas maldosas de certos e dilectos amigos quando o presidente se alivia, no seu inglês de brat filho de empreiteiro, das provocações tuíteiras que julga, se calhar com razão, lhe acrescentam à popularidade.

 

Passou já mais de um ano. E concedo que a economia animada, a diminuição do desemprego, e o clima geral de euforia, não se devam inteiramente a Trump. A economia tem ciclos e quando chega a maré das subidas só mesmo um governo esquerdista é que consegue abrandar a bonanza, primeiro, e criar as condições para a depressão ser pior, depois.

 

Mantenho portanto o meu prognóstico. E até mesmo na frente externa, aquela onde moram todos os perigos, Trump não tem do que se envergonhar. É como se diz aqui:

 

Massive deregulation; economic growth picking up; standing up to Russia, Iran, China and North Korea; destroying ISIS; remaking the federal courts; recognizing Jerusalem; and now, the greatest tax reform in a generation – all while the Mueller investigation crumbles, and his opponents are tied up in knots over his tweets. The winning is under way.

 

Nós portugueses, ou pelo menos aquela parte de nós que esparrama as suas opiniões nos jornais e nas televisões, achamos que um bom líder político deve ter as qualidades de seriedade e isenção que apreciamos num santo, como Eanes (de pau um tanto carunchoso, na verdade: usou a presidência para fazer um partido); que deve ser culto, amante declarado das letras e das artes, como Soares ou Marcelo (se bem que, na realidade, Soares fosse praticamente analfabeto e de Marcelo se possa razoavelmente supor que, dos livros, raramente passou da badana); que deve ser dialogante, como Guterres; que deve entender muito dos arcanos da economia, como Cavaco; que deve ser muito “solidário”, como Costa; e, mais recentemente, que deve ser muito lá de casa e amigo do peito – outra vez Marcelo.

 

Achamos mal. E já achamos mal há décadas. É por não percebermos que um líder precisa apenas de ter duas ou três ideias acertadas, podendo ser um imbecil em tudo o mais, e que essas ideias não podem ser de esquerda, que somos uma pequena região da Europa (ela própria um império decadente), vivendo de esmolas, de uma empresa emprestada por alemães, de um sector industrial sufocado por impostos e dirigismos estatais, e de uma quantidade crescente de empregados de mesa e estalajadeiros.

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publicado por José Meireles Graça às 22:34
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Elpedezeque: Afinal quem é que escreveu isto?

Tenho recebido críticas de leitores do Gremlin Literário por causa não conseguirem identificar o autor das publicações quando acedem ao blogue por telemóvel dirigidos por ligações no Facebook.

- Quem é o autor?

- Todas as publicações no Gremlin são assinadas.

- Não consigo ver.

- Não consegue como? Eu estou a ver.

- Eu estou num telemóvel e não vejo o autor.

- Sou eu. Sabe? O Gremlin Literário vem de outros tempos e não está preparado para telemóveis, além de ser um colectivo de criação literária onde não valorizamos os protagonismos individuais, camarada.

- Mas eu gostava de saber...

[Pois gostavas, se calhar para fazeres uma espera ao autor de cujas opiniões discordas veementemente e a quem gostarias de mostrar quão veemente é o teu desacordo? Sendo assim, é melhor deixar estar como está. Mas, e se fores um leitor que aprecie estas insignificâncias que deixo aqui escritas e me pretenda oferecer uma assessoria na Assembleia Municipal de Lisboa? Nesse caso, talvez valha a pena esclarecer.]

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- Caro leitor, a sua opinião é muito importante para nós, não desligue se faz favor enquanto vou investigar junto dos meus assessores a causa do problema que o preocupa. A verdade é que a autoria de cada artigo é mostrada no fim do artigo nos acessos ao blogue por computador mas não, por funcionalidade intrínseca do Sapo Blogs que alberga o Gremlin Literário, na versão de telemóvel. Mas quem usa o telemóvel e quiser mesmo assim identificar o autor não tem mais do que carregar com o dedinho no rectângulo onde diz "Ver versão PC" no fundo do artigo.

- Obrigado.

- Tem mais alguma dúvida que gostasse de ver esclarecida?

- Não, vocês foram mesmo impec!

- Sempre às ordens. A satiafação dos nossos eleitores é a nossa razão de viver. Resta-me agradecer-lhe o contacto e desejar-lhe um bom ano.

 

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 15:02
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Domingo, 31 de Dezembro de 2017

A passagem de ano não existe, mas mesmo assim desejo um bom ano para todos

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Há poucas reportagens que eu considere menos dignas de notícia do que o acompanhamento em directo do percurso do autocarro da Selecção e o fogo de artifício nos locais de outras longitudes onde o ano já passou enquanto o nosso ainda está para passar.

Até porque a passagem de ano é uma mera convenção social que não tem qualquer fundamento cosmológico.

Ao contrário, por exemplo, da Páscoa, que é o primeiro Domingo depois da primeira Lua Cheia da Primavera, e este dia de significado religioso tão profundo não podia ter fundamento mais pagão, ou do Carnaval ou do Corpo de Deus, que são, respectivamente, 47 dias antes e 60 dias depois da Páscoa, ou dos equinócios e solstícios que delimitam as estações do ano, não há nada cosmologicamente marcante no dia em que está convencionado começar o ano.

De modo que, para fugir às reportagens de foliões que vão enfiando o barrete ou a cartola sucessivamente pelo mundo fora ao longo do dia de hoje, e do de amanhã, vou desmontar alguns mitos astronómicos, só para chatear.

  • O dia tem 24 horas

Tenham paciência, mas não tem.

Todos os dias têm uma duração diferente uns dos outros, e não estou a falar do dia como o período do dia com o Sol acima do horizonte que alterna com a noite, mas do dia completo, de um meio-dia solar, em que o Sol passa exactamente a Sul visto da nossa latitude no hemisfério Norte, ao meio-dia solar do dia seguinte.

Passo a explicar. Por obediência às leis da Física, neste caso a da conservação do momento de inércia, a Terra tem uma velocidade de rotação constante, pelo menos com a precisão dos relógios suíços, ainda que os relógios atómicos possam detectar variações ínfimas na velocidade de rotação devidas a movimentos de massas, sejam os oceanos, seja a matéria que constitui o núcleo.

Quer isto dizer que a Terra faz uma rotação completa de 360º em 24 horas? Não, porque quando termina a rotação de 360º está de novo alinhada com os mesmos corpos celestes a distâncias que se possam considerar infinitas com que estava alinhada 360º antes, mas por ter avançado cerca de 1º no movimento de translacção à volta do Sol em que percorre os 360º em cerca de 365,25 dias, ainda tem que rodar mais cerca de 1º até voltar a ter o mesmo alinhamento com o Sol no dia seguinte.

Quer isto dizer que todos os dias duram o tempo que a Terra demora a rodar os mesmo cerca de 361º em cada 24 horas? Não, porque o movimento de translacção da Terra não é circular com o Sol no centro, mas elíptico com o Sol num dos focos da elipse, o que significa que ela não está sempre à mesma distância do Sol, havendo um ponto, o periélio, em que ela se aproxima até cerca de 147 milhões de quilómetros por volta do dia 4 de Janeiro, e outro, o afélio, em que se afasta até cerca de 152 milhões de quilómetros por volta do dia 4 de Julho. Outra vez por causa da mesma lei da conservação do momento de inércia, a Terra anda mais rapidamente quando está mais próxima do Sol e mais lentamente quando está mais afastada. Tal como um pêndulo, ainda que num movimento diferente. O que significa que os cerca de 361º de movimento de rotação que duram os dias solares são um bocadinho mais longos quando a Terra está mais próxima do periélio e anda mais depressa, e um bocadinho mais curtos quando ela anda mais devagar próxima do afélio. E como a velocidade de rotação é constante, os dias têm todos durações diferentes uns dos outros, entre uma duração máxima quando a Terra passa pelo periélio no início de Janeiro e uma mínima quando passa pelo afélio no início de Julho.

Esqueçam que os dias têm 24 horas. Ponto.

  • Nos equinócios a duração do dia e da noite são iguais

Tenham paciência, mas só duram o mesmo quando calha.

Um equinócio, tal como um solstício, não é um dia, é o momento preciso em que a Terra passa por um dos dois pontos precisos onde o seu eixo de rotação é exactamente perpendicular à linha que une o seu centro com o do Sol. Se a Terra ficasse quieta a andar à roda nesse ponto, o dia teria exactamente a mesma duração que a noite em todo o planeta. Mas ela anda, e um segundo depois já se afastou 30 quilómetros e, mesmo estando a 150 milhões de quilómetros do Sol, estas linhas imaginárias deixaram de ser perpendiculares. O que significa que o dia só será exactamente igual à noite num equinócio nos locais da Terra cuja longitude coloque aproximadamente ao meio-dia solar, e naqueles onde é meia-noite solar, no momento preciso do equinócio. E mesmo assim não é exactamente assim, porque os equinócios não coincidem com o periélio nem com o afélio, em que a aceleração e a desaceleração da Terra são simétricas nas 12 horas que os precedem e nas 12 que lhes sucedem, mas podem tomar como bom que o dia e a noite num equinócio só têm a mesma duração numa longitude precisa próxima daquela em que o meio-dia ou a meia-noite solares são no momento do equinócio.

Esqueçam que o dia e a noite são iguais nos equinócios. Ponto.

Que mais mitos é que eu tenho para estragar? Há sempre o da hora legal vs hora solar, estes fenómenos dependem da longitude exacta dos locais que determina a sua hora solar, e a hora legal agrega no mesmo fuso horário  tipicamente locais onde a hora solar tem desde menos meia-hora a mais meia-hora do que a hora no ponto central do fuso em que corresponde, e apenas aproximadamente, à hora solar, com variações ainda maiores devido ao fuso e à hora legal a não serem determinados apenas pela longitude mas pela legislação que os fixa em cada país ou região.

Mas já passei aqui a escrever mais de hora e meia livre das sucessivas reportagens sobre os foliões do ano novo fuso horário a fuso horário pelo mundo fora, e agora vou ligar a televisão a ver se o autocarro da Selecção está a passar nalgum local que se veja.

Boa noite, espero que se divirtam entre foliões de barrete, ou de cartola, ou mesmo de cabeça descoberta, ou preferencialmente em casa com a família ou amigos, ou mesmo sozinhos, para aqueles que vivem bem na sua própria companhia, e principalmente desejo um bom ano para todos.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:42
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Terça-feira, 26 de Dezembro de 2017

Afinal quem é que faz greves?

2017-12-26 Greve Metro.jpg

Em Portugal a greve já é legal há quase quarenta e quatro anos e ainda não houve uma única greve de que os jornais conseguissem informar os leitores sobre o número exacto de grevistas.

Na última que chegou aos media, a greve convocada pelos sindicatos de trabalhadores dos CTT para os dias que antecederam o Natal, certamente motivada, uma vez que os CTT prestam um serviço público e foram até há pouco tempo uma empresa pública, pela defesa do serviço público de distribuição de correspondência através da não distribuição numa época em que os consumidores prezam particularmente a distribuição, são misteriosos os desígnios do Senhor, e os dos sindicalistas também, os sindicatos dizem que foi de 70%, um número até mais baixo que a média, porque os números divulgados pelos sindicatos costumam andar na casa dos noventas, e a empresa de 17%.

A diferença entre os dois números é muito grande, e é sempre assim, às vezes com diferenças ainda mais extremadas. Os sindicatos informam sempre que as greves têm uma adesão muito elevada, nalguns casos aproximando-se da totalidade dos trabalhadores, e as empresas, quase exclusivamente as públicas porque nas privadas as greves são muito mais raras, e os organismos públicos apresentam números muito mais modestos.

Para a empolação dos números de grevistas pelos sindicatos há uma boa razão, ou duas: criar no público o receio de que, se as empresas ou organismos não cederem às suas reivindicações, virá a ser muito prejudicado pela indisponibilidade dos serviços, na esperança de que o público exija a quem os gere, a empresa ou a tutela do organismo público, que cumpra as exigências dos sindicatos para voltar a ter os seus serviços de volta; e nos trabalhadores a impressão de que a representatividade dos sindicatos é tão sólida que vale a pena manterem-se ou tornarem-se associados e pagarem a respectiva quotização de 1% do salário, até porque é a única deduçao salarial que proporciona no IRS um abatimento no rendimento colectável, não do valor da dedução, mas com uma majoração de 50% que minora o seu custo final, pelo menos para os contribuintes os escalões mais altos das tabelas do imposto.

Para as empresas e organismos públicos também há uma boa razão para apresentarem números muito menos expressivos, mostrarem aos utentes, e aos eleitores, que conseguem gerir bem a situação e defender bem os seus direitos.

De modo que o público fica sempre sem saber se as greves tiveram uma adesão quase total ou apenas marginal.

Mas no entanto é muito fácil apurar o número exacto de grevistas em todas as greves, e com a precisão da unidade: basta pedir aos recursos humanos das empresas, ou, o que pode ser ainda mais fácil por serem públicos, dos organismos públicos, o número de faltas por greve que apuram quando processam os vencimentos no final do mês. Não é número que esteja disponível para abrir os noticiários da manhã nos dias de greve, naqueles em que os sindicatos conseguem informar a comunicação social das adesões de noventas por cento para cima mesmo antes da hora de os trabalhadores chegarem ao serviço e os grevistas não, e as empresas de faltas menos expressivas, mas é número que pode ser obtido poucas semanas depois e poderá ser útil para calibrar as estimativas do momento pela observação de tendências estatísticas nas diferenças entre os números divulgados pelos sindicatos e pelas empresas ou organismos públicos e os reais e, por essa via, motivar os sindicatos e entidades a fazerem estimativas mais realistas no momento para não cairem posteriormente no ridículo.

Os jornalistas só não informam o número exacto de grevistas em todas as greves apenas porque são incompetentes. Ou isso, ou então porque gostam de participar como figurantes na encenação montada pelos sindicatos de que as greves são sempre um grande sucesso e eles são actores determinantes na vida da sociedade, mesmo quando não passam disso mesmo, de actores?

Senhres jornalistas, se querem continuar a ser úteis à sociedade mexam-se e trabalhem, informem.

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publicado por Manuel Vilarinho Pires às 13:01
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Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2017

Festa em Braga

Ontem foi dia grande: o carro que o Estado abusivamente me apreendeu, incidente que já havia sido narrado numa peça romanesca, foi-me devolvido. As cerimónias decorreram na cidade dos arcebispos, e para assinalar o evento dirigi ao mestre de cerimónias local o e-mail seguinte, com conhecimento, como habitual, para a sede do IMT, comando-geral da GNR, ministérios da Administração Interna e do Planeamento e das Infraestruturas.

 

Boa noite Senhor xxxxxxx xxxxxx.

 

Conforme a notificação desses serviços recebida no passado dia 7, cuja cópia anexei ao meu e-mail de 11, abaixo transcrito, compareci hoje pelas 9H00 no “CIMA” com o veículo abusivamente apreendido. Da forma censurável como decorreu o que se seguiu à inspecção direi abaixo alguma coisa. Antes, porém, cumpre-me responder ao e-mail de V. Exª, o que ainda não tinha feito por temer represálias, ciente que estou de que são muitas as armas de que dispõe a generalidade dos serviços públicos para atazanar a paciência dos cidadãos, e poucas ou quase nenhumas as destes para reagirem.

 

V. Exª começa por dar como adquirida a verdade do que consta do auto de contraordenação, quando dos elementos referidos no processo relativo à matrícula xx-xx-xx pude verificar hoje que estão especificamente referidas películas coloridas. Isto contraria a fantástica descrição que faz o agente da GNR, quando diz “o veículo tem instalado nos vidros laterais películas de escurecimento. Nas películas instaladas pode ver-se a marcação G65 – D5562 pertencente à película da marca etc. etc. em que uma das características é ser incolor (sublinhado meu). Através da sobreposição, para além das películas constantes no certificado de matrícula sem coloração (sublinhado meu), foram instaladas películas de cor escura”.

 

Os vidros tinham apenas uma película colorida, não uma incolor e outra colorida, e esta última estava homologada. Um simples exercício de senso permitiria perceber que a alegação do agente era falsa, quer porque não se percebe para que serve uma película incolor quer porque o que lhe chamou a atenção foi a coloração – que estava homologada – quer porque não se entende como se descortina a existência de duas películas sobrepostas. De resto (mas desta parte não poderia V. Exª saber) o agente referiu-me a falta de homologação dos vidros coloridos, não a fantasia das duas películas, que só descortinei quando li o auto para efeitos de reclamar.

 

V. Exª precipitou-se portanto, no afã de se solidarizar com o "colega” (ambos se ocupam, com atribuições diferentes, de segurança rodoviária), esquecendo que a legislação que invoca tem a ver com segurança – não com invencionices nem expedientes para arrebanhar receitas de qualquer maneira.

 

Agradeço as informações que teve a bondade de dar sobre o detalhe (menor) da insuficiente descrição do endereço onde se encontra o tal Centro de Inspecções. Apreciaria ademais, depois de verificar in loco o modo como funciona tal Centro, que V. Exª explicasse como se entende que um cidadão cujo automóvel foi apreendido a 28 de Novembro esteja à espera de uma inspecção até 20 de Dezembro, quando a inspecção consiste em verificar o número do chassis, olhar para os vidros e conferir a papelada, isto é, cinco minutos.

 

Antes que V. Exª abunde nas explicações usuais para serviços ineficientes (excesso de trabalho, falta de meios, etc.) adianto-me:

 

O que vi foram dois engenheiros sem identificação (ninguém nesse Instituto está identificado, numa manifestação de discrição inteiramente dispensável e, creio, irregular quando no desempenho de funções) que iam despachando o serviço no meio de geral confusão. E que o que me atendeu, de resto cortesmente, informou no termo de uma conversa breve que para pagar o que fosse devido e tratar da papelada teria que o fazer no IMT, sito numa rua do Poente a vários quilómetros dali, mas só por volta das 11H00, quando lá chegasse.

 

Eram cerca da 9H30. E parece-me fantástico, e ao mesmo tempo elucidativo, que isto seja prática corrente: aparentemente os funcionários tomam como normal que o papel dos cidadãos seja esperar por eles.

 

Pelo que pude perceber os engenheiros largam o serviço por volta daquela hora, e isto explica os prazos intoleráveis para as inspecções.

 

Olear toda esta máquina não me parece tarefa particularmente difícil. E devo saber alguma coisa do assunto porque toda a vida dirigi organizações e se alguma delas funcionasse assim falia, não me dando sequer tempo de passear, com vergonha, a cara enfiada num tacho.

 

Chegado à sede, e enfastiado pela espera, resolvi tirar uma senha com a esperança de, se houvesse papeladas a preencher, ir adiantando caminho. Tocou-me em sorte um funcionário que, inteirado da história, esclareceu que havia que fazer prova de estar a multa paga, preencher um impresso para requerer não sei quê, e ainda uma outra diligência que não cheguei a apurar, por ter cortado cerce a conversa: aturar funcionários incompetentes que entendem que nenhum processo com menos de um quarto de kilo de papel está verdadeiramente instruído é actividade que figura com algum relevo na minha lista de tarefas a evitar.

 

Chegados os engenheiros à hora prometida, o que me atendera (e cujo nome me esqueci de perguntar) informou-me simpaticamente que alguém iria tratar do assunto e que me chamariam, após o que nunca mais o vi.

 

Fiquei por ali, sentadinho em frente do balcão. E como ninguém me chamasse, dirigi-me ao termo de uma hora à funcionária em frente (ao lado do tal senhor que me atendera inicialmente e que, por lhe ter perguntado, fiquei a saber chamar-se xxxxx xxxxxx) inquirindo se o meu caso não estaria esquecido. Não estava, pelo contrário fora concluído e foi buscá-lo, após o que despachou todo o assunto rapidamente e cobrou a taxazinha de 30 euros.

 

Creio que este último incidente (a espera inusitada) foi intencional, e suspeito que terá sido engendrado pelo funcionário pesporrento acima referido.

 

Não importa: espero que, a menos que outro agente da GNR divise no futuro, com olho arguto, alguma outra irregularidade que a sua imaginação lhe sugira, nunca mais frequentar essa repartição; e decerto ganhei acrescido respeito por quem tenha de o fazer, por razões profissionais, habitualmente.

 

Com os melhores cumprimentos,

 

José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça.

publicado por José Meireles Graça às 22:17
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Vai nanar, Leninha

Anteontem recebi um telefonema a informar que Leninha tinha acordado.

 

Dormi mal, excitado pela perspectiva de passar a ter um cartão de cidadão que diga, na profundidade dos códigos de acesso, que vivo em minha casa e não no quintal da casa ao lado, como lamentavelmente sucedia.

 

Esperei uma eternidade mas valeu a pena: ontem desloquei-me à repartição, esperei quase nada, e saí são e salvo com o cartãozinho, impassível na sua verdade burocrática.

 

Estou doravante habilitado a que os CTT continuem a extraviar cartas mas sem o pretexto de a morada não ser no número 119 mas no 118.

 

Hossana. Aleluia. Bom Natal e Feliz Ano Novo.

 

Agora vai nanar, Leninha.

publicado por José Meireles Graça às 14:26
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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

Os animais mais ferozes também têm coração ou, são tão lestos numas coisas como lerdos noutras

Acabei de fazer uma modesta descoberta, ainda não sei se para catalogar no domínio da etnologia, se da etologia, que me sinto no dever de não guardar apenas para mim mas partilhar com a humanidade.

Os animais ferozes também têm coração.

Pelo menos, os que habitam a selva mediática.

E como é que eu fiz esta descoberta?

Durante o fim-de-semana, a matilha que ao longo da semana se dedicou a defender na selva mediática o primeiro-ministro das consequências da última trapalhada em que se viu apanhado, a revelação pela jornalista da TVI Ana Leal do envolvimento de vários membros do governo e de outros orgãos do poder político socialista na gestão danosa da associação Raríssimas, de que tinha dado conta ontem de mais uma que me pareceu mais habilidosa, tanto no plano literário, como no argumentário, do que as outras, viu-se obrigada a abrir uma nova frente na defesa da tribo socialista contra o resto do mundo.

Ao justificar à comunicação social o facto de não ter endereçado ao primeiro-ministro um convite para o almoço de Natal organizado pela Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrogão Grande, a sua presidente Nadia Piazza tinha cometido a afronta de dizer "...as pessoas que foram convidadas são ... as pessoas que estão connosco".

Esta mulher notável que perdeu no incêndio o filho, acompanhado do pai e da avó, e que conseguiu encontrar conforto no facto de o cadáver do filho ter sido encontrado nos braços do do pai e de, portanto, ter morrido na companhia de quem o amava e o protegia, cometeu a afronta de, com uma elegância suprema que foge ao alcance da capacidade de compreensão da matilha que o defende, ter revelado que, por exclusão de partes, não inclui o primeiro-ministro no conjunto de personalidades que considera que estão com as vítimas do incêndio.

Poderia, quem somos nós para sugerir que deveria? tê-lo dito de um modo mais directo, por exemplo aludindo ao facto de ele nem se ter dignado a interromper as férias na praia quando ocorreu a tragédia, de não ter manifestado a mais pequena empatia com as vítimas até ser obrigado a fazê-lo pelo presidente, ou de a primeira reacção do governo à tragédia ter sido a de encomendar estudos de opinião para determinar que tipo de resposta preservaria melhor a sua popularidade. Podia ter sido ainda mais directa relembrando o papel que a incompetência do governo e das lideranças que nomeou por méritos partidários e de proximidade pessoal para a Autoridade Nacional da Protecção Civil teve na ineficácia da protecção das populações que resultou nas dezenas de mortes, entre os quais a do seu filho. Poderia até ter sido brutal como o primeiro-ministro sempre é, dizendo algo como "não convidamos bestas para a nossa festa". Mas não, foi apenas de uma elegância suprema, o que agrava a afronta, porque a matilha tem toda a capacidade para actuar ao nível mais rasteiro mas não a de a enfrentar ao nível a que ela foi colocada.

E, a melhor defesa é o ataque, o primeiro-ministro lá teve que soltar a sua matilha à ousada que lhe virou as costas.

No fim do dia, o prémio do comentário mais rasca acabou por ser atribuído sem discussão ao sobrinho do presidente Mário Soares e seu chefe de gabinete nas presidências e actual apoiante do Bloco de Esquerda, Alfredo Barroso, que com um poder de síntese no insulto notável deixou nas redes sociais o breve mas rico de significado comentário "A brasileira de Pedrogão: manipulada ou manipuladora" que em apenas sete palavras conseguiu resumir todo um programa de xenofobia em "A brasileira", aliás com um certo humor, voluntário ou, mais provavelmente, involuntário, porque sendo ele próprio italiano não se pode considerar nos antípodas dos brasileiros na cadeia alimentar da xanofobia, de misoginia, é conhecido o tipo específico de suspeição que as mulheres brasileiras suscitam nas pessoas xenófobas, além de lhe dar a escolher entre a burrice de "manipulada" e a desonestidade de "manipuladora". Tudo isto em sete palavrinhas.

2017-12-18 Alfredo Barroso Nadia Piazza.jpg

Mas não foi ele que me conduziu ao caminho da descoberta, mas a académica Estrela Serrano que, já na véspera, tinha dedicado uma crónica no seu blogue a, entre outras coisas, o "azedume, inexplicável" da mesma Nadia Piazza.

Outras coisas entre as quais o objectivo primeiro da crónica, encontrar um sentido que não fosse boçal à trapalhada n - 1 do primeiro-ministro, a afirmação de que 2017 "foi um ano particularmente saboroso para Portugal" e explicá-lo às massas.

E qual foi a metodologia seguida pela académica socialista? Explicar que a crítica implícita mas clara que o presidente tinha feito às palavras do primeiro-ministro tinha o objectivo de ofuscar os seus magníficos sucessos no plano económico repescando a memória da tragédia de Pedrogão e era baseada numa descontextualização que lhe alterava o verdadeiro significado, e transcrevendo a explicação do verdadeiro significado não-odioso e, pelo contrário, virtuoso, das suas palavras pelo próprio primeiro-ministro. Em resumo, que seria tão deslocado recordar em Bruxelas a tragédia de Pedrogão como dizer em Pedrogão que tinha sido um ano saboroso.

Belo argumento, e merecedor de divulgação pelos seus apoiantes. E uma demonstração de que, mesmo os apoiantes mais ferozes, quanto mais lestos são a descobrir interpretações odiosas nas palavras dos outros, mais lerdos são a reconhecê-las nas palavras dos seus, e rodeiam a sua interpretação de todos os cuidados para eles não sairem magoados da discussão. Têm bom coração.

Mas uma andorinha não faz a primavera, e um caso de animal feroz das redes sociais que, em vez de interpretar maldosamente as palavras de um político, lhe pede para as explicar ele próprio de modo que não se cubra de odioso, não sustenta uma tese.

Por um acaso tão feliz como a descoberta da mayonnaise, encontrei hoje duas obras do antecessor de vultos como o deputado João Galamba ou a jornalista Fernanda Câncio, para além do incontornável sobrinho do seu tio Alfredo Barroso, na vanguarda do combate mediático socialista, a figura lendária da blogosfera que assinava as suas crónicas como Miguel Abrantes de quem circulam as histórias mais inacreditáveis, incluindo a de ser pago pelo então primeiro-ministro José Sócrates para o defender e louvar nas redes sociais.

Pois o tal Abrantes escreveu duas vezes, pelo menos estas duas que descobri, sobre o poeta e seu camarada de partido Manuel Alegre.

Na primeira, de 2008, era o Manuel Alegre o socialista que tinha desafiado dois anos antes o partido liderado pelo primeiro-ministro José Sócrates e concorrido como candidato independente sem apoios partidários às eleições presidenciais contra o candidato oficial socialista Mário Soares e vultos dos outros partidos da esquerda como o comunista Jerónimo de Sousa, o bloquista Francisco Louçã, e o emierrepêpista Garcia Pereira, e tinha-os humilhado com mais de um milhão e cem mil votos contra menos de oitocentos mil do Mário Soares. Era a sombra sobre a direcção socialista que os socialistas deviam abater para lavar a honra manchada do chefe.

E o blogger Miguel Abrantes ridicularizou-o por ter escrito um texto publicitário para um banco, mais a mais o banco privado dirigido ao segmento de mercado dos ricos, e revelando ambições de nouveau riche do poeta.

Na segunda, em 2011, era o Manuel Alegre o candidato oficial do partido às eleições presidenciais, e andava a ser ridicularizado por ter escrito uns anos antes esse texto publicitário.

E o blogger encheu-se de dó pela maldade de que o candidato oficial do seu partido estava a ser vítima e desculpou-o publicando um desmentido que, contextualizando devidamente a publicação o texto publicitário, a esvaziava de qualquer sentido ridículo ou odioso. Teve bom coração.

Os apoios do PS, do BE e do MRPP, além dos das suas máquinas de propaganda, de que o Miguel Abrantes era um membro notável, assim como a saída de cena dos candidatos destes três partidos resultou numa redução de mais de trezetos mil votos no candidato que antes se tinha apresentado como independente e sem apoios. Mas o esforço foi meritório.

E um mais um é igual a dois, e dois comentadores ferozes a apresentarem argumentos para defender os seus chefes de interpretações maldosas já não são um caso isolado mas sim uma tendência.

Os animais mais ferozes também têm coração.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:18
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