Quarta-feira, 4 de Outubro de 2017

Obrigado, Passos Coelho

Diz-me quem te odeia, dir-te-ei que merecimento tens. Passos Coelho foi, a par de Mário Soares, Sá Carneiro e Cavaco Silva, o político mais odiado pelos comunistas desde o 25 de Abril.

 

Mário queria uma democracia ocidental no mesmo tempo em que o PCP defendia sem rebuço a "popular" da União Soviética; e as variadíssimas seitas dos Louçãs, Pachecos Pereiras e Jorges Sampaios queriam a versão peruana, ou albanesa, ou de outro eldorado qualquer em que se acreditasse numa via original para o socialismo, que no jargão de todos significava comunismo.

 

Sá Carneiro queria a mesma democracia que Soares, e parecia querer igualmente o socialismo. Mentira: dizia que queria porque nesses anos era obrigatório dizê-lo; mas nada na sua acção política confirma essas intenções.

 

Cavaco queria acabar com parte da camisa de forças da economia estatizada, e atrelar, através sobretudo dos subsídios da CEE, o país ao comboio europeu.

 

Passos queria, num país falido, gerir a massa falida do modo exigido pela assembleia de credores, porque não tinha outro remédio; e aproveitar a oportunidade para restaurar o crédito da empresa e reorientar-lhe a estratégia de modo a adequá-la à globalização, à demografia e à integração na União Europeia. Isto e lançar as bases para inverter a trajectória crescente das dívidas pública e externa, diminuindo do mesmo passo o peso do Estado e a asfixia do sector privado.

 

A isto se chamou, e continua a chamar-se, neoliberalismo. E mesmo dentro do seu partido uma nebulosa de idiotas, ambiciosos e ressabiados (Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite, outros menores) se rebelou, em nome, entre outras coisas, da herança de Sá Carneiro.

 

Carneiro era, no seu tempo, a direita com pernas para andar (o CDS cheirava demasiado, na opinião pública, ao ancien régime). E, quase quarenta anos depois da sua morte, imaginar que defenderia as mesmas soluções para os mesmos problemas - o atraso relativo do país e o esquerdismo do eleitorado - mas em circunstâncias que são, em Portugal e no mundo, completamente diferentes do que sequer se podia imaginar à época, releva de pura estupidez quando não oportunismo.

 

Supor o que pensaria agora Sá Carneiro é um exercício fascinante para quem o conheceu; e, para quem não o conheceu, tão fascinante como imaginar o que pensaria o marquês de Pombal. Mas igualmente inútil.

 

Talvez deixar passar o PEC IV tivesse sido estrategicamente mais útil, por associar o PS no imaginário público à austeridade, adiando a vitória da PàF e as eleições; talvez Passos, que tanta vez verberei por ter desperdiçado a oportunidade de reformar o Estado, não o soubesse ou quisesse fazer; e decerto o país bem escusava de ter sido submetido aos desmandos fascisto-higiénicos de Fernando Leal da Costa ou à férula criminosa de Paulo Núncio.

 

(Este político com nome de toureiro comportou-se como um boi enraivecido na diminuição dos direitos dos contribuintes, e acrescentou várias pedras ao edifício da falta de qualidade da cidadania. Poderia pertencer ao partido Socialista, mas não: é do partido dos contribuintes, que é também o meu. Suponho que todos os clubes têm sócios indesejáveis).

 

Mas: provou que a espiral recessiva, que parecia lógica (até para mim, durante algum tempo) era um fantasma; deixou o país a crescer; diminuiu o défice de 10 para 3%; tentou, sem grande sucesso, começar uma reforma fiscal mais amiga das empresas; afrontou sem hesitar bonzos da economia que se imaginavam intocáveis; e deixou a suspeita de que a reforma do Estado, agudamente necessária, seria porventura a tarefa que iria empreender num segundo mandato.

 

O eleitorado, que castigou com cortes inevitáveis, recompensou-o surpreendentemente com nova vitória, mas insuficiente pelas razões conhecidas.

 

Dos políticos que lhe sucederam no governo o primeiro não tem mais categoria do que a necessária para ser seu motorista e a camarilha que o rodeia é no essencial a mesma que conduziu o país ao desastre que Passos reverteu.

 

E dos candidatos a suceder-lhe no PSD não vejo um que lhe honre a herança; nem que mereça, com tanta justiça, o ódio da esquerda. Este indicador não é, claro, condição suficiente; mas é necessária.

 

Despediu-se ontem com dignidade, a mesma com que governou. Tenho demasiadas reservas, e demasiadas opiniões alternativas sobre o que conviria fazer, para dar um aplauso entusiástico à obra. Mas há décadas que ninguém fazia melhor; nunca se governou com uma tão apertada camisa de forças; e mesmo que o diabo não tenha chegado a tempo para lhe confirmar o vaticínio das desgraças, e leve porventura ainda muito tempo, quando vier encontrará um país que precisará de um Passos qualquer.

 

Obrigado, Passos Coelho.

publicado por José Meireles Graça às 19:57
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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

Raciocínios cínicos

"Este post nada tem a ver com as simpatias ou antipatias do autor relativamente às partes envolvidas, mas apenas e só com a crua realidade dos factos", diz José Manuel Correia Pinto num texto algo doutoral sobre o enquadramento no direito internacional do problema da Catalunha.

 

No essencial, a tese, convincente, é a de que à luz do direito o referendo sobre a independência só seria admissível por acordo legalmente permissível, como aconteceu na Escócia, e não como o exercício de um imaginário direito à autodeterminação, que simplesmente no caso não existe.

 

E a conclusão, melancólica, é que a Catalunha só se poderia tornar independente num contexto de batatada, possivelmente com o apoio de uma grande potência.

 

Não é preciso ser jurista para concordar com um texto de interpretação da lei aplicável, e desejo boa sorte a quem tenha formação e vontade para se abalançar a infirmá-lo a essa luz; o que não creio, com a autoridade que não tenho, possível.

 

Deixemos, de momento, a Catalunha. E passemos a esta notícia extraordinária: Costa pediu parecer à PGR sobre imunidade de antigo vice de Angola.

 

Não faço ideia do que disse ou vai dizer a PGR sobre o assunto. Já li por aí um texto cheio de preciosidades e subtilezas jurídicas que defendia que não senhor, o presidente tem imunidade, o embaixador e o pessoal das embaixadas também, mas o vice-presidente, ainda para mais ex, não.

 

Não fiquei particularmente convencido, e nem sequer retive o link da tese porque na realidade é irrelevante: não estamos a falar de um cidadão português que praticou o crime xis ou ípsilon, nem de um turista angolano que surripiou um anel numa joalharia na rua da Prata.

 

Do que estamos a falar é de um governante de um país independente que terá corrompido um magistrado português no âmbito de um processo que, para começo de conversa, nem sequer deveria existir.

 

Não deveria existir porque o que é e o que não é crime em Angola, ou na China, ou em Cuba, ou na Arábia Saudita, países que Portugal reconhece e com os quais tem relações, não tem que ser o que é e o que não é crime em Portugal.

 

Angola tem um regime corrupto e uma classe dirigente cleptocrata - problema dos angolanos, que o resolverão talvez no dia de São Nunca. Das duas uma: ou é possível condenar o magistrado português sem recurso ao testemunho de um governante angolano ou não é. Se não for, o magistrado segue a sua vida com uma mancha, e que a culpa lhe seja leve. O que não se pode fazer é admitir que magistrados inimputáveis e sem nome (os juízes e os procuradores raramente são nomeados quando os seus actos provocam comoção pública, designando-se pudicamente como "poder judicial" e "magistratura do ministério público" como se fossem entidades abstractas, e não pessoas, a decidir) tomem decisões de política externa à margem do governo e do ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

O actual ministro dos Negócios Estrangeiros é um produto típico do PS, e não se recomenda a nenhum título; e o primeiro-ministro é a conhecida barrica untuosa expelindo vacuidades em português macarrónico, cujo sucesso se deve a golpes de rins, a uma conjugação favorável de factores e à compra dos votos presentes com dívida a pagar no futuro e aldrabices económicas e orçamentais no presente. Mas são eles o governo, e pelo que fazem serão julgados pelo eleitorado em devido tempo.

 

O que o magistrado do ministério público acha ou não acha sobre o que fez ou deixou de fazer um governante angolano em Portugal só seria relevante se as suas (dele, magistrado) decisões e diligências afectassem apenas os directamente envolvidos e não as relações entre os Estados. Se estas podem ser afectadas - e estão a ser - então o interesse nacional está em jogo e quem tem competência para fazer uma adequada ponderação dos interesses em presença é o governo.

 

Espero portanto que a consulta à PGR seja um exercício de cinismo, a ver se se arranja fundamento legal para deixar o ex-governante angolano em paz e fazer sabê-lo discretamente às autoridades locais, com as implícitas garantias de que não serão exercidas retaliações contra portugueses em Angola ou empresas que lá queiram negociar.

 

E para evitar problemas no futuro deve o governo, ou se necessário a Assembleia da República, modificar a legislação pertinente de modo a que aos magistrados não seja permitido comportarem-se, na presença de interesses relevantes na ordem externa, como elefantes numa loja de louça.

 

Quer dizer que este assunto não tem apenas uma dimensão jurídica, mas sobretudo política. Imaginar que algum bem virá, para Angola e Portugal, de se ignorar este segundo lado das coisas, choca com o senso.

 

E é aqui que regressa a Catalunha, sobre a qual abundam textos a explicar que o referendo é ilegal por ofender a Constituição, que lá foi referendada também, e o próprio Estatuto da Região (ainda que na versão modificada pelas Cortes), razão pela qual não é apenas o governo espanhol a colocar entraves, mas também o poder judicial. Textos a explicar isso e os vários oportunismos e jogadas políticas que fizeram trazer para o proscénio um problema latente naquela região (e noutras) mas que até agora não tinha uma importância maior.

 

Querer impôr a Constituição, a vontade dos espanhóis de outras regiões, a do governo legítimo, porventura também a de uma parte não negligenciável da população catalã à qual a ideia do referendo desagrade, e a da União Europeia, que já veio rosnar ameaças, é perfeitamente legal.

 

Legal e estúpido. Porque o problema não é de legalidade, é político. As Cortes espanholas deveriam ter a lucidez de modificar a Constituição, o governo a de defender a mudança, e todos a de explicar sem sobranceria ao eleitorado catalão que nada tem nada a ganhar com a independência. Há na região, provavelmente, uma maioria de pessoas lúcidas que percebem perfeitamente que a independência, para quem historicamente nunca a teve, nem tem um grau de diferenciação do resto da Espanha que faça a compatibilização impossível, nem tem sido objecto de nenhuma forma de discriminação ou bullying, não é mais do que uma bandeira acenada por radicais que querem ter a importância que num contexto maior nunca terão. E que estes não costumam ser os partos de que nascem novos Estados.

 

Pelo que se viu hoje nas notícias, as autoridades já fizeram mais pela "causa" independentista que todos os políticos oportunistas, e cidadãos ingénuos e excitados, que a defendem: a imagem de uma velhota arrastada por quatro polícias, dois a segurar nas pernas e dois nos braços, far-me-ia ranger os dentes, se fosse catalão. Porque a velhota queria votar, e a razão por que a levavam era a de que, se calhar, não leu a Constituição.

 

Os políticos madrilenos estão a agir como magistrados, decerto porque julgam estar a fazer uma correcta avaliação dos seus interesses e talvez porque, universalmente desprezados como são, querem por uma vez por nas costas as asas brancas que a opinião pública, e os próprios magistrados, julga que estes têm.

 

Mas não: quando os magistrados se imaginam políticos, e estes aqueles, o que temos é asneirol. Como se vê em Lisboa e em Madrid, sobre Luanda e Barcelona. Raciocínios cínicos? Sim, sem dúvida, cinismo é o outro nome do realismo.

publicado por José Meireles Graça às 12:48
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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Não sou de confiança

Recebi com moderada satisfação o resultado das eleições na Alemanha, a mesma que já havia sentido com a subida, ainda que inferior ao esperado, de Geert Wilders na Holanda ou a vitória de Trump. O meu agrado medido, e não esfusiante, vem de o AfD não ter conseguido o segundo lugar, que preencheria melhor o que desejo para a Alemanha e a Europa.

 

O AfD foi o partido que mais cresceu, passou do zero em representação parlamentar a terceira força mais votada. E como não compro classificações apressadas de racismo e nazismo dei-me ao trabalho de ir ver o que realmente defende (por exemplo, aqui), a ver se a histeria que, dentro e fora da Alemanha, sublinha o resultado eleitoral, corresponde a alguma preocupação razoável que devamos ter.

 

Há alguns dirigentes que têm sobre o nazismo concepções revisionistas no mínimo equívocas, que o partido oficialmente não subscreve; e pelo menos um já proferiu declarações obscuras que podiam ser interpretadas como traduzindo a ideia de que a condição de negro implica alguma inferioridade genética, que o partido rejeitou.

 

De resto, como será talvez normal num partido recente e com um crescimento explosivo, a liderança é esponjosa e pouco firme, por ser uma coligação de personalidades competitivas de entre as quais não surgiu ainda um líder com autoridade para calar as vozes desalinhadas, coisa que aliás só costuma suceder no poder, como nós, mais do que outros eleitorados, bem sabemos.

 

O partido nasceu por ser contra a moeda única e o federalismo, e manifestou-se duramente contra o apoio à Grécia, antes e mesmo depois do Syriza dar a grande cambalhota que deu e passar a defender a mesma coisa que a direita local defendia. E veio depois, com o insensato abrir de portas à imigração muçulmana, do Oriente Médio e de África, a adoptar a causa anti-imigrantes.

 

Definem-se portanto mais pelo que rejeitam do que pelo que defendem. Daí a consequência de quem, como eu, rejeitar as mesmas coisas, os ver automaticamente com simpatia.

 

Uma simpatia interesseira, digamos assim: que faz tempo que os dirigentes da União contam com uma fuga para a frente, liderada pela Alemanha, para construir uma federação que integre de tal modo os Estados que o abandono seja na prática impossível, garantindo a "legitimidade" e a inamovibilidade da casta apátrida cujo lamentável líder, no "discurso sobre o estado da União", disse sem ambages ao que vinha.

 

De fuga para a frente estamos conversados, mesmo que a chanceler venha a fazer uma coligação que inclua o SPD e o patético Schultz. É como diz a própria chanceler: "Queremos reconquistar os eleitores da AfD, resolver problemas, tendo em consideração as suas preocupações e receios..."

 

E em Portugal, acha-se o quê? Há, que eu veja, cinco grupos:

 

O dos colegas de Juncker, europeístas furiosos que dirão e farão tudo, e o contrário de tudo, para um dia viverem nos Estados Unidos da Europa, de preferência com um lugarzinho ao sol do funcionalismo europeu, ou à sombra de uns subsidiozinhos para promover o investimento, ou a investigação, ou o combate às alterações climáticas, ou qualquer outra coisa, desde que não precise de mercado para sobreviver. Deste grupo faz parte, com diferenças de grau, o governo em peso, e boa parte da oposição do CDS e do PSD, excepto quando pertencem aos grupos seguintes;

 

O dos que quereriam uma Europa diferente, cheia de solidariedade e passarinhos a voar, com os países de contas sãs a deixarem de as ter para compensar os despesistas. É um grupo numeroso, e um bom exemplo desta variedade é Viriato Soromenho Marques, por exemplo aqui, também sobre o mesmo discurso. Dele fazem parte estrelas da comunicação social como Daniel Oliveira ou Pacheco Pereira, este último dependendo de quais foram os últimos autores que leu. E nestas águas navega também o BE, nos dias em que não está ocupado a fracturar a sociedade, a ver se com gesso e cicatrizes faz um homem novo e uma mulher nova, além de vários seres intermédios;

 

O das pessoas sensatas que veem com clareza os vícios do Euro e da União e não conseguem recomendar uma fuga para trás, de cujos problemas recuam com horror, nem defender claramente uma fuga para a frente, cujos perigos não ignoram. O melhor exemplo é Vítor Bento, que se deu ao trabalho de esmiuçar o discurso de Juncker, aqui e aqui;

 

O dos comunistas, que não desejam nem esta União nem nenhuma outra, nem sequer a CEE, mas querem evitar que o barco abane muito para já, ocupados que estão a minar o aparelho de Estado enquanto a geringonça deles depender;

 

O dos interesseiros e medrosos que constatam que o país, fora da intervenção estrangeira que as falências impuseram, é gerido de forma irresponsável. São europeístas por acharem que o nosso eleitor, viciado que está na despesa do Estado que lhes compra a fidelidade, precisa de ser enquadrado pela disciplina do norte da Europa. A este grupo pertence, creio, a maioria dos meus amigos.

 

Então, e eu? Ora aqui é que eles, os meus amigos, se vão rir. De momento, não defendo nada porque há incógnitas. E destas a principal é saber como vai ser o resultado das próximas legislativas e, se a geringonça se desfizer porque o PS dispensa muletas, ou porque o PSD ganhe, o que fará o novo governo.

 

Para já, como é sabido, temos a burra nas couves: o turismo e a retoma nos mercados nossos clientes disfarçam a engorda e a minagem do Estado, o que significa que na próxima crise teremos um Estado e uma dívida pública maior, mesmo que menor em relação ao PIB, para uma economia que nem investe nem tem bancos que não sejam cancros, nem tem poupanças, nem mesmo terá a agilidade que as pequenas empresas vêm demonstrando porque entretanto a comunistada criou os meios para lhes dependurar ao pescoço as pedras que são o seu preço por um sindicalismo bem comportado e uma rua silenciosa.

 

Quem está à espera de uma explosão, que tem por distante mas inevitável, não a precipita se souber que pode, com sorte, estar um pouco mais protegido.

 

Pode ser que o PS perca; e pode ser que, ganhando, a pressão europeia seja menos parecida com a versão Draghi e mais com a da chanceler no tempo em que a viam como um novo Hitler.

 

Donde, afinal, estou com os meus amigos. Não estou mal, mas atenção que não sou de confiança.

publicado por José Meireles Graça às 23:49
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

Family guy

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Ontem, em mais uma acção de rua da campanha eleitoral da candidatura que integro, em que paramos para conversar com todas as pessoas que conversam connosco quando as cumprimentamos e lhes distribuimos um prospecto informativo da candidatura ou simplesmente quando vêem que estamos a fazer uma campanha eleitoral e nos interpelam espontaneamente, veio à conversa connosco um eleitor habitual do PNR.

[Para os que não sabem, filiei-me no PSD a seguir às eleições de Outubro de 2015, no dia em que percebi que o golpe constitucional do António Costa com o BE e o PCP seria juridicamente blindado e que sustê-lo forçando um governo formado por quem ganhou as eleições seria politicamente insustentável, com chumbos no parlamento que paralizariam a governação, e quando fui convidado por pessoas íntegras, trabalhadoras e capazes para integrar a lista de candidatos da coligação PSD/CDS à Junta de Freguesia da Venteira, concelho da Amadora, não fui nem seria capaz de dizer que não.]

Não é nenhum cabeça rapada dos que vão para o Bairro Alto agredir africanos pacíficos. É um pai de família, deve andar por volta dos quarenta, trabalhador que se pode designar de operário especializado, com um discurso de conservador, de pessoa que respeita princípios como o trabalho a família e a decência, chamemos-lhe assim porque honra é um termo em desuso. E é natural de Rio Maior, se bem que more e vote na Amadora, e, sendo demasiado jovem para ter vivido o PREC em Rio Maior, tem bem presentes os testemunhos da família sobre o que fizeram, e para resistir a quê, os Riomaiorenses.

E anda chateado.

Anda chateado com o milagre da reposição de rendimentos a quem nunca os chegou a perder, porque nunca teve sequer que se interrogar se num fim de mês qualquer chegaria a receber o salário, ele, que nunca chegou a perder o emprego mas, no pico da crise, chegou a estar três meses sem receber porque a empresa para quem trabalha não tinha dinheiro para pagar salários.

E sobre políticas de rendimentos tem ideias tão claras e cristalinas como qualquer catedrático de Economia que mereça o título que detém. Tem bem claro que austeridade não é uma opção que se toma para fazer mal às pessoas, mas o estado natural quando se acaba o dinheiro. Tem bem claro que a austeridade em Portugal não resultou da má vontade das autoridades europeias, mas do facto de o governo anterior ter estoirado o dinheiro até ao fim e de nos ter colocado à mercê das condições impostas por quem esteve disposto a resolver-nos esse problema emprestando-nos dinheiro que mais ninguém emprestava. Tem bem claro que os cortes de rendimentos resguardaram na medida do possível as pessoas de rendimentos mais baixos e foram violentos essencialmente para pessoas de rendimentos altos ou muito altos, mas de emprego e rendimento garantido todos os fins de mês, e tem bem claro que são estes os maiores beneficiários da reposição de rendimentos. Se um dia houver uma subscrição pública para financiar a construção de uma estátua ao Pedro Passos Coelho pelo modo como salvou Portugal da bancarrota, ele contribuirá na medida das suas possibilidades sem a mais pequena dúvida.

Anda chateado com os grevistas da Autoeuropa que, usufruindo de salários e regalias que mais nenhuns operários usufruem em Portugal, a começar por ele próprio, e acomodados a usufruirem deles em toda a segurança apenas por lá estarem e sem terem que dar o litro para os merecerem, querem recusar adaptar os seus horários de trabalho às necessidades de sucesso e mesmo de sobrevivência futura da empresa, mesmo que essa adaptação implique receberem substancialmente mais sem aumentarem o horário de trabalho.

Anda chateado com o CDS, o seu partido natural de voto alternativo ao PNR, por ter desfeito a coligação em Loures por causa de o candidato do PSD André Ventura ter feito afirmações que ele considera de mera constatação da realidade e de apelo ao cumprimento da lei, ele e a maioria das pessoas, até eleitores do BE, inquiridas numa sondagem de opinião.

Anda chateado por ver perseguidas pelas autoridades e mesmo criminalizadas opiniões que ele tem e que considera tão legítimas e respeitáveis como as opiniões opostas que tendencialmente têm vindo a ganhar terreno como únicas o obrigatórias, como, por exemplo, as do comentador que disse que não queria as bloquistas para casar, nem dadas, ou as do André Ventura sobre a impunidade de facto que é tolerada aos membros da comunidade cigana que não cumprem a lei.

Anda chateado porque sente que a sociedade, empurrada por uma pequeníssima elite minoritária que sempre teve tudo sem conquistar nada e é desproporcionalmente acolhida, acarinhada e exibida na comunicação social, e com uma capacidade de intervenção política ainda ampliada pela configuração actual da base de sustentação do governo, anda a ignorar, encurralar e perseguir gente como ele que, em bom Português, se pode designar como a regular, decent, working, God believing, family guy.

Anda chateado, e com razão.

Da conversa connosco resultou ele ter acabado por afirmar que votaria na coligação PSD/CDS nas eleições autárquicas do dia 1 de Outubro, ficando cá nesse fim-de-semana em de o ir passar à sua amada terra. Não por ter assumido que estava a falar com racistas, xenófobos, sexistas, homofóbicos, nacionalistas ou adeptos da ditadura, os lugares-comuns que a opinião pública dominante politicamente correcta cola automaticamente a qualquer eleitor habitual do PNR sem sequer procurar saber o que ele pensa, mas simplesmente por ter sido escutado com atenção e respeito, e acordo naquilo que suscitou acordo em quem falou com ele.

E da conversa com ele resultou também uma certeza. Gente mais do que normal que se anda a sentir ignorada, encurralada e mesmo perseguida por uma sociedade manipulada por elites minoritárias com quem a esmagadora maioria da sociedade nem sequer se identifica, se não se vir minimamente escutada e respeitada pelos partidos do sistema, quer por lhes ignorarem as preocupações, quer por simplesmente os ambicionarem erradicar, vira-se para os partidos dos extremismos, que se apercebem da sua existência e do seu descontentamento, quando não medo, e se posicionam com oportunismo em posição de o canalizar para conquistarem um poder que depois não têm competência nem capacidade para exercer. Gente mais do que normal, repito.

E eu, que não sou trumpófilo, nem sequer moderado, gostava que a estupidez dos extremistas do politicamente correcto que, por trás de uma fachada de luta pelo direito à diferença andam de facto a lutar pela imposição de ser igual, fosse moderada, em vez de encorajada por oportunismo político, pelo bom-senso dos moderados, pelo menos dos que o têm, que no PS parecem escassear cada vez mais, mas no PSD e no CDS deviam ser mais assertivos do que têm sido, para não parecerem menos representativos do que são.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 13:50
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

Vai morrer, ó velha!

2017-09-20 Vai morrer ó velha.jpg

Um grupo de jovens da Juventude Socialista filmou, e depois apareceu publicado nas redes sociais, um vídeo durante uma acção de campanha da candidatura do PS às eleições autárquicas do município de Penafiel em que, do andar de cima de um autocarro sem tampa, e ao passar por uma senhora de idade que agitava uma bandeira partidária de outro partido, talvez do CDS? um dos jovens socialistas lhe gritou, como informam os jornais,

  • "Vai morrer, ó velha... PS! PS! PS! Vai-te fo***, velha do car****! Havia de te dar um ataque!",

que eu estou em condições de transcrever para a afirmação real "Vai morrer, ó velha... PS! PS! PS! Vai-te foder, velha do caralho! Havia de te dar um ataque!". Num aparte, curiosamente não encontrei a notícia no Público, certamente por não ter sido suficientemente diligente na pesquisa.

A Juventude Socialista varreu o assunto para debaixo do tapete com um comunicado em que condenou a atitude imprópria e irreflectida do jovem e apresentou um pedido de desculpas à visada e à comunidade penafidelense, e ao mesmo tempo condenou a publicação do vídeo através "de um perfil falso", o que explica ser o "expediente habitual para fazer campanha suja". Condenou os excessos da irreverência generosa da juventude, mas também a maldade da mão que sai detrás do arbusto, nas palavras sábias de um anterior primeiro-ministro de Portugal, que os expôs publicamente. Tudo está bem quando acaba bem.

Mas estará tudo bem?

"Vai morrer, ó velha!" é quase um mimo comparado com as boçalidades que se lêem regularmente nas redes sociais, com as que são publicadas, moderadas por alguma prudência e muitas vezes disfarçadas de exercício de humor, na comunicação social, onde se encontram regularmente apelos à morte de pessoas e até sugestões de soluções para a concretizar, como contratar um pistoleiro do cinema para as balear nos testículos, e até com alguma propaganda partidária, onde o apelo à morte, neste caso de traidores, assume traços heróicos e patrióticos que o tornam, mais do que uma possibilidade, um imperativo cívico.

Esta radicalização do discurso e banalização do apelo à morte por parte de estratos sociais antes aparentemente civilizados verifica-se principalmente desde o início da legislatura anterior, quando foi preciso recorrer a soluções muito penosas para muita gente para tentar, e acabar por conseguir, mas não era nada evidente para muita gente que se conseguisse e, para alguma, era mesmo evidente que não se conseguiria, retirar Portugal do lixo, não no sentido que atribuem ao termo as agências de notação quando a dívida soberana é de duvidoso reembolso, mas no da falência e do risco iminente de desmoronamento do Estado e da sociedade que o anterior governo socialista tinha conseguido provocar.

E é mais do que reforçado pelos modos brutais que o próprio primeiro-ministro usa quando se dirige à oposição, quer em intervenções públicas, quer em entrevistas, quer, ainda mais claramente, no próprio parlamento a que presta contas da actividade do governo.

As coisas são o que são, e a radicalização progressiva das relações entre forças políticas diferentes que se tem observado, não circunstancialmente, mas como um movimento estruturado e objectivado, e se traduz, já, num crescente apelo à violência, para já verbal, resultará no que resultar e eu não sei prever.

Mas, no passado, nunca resultou em coisa boa e resultou frequentemente em fascismos. E, curiosamente, mais vezes em fascismos de direita do que em fascismos de esquerda, ou socialismos, o que não indicia grande inteligência de quem a promove à esquerda. Mas longe vão os tempos em que toda a inteligência e cultura, e já agora moralidade, se encontravam na esquerda, e toda a direita era estúpida, pelo menos até ter aparecido um centrista a quem era concedido, excepcionalmente e sem constituir exemplo, o benefício de ser considerado inteligente, o saudoso Francisco Lucas Pires. Inteligente e nunca radical, acrescento eu. De modo que ver a esquerda a ser pouco inteligente na radicalização e no apelo à violência não é novidade nenhuma nos tempos que correm, em que alguma falta de inteligência é um grande activo para se conseguir acreditar nas quimeras que ela promete e os enganos com que mascara a realidade para ir parecendo que as está a conseguir criar.

Mas, mesmo sem ser capaz de prever para onde nos levará esta radicalização, uma coisa, ou duas, posso, até eu, anónimo desinformado, concluir.

Quando um comentador que nasceu na esquerda radical, depois se integrou no PSD que o encheu de honras e prebendas e onde se tornou até um liberal radical que colocava em causa a própria existência do estado social europeu, e quando o PSD deixou de lhe dar a importância que acha que merece não se desligou da filiação do partido mas regressou a um estilo de intervenção pública de social democrata radical que voltou a deliciar a esquerda radical de onde saltara para a direita que hoje apelida de radical, diz que esta radicalização da vida política através de "citações falsas ou manipuladas, boatos, calúnias e insultos" é "um fenómeno novo e não adianta dizer que o mesmo existe à esquerda, porque não é verdade", mente.

E quando um político hoje em dia baseia o seu populismo na descrispação por que finge lutar e que se gaba de ter conseguido está simplesmente a aldrabar o país.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:23
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

A bolsa ou a dívida

O ministro das Finanças, que habitualmente tem exibido alguma propensão para o auto-elogio, teve uma reacção surpreendentemente moderada ao aumento da notação atribuída pela Standard & Poor's à dívida pública portuguesa de BB+ para BBB-, ou seja, acima de lixo, quando recomendou pragmatismo ao optimismo devido à circunstância de a dívida pública portuguesa permanecer a quarta maior do mundo.

No momento chegou a parecer que a moderação do comentário tinha a intenção de evitar que a euforia causada nos partidos da esquerda pelo aumento da notação os encorajasse a aumentarem também as suas exigências para aprovarem o OE 2018, um reforço ao célebre discurso do primeiro ministro sobre o passo maior que a perna.

Mas logo no dia seguinte a gabarolice voltou, e percebeu-se que a chamada de atenção para a dimensão da dívida tinha sido apenas um teaser para a promessa de fazer em 2017 uma redução de dívida de proporções históricas, que se vai já iniciar em Outubro com um reembolso de 6 mil milhões de euros, que quase faz esquecer que a dívida pública aumentou 17,6 mil milhões de euros nos 20 meses desde que o governo tomou posse até ao final de Julho deste ano, a um ritmo espantoso de 880 milhões por mês. Quase.

E, de facto, reduzir a dívida em 6 mil milhões de euros apenas num mês parece uma excelente notícia. Parece, mas não é, porque a redução não representa nenhum enriquecimento nem empobrecimento do país.

Porquê?

[Agora vou pedir aos muitos leitores que percebem disto muito mais do que eu alguma paciência enquanto explico aos que percebem ainda menos do que eu.

Se eu tiver 1.000 euros no banco e pedir emprestados mais 1.000 fico mais rico ou mais pobre? Não fico mais rico nem mais pobre, fico com mais 1.000 euros no banco do que tinha mas fico a dever mais 1.000 do que devia, ou seja, se decidir reembolsar a dívida que contraí agora ficarei de novo com os 1.000 euros iniciais. E se tiver 1.000 euros no banco e uma dívida de 5.000 e amortizar 1.000 euros da dívida fico mais rico, ou mais pobre? Nem uma coisa nem outra, fico também na mesma. Não é o montante que eu tenho no banco que define a minha riqueza, ou eu teria enriquecido quando contraí o empréstimo e empobrecido quando o liquidei, nem o que eu devo, ou eu teria empobrecido quando contraí o empréstimo por aumentar a dívida e enriquecido quando o reembolsei por reduzi-la, mas a subtracção do que devo ao que tenho. Para a mesma dívida sou mais rico se tiver mais dinheiro no banco, para o mesmo dinheiro sou mais rico se dever menos. Isto é assim comigo e, por mais que alguns economistas tentem apelar a que as pessoas não tentem perceber as finanças públicas e deleguem a sua análise aos peritos por serem muito mais complexas que as finanças domésticas, é assim com as nações.

E agora os que percebem de finanças públicas mais do que eu podem voltar à leitura.]

Porque a medida correcta das nossas responsabilidades não é o volume da dívida, mas a dívida líquida dos depósitos, ou seja, aquilo que ainda teremos para pagar se decidirmos usar todo o dinheiro que temos disponível para amortizar dívida. E quando reembolsamos 6 mil milhões de euros de dívida reduzimos o volume da dívida mas também reduzimos exactamente no mesmo valor o montante que temos em depósitos. Ficamos na mesma.

E como tem evoluído a dívida na óptica de Maastricht líquida de depósitos da administração central?

Dívida Líquida Depósitos 2015-01 a 2017-07.jpg

Tem evoluído muito bem.

De Janeiro a Novembro de 2015, enquanto fomos desgovernados pelos neoliberais do governo Passos Coelho, cresceu 5,5 mil milhões de euros, cerca de 500 milhões por mês. Depois de em 2014 e 2013 ter crescido ao ritmo de 570 milhões por mês, e em 2012 e 2011, os anos da falência, um pouco acima dos mil milhões. E em 2010, com os socialistas ao leme do governo, ter crescido ao ritmo de 2,150 mil milhões por mês. Os luxos pagam-se caros.

Desde que o governo actual iniciou a pequena revolução de rigor financeiro que nos acabou por tirar do lixo, até ao final de Julho a dívida líquida de depósitos cresceu 16,3 mil milhões, ao ritmo de 815 milhões por mês. Ao longo de 2016 cresceu 5,5 mil milhões de euros, ao ritmo de 462 milhões por mês, e desde o início deste ano cresceu 6,4 mil milhões, ao ritmo de 915 milhões por mês. E em Outubro? Em Outubro, o reembolso vai abater em 6 mil milhões a dívida, e nos mesmo 6 mil milhões os depósitos movimentados para a reembolsar, de modo que, do reembolso, a dívida líquida de depósitos não se vai alterar num cêntimo, e alterar-se-á apenas, e como é normal, na medida em que os gastos forem superiores às receitas, ou seja, se houver deficit, o que a fará aumentar, ou se as receitas ultrapassarem os gastos, ou seja, se houver excedente, o que a fará reduzir. É tão simples como seria na casa de qualquer um de nós, desde que estivesse estupidamente endividado.

Já percebemos que a gabarolice de reduzir a dívida em 2017 pode impressionar os incautos mas é uma aldrabice porque, ainda que se venha a verificar, pelo menos em % do PIB, já que em termos absolutos em euros parece muito improvável que se reduza, não representa qualquer redução das nossas responsabilidades com os credores líquidas das nossas disponibilidades para as respeitar.

E percebemos também que, no último ano do governo anterior, e depois de três anos e meio de esforço insano e impopular que constituiu aparentemente um suicídio político, os gastos com o Estado, para além do que lhe pagávamos nos impostos, nos empobreciam ainda em aumento das responsabilidades líquidas com os credores ao ritmo de 500 milhões de euros por mês, o que já dava uma soma mensal catita de 50 euros por cidadão, ou 150 euros cá em casa, e com o governo actual, aparentemente a ressurreição política da abundância e dos afectos, andamos a empobrecer para além do que pagamos em impostos ao ritmo de 815 milhões por mês, ou 81,5 euros mensais por cada um de nós, 250 cá em casa, em números redondos.

Mas não devemos ter motivos para grande preocupação, porque o deficit está a ser controlado pelo governo a níveis historicamente baixos, pois não?

[Vamos voltar às finanças de dona de casa, mas desta vez podem ficar a ler mesmo os que percebem de finanças muito mais do que eu.]

Ter deficit elevado, ou seja, gastar mais do que se ganha, é bom ou é mau? O mero bom senso responde que é mau, apesar de haver linhas de pensamento económico, mesmo na academia, mesmo entre reputados catedráticos de economia, que defendem que é bom, porque acreditam na existência de multiplicadores mágicos que fazem a economia crescer muito mais do que o dinheiro que lhe é injectado pelo deficit. Mas, sem recorrer ao pensamento mágico, o deficit é mau, porque para o pagar é necessário recorrer ao crédito, que no futuro terá que ser pago. Mas é mau essencialmente, ou até exclusivamente, por isso. Se alguém nos oferecesse dinheiro para financiar o deficit ou nos pagasse a dívida, o deficit seria óptimo. Permitiria levar vida de rico sendo pobre, e, com excepção de alguns milionários que gostam de brincar aos pobrezinhos nas férias, é melhor levar vida de rico do que vida de pobre. O deficit não é um problema em si, o problema é termos que o pagar.

E ter dívida elevada, ou dívida líquida das disponibilidades, é bom ou é mau? É mau, porque nós, ou alguém por nós, terá que a pagar, e ser expropriado da sua liberdade de usar como entende o dinheiro que ganha para ser forçado a usá-lo num montante determinado por nós como nós entendemos. É uma pesada herança, uma autêntica pulhice inter-geracional, gastarmos mais do que ganhamos à custa de forçar alguém a ter para gastar menos do que ganha. Mas fechemos o parêntesis dos considerandos morais, que raramente ajudam a analisar e resolver os problemas, e fiquemos por ser mau ter dívida elevada.

E, sendo mau ter dívida elevada, mas agradável ter deficits elevados, por que razão seguimos com muito mais atenção o deficit do que a dívida? Porque o deficit é uma boa medida da evolução da dívida. Para ser mais preciso, a diferença entre o que se paga e o que se recebe é aritmeticamente igual à variação da dívida líquida de depósitos, asserção matemática que me vou escusar de demonstrar mas podem tomar por boa. Melhor ainda, enquanto a evolução da dívida resulta das necessidades de financiamento do deficit, o deficit resulta directamente de decisões que se podem parcialmente gerir. É possível determinar, pelo menos parcialmente, onde e quanto se gasta e quanto se paga, e é possível determinar, pelo menos parcialmente, através da fiscalidade, quanto se recebe. Tudo junto, sendo uma boa medida da evolução da dívida, que constitui a nossa responsabilidade real, e sendo directamente gerível, tem todo o sentido seguir com toda a atenção o deficit.

Mas se o deficit é uma boa medida da evolução da dívida, porque razão é que o ritmo de aumento da dívida líquida de impostos tem disparado ao mesmo tempo que o deficit tem diminuído para mínimos históricos? Porque é que a evoluções de montante semelhante da dívida líquida de impostos entre Janeiro e Novembro de 2015 e em 2016 corresponderam deficits tão diferentes de cerca de 3% e de 2%, repectivamente? Porque é que este ano, em que se espera um deficit de 1,5%, ou seja, cerca de 3 mil milhões de euros, a dívida líquida de impostos já aumentou em sete meses mais do dobro desse valor? O Joaquim Sarmento tem feito pesquisa nesse domínio para perceber a diferença acentuada entre valores que deviam ser aproximados, acabou mesmo de publicar o capítulo O que se Passa com a Dívida Pública? dedicado a este tema na Nota de Conjuntura de Agosto de 2017 do Forum para a Competitividade, nomeadamente para avaliar a existência de buracos negros nas contas, e chegou à conclusão que é improvável que existam, pelo que a diferença se deve ao facto de o deficit contabilístico ser apurado nos termos de critérios que o afastam muito significativamente da mera diferença entre as despesas e as receitas que determina, essa sim, a evolução da dívida líquida de depósitos. E o grosso da diferença está na contabilização ou não contabilização dos resgates nos bancos, que aliás tem sido manipulada pelo governo para parecer que está a gerir com rigor, ao não incluir no deficit o que fez este ano na CGD, e que o governo anterior geriu sem rigor, ao ter prescindido de retirar do deficit o que também ele próprio fez no Banif no final de 2015, elevando a 4,4% o deficit desse ano que, sem o resgate, ou com ele fora do deficit, teria já sido inferior a 3% e permitido a saída de Portugal do procedimento por deficits excessivos. Assim, conseguiu ser ele a receber o mérito dessa retirada, pequena vigarice que até é quase benigna num governo vigarista por sistema que governa por focus groups.

Pelo que a resposta à pergunta anterior é sim, devemos ter motivos para grande preocupação apesar de o deficit estar a ser controlado pelo governo a níveis historicamente baixos, porque a dívida líquida de impostos, aquilo que nos compromete e às gerações futuras, está a voltar a crescer a níveis historicamente preocupantes.

E a lição que se tira disto tudo é que incentivos errados fomentam comportamentos indesejáveis.

Tal como um sistema de incentivos à rede de vendas de uma empresa baseados no volume de vendas estimula os vendedores a procurarem vender a preços o mais reduzidos que consigam, até abaixo do custo, resultando em reduções da margem de vendas ou até em vendas com prejuízo, enquanto um sistema de incentivos baseado na margem de venda os estimula a maximizarem o lucro da empresa, o hábito e a cultura de avaliar a execução orçamental com base no deficit contabilístico em vez de a avaliar com base na evolução da dívida permite aos governos fazerem um brilharete com deficits historicamente baixos ao mesmo tempo que nos arruinam e às gerações futuras com dívida historicamente elevada.

Se queremos deixar de ser enganados por governantes demagogos como os actuais, e até promover a sua substituição por governantes sérios, que também os há, é imperativo passarmos a seguir com mais atenção a evolução da dívida líquida de depósitos e a atribuir ao deficit contabilístico a importância relativa que realmente tem.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:23
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Quinta-feira, 14 de Setembro de 2017

Para acabar de vez com o direito à greve

2017-09-14 PSD nunca mais - Ana Cavaco.jpg

Enquanto vamos no caminho para o socialismo, o direito à greve é sagrado e consagrado na Constituição, até porque as greves são uma importante arma de combate político, sendo que geralmente são boas, as que são convocadas para combater a direita, mas há uma minoria de perversas, as que são instrumentalizadas pela direita.

E ao chegar ao socialismo? Ao chegar ao socialismo os direitos dos trabalhadores estão assegurados por definição, ou pelo menos o direito mais fundamental deles todos, o de viver em socialismo, e só pode haver greves se forem instrumentalizadas pela direita. Os socialismos reais, os que ao longo dos últimos 100 anos existiram e existem no mundo real, resolveram o problema partindo os dentes à reacção, ou seja, proibindo as greves.

Mas, dizem-nos os guias desta nossa viagem a caminho do socialismo, os socialismos reais não foram nem são realmente socialismos, foram e são regimes que até podem ter começado por uma revolução socialista, alguns com estimulantes banhos de sangue que partiram os dentes à reacção, mas que depois degeneraram e se transformaram em sistemas de capitalismo de estado, ou ditaduras, ou cleptocracias. Aquilo em que se tornaram, e o modo como lidam e lidaram com os direitos e liberdades burgueses, como lhes chamava o teórico da coisa Álvaro Cunhal num raro momento de transparência sobre o seu pensamento político, não são representativos do que podemos esperar de um socialismo autêntico, mas dos desvios ao socialismo a que essas experiências foram sujeitas, nalguns casos por desvio da linha justa dos líderes, na grande maioria por pressão do imperialismo americano do Tio Sam, que como toda a gente sabe é sempre responsável pelos desvios e desmandos dos socialismos. De onde, não podemos extrair da proibição da greve nos socialismos reais a previsão do que acontecerá ao direito à greve no socialismo autêntico que nos espera no amanhã que canta.

O que fazer então para antever com alguma probabilidade de acerto o que acontecerá no futuro ao direito à greve? O melhor preditor disponível é a posição dos socialistas que temos na realidade, porque são eles que nos estão a conduzir neste caminho para o socialismo e a determinar para que socialismo é que nos vamos finalmente dirigir. E o contexto histórico actual, em que estão imbuídos de alguma euforia por terem finalmente visto a revolução retomar o caminho do socialismo depois de quase 40 anos de desvios reaccionários e, mais recentemente, neoliberais, é propício a que se libertem e exprimam mais livremente do que antes o que trazem na alma e recalcavam. Um bocado como aconteceu quando, extinta a censura, o povo invadiu em massa as salas de cinema portuguesas para ver um certo filme agora datado mas com uma belíssima banda sonora do saxofonista argentino Gato Barbieri.

E o que dizem eles das greves que não são convocadas por eles próprios? Que são convocadas por tresloucadas que integram orgãos dirigentes do Partido dos tachos, das cunhas e das negociatas para os amigos, integrado numa reputada organização de malfeitores que em Portugal adoptou a firma de PàFia.

A mensagem é muito feliz na forma, porque recorre à palavra de ordem, um dos meios mais eficazes para interiorizar através de métodos mecânicos convicções nos pobres de espírito a quem se dirige. Mas é também particularmente feliz no conteúdo. Informa que as greves instrumentalizadas pela direita são convocadas por tresloucadas, gente que se enquadraria muito bem nos programas de reeducação desenhados pela psiquiatria soviética para recuperar os contra-revolucionários e outros atralhos que não compreendiam as virtudes do socialismo, por vezes libertando-os do fardo da vida, frequentemente acompanhados de toda a família e amigos que podiam ter estado expostos a essa doença terrível e contagiosa, a dúvida. Informa que o partido onde elas militam está infestado de boys for the jobs e corruptos, informação de utilidade suprema num contexto em que, certamente por manipulação dos media pelo patronato capitalista que os controla, chega a parecer que é outro partido que detém confortavelmente a palma nesse domínio. E informa que os partidos da reacção estão ligados por uma associação criminosa. Tudo clarinho e bem explicado, e com o poder de síntese notável que a palavra de ordem confere ao discurso.

O que nos assegura que estamos em boas mãos. Se queremos acabar de vez com o direito à greve não temos mais do que acelerar o caminho para o socialismo que os nossos, da democracia portuguesa, esclareça-se, pais fundadores nos deixaram escrito a pedra no preâmbulo da Constuição.

Boa viagem!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 12:05
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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017

Cartão do não-cidadão

Sempre sob o título "Admirável mundo novo" escrevi em 2012 uma série de posts respeitantes à saga da obtenção do cartão de cidadão, o retrocesso civilizacional que representa, os perigos que comporta e o desprezo que deveriam merecer os governantes que o inventaram e o mantêm.

 

O maldito cartão caducou, e hoje fui renová-lo. Como decorreu tal operação é o que se conta no e-mail que enviei há minutos, na sequência da forma como correu a operação, ao endereço que encontrei, com dificuldade, no site respectivo, e que abaixo transcrevo.

 

Exmos. Senhores:

 

Apercebi-me ontem de que o meu cartão de cidadão (nº xxxxxxxx) estava caducado desde 28 de Agosto. O cartão em causa, que como sabem está recheado de informações que só têm utilidade para um Estado intrusivo, abusador e a caminho de totalitário, não tem data de emissão. A sensação que tinha era a de que desde apenas há uns três anos era portador daquele infeliz documento. Consultados os meus registos, porém, tinha-o "requerido" em 2012. Passados os 60 o tempo acelera, realidade que se houver por aí algum funcionário que tenha poucos cabelos, e brancos, poderá atestar.

 

Sabia que o legislador, que é como se designa em legalês o político que com engenho inventa maneiras de extorquir recursos ao cidadão que imprudentemente o elege, havia fixado um prazo curto de vigência, com o evidente propósito, no caso de cidadãos da minha idade, de criar uma receita periódica que não possa ser considerada "imposto". Manobra que nada tem de original ou surpreendente, coisa semelhante se passou com as cartas de condução.

 

Mesmo porém que a minha idade explique o esquecimento, decerto grave a olhos de burocratas, não resisto, um tanto a despropósito mas com o intuito de sossegar alguma alma mais sensível, a esclarecer que o resto da minha saúde, incluindo aspectos o mais íntimos, se encontra em perfeitas condições.

 

Dirigi-me assim hoje à repartição onde há anos o havia obtido, por volta das 15 horas, com o intuito de renovar o cartãozinho, sem cuja existência dentro do prazo de validade não posso conduzir nem, a bem dizer, dar um passo fora da porta sem correr o risco de um polícia mais zeloso, ou mais apreciador de filmes de acção americanos, utilizar os poderes que uma litania de ministros da administração interna mentecaptos lhe concedeu e me deter sob a alegação de ter dúvidas de eu ser quem sou.

 

Navegando na multidão encontrei a máquina que emite os bilhetes que ordenam e distribuem os "utentes" pelos balcões, cujo monitor informava que estava suspensa a emissão de senhas, visto que não seriam possíveis mais atendimentos até ao fim do expediente (16H00, salvo erro).

 

Como porém circunvagasse os olhos pelo estabelecimento, decorado em cores alegres e com televisores a piscar por todo o lado, dei com um aviso a informar que era possível via internet ou telefonicamente marcar uma hora de atendimento, para evitar filas.

 

Foi o que logo fiz, para o nº 211 950 500. E uma simpática senhora, que se apresentou mas cujo nome não retive, começou por perguntar donde eu falava. Inteirada que era de Guimarães, aproveitou para reclamar de um café que lhe serviram nestas paragens, num copo de plástico.

 

Embirro com cafés servidos em copos de plástico e por isso, para além de inquirir se tinha, como devia, reclamado, formulei votos - sinceros - de que da próxima vez lhe servissem um café decente. Quanto à substância do meu telefonema tinha a informar que a data possível mais próxima era 4 de Outubro.

 

Disse mansamente que precisava de conduzir e portanto pedi me indicasse um serviço alternativo. Foi o que prestimosamente fez, sugerindo o Registo Civil, sito à rua da Ramada.

 

Nado e criado na cidade, nunca tal nome ouvira. Regressei ao automóvel, aparcado não muito longe num dos espaços que agora se encontram com facilidade por serem pagos a preços mafiosos, e introduzi o nome da rua no GPS, para descobrir com gosto que estava apenas a 2,5 minutos.

 

Iniciada a marcha, o milagroso aparelho conduziu-me, depois de um brevíssimo circuito para apreciar uma zona não particularmente atraente (e que de resto conhecia desde o tempo, em miúdo, em que não havia ainda sido destruída pela autarquia e os arquitectos locais) ao mesmo sítio de onde saíra, a pé, pouco antes.

 

Emiti para os meus botões algumas imprecações que, por respeito aos costumes, poupo a VV. Ex.ªs. E tenho orgulho em informar que, fora isso e um ligeiro tremor no olho esquerdo, quem quer que me encarasse veria um cidadão cordato, respeitador da autoridade em geral, do actual governo em particular, e dentro deste sobretudo a senhora secretária de Estado da reforma administrativa, com a qual teria o maior gosto em trocar umas impressões, com vista ao aprimoramento do seu múnus.

 

Seria o momento de colocar uma apreciável quantidade de questões a VV. Ex.ªs; e, dada a minha condição de empresário e gestor, algumas sugestões para acabar de vez com este problema, sem todavia passar por castigos corporais que o nosso adiantado estado civilizacional ultrapassou, de mais a mais para réus cujos crimes são apenas a preguiça e a estupidez.

 

Não querendo porém maçar, pergunto: há alguma maneira de resolver o meu problema em tempo útil?

 

Ficando a aguardar notícias, apresento os meus cumprimentos.

 

José xxxxx xxxxxxxx xx Meireles Graça.

publicado por José Meireles Graça às 21:47
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Terça-feira, 12 de Setembro de 2017

Virar à direita

João Marques de Almeida escreveu um artigo a defender uma tese extraordinária: "Será uma questão de tempo até as esquerdas começarem a atacar Marcelo por ser um Presidente de direita. E, nessa altura, as direitas terão que o defender, apesar das divergências actuais".

 

E por que razão as esquerdas não o fizeram até agora, se o autor dá como adquirido que Marcelo é um Presidente de direita? A resposta é óbvia: porque convém ao PS não hostilizar o Presidente porque não ganharia nada com isso; porque não houve até agora nada, absolutamente nada, de essencial na acção política do Presidente que contrariasse os interesses da geringonça, lhe sapasse (a ela, à geringonça) a propaganda, lhe evidenciasse as contradições e manifestasse ao menos alguma desconfiança pela conversão do PCP à democracia burguesa, cuja defesa faz parte do código genético do PSD; e porque, convindo ao PCP e ao BE não hostilizar excessivamente o PS para garantirem a sua quota no bolo do poder, estendem essa tolerância interesseira, naturalmente, a uma presidência que tem protegido a geringonça com mais eficácia, se possível, do que a que seria assegurada por Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa.

 

Mesmo que no futuro as coisas venham a mudar, e mudar elas vão, cabe perguntar que propósito serve esta admoestação à oposição, que esconde mal não morrer de amores por este presidente. Vejamos o desenvolvimento da argumentação do autor:

 

"Marcelo Rebelo de Sousa é um político de direita dos pés à cabeça. Diria mesmo que está de certo modo mais à direita do que o seu antecessor, Cavaco Silva, e do que o actual líder do PSD, Passos Coelho. De uma família das elites dirigentes do Estado Novo, o Presidente recebeu uma educação de direita. Foi educado nos valores católicos, patriotas, da ordem e da autoridade. O que não aconteceu com Cavaco nem com Passos Coelho. Mesmo sem o 25 de Abril, o seu destino seria uma vida política de sucesso no antigo regime. Nunca se lhe conheceram simpatias socialistas ou actividades de oposição ao Estado Novo. Estava confortável no Portugal em que nasceu e em que foi educado".

 

É verdade que Marcelo teria tido uma vida política de sucesso no antigo regime, não fora a Abrilada. Mas daí tanto se pode concluir que era um homem de direita como que era um homem da Situação. A história que se conta (e que não estou certo de que seja verdadeira, nem importa porque casa bem com a personagem, de que trotava atrás de Caetano na Universidade lisonjeando incansavelmente a vaidade do Professor - um graxista, em suma) é uma vinheta da sua personalidade: há que agradar a quem manda. E tudo, absolutamente tudo, no percurso de Marcelo, evidencia que é genuinamente um homem que quer agradar a quem manda. Quem manda desde o estabelecimento da democracia é a opinião: a pública, que por sua vez é em boa parte moldada pela publicada. E portanto o homem anseia desde sempre agradar às duas.

 

Comunista, em qualquer das variantes, não é nem nunca foi, o que evidentemente não chega para qualificar ninguém como de direita. E foi do PSD porque farejou com alguma razão que o partido tinha futuro, o trajecto lhe era mais fácil com gente que conhecia de outras andanças, e no CDS a dissociação do seu passado de pessoa demasiado próxima do regime deposto seria mais trabalhosa. Fazer carreira política na democracia implica pertencer a partidos: na primeira hora escolheu o mais conveniente. Processo de intenção meu, claro; e processo de intenção também de quem tenha opinião diferente.

 

Não creio que Cavaco, e disso deu abundantes sinais, coonestasse sem estrebuchar a aliança com comunistas; não me parece que visse com tolerância as manobras orçamentais e financeiras de Centeno, patentemente aldrabonas; e não acho que Passos nutra por Marcelo a evidente antipatia que tem, aliás recíproca, por estar mais à esquerda do que Marcelo - semelhante alegação desafia os factos e o senso. Aliás, Passos é um obstáculo a uma futura coligação com Costa, que justamente abomina, e Marcelo não abomina ninguém, apreciando as águas turvas do consenso. Dizer-se que Marcelo "de certo modo" está mais à direita do que os dois só pode aceitar-se se se achar que ser muito católico, ir à missinha, e ter em tempos sido um moço recebido com simpatia nas casas dos próceres do antigo regime, traça uma marca indelével de direita.

 

"Todavia, Rebelo de Sousa nunca foi um homem de afirmar as suas identidades ideológicas. Nesse sentido, tem sentido um constrangimento claro em afirmar a sua identidade política, tal como as principais figuras da direita portuguesa. Grande parte da direita em Portugal ainda carrega o fardo do Estado Novo".

 

Como é geralmente sabido desde Freud, por vezes um charuto é apenas um charuto. A razão pela qual Marcelo nunca afirmou as suas identidades ideológicas não é constrangimento - o homem muitas coisas é mas constrangido não. Não, nunca afirmou a sua identidade ideológica porque não tem.

 

Se perguntado, dirá que é democrata, europeísta, patriota, a favor do Braga, lisboeta e celoricense, não convindo porém aprofundar nenhuma dessas pertenças, porque se fosse absolutamente necessário teria outras. Suponho que goste de todo o tipo de música desde que seja boa (mas não se lhe pergunte o que é música boa), de boa literatura, que é a dos clássicos porque o são e dos contemporâneos porque sim, de boa pintura que é a popular porque está perto do povo e a outra porque os críticos aprovam, e de boa mesa embora não desdenhe alimentar-se de sanduíches. Dorme pouco não porque lhe pesem na consciência as aldrabices e rodilhices pelas quais se tornou famoso (como a história, aliás deliciosa, da vichyssoise) mas porque o seu cérebro inquieto não cessa de cogitar maneiras de levar a água ao seu moinho. Esse moinho foi toda a vida o sucesso na carreira política e é hoje a popularidade, que imagina ser a medida de um estadista bem sucedido.

 

A direita em Portugal não carrega o fardo do Estado Novo, isso é uma fantasia - o regime democrático já leva o mesmo tempo que aquele durou e a maior parte das pessoas que constituem o que se chama a direita ou não era nascida ou ainda não era adulta no 25 de Abril. O que a direita carrega é o fardo de o regime democrático ter comprado, e continuar a comprar, a dependência do Estado de uma quantidade crescente de cidadãos, o que implica que a reforma que um dia será inevitável terá que se fazer contra os interesses imediatos de uma mole imensa. A reforma é o que a direita quer mas não pode fazer; e a não-reforma é o que esquerda deseja para não se negar a si mesma. Mesmo sem meter comunistas ou os dementes do BE na equação, que esses querem ainda coisas terceiras.

 

"O percurso público de Marcelo, desde 1974, mostra um político onde se misturam a democracia cristã, sobretudo nas questões sociais, um conservadorismo moral e um liberalismo político e económico".

 

Liberalismo económico?! Marcelo escreveu milhares e milhares de artigos, falou durante anos e anos na televisão. Os textos não resistiriam a uma publicação em livro, seria uma xaropada; e as homilias, por muito sucesso que tivessem tido, não deixaram qualquer rasto na memória colectiva, excepto a simpatia do autor e os seus inegáveis dotes de comunicador. Mas estou certo de que qualquer um dos meus amigos genuinamente liberais, académicos ou não, afiançará que textos social-democratas haverá bastantes; em defesa do liberalismo só no sentido em que o que não seja socialista passa por liberal, e no de que em tanta tralha se pode encontrar tudo, como nos almanaques.

 

"A proximidade pessoal de Marcelo a figuras maiores da esquerda, nomeadamente o PM António Costa, não significa que não seja de direita. Há de resto um lado muito civilizado e liberal nesta atitude de Marcelo. As diferenças políticas não devem impedir boas relações pessoais. Marca de um democrata tolerante".

 

A proximidade pessoal de Marcelo significa que o homem é, pessoalmente, muito dado. Melhor para ele, e para quem tiver que lidar com ele. Politicamente, significa nada. Já colar-se sistematicamente ao discurso governamental, mesmo quando tal não lhe é requerido, e fazê-lo com evidente entusiasmo, tem um significado político, que é este: Marcelo concorda com o governo e não com a oposição, gostaria que o líder que ganhou as eleições fosse substituído por outro mais flexível, acha que a melhor maneira de lidar com um PS em alta nas sondagens é adoptar um discurso colaboracionista que facilite no futuro uma coligação ao centro, e entende que com pequenos acertos daqui e dacolá a trajectória do país está muito bem como está.

 

A única convulsão que o levaria a mudar de posição seria uma alteração da opinião pública que diminuísse seriamente a popularidade do governo e a sua própria. Aí Marcelo mostraria a sua marca identitária de direita, que João Marques de Almeida vê e eu não.

 

Pode bem acontecer que seja, não digo que não,

 

"... uma questão de tempo até as esquerdas começarem a atacá-lo por ser um Presidente de direita. E, nessa altura, as direitas terão que o defender, apesar das divergências actuais".

 

Mas, entretanto, não se faz mister que se poupe o Presidente da esquerda, que é o que Marcelo é, sob pretexto de que

 

"Não precisa [assim] de virar à direita. Já lá está".

 

Não está. Marcelo está onde estiverem os eleitores, e são estes que virarão, ou não, à direita. O homem apenas finge liderar a multidão da qual é escravo. Não perceber isto, e pretender que se silencie a divergência, não tem no plano dos princípios qualquer valor. No da estratégia tem algum: favorece o PS.

publicado por José Meireles Graça às 11:45
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Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

O Outono bloquista

2017-08-23 labirinto.jpg

Quando a Comissão de Censura e as editoras começam a colaborar preventivamente para evitar a publicação de conteúdos que possam perturbar a moral e os bons constumes, sabes que estás a entrar numa espécie de Primavera mercelista em sentido oposto: no Outono bloquista. Se lhes deixares a rédea solta, prepara-te para uma longa noite fascista.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 14:53
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