Domingo, 18 de Setembro de 2016

A arte de escrever um best-seller

Hoje o Gremlin Literário vai-se dedicar ao serviço público de apoio à criação literária, oferecendo um conjunto de preciosas sugestões aos jovens escritores e editores que queiram escrever e editar um best-seller, atingindo rapidamente um sucesso de vendas que lhes permita acumularem dinheiro a tempo de o pôr a salvo num paraíso fiscal antes que a ministra das finanças em exercício perca a vergonha de o ir buscar.

Escrever sobre sexo

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O sexo vende. Ninguém está interessado em saber o que é que o escritor pensa, ou sente, ou as conversas que teve com outras pessoas. A gajada quer é sexo. Querem um sucesso de vendas? Escrevam sobre sexo.

Garantir que toda a gente sabe que é sobre sexo

Além do conteúdo do livro, o marketing é essencial. Se o livro fala sobre sexo mas o público não sabe, não vai a correr comprá-lo, e o livro nunca será um best-seller. O filme "The Seven Year Itch", cuja personagem principal é justamente um editor, mostra um bom inventário de técnicas de melhorar o potencial de vendas de um livro apimentando-o, e aconselha-se o seu visionamento aos jovens escritores e editores com ambições de sucesso.

O lançamento é crucial

O lançamento do livro é crucial para garantir o sucesso de vendas, principalmente quando se querem resultados rápidos. Quanto mais reacções apaixonadas suscitar, sejam de voyeurismo, sejam de indignação, mais vai mais rapidamente vender. Que é o que se quer.

Como conseguir essa reacção do público? Não queremos enganar ninguém com sugestões ligeiras, opinativas e não baseadas em factos, de modo que vamo-nos basear no estudo científico empírico para escolher as soluções que funcionam comprovadamente.

O livro "Eu e os Políticos" do jornalista arquitecto José António Saraiva, é já um caso de sucesso, apesar de ainda não ter sido lançado. É o relato de conversas privadas que políticos tiveram com o jornalista ao longo dos anos sem acautelarem se corriam o risco de um dia ele vir a publicar as coisas que lhe estavam a dizer, toda a gente sabe que há conversas que expõem a vida sexual de pessoas famosas, não se sabendo se é só uma de um político a falar da homossexualidade do irmão, se é o tema central de quase todas as conversas, como se pode deduzir dos títulos de todos os jornais que falam do livro, e relata conversas com pessoas que, por já terem morrido, não estão cá para contradizer que lhe disseram o que ele diz que lhe disseram. E vai ser apresentado pelo Pedro Passos Coelho, que aceitou o convite do autor sem conhecer o conteúdo da obra mas já fez saber que, tendo aceitado, não voltará com a palavra atrás e não deixará de o apresentar. Esta conjugação de circunstâncias suscitou uma explosão de reacções de indignação que garantem que o livro vai ter vendas fenomenais, que vai ser um best-seller.

Mas qual destes três factores é mais determinante para o sucesso que o livro está a ter medido pela indignação que suscita?

  • Expor a vida sexual de pessoas famosas sem o consentimento delas

Sujeitar pessoas famosas ao voyeurismo do público sem o seu consentimento parece um excelente motivo para ultraje e indignação, para além de ser um excelente apelo ao voyeurismo.

Mas este não é o primeiro livro que expõe a vida sexual de pessoas famosas sem o consentimento delas. Nos últimos anos, foram lançados, pelo menos, o "Bilhete de Identidade" da socióloga Maria Filomena Mónica, que descrevia (não me peçam para confessar que não o li e que isto não é mais do que conhecimento de diz-que-disse) o desempenho dos seus vários maridos (pelo menos os anteriores) e namorados na cama, sem o consentimento deles, e "Os Homossexuais no Estado Novo", da jornalista São José Almeida do Diário do Governo Público, que revela listagens e histórias de pessoas famosas do Estado Novo que, sem o terem assumido em vida, eram afinal homossexuais.

Nenhum destes livros suscitou a indignação do "Eu e os Políticos", de modo que não será a exposição da vida sexual de pessoas famosas sem o consentimento delas o factor chave para o sucesso de vendas desejado pelos nossos jovens escritores e editores.

  • Citar pessoas que, por já terem morrido, não podem contradizer a citação

Citar conversas privadas com pessoas que já morreram também é um excelento motivo de indignação. É mais cobarde do que citar conversas privadas com pessoas vivas, que podem contradizer a citação ou, simplesmente, desprezar o autor da citação por violar a privacidade dessas conversas.

Mas, também neste domínio, o "Eu e os políticos" está longe de ser inédito. "Os homossexuais e o Estado Novo" é, todo ele, baseado em testemunhos e relatos de pessoas que já morreram. "O Botequim da Liberdade", livro do escritor Fernando Dacosta a recordar conversas com a grande Natália Correia é todo isso mesmo, a citação de conversas privadas com uma pessoa que já morreu. Tem até citações que tudo leva a crer que sejam imaginárias, como a crítica ao neoliberalismo, que traduz a orientação política actual dele, supostamente feita por ela, que morreu muitos anos antes de o termo "neoliberalismo" se ter começado a usar, nomeadamente com o sentido que tem hoje. Mas ela não está viva para contradizer o autor do livro.

Indignação? Zero. A citação de pessoas que já morreram não é também um factor suficiente para levantar a onde de indignação necessária para fazer do livro um best-seller.

  • O apresentador do livro

O livro "Eu e os políticos", com sucesso de vendas já garantido pelos níveis de indignação conseguidos mesmo antes do lançamento,  vai ser apresentado pelo Pedro Passos Coelho. O "Bilhete de Identidade" foi apresentado nos nossos vizinhos do Grémio Literário pelo Rui Ramos, o João Bénard da Costa e o Lourenço Correia de Matos. Um horror, indignação zero. E "Os homossexuais e o Estado Novo" pela Raquel Freire e a Ana Luísa Amaral. Nem se deu pelo lançamento.

Afinal, o único factor distintivo do estrondoso nível de indignação que vai garantir o sucesso de vendas do "Eu e os Políticos" é, não a exposição da vida sexual de pessoas famosas sem o seu consentimento, nem a citação de pessoas que já não estão vivas para confirmar ou renegar as afirmações que lhes são atribuídas, mas sim a apresentação pelo Pedro Passos Coelho.

E é este o conselho, relembramos que fundamentado num estudo científico empírico, que deixamos aos jovens escritores e editores que querem atingir um sucesso de vendas rápido através de uma explosão de indignação que torne os seus livros conhecidos e apetecíveis:

  • Convidem o Pedro Passos Coelho para apresentar os vossos livros.

Bons livros e melhores sucessos!

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 18:39
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