Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

A censura só conta quando é feita pela direita.

O Alberto Gonçalves, pessoa que não conheço socialmente a não ser das redes sociais, como aliás boa parte dos amigos mais chegados das redes sociais, e autor de colunas de opinião no Diário de Notícias e na revista Sábado com um sentido de crítica e de humor cáusticos quase sempre dirigidas ao governo e aos partidos de esquerda que o apoiam, com especial incidência sobre os socialistas e os bloquistas que lhe dedicam publicamente um odiozinho especial e se dão ao trabalho de o comentar, acabou de ser despedido do Diário de Notícias, jornal do grupo Global Media presidido pelo advogado Proença de Carvalho.

2017-01-04 Alberto Gonçalves.jpg

Onde era o autor de artigos de opinião mais partilhado nas redes sociais, com uma média superior a mil partilhas por artigo, só aproximada pelo António Barreto.

15826422_1322778447742602_3026961530705429996_n.jp

Em tempos recuados, o despedimento, depois de ter sido criticado por um ministro, do comentador Marcelo Rebelo de Sousa, particularmente crítico do governo, por um canal de televisão que, aliás, era propriedade de um cunhado seu, motivou a dissolução pelo presidente socialista Jorge Sampaio do parlamento onde havia uma maioria absoluta sólida e estável do PSD e do CDS-PP, que estavam mesmo coligados no governo. Isto pouco mais de um ano depois de o mesmo presidente ter aceitado nomear um primeiro-ministro que não se tinha apresentado como candidato a primeiro-ministro nas eleições legislativas, nem sequer a deputado, dizem as más línguas que para dar tempo ao PS para substituir um líder que não parecia suficientemente ganhador por outro que parecesse, substituição que entretanto se tinha concretizado. Mas, para sair do domínio da especulação e regressar ao dos factos, o despedimento do comentador com mais audiência no canal onde comentava por ser incómodo para o governo foi motivo para a dissolução do parlamento e para a convocação de novas eleições legislativas. O governo social-democrata e centrista não podia censurar o comentador que o censurava regularmente.

É verdade que o governo seguinte, socialista, passou uma legislatura e meia a tentar silenciar jornalistas e comentadores através do controlo accionista de jornais e canais de televisão, de ameaças directas e explícitas às redacções, por vezes feitas directamente por telefonemas do primeiro-ministro, e da instauração por ele a jornalistas e comentadores de processos cíveis de valores suficientemente milionários para aterrar qualquer jornalista com a ameaça de falência, e nenhum dos presidentes com quem conviveu institucionalmente, nem o Jorge Sampaio, que o tinha feito na legislatura anterior, nem o Cavaco Silva, que nunca o fez, esteve próximo de dissolver o parlamento por causa de o governo pressionar a comunicação social. O governo socialista podia censurar comentadores à vontade.

Seguiu-se o governo social-democrata e centrista neoliberal do Passos Coelho, que se esteve nas tintas para a comunicação social e o que dizia dele, e dizia mal, e sempre, e muito. Mas mesmo assim foi acusado das mais selvagens violações da liberdade de imprensa por motivos como ter sido encerrada a delegação em Paris da agência noticiosa estatal, a Lusa, e de com isso terminado a comissão de serviço e a estadia na cidade-luz do jornalista que era lá correspondente, e de ele ter sido forçado a regressar a Portugal para não perder o emprego. Mesmo sem censurar jornalistas e comentadores, o governo social-democrata e centrista era censurável.

As ameaças a jornalistas, umas em público, outras em privado tornadas públicas pelos ameaçados, precederam a nomeação do primeiro-ministro socialista actual António Costa, sem que no entanto tivesse sido impedido de se candidatar ao lugar e de perder as eleições. Do mais não se sabe, porque, ou ele deixou de ameaçar jornalistas desde que foi eleito nomeado primeiro-ministro, ou passou a fazê-lo de modo mais discreto do que o seu antecessor socialista e do que ele mesmo enquanto candidato. Mas o Alberto Gonçalves não tem sido de uma maneira geral elogiado pelos socialistas e pelos bloquistas que se dão ao trabalho de comentar comentadores. Nem o presidente da Global Media se tornou conhecido pela sua antipatia relativamente aos socialistas, nomeadamente os que atacam jornalistas, tendo mesmo patrocinado como advogado os múltiplos processos do José Sócrates a jornalistas. Significa isto que o parlamento corre risco de dissolução por ter havido socialistas e bloquistas a criticar um comentador e ele ter acabado por ser despedido de um jornal presidido por velho amigo dos socialistas?

De certeza absoluta que não. O comentador Marcelo, cujo despedimento da TVI foi usado como argumento para o presidente Jorge Sampaio dissolver um parlamento de maioria PSD e CDS-PP não vai fazer nada como presidente Marcelo, nem sequer tomar conhecimento, por haver comentadores despedidos por criticarem o governo socialista com quem ele desenvolveu uma cooperação estratégica exemplar. Por uma razão ponderosa, um artigo não inscrito na Constituição mas desde sempre respeitado: em Portugal é ilegítimo governos social-democratas, ou social-democratas e centristas, pressionarem a comunicação social, mas os governos socialistas têm toda a liberdade para o fazer. A censura só conta quando é feita pela direita. Mesmo quando não a faz.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 20:28
link do post | comentar
5 comentários:
De Jose Carlos a 4 de Janeiro de 2017 às 21:03
A censura de esquerda não existe. Os comissários politicos, só se limitam a tratar da vidinha deles, trata-se de ocupar os meios de suporte aos governos, que os alimenta.
É assim o jornalixo nacional, quem paga é quem manda.
De O Informador a 4 de Janeiro de 2017 às 21:04
Quando se incomoda demais aparecem os capangas e mandam silenciar! As verdades custam ser ouvidas e a opção é sempre a mesma, abafar e distanciar!
De Anónimo a 5 de Janeiro de 2017 às 11:20
É uma vergonha o despedimento de Alberto Gonçalves, mas isso é apenas um cheirinho do que nos espera nos próximos anos ...
De João Sousa a 5 de Janeiro de 2017 às 13:57
Já agora, para adensar a história: o DN dispensa um dos, se não o seu comentador mais lido, e admite no seu seio a ex-ministra da Educação que havia sido condenada por prevaricação e, depois, ilibada dessa condenação por uma juíza que participou em campanhas do PS. DN que, pertencendo ao grupo presidido pelo advogado de Sócrates, foi dirigido até há pouco tempo por André Macedo, entretanto transitado (promovido por serviços prestados?) para a RTP.
De Manuel Vilarinho Pires a 5 de Janeiro de 2017 às 14:19
Os criminosos são um valor acrescentado para os jornais. É ver a atenção que o jornal mais vendido em Portugal, há até quem pense que é o único, o Correio da Manhã, dedica ao tema.
Uma aposta em criminosos para comentadores pode ser uma boa vitamina para as vendas do Diário de Notícias.

Comentar post

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

A sua conclusão é excelente.chh8btq
Essas perguntas são muito pertinentes, mas eu não ...
Quantas vidas destruíram, directamente, os milhões...
Os abusos que referi estão definidos no texto: ".....
Está a chamar a atenção, e bem, para o facto de os...

Arquivos

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter