Terça-feira, 5 de Julho de 2016

A desreestruturação da dívida, novo paradigma da esquerda portuguesa

Ser de esquerda já foi aspirar a que toda a população tivesse condições de vida minimamente condignas, e eu sou de esquerda nesta definição, e já foi aspirar à tomada de poder pelos operários e camponeses, apoiados pelos soldados e marinheiros, orientados, naturalmente, por vanguardas esclarecidas, por exemplo pelos sociólogos do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e eu sou anti-comunista primário nesta definição.

Já foi de tudo isto um pouco mas, hoje em dia, ser de esquerda, e de uma esquerda que vai das franjas mais radicais à esquerda do BE às franjas mais radicais do bloco central e mesmo do bloco de direita, incluindo personalidades como a economista Manuela Ferreira Leite ou o professor Freitas do Amaral, além dos habituais artistas do PS, de que se têm destacado o deputado João Galamba e o secretário de estado Pedro Nuno Santos, e seria injusto deixar de fora jornalistas como o Nicolau Santos ou académicos como o professor Artur Baptista da Silva, é defender a reestruturação da dívida.

O conceito "reestruturação da dívida" visa tornar o serviço da dívida menos penoso para o devedor, mas é vago e muito amplo, e tanto se pode aplicar a um país que invada outro e declare que já não lhe deve nada, um exemplo extremo de reestruturação unilateral, como a negociar com os credores alterações ao clausulado da dívida que, se, e apenas se, eles aceitarem, permitam atingir esse objectivo, por exemplo por redução de juros, ou alongamento de prazos, ou períodos de carência, ou alguma condição aceitável pelo credor que na circunstância específica do devedor lhe facilite a vida.

Quando se percorrem os caminhos da governação de esquerda não há pedra no caminho que, se virada, não tenha por baixo uma cassete da reestruturação da dívida a tocar. Normalmente em fantasias em que o poder negocial dos devedores é esmagadoramente superior ao dos credores, e os devedores lhes podem impôr condições draconianas em alternativa a simplesmente não a pagarem, e os devedores que não o fazem não o fazem apenas por serem traidores vendidos aos mercados ou à UE, ou meninos copo-de-leite.

Na prática, a relação de forças negocial fantasiada pela esquerda raramente se verifica, e verifica-se exactamente a oposta, ou seja, um devedor inicia um processo de renegociação da dívida por estar em dificuldades, dependente de crédito, e na mão dos credores que, à mínima desconfiança sobre a intenção do devedor de respeitar integralmente os contratos de dívida em vigor, deixam de lhe conceder crédito e viram-se para outros devedores que lhes ofereçam confiança.

Mas esta relação desfavorável de forças não impede que devedores façam reestruturações de dívida inteligentes, ou seja, que reduzam efectivamente os custos do serviço da dívida sem dependerem da aceitação pelos credores de alterações contratuais negociadas ou impostas. O governo Passos Coelho / Maria Luís Albuquerque fez reestruturações da dívida em larga escala a partir do momento em que, reestabelecida a confiança dos mercados na capacidade e na determinação do governo português em respeitar integralmente as responsabilidades assumidas com os credores, lhe foi possível recomeçar a financiar-se no mercado a juros mais baixos do que os de alguma dívida emitida anteriormente, nomeadamente a que tinha sido concedida ao abrigo do programa de assistência da troika e, mais especificamente, a que tinha sido concedida pelo FMI, com juros superiores a 4%. Como? Emitindo dívida a juros de mercado mais baixos, que chegaram a valores próximos dos 2%, para reembolsar antecipadamente dívida a juros mais altos, nomeadamente ao FMI. Os ganhos obtidos nesta reestruturação inteligente da dívida permitiram poupar centenas de milhões de euros em juros até à maturidade dos títulos de dívida que foram reembolsados antecipadamente, e a intenção do governo de então era reembolsar integralmente o FMI até 2017 e acumular ganhos esperados de 730 milhões de euros.

Estavamos no melhor dos mundos: a esquerda cumpria o seu paradigma de reestruturar a dívida, e a direita o seu, de a reestruturar com inteligência.

Mas tudo na vida é reversível, excepto a entropia, e o governo actual desistiu de reembolsar antecipadamente a dívida cara. Agora vai continuar a pagar mais de 4% de juros pelos quase 20 mil milhões de euros da dívida ao FMI, em vez de emitir dívida mais barata, se bem que cada vez menos mais barata, para os reembolsar. Reverteu a reestruturação da dívida.

Percebe-se bem porquê. Se o governo anterior se tinha esforçado por, e conseguido, reconquistar a confiança dos investidores e o acesso aos mercados de dívida, o governo actual virou a página da credibilidade ao reverter a austeridade, não com base na sustentabilidade económica da reversão, que, aliás, se esforçou por fazer recuar, mas na decisão política arbitrária de a reverter, ou seja, na demagogia. E, ao fazê-lo, afugentou investidores, na economia e na dívida, e o investimento privado encolheu, e a economia e o emprego deixaram de crescer, e os juros da dívida portuguesa deixaram de evoluir em linha com os dos outros países, nomeadamente a Espanha, mesmo com a instabilidade política que lá dura há meses, e passaram a divergir por excesso. Por outro lado, a almofada financeira, que chegou a encher os cofres com mais de 18 mil milhões de euros em Agosto de 2015, reduziu-se para muito menos de metade. Ou seja, o próprio governo não sente, nesta altura, a auto-confiança necessária para reembolsar dívida, e prefere ter o dinheiro na mão, mesmo que lhe saia, ou a nós, muito mais caro. Não quer mais reestruturar a dívida.

Ou seja, ao abandonar a reestruturação da dívida, a esquerda trocou o paradigma da reestruturação da dívida pelo paradigma da desreestruturação da dívida. À custa da factura de juros que, como sempre, é por conta dos contribuintes portugueses.

publicado por Manuel Vilarinho Pires às 13:05
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

177 comentários
16 comentários
10 comentários

Últimos comentários

Mas já era assim há dez, há vinte, há trinta...
Tem razão, mas o homem tem 94 anos ...
As sondagens não contam as opiniões da maioria dos...
É o que merecem os crentes -maioria dos cidadãos, ...
Perfeito

Arquivos

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio costa

arquitectura

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

causas

cavaco silva

cgd

comentadores

comunismo

cortes

costa

crescimento

crise

crise política

cultura

daniel hannan

daniel oliveira

deficit

descubra as diferenças

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

eleições europeias

empreendedorismo

ensino

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

fmi

francisco louçã

geringonça

gnr

governo

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

jugular

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário nogueira

mário soares

mba

miguel relvas

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pedro passos coelho

política

portugal

ps

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter