Domingo, 26 de Março de 2017

A Solidariedade Individual e a "Solidariedade" Estatal

 

transferir.jpg

 

Antes do Estado Social (iniciado no séc. 19 por contraponto ao avanço do socialismo) a solidariedade era praticada dentro da família nuclear (pais e filhos, família com laços de sangue alargada, grupo de amigos).

Com o advento do Estado Social, a solidariedade alargou-se ao conjunto do país. Como os socialistas, braço político, muitas vezes democrático, da implantação do Comunismo, faziam culturalmente força para implantação da solidariedade institucional para com os desprotegidos, unidos em torno dos sindicatos surgidos na Revolução Industrial, os conservadores (ver Bismarck) encontraram uma solução que parecia satisfazer gregos e troianos.

Nessa solução que buscava a paz social, todos seríamos obrigados, por via fiscal, a contribuir com uma margem do rendimento do nosso trabalho, a compensar desigualdades sociais e genéticas de membros da sociedade que a fortuna desprivilegiou.

Concordemos que na base a ideia é justa, correcta e equitativa quando aquilo que o Estado Social nos obriga a contribuir é da ordem dos 10%, 15, vá lá, 20%, do fruto do nosso esforço no trabalho (hoje, em Portugal, 70% do nosso rendimento vai para o Estado - temos 165% da média europeia em termos de esforço fiscal).

Teoricamente, em poucas gerações de Estado Social, o fosso de desigualdades seria compensado e os desprivilegiados tenderiam a extinguir-se por força da contribuição social para o reforço de alargamento de oportunidades pelo subsídio dado aos mais pobres que depois se arrancariam da miséria pelo proprio esforço apoiado pela sociedade.

Foi assim? Em parte, sim. Fruto da liberdade económica, da racionalização do aproveitamento da mão de obra e da distribuição normal da recompensa pelo esforço individual, a pobreza diminuiu como nunca antes. O Estado Social? Sim, terá dado apoios, bolsas de estudo, ajudas a quem morria de fome, mas não foi o factor decisivo para a diminuição da pobreza. O factor decisivo foi acabar com modos feudalistas de exploração dos desprivilegiados e o grande motor: o avanço técnico e as grandes economias de escala na agricultura, na indústria, e mais recentemente nos serviços pela aplicação massiva das tecnologias da informação.

Grande problema do Estado Social? Os gestores do mesmo. É que quando os orçamentos dos estados democráticos começaram a crescer, sectores sociais, famílias, grupos, organizados em partidos extractivos de rendas, compreenderam que a melhor, e mais fácil fonte de rendimento, seria a apropriação de uma margem entre aquilo que é colectado a todos nós e aquilo que é distribuído em nome dos mais pobres (que, recordo eram cada vez menos). Eram. Porque a pobreza em alguns estados sociais ocidentais começa de novo a avançar enquanto os tais partidos extractivos cada vez estão em melhor condição de praticar a solidariedade individual para o seu grupo familiar e de amigos e a grande maioria foi transformada em simples contribuinte (nas maternidades o número de contribuinte é dado simultaneamente ao teste auditivo do recém-nascido).

O que aconteceu? Aconteceu o Socialismo. Os representantes do povo que era pobre, os grandes defensores da causa social da solidariedade nacional usaram a medida conservadora para implementar o sistema que permitiu criar uma nova elite social: os intermediários enriquecidos entre os que produzem e os desprivilegiados. E estão aí a gerir rendas, a usar e explorar o fruto do esforço dos produtivos para crescimento da sua riqueza individual através da gestão do Estado e dos seus fins teoricamente bondosos.

Sempre em nome dos pobres, estamos a acabar com a solidariedade individual, familiar e comunitária, em favor da "solidariedade" institucional e anónima que permite criar e manter a casta dos intermediários que nos dizem através dos media (um vírus social mortífero) que é sempre preciso mais e maior Estado central para gerir a "solidariedade" dos contribuintes, simples números fiscais. E depois culpa-se a Internet, as redes sociais e o tempo que passamos nas relações web por acabarem com a família e os laços sociais tradicionais: - Não. O que está a acabar com o sentido comunitário é a doença imposta ao Estado Social subvertido nas suas bondosas intenções iniciais e que foi transformado numa gigantesca operação de exploração do Homem pelo Homem.

 

publicado por João Pereira da Silva às 10:42
link do post | comentar

Pesquisar neste blog

 

Autores

Posts mais comentados

Últimos comentários

Obrigado eu por o ler.
De facto, o orgulho em nós próprios, nas nossas es...
Os comunas ou marxistas são assim em todo o lado...
Pura corrupção xuxa-kostista
Senhora dona Sonia Mark, por favor vá publicar os ...

Arquivos

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Links

Tags

25 de abril

5dias

adse

ambiente

antónio barreto

antónio costa

arquitectura

atentado

austeridade

banca

banco de portugal

banif

be

bes

bloco de esquerda

blogs

brexit

carlos costa

cartão de cidadão

catarina martins

causas

cavaco silva

censura

cgd

comentadores

cortes

crise

cultura

daniel oliveira

deficit

desemprego

desigualdade

dívida

educação

eleições autárquicas

ensino

esquerda

estado social

euro

europa

férias

fernando leal da costa

fernando ulrich

fiscalidade

francisco louçã

grécia

greve

impostos

irs

itália

jorge sampaio

jornalismo

josé sócrates

justiça

lisboa

malomil

manifestação

marcelo

marcelo rebelo de sousa

mariana mortágua

mário centeno

mário nogueira

mário soares

mba

nicolau santos

obama

oe 2017

orçamento

pacheco pereira

passos coelho

paulo portas

pcp

pedro passos coelho

política

portugal

ps

psd

público

quadratura do círculo

raquel varela

renzi

rtp

salário mínimo

sampaio da nóvoa

saúde

sns

socialismo

socialista

sócrates

syriza

tabaco

tap

tribunal constitucional

troika

ue

união europeia

urbanismo

vasco pulido valente

venezuela

vítor gaspar

todas as tags

Gremlin Literário no facebook

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitemeter