Terça-feira, 7 de Outubro de 2014

Acefalia palavrosa

Carlos Costa tem uma longa carreira de bancário, político (nesta capacidade na variedade não-eleita, que é a que o eleitorado português mais respeita), académico e economista. O malogrado ministro Teixeira dos Santos (que presidiu ao descalabro que originou a vinda da troica, ao serviço de Sócrates) escolheu-o para substituir o oráculo Constâncio que, depois de garantir que a dívida externa não era um problema desde a miraculosa adesão ao Euro, foi para Frankfurt iluminar os pares com a sua lucidez, competência e impecáveis credenciais de socialista, europeísta e economista.

Foi uma boa escolha, ainda que, depois de Constâncio, fosse praticamente impossível fazer escolhas más. O que se requer hoje de um governador do Banco de Portugal é que tenha credenciais académicas na área das finanças ou economia, boa presença, algum domínio do inglês, um bom alfaiate e, agora que o BdP é uma sucursal do BCE, fortes sentimentos de irmandade com a burocracia europeia.

Costa tem tudo isto, e mais: trabalhou em bancos, e não é impossível imaginar que tenha falado com uns quantos empresários, ainda que apenas dos graúdos.

Porém, a maneira como lidou com o caso BES, deixando apodrecer as coisas muito para além do razoável, e tranquilizando as pessoas quando a situação já fedia, está para além, muito para além, do tolerável. Por muito que o respeitável público se sinta gratificado com a desgraça dos Espírito Santo, e indiferente aos poucos milhares de ricos que perderam parte ou totalidade dos seus pecúlios, os danos para a economia excedem e excederão em muito o benefício transitório da inveja virtuosa confortada nos seus preconceitos: foderam-se, é bem feito!

Não fosse estar bem acompanhado na cegueira, e na verbosidade incontrolável, e mereceria que quem de direito lhe sugerisse que, doravante e até ao fim do mandato, se disfarçasse de corrente de ar, limitando-se, quando não pudesse evitar perguntas, a responder com generalidades piedosas.

Mas não. Não apenas não se remeteu ao discreto silêncio que a sua gigantesca argolada mais do que justificava como resolve agora insultar aquela parte da população que todos os dias se vê esbulhada do que com esforço angaria porque, entre outras razões, tem que sustentar os Costas deste mundo.

Nem me vou dar ao trabalho de argumentar com custos de contexto, tradições culturais, triunfos recentes de empresários que fizeram renascer sectores inteiros dados pelos entendidos como moribundos, fiscalidade predatória e sufocante, incentivos que as escolhas políticas deram ao desinvestimento na produção de bens transaccionáveis, e toda uma parafernália de outras coisas.

Apenas formulo o voto de que o próximo governador seja mudo e, de formação, médico ou arqueólogo. É melhor, sobre economia, não ter nada na cabeça do que ter asneiras e falta de educação.

publicado por José Meireles Graça às 01:29
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4 comentários:
De ccz1 a 7 de Outubro de 2014 às 08:00
"doravante e até ao fim do mandato, se disfarçasse de corrente de ar," eheheh
De José Meireles Graça a 7 de Outubro de 2014 às 18:46
O mais difícil, Carlos, é manter a calma - apetecia-me dizer coisas bem piores.
De Maria João Marques a 8 de Outubro de 2014 às 23:48
Bebe um gin, Zé Maria!
De José Meireles Graça a 9 de Outubro de 2014 às 00:22
Se for em boa companhia...

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