Domingo, 23 de Fevereiro de 2014

Anacom revisited

Salvador Massano Cardoso é um médico e professor que quase diariamente relata casos do que se chama quotidiano, às vezes numa toada pessoal e intimista, num blogue cujos colegas se dedicam sobretudo ao comentário sobre economia e política - se é que estes dois assuntos não são apenas um.

 

Fá-lo de forma invariavelmente cordata. Mas hoje zangou-se e intitulou um post "FDP".

 

Lida a história, eu iria pelo extenso - filhos da puta indeed.

 

Sucede que as operadoras têm um supervisor, a ANACOM. A consulta ao sítio desta entidade é um exercício fascinante: Só o organograma já impõe respeito - Direcções são 10, de entre as quais a que se dedica à gestão do espectro (com delegações nos Açores e na Madeira), uma actividade com contornos, para os leigos, vagamente sobrenaturais, e a Direcção de Informação a Consumidores, sem dúvida destinada a industriá-los nas artes do yoga, para lhes reforçar a paciência; depois, sob a epígrafe Áreas Temáticas, há uma secção, entre mais de duas dúzias, denominada Oferta do Lacete Local (OLL), um propósito que se afigura, aos meus olhos leigos, altamente suspeito; e não podia faltar o espaço destinado a reclamações, onde não se pede o número de cartão de cidadão, decerto por lapso, mas se exige o número de contribuinte.

 

A julgar pela minha experiência, reclamar não vale a pena: o operador empata; a ANACOM finge que não está ao serviço dos operadores; e, no fim, quem for vítima de abuso fica com ele, se não tiver outro remédio.

 

Fui tentar descobrir quanto custa ao consumidor (horrível palavra) o estropício oficial e qual a sua dimensão - um trabalhão, a informação aparece diluída num documento de quase noventa páginas, recheado de entulho oficialês. Pois bem, as receitas previstas para 2014 são à volta de 69 milhões de Euros (pág. 78); as despesas com o pessoal quase 22 milhões (pág. 76); e empregados são 399, dos quais 248 quadros superiores (pág. 75).

 

Claro que a ANACOM deve servir para algumas coisas indispensáveis; e, se não existisse, algumas das suas atribuições estariam encaixadas numas quantas direcções-gerais. E deve ter ao serviço muita gente trabalhadora e capaz. Mas supervisor - não é.

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publicado por José Meireles Graça às 16:26
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5 comentários:
De ccz1 a 24 de Fevereiro de 2014 às 12:49
Recordar "ANACOM gastou 150 mil euros na comemoração do seu 20º aniversário" em http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=1680336
De ccz1 a 24 de Fevereiro de 2014 às 12:55
BTW, segundo os relatórios anuais:

No final de 2005 a ANACOM tinha 401 funcionários.

No final de 2006 a congénere espanhola, Comisión de Mercado de las Telecomunicaciones, tinha 115 funcionários.

Mas claro, Espanha é muito mais pequena que Portugal
De José Meireles Graça a 24 de Fevereiro de 2014 às 13:18
115, apenas? Ui, deve funcionar muito mal, ccz1. Obrigado pela informação, é bom saber.
De Maria João Marques a 25 de Fevereiro de 2014 às 17:17
'Claro que a ANACOM deve servir para algumas coisas indispensáveis; e, se não existisse, algumas das suas atribuições estariam encaixadas numas quantas direcções-gerais. E deve ter ao serviço muita gente trabalhadora e capaz'
E escreves isto depois de me fazeres a injustificada acusação de estar a ser caridosa com Seguro, pffff...
De José Meireles Graça a 25 de Fevereiro de 2014 às 18:11
Tenho bom coração, Maria João. E sou muito melhor na crítica do que na auto-crítica. Foi para gente como eu que Mao inventou os campos de reeducação.

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