Terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Às avessas

Não perdi um cêntimo nas trapalhadas do BES, porque não era accionista. E todavia sou um dos perdedores: cada banco tem a sua cultura, e os meus mais de 30 anos como cliente de bancos (cliente, não fornecedor - na estranha terminologia corrente os mutuários são considerados clientes mas os depositantes também) autorizam-me a hierarquizar os bancos, do ponto de vista deste pequeno empresário: o BES é, era, melhor.

 

Será agora, se tudo correr bem, um banco como os outros.

 

Quer dizer que a estúpida concentração de poderes decisórios em organismos centrais será, crescentemente, a regra; a supervisão do Banco de Portugal, aliás uma patente e patética sucursal do BCE, que se refugiou aquando do escândalo BPN na desculpa de os infractores não terem alertado o supervisor para as infracções que praticavam e que agora adoptou precisamente a mesma linha de defesa, continuará a multiplicar os controles burocráticos sobre a actividade bancária e, sobretudo, sobre as empresas; e a concorrência entre os bancos, que aliás nunca foi intensa senão na publicidade e na conquista de grandes clientes, sofrerá mais um golpe.

 

A solução encontrada é uma cedência à opinião de esquerda, para que esta não possa com facilidade dizer que o dinheiro do contribuinte foi mais uma vez utilizado para salvar capitalistas especuladores; é uma cedência a certa opinião liberal, que defende a falência dos bancos, que são instituições, isto é, detentores de confiança pública, nos mesmos termos que a das empresas, que não são - e se os accionistas perderam todo o capital investido é de falência que estamos a falar; é uma cedência ao Banco de Portugal, que salvou a situação na 25ª hora, a ver se nos esquecemos da cegueira nas anteriores, enquanto ingénuos continuaram a "investir" no BES (teria sido um deles, fiado no oficialmente propalado interesse de outros bancos); e é um golpe na concorrência, dado que os outros bancos passam a ter interesse na sobrevivência do novo.

 

Hábil, sem dúvida. Todos ganham, menos a família Espírito Santo - mas bem o mereceu; uns quantos pequenos empresários - mas o que é que as pequenas empresas interessam, realmente?; e uns quantos investidores em papéis seguros - mas é uma lição, para aprenderem que as instituições não são de fiar.

 

Não desejo que corra mal, ainda que possa acontecer - o diabo está com frequência nos detalhes e no imprevisto. Mas na lista dos perdedores parece-me justo incluir também a confiança. E essa devia ser, se não me engano, o principal capital dos bancos - e das instituições que em nosso nome os supervisionam. 

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publicado por José Meireles Graça às 00:38
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