Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

Assistência no Delírio aos Servidores da Esquerda

Pessoas apreciadoras de quem não as merece ofereceram-me em tempos um seguro de saúde. Os seguros de saúde tresandam a seguradoras e bancos, e dá-se o caso de a minha experiência de vida me ter feito chegar à conclusão que as companhias de seguros são quadrilhas de ladrões, sob a supervisão de uma entidade que, como as outras destinadas a impedir abusos, garantir transparência e assegurar a concorrência, não faz nada disso; já os bancos, por outro lado, são associações de malfeitores dirigidas por pessoas que, se o mercado fosse deixado funcionar e o Estado não interviesse, teriam o estatuto de desempregados, por terem arruinado as instituições que dizem servir (igualmente sob a supervisão de uma outra entidade pública, esta dirigida por invisuais pagos a peso de ouro).

 

Quer dizer que, teoricamente, não deveria apreciar a prenda. Mas as coisas apenas são más ou boas em relação a outras do mesmo género. E no género saúde a alternativa, que é a conquista de Abril que dá pelo nome de SNS, é uma abominação, por significar filas de espera, impressos, papeladas, abusos e descasos de toda a espécie e, sobretudo, completa ausência de liberdade de escolha - para além da gigantesca malbaratação de fundos que numerosos ingénuos julgam poder ser corrigida a golpes de decretos, portarias, circulares, instruções e reclamações. Isto sem falar do negro destino que está reservado ao mastodonte, que pôde crescer e melhorar espectacularmente a saúde da população da qual cuida apenas porque durante décadas ninguém foi obrigado a pensar se o País pode oferecer cuidados a toda a gente, quer tenha quer não tenha recursos, e fazê-lo através de um corpo de funcionários públicos.

 

O meu médico, que me atura desde que o anterior, seu pai, morreu há décadas, é um daqueles que por dá cá aquela palha quer exames, análises e consultas de especialistas. E, sem nunca ter estado seriamente doente, e evitando aliás a classe médica com algum empenho, adquiri, sobretudo por interpostas pessoas, uma vasta experiência de hospitais, casas de saúde, clínicas, pessoal e organização, tudo na perspectiva de utente e cliente.

 

Tenho assistido à polémica em torno da ADSE com pasmo: que a esquerda não a veja com bons olhos está na ordem natural das coisas - a liberdade que tem o beneficiário de escolher o estabelecimento e o médico contraria frontalmente o princípio universal e igualitário do SNS; que os sindicatos da função pública estejam abençoadamente calados, ou aqui e além esbocem algum tímido apoio à ADSE entendo - podem, à boleia da defesa dos interesses dos trabalhadores, fazer passar de contrabando a agenda do PCP, mas não podem contrariar aqueles interesses de forma demasiadamente óbvia; e que o Governo fira o sistema, não sabemos se mortalmente, também percebo - o estatismo tem os seus cultores em todo o espectro partidário, e, pior, na esmagadora maioria do eleitorado.

 

Mas que na comparação entre os custos para o contribuinte de um sistema e outro se parta do princípio que, se a ADSE fosse extinta, a parte dos custos não coberta pelos descontos seria poupança, como se o acréscimo de afluxo de doentes ao SNS não custasse nada - isso não alcanço; e que, à direita do espectro da opinião, se defenda a extinção da ADSE porque custa - se custa, até nisso há dúvidas - dinheiro ao contribuinte, sem curar de apurar se não seria possível eliminar a punção fiscal preservando a liberdade que os funcionários públicos ainda têm - oh la la, temos a burra nas couves.

 

Gostaria por isso de acreditar nas declarações de Manuel Teixeira, na parte em que diz: “A vantagem da ADSE é constituir-se como um ‘germe’ de seguro público de saúde, garantindo liberdade de escolha ao beneficiário relativamente ao prestador de cuidados de saúde”.

 

Pois sim: mas, para já, qualquer funcionário pode optar por não pagar a ADSE; mas não pode optar por não pagar, como contribuinte, o SNS. Já o não funcionário pode, como eu, optar por guardar do SNS prudente distância, mas continua a ter que o sustentar. E, tendo pago a uma seguradora o prémio; tendo pago a um estabelecimento privado a diferença entre o que o seguro cobre e o que não cobre; e não tendo gasto um cêntimo ao erário público - nem por isso pode deduzir, nos impostos que paga, a totalidade do que suportou.

 

Grande baralhação, que tem um único fio condutor: pense-se o que se pensar, diga-se o que se disser, vote-se em quem seja, tudo no fim fica bem desde que se seja socialista.

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publicado por José Meireles Graça às 20:26
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3 comentários:
De Tiro ao Alvo a 17 de Fevereiro de 2014 às 21:01
Creio que o Meireles Graça vai ler com interesse o artigo do ex-ministro da saúde, Correia de Campos, no Público de hoje, com o provocante título " A ADSE tem futuro".
De José Meireles Graça a 17 de Fevereiro de 2014 às 21:59
Fui ler, Tiro, e venho zonzo de tanto número. Infelizmente, ainda ficam a faltar outros: a evoluão do número de beneficiários comparada com o total da população induz em erro, por inculcar uma ideia de progresso assistencial por parte da ADSE, quando o que houve foi uma explosão do número de funcionários (aliás, a meu ver, insustentável) no conjunto da população; o custo da ADSE para o SNS, e portanto para o contribuinte, escamoteia o facto de o Estado, como entidade patronal, não contribuir em igualdade de circunstâncias com o patrão privado. E quanto à oportunidade para mudar para não sei quê mútuo, é mesmo coisa de socialista: mexe-se no que está mal porque está mal e no que está bem porque pode ficar melhor. Mas enfim, Correia de Campos merece ser lido com atenção.
De Tiro ao Alvo a 18 de Fevereiro de 2014 às 14:13
Concordo em absoluto consigo quanto ao aumento insustentável de funcionários públicos e, concomitantemente, de beneficiários da ADSE.
Parece-me, todavia, que a ideia da mútua tem pernas para andar, desde que não acarrete despesa para o Estado, claro.
Passe bem.

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