Segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

Aviso vermelho

Ontem estive num jantar lisboeta, degustando as primárias do PS. Os comentários voavam sobre as toilettes e os penteados das senhoras que iam aparecendo na pantalha, no geral horríveis, e os discursos e os abraços, os primeiros de circunstância (salvo a deselegância de Costa não guardar uma palavra simpática, mesmo que hipócrita, para o derrotado) e os segundos, naturalmente, muitos deles, de oportunismo e revivalismo. Da substância das coisas falou-se pouco, e não porque os comensais estivessem excessivamente concentrados no bife à Império ou lhes faltasse o domínio da matéria. Não. É que sobre Costa e Seguro, e respectivos esquadrões de áulicos, só é possível falar de diferenças de personalidades e de estilos - quase nada os separa no que desejam para o país, e no que pensam sobre a UE e o Mundo.

 

Secretamente porém, eu tinha o meu cavalo, e era Seguro. E não pela razão comezinha de desejar para adversário o mais fraco - Seguro nunca pareceu mais do que o lugar-tenente que efectivamente foi e sempre lhe faltou aquele je ne sais quoi que faz com que um líder possa pescar, se as circunstâncias o permitirem, fora da área dos convertidos indefectíveis.

 

É que ambos devem ter lido, na juventude, Herbert Marcuse, Seguro devagar, porventura tomando notas, Costa na diagonal, só para ficar com uma ideia. E agora que ambos, e toda a gente, esqueceram aquele in illo tempore celebrado filósofo, resta que Seguro, se chegasse a governante, seria um diligente leitor das instruções de Bruxelas e Frankfurt. E Costa, fiado na superioridade intelectual que lhe imaginam, na popularidade que a sua falsa bonomia lhe compra, e na ideia absurda que pode seriamente impressionar as altas instâncias europeias onde tudo se decide, exercendo sobre dignitários estrangeiros o mesmo fascínio que exerce sobre os jornalistas e o eleitorado de Lisboa, lerá na diagonal.

 

Daí que, se ganhar as eleições, e conseguir fazer uma coligação com um mínimo de consistência, o que nos vai acontecer depende não dos humores dos coligados mas do que a Europa pós-Barroso pensar dos Gregos ibéricos. E será isso, e isso apenas, que determinará quando, e de que forma, virá um novo resgate. Então, não serão apenas os lisboetas a ter os pés em água enquanto o seu Presidente está de viagem a espalhar discursos empolgantes e promessas sortidas.

publicado por José Meireles Graça às 22:23
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