Sexta-feira, 7 de Março de 2014

Bentos desavindos

Vítor Bento tem obra publicada na sua especialidade, conta na carreira com vários lugares de nomeação pública, é Conselheiro de Estado e aparece na comunicação social, com alguma frequência, a opinar sobre assuntos económicos.

 

Sempre o ouvi com atenção e proveito. E, discordando em matéria essencial, como é a da pertença à UE e ao Euro, nem por isso deixo de lhe reconhecer consistência no discurso, competência técnica e senso nas apreciações.

 

Mas esse é um Vítor Bento; o profissional presidente da Sociedade Interbancária de Serviços é, sendo o mesmo, outro. E este outro diz coisas extraordinárias. Mas vejamos primeiro a envolvente: temos um sector da economia que é essencial à vida económica; esse sector é constituído por empresas para cujo produto não há, nem nunca houve entre nós, falta de procura; essas empresas não podem ser deixadas falir e têm por isso a garantia de que o Estado, com o qual aliás vivem num conúbio obsceno, lhes porá a mão por baixo quando as coisas corram mal; a eliminação do risco de falência permitiu - mais, tornou inevitável - que a gestão fosse assegurada por pessoas que nem são empresários, nem empreendedores, nem têm sequer noção da sua demonstrada inépcia, capitaneando exércitos de burocratas aos quais, para serem gestores de topo, apenas faltam o conhecimento das pessoas certas, as credenciais académicas (às vezes) e melhores alfaiates.

 

Esta gente emprestou anos a fio ao Estado, para este espatifar em investimentos faraónicos e apostas de retorno mais que duvidoso; a empresas públicas com pés de barro, geridas por apparatchiks partidários; a especuladores, para operações de engenharia financeira, sem adequadas garantias; e a milhões de cidadãos para lhes permitir acreditar que eram proprietários de imóveis, ao mesmo tempo que dificultava o crédito aos patrões desses cidadãos, porque na nova economia não era realmente necessário produzir a ponta de um corno.

 

Andam agora a registar imparidades, o nome que académicos pedantes inventaram para designar calotes. E acumulam prejuízos com a mesma facilidade com que dantes acumulavam lucros.

 

Reinventar o negócio? Fazer mais com menos? Fechar linhas de produtos não rentáveis? Parcerias, novos mercados, novos clientes, fidelização, compressão de custos?

 

Nada, nada, isso é para aquela escumalha do calçado, e dos texteis, da nova agricultura e dos novos negócios, ou dos velhos reinventados. O próprio Estado obriga para, por exemplo, restituir impostos, a que os cidadãos tenham conta bancária; como, na prática, se tornou impossível pagar a dinheiro, porque os bancos isso dificultam e o Estado desaconselha, este permite que as modestas contas de cidadãos indefesos sejam assaltadas por quanta taxa a gestão bancária inventa para pilhar recursos; e o supervisor autoriza serenamente que, para numerosas operações e circunstâncias, se pratiquem taxas que, se utilizadas por particulares, seriam crime de usura ou agiotagem.

 

Isto é assim. E o preço a pagar para acabar com isto seria demasiado alto, porque implicava deixar os comunistas chegarem ao Poder, onde estes criariam condições para acabar com os abusos de uns pelo expediente de os reduzir à penúria de imediato, e aos abusados logo a seguir.

 

Entretanto, Vítor Bento vai à Assembleia da República e deveria dizer, preto no branco: a gente não está a ganhar o que acha que merece, mas não sabemos fazer melhor. Portanto, ou os senhores nos autorizam a aumentar o preço ou nós fechamos o estabelecimento, e adeus modernidade e cartõezinhos. Deveria, se é nisso que crê. E eu, se fosse deputado, responderia: não acredito em nada do que o Senhor está a dizer, e por isso pago para ver. Mas não, disse antes isto: arranjem maneira de o que ainda resta de liberdade aos cidadãos, que lhes é conferida pelos euros que tenham no bolso e nas suas continhas, seja ainda mais diminuída; e, de brinde, tomem lá mais um instrumentozinho para aumentar a receita fiscal - é mesmo disso que estamos precisados.

 

Não sei o que o Conselheiro Vítor Bento pensa do que diz o Presidente Vítor Bento; suspeito que não estarão nas melhores relações.

publicado por José Meireles Graça às 02:02
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