Sábado, 5 de Abril de 2014

Cantemos!, diz o senhor

A idade é um posto, e logo quanto maior a idade maior o ranking e maior o respeito. Costuma ser assim, e por mim não está mal que assim seja.

 

Quando a idade é realmente provecta, então, é costume não responder a casos de incontinência verbal, dando um silencioso desconto - é o que hoje muitos fazem com Mário Soares, incluindo os seus embaraçados correligionários.

 

Adriano Moreira, porém, está perfeitamente lúcido, e exprime-se nos antípodas do seu antigo adversário - onde um é chão e primário o outro sofisticado e jesuítico. Tanto que a mim, que o ouço há anos, já me aconteceu perguntar aos meus botões: mas ele está a dizer o quê, ao certo? E o que é que defende?

 

Mas não dizem, hoje, coisas muito diferentes, pelo menos na invectiva. Nesta entrevista, AM caracteriza assim o momento actual: Volvidas quatro décadas de democracia, Portugal está governado por um "neoliberalismo repressivo", focado no "ataque ao Estado social" e que justifica tudo com a "resposta simples" de que "não há dinheiro".

 

"Não há dinheiro" é realmente uma resposta simples, e pior do que isso um facto simples, mas para que passe a haver o que propõe o ilustre professor? Ora bem, sugere não "lançar os princípios pela janela". A gente a julgar que ia sugerir, como o PS, resolver o problema com a Europa rica, ou expropriar os ricos, como deseja o PCP, ou cortar nas gorduras do Estado, como reclamam muitos desencantados, mas não: em tendo princípios que se não atirem pela janela fora a situação financeira tende a aliviar. Pessoalmente, estaria interessado em conhecê-los, mas suponho que, como não os enuncia, são evidentes para quem os tenha, e ignotos para os outros - nos quais me incluo.

 

Portugal está hoje numa situação que "talvez não tenha precedente na vida europeia", e, para "animar a população portuguesa no sentido de recuperar um futuro com dignidade", é preciso dar-lhe "esperança", prossegue o ilustre catedrático, para grande perplexidade dos paisanos. A frase é, para dizer o mínimo, enigmática: a Grécia, que tem um passado ainda mais ilustre do que o nosso, está numa situação que não invejamos; e nós, no nosso passado europeu (?) tivemos, além de um parto difícil, a crise de 1383-85, a de 1580 e a de 1892, ou a I República, com a sua participação na Grande Guerra, et j'en passe.

 

Prossegue a entrevista, entrando com determinação numa salada de grelos:

 

"Por um lado, parece que temos alguma culpa no cartório - a democracia produziu "efectivamente um grande desenvolvimento" e "o modo de vida aproximou-se da Europa", porém a "espécie de engenharia imaginosa financeira" que se lhe seguiu resultou numa "evolução muito má (…) até chegar a esta crise global". Quando se esperava a denúncia dos autores destas maldades, o Professor admite que Portugal "sempre dependeu de apoio externo", e que essa dependência instalou "vícios" no país. Caído o Muro de Berlim e com ele a divisão entre o modelo ocidental e o comunista, restou o "neorriquismo e a tónica passou a ser gastar mais do que as disponibilidades", resumiu.

 

Ou seja, a Europa, desaparecido o inimigo comunista, começou a gastar à tripa forra: Gorbatchov, com aquelas frescuras da glasnost e da perestroika, acabou por criar aqui, no extremo oposto do continente, um grande problema; e, embora todos tenham gasto o que não tinham, uns países estão em crise e outros não. É subtil, a análise.

 

Finalmente - e, com Adriano Moreira, é raro - entra-se no domínio das soluções. Transcrevo integralmente esta parte da notícia, que é luminosa:

 

'É muito difícil dizer quem é o mais responsável. Eu acho que somos todos responsáveis', frisou, insistindo na importância de definir 'um conceito estratégico nacional', o que implica um 'consenso' alargado e que todas as diferenças se subordinem 'a um conjunto de objetivos e valores que unem a comunidade', em vez de contribuir para 'os desafectos, por exemplo, pondo os velhos contra os novos, pondo os reformados contra os activos'.

Para o académico, esse conceito deve privilegiar a relação de Portugal com o mar e defender 'uma situação de igualdade na comunidade das nações' e de 'dignidade nas relações entre os países'.

A aposta na educação e nas instituições é outra das propostas de Adriano Moreira. 'A investigação e o ensino são matéria de soberania, não são matéria de mercado', sustenta".

 

Trocando por miúdos: Quem defendeu o tratado de Maastricht, ou o de Lisboa, e quem não defendeu; quem gastou como se não houvesse amanhã, e quem denunciou o facto; quem tentou travar as "apostas" e quem as promoveu - são todos igualmente culpados; comunistas, socialistas e estes "neoliberais repressivos", quem assinou e quem não assinou o MoU, os pobres e os novos pobres, vão todos dar as mãos, levantando os olhos ao Altíssimo e cantando O Freunde, nicht diese Töne!, num arranjo de Fernando Tordo; os velhos guardam as suas reformas, os novos tê-las-ão em devido tempo, os emigrantes regressam, os cortes anulam-se, e vamos todos para o mar - de canoa.

 

Tenho amigos que acham este homem um génio.

publicado por José Meireles Graça às 13:48
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1 comentário:
De Tiro ao Alvo a 6 de Abril de 2014 às 18:28
Caro Meireles Graça, acompanho-o inteiramente quanto ao respeito que muitos têm para com o Dr. Mário Soares, quando sugere que apenas decorrerá da provecta idade do senhor.
Quanto ao professor Adriano Moreira, também tenho andado a dar voltas à cabeça para ver se entendo algumas das posições que agora toma, que não aquela do "conceito estratégico nacional", que ele nem ninguém define concretamente qual seria.
Depois de muito matutar, arranjei esta desculpa: o professor anda incomodado com as posições extremistas que a sua filha toma amiúde, e como bom pai que é, não a quer contrariar na praça pública. Poderei estar enganado, mas não sou capaz de congeminar outras razões, muito menos as decorrentes da velhice, que nele se nota pouco.
Claro que isto é apenas a minha opinião.

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